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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A GENALIDADE DOS GÊNIOS: INFLAÇÃO E CÂMBIO

A reação do câmbio mostra que as medidas que o governo possa adotar na área cambial não “resolvem” a apreciação do real. Emparedado pela nossa evidente incapacidade de formar poupança interna suficiente e tentado pela vasta e historicamente rara oferta de abundantes capitais internacionais o governo parece ir arquivando o discurso nacionalista de proteção da indústria nacional. Parece que a decisão é ir diretamente o ponto e discutir com os chineses o problema da “invasão oriental” em solo pátrio. As autoridades chinesas por sua vez vão dando sinal de compreender os insistentes recados da comunidade internacional. O que se entende, pois a gritaria é geral. O Brasil por sua vez é não é apenas consumidor de produtos chineses. É fornecedor da commodities estratégicas e talvez tenha posição de força para criar fatos que podem obrigar a China a ter um certo cuidado com as consequências de sua invasão.

Talvez, também fosse a hora do governo Dilma falar sério e apresentar propostas estruturantes na área de formação de poupança e institucionalização do financiamento de longo prazo à partir do jogo privado, por exemplo. O argumento do uso do BNDES para tudo que se trata de financiamento está vencido e é evidentemente inflacionário, sem contar o prejuízo no bolso do contribuinte em termos de custo tributário. Deve ser muito legal para o nacional-desenvolvimentismo ficar festejando o papel pró-ativo do Estado no crescimento brasileiro, mas está na hora de crescer e perceber que a feste tem um custo que vai na direção inversa da proposta final que seria o bem estar do povo brasileiro. Infelizmente a ideologia costuma deformar com muita eficiência a visão das pessoas, como diria o Althusser.

É por ai, mas não apenas, que estas coisas se ligam: Carência de recursos de investimento para um uma país que deles necessita desesperadamente para aproveitar uma dada janela de oportunidade. Na ponta do câmbio tem a apreciação e na ponta da inflação o gasto como instrumento de crescimento. Somando aqui a teoria do piso mínimo poderemos ter uma mistura explosiva. Mesmo que o governo esteja meio que deixando as coisas andarem no câmbio, talvez parte do governo não quisesse mesmo. A chamada de ontem tinham tons de anúncio sensacional, a leitura política de um piso poderá trazer novos problemas. O IPCA continua firme na sua trajetória de ruptura da banda superior e logo vai transformar em poeira o argumento da flutuação admissível dentro da banda. Para baixo e para cima segunda as esperanças de Mantega. Além do horizonte, em 2012 as coisas também não andam nada bem.

Como ressaltou Dilma, não existe inflação gerada pela pressão da demanda devido ao excesso de recursos disponibilizados. Como disse Mantega este papo de teto de produção é furado. A depender do governo a culpa da inflação está em outro lugar, fora do Brasil, por exemplo. Portanto que culpa eles têm se a natureza e o mundo conspiram contra o país?
Com tal quantidade de gênios espertos na economia estamos bem arranjados.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 9 de março de 2011

DEPOIS DO CORTE E DO CONTRA-CORTE CÂMBIO VOLTA A INCOMODAR O GOVERNO

Dólar abaixo de R$ 1,65 desafia BC

Fonte: Valor Econômino

Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | De São Paulo

09/03/2011

Depois de um período de trégua, o clima de guerra cambial pode voltar ao ar. A queda da moeda americana na sexta-feira para o menor nível desde agosto de 2008, rompendo o suporte de R$ 1,65, tem tudo para mobilizar o governo que, por semanas, deixou de ameaçar o mercado com novas medidas. A taxa de câmbio não desvalorizou como o governo esperava, mas também não derreteu apesar do fluxo de capital, que engordou as reservas internacionais para US$ 310 bilhões. E volta à pauta depois de o mercado ter mergulhado em discussões sobre política monetária, gerenciamento de expectativas inflacionárias e a consistência do ajuste fiscal. Mas, na opinião de especialistas, o governo poderia encarregar o cenário externo de ajustar o mercado cambial.

A perspectiva de alta dos juros no Hemisfério Norte deverá, em algum momento, corrigir o excesso de fluxo de capital que tem enfraquecido o dólar mundialmente para economias emergentes e para o Brasil. Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, esse cenário deve elevar a taxa de câmbio para R$ 2,00 no fim de 2012. Inês Filipa, economista-chefe da Icap Brasil, compartilha dessa opinião, mas projeta real mais forte ao final do ano que vem: R$ 1,73.

O dólar vinha travado no patamar de R$ 1,66 desde o final de dezembro mesmo com fluxo muito forte de recursos externos. Mas na sexta-feira caiu a R$ 1,645, apesar das sucessivas intervenções do Banco Central, e disparou sinal vermelho no mercado, que vem contabilizando pesadas compras de dólar pela autoridade monetária no mercado à vista, além das intervenções com swaps reversos e operações a termo. A ação vigorosa do BC, basicamente mantendo um piso de preço para negociação da moeda, também incentivou analistas a considerarem que a taxa de câmbio está em linha com o cenário atual, de inflação corrente forte, expectativas de inflação aceleradas e perspectiva de aumento da taxa de juros no mundo desenvolvido. "O entorno externo torna o câmbio mais preocupante e justifica que o governo tolere uma taxa um pouco mais apreciada", afirma o diretor do grupo de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos.

O Banco Central Europeu (BCE) acenou na semana passada com a possibilidade de alta do juro já para abril. Da mesma forma, o juro americano terá de ser normalizado nos próximos meses. Ainda que boa parte dos especialistas acredite que, nos EUA, a alta da taxa só virá em 2012, o mercado deverá reagir antecipadamente a esse fato. "Isso tudo significa que o Brasil pode ficar menos atrativo em termos relativos, o que pode levar a uma desvalorização do câmbio", afirma Ramos, que admite que sua projeção de R$ 1,70 para o dólar no fim de 2011 deverá ser elevada diante desse ambiente. "Há algum risco de que o câmbio possa se deslocar", afirma Ramos. Ele observa ainda que, se essa alta ocorresse no ano passado, seria algo que deixaria o governo contente. Mas, diante da alta dos índices de inflação doméstica, essa situação é preocupante.

O executivo do Goldman Sachs alerta que o Brasil precisa estar preparado para uma eventual reversão desses fortes fluxos, uma vez que é dependente de capital externo para financiar a conta corrente. "Diferentemente da Ásia, o Brasil tem uma situação de dependência do capital externo", completa.

Para Tony Volpon, estrategista da Nomura Securities, ainda que o BC não tenha abandonado a decisão de enxugar o excesso de fluxo, ele parece ter desistido do esforço de levar à casa de R$ 1,70. Essa mudança se deve, em sua opinião, à percepção de que o BC está "aceitando a imposição dos fatos". "A única coisa que afeta o câmbio são os termos de troca, que hoje continuam contribuindo para a valorização do real", explica Volpon, referindo-se à alta das commodities. Para ele, entretanto, a ação dos bancos centrais mundiais deve levar à reversão desse processo de valorização dos preços e, portanto, pode contribuir para interromper a queda do dólar aqui.

"Além disso, em um momento em que o investidor tem a perspectiva de crescimento maior de sua economia, a tendência é que seu dinheiro volte para lá. É bom lembrar que investir em mercado emergente não é um processo natural", afirma Volpon.

O esforço que o governo tem feito para conter a apreciação do real não é pequeno e foi capaz de ao menos limitar a volatilidade da moeda. "O que acaba atraindo ainda mais capital", lembra Volpon.

As aquisições de dólar pelo BC neste início de ano estão nas máximas históricas, sendo superadas apenas por calendário inédito pautado pela capitalização da Petrobras em setembro passado. Dados parciais do mercado cambial no primeiro bimestre deste ano, até 25 de fevereiro, apontam compra média diária pelo BC de US$ 380 milhões - nível de atuação semelhante à marca superada pela média diária de US$ 512 bilhões de setembro de 2010. O IOF alentado já levou à retração do fluxo de capital estrangeiro para a renda fixa local em novembro, dezembro e janeiro, mostram dados mais recentes divulgados pelo BC.

"Se havia alguma dúvida sobre o IOF como instrumento de restrição aos fluxos de capital, ela deixou de existir", comenta Darwin Dib, economista do Itaú Unibanco e especialista em operações cambiais. Ele lembra que o fluxo líquido de investimento estrangeiro para a renda fixa local oscilava em torno de US$ 1,9 bilhão nos meses precedentes a outubro passado. E, após as duas elevações do IOF, o fluxo reverteu para zero em novembro, passou a US$ 200 milhões negativos em dezembro e a US$ 500 milhões também negativos em janeiro deste ano.

O economista do Itaú Unibanco pondera que o câmbio havia saído dos holofotes nas últimas semanas porque a taxa estava extremamente estável em termos nominais, reforçando a ideia de que o BC está, sim, bem disposto a evitar a apreciação da moeda. Fernando Rocha, economista-chefe da JGP, concorda com Dib. Mas considera possível uma mudança de tendência de apreciação em 2012. "Em algum momento os juros subirão lá fora e quando isso ocorrer haverá mudança no fluxo de capitais, afetando o Brasil", avalia.

Felipe Tâmega, economista-chefe do Modal, viu na estabilidade relativa da taxa de câmbio um sinal de que ela estaria próxima dos fundamentos citados pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, quando foi sabatinado no Senado. "Quando questionado sobre o dólar, Tombini foi direto. Disse que o câmbio continuará flutuando e seguindo os fundamentos. Para nós, isso significa que o BC deve utilizar um modelo de avaliação para captar o valor justo da taxa de câmbio", afirma. Ele diz que um dos modelos de médio e longo prazo do Modal aponta para taxa entre R$ 1,68 e R$1,69. "Portanto, não muito distante do que estamos hoje", explica.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera que o governo parece ter percebido que não dá para fazer mágica quanto à tendência de apreciação da moeda. "Essa questão só se resolve por algum desbalanceamento estrutural na conta de capital e/ou na conta corrente. A conta de capital pode ficar mais complicada este ano em função da mudança de política monetária nos Estados Unidos e/ou o petróleo no Oriente Médio. A conta corrente vira um problema quando o déficit em conta corrente começar a ficar muito elevado, o que ainda vai levar um tempo. Assim, como está fora da alçada do governo, ele deveria tentar mudar a parte estrutural dos custos das empresas: custo trabalhista, tributário e de infraestrutura menor. Mas não há nada efetivo e de qualidade nesse sentido. Portanto, a indústria vai ter que continuar apanhando do câmbio ainda"

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

INFLAÇÃO E EXCESSO DE LIQUIDEZ

Já é da teoria econômica consagrada que a liquidez além de um certo ponto acaba gerando alta de preços.

O fenômeno pode ser percebido mundialmente através da bolha especulativa nas commodities agrícolas. Especificamente aqui nos, brasileiros, somos beneficiários.

Localmente o aumento mundial e especulativo dos preços das commodities acaba chegando às economias. Se não chegar pela moeda diretamente, chega pela carência de produtos para o mercado interno. No primeiro caso nosso câmbio real-apreciado acaba funcionando como barreira para a alta de preços no mercado mundial. No segundo caso a carne bovina é um bom exemplo. A demanda mundial por proteína animal é crescente e bastante lucrativa para o exportador. Nossa carne bovina está bem cotada. A exportação de carne bovina joga os preços internos para o alto e sua alta vai servindo de referência para a alta nas outras carnes: frango, porco e peixe.

O fato é que, para escapar da crise, todos os governos adotaram a mesma política de injeção de liquidez via gasto público. Não é apenas o governo brasileiro que foi além do que parecia conveniente. Não vale à pena ficar agora rediscutindo, mas era evidente que a injeção de liquidez não seria “solução final” e que a crise permanece, evidenciada pela não recuperação sustentada da economia mundial. Semana sim analistas falam em recuperação sustentada em andamento. Semana não falam que não há recuperação sustentada, mas pontual.
Voltando ao começo, a injeção de liquidez produziu inflação. Agora mesmo o Banco Central chinês fala num corte de 10% nos investimentos e o brasileiro começa a se preparar para uma corrida, curta ou longa?, de aumentos na Selic.

Fortemente pressionado pela indústria para adotar com mais firmeza medidas protecionistas na área cambial, o governo fica emparedado por sua própria “herança maldita”.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

NÓS E A ÍNDIA

O texto abaixo foi publicado recentemente no Blog Beyondbrics, do FT, sob o título Can Índia outpace China.

Foi escrito por um graduado funcionário do Morgam Staney, mas ainda assim pode ser visto como um texto interessado com relação à Índia. O que não implica que certas lógicas sejam necessariamente falsas.
Especialmente aquelas que falam sobre o bônus demográfico, que entre nós acabará sendo relegado ao segundo plano até virar ônus demográfico e a qualificação da mão-de-obra, que entre nós ainda é assunto privativo das picaretagens do sindicalismo caboclo encastelado no FAT.
Outro ponto assinalado e ente nós ignorado, é a virada que está sendo gestada, tanto na China como na Índia, com uma forte transformação do eixo de produção indústria daquilo que ele chama de produtos de baixo valor agregado para produtos de alto valor agregado. O que envolve investimentos orientados para a Nova Economia, também ignorada entre nós.

Enfim, estamos todos ocupadíssimos em discutir como tirar a CNI da sinuca de bico da inexistência de poupança interna x sobra de poupança externa x apreciação cambial x perda de capacidade competitiva. O novo governo composto pelas velhas pessoas de sempre vem tentando as manobras de sempre com os insucessos de sempre e gerando os prejuízos de sempre que serão pagos pelas pessoas de sempre: Nós.

Nossa magnífica e avançada indústria, sem as benemesses de sua extrema vantagem competitiva baseada no falecido real barato fica entontecida e desorientada, deixando o governo entontecido e desorientado, embora eu, pessoalmente, ache que o Mantega não precisa dessa ajuda para estar assim.
Nenhuma conversa sobre o Custo-Brasil ou reformas em profundidade ou estímulos à formação de poupança interna ou investimentos em novas tecnologias, para sair da armadilha de forma sustentável.

No câmbio está a nossa salvação enquanto nação...
Aleluia irmão...

Demetrio Carneiro


A Índia pode superar a China?

por Chetan Ahya do Morgan Stanley

A Índia está se aproximando da China. Durante os próximos dois anos, se formos poupados de outra crise financeira global, a Índia deve começar se aproximando do crescimento econômico da China de cerca de 9 por cento. Em seguida, e, 2013-15, pensamos que Índia começará a ultrapassar o notável crescimento do PIB da China.

Esperamos um crescimento chinês marginalmente reduzido a uma taxa mais sustentável de 8 por cento até 2013-15, após a notável média de 10 por cento nos últimos 30 anos. Enquanto isso o crescimento da Índia vai acelerar a um sustentável 9-10 por cento, após uma média de 7. 3 por cento nos últimos 10 anos. De mais a mais, esperamos que a Renda Per Capita* da Índia se igualará a da China em 2009, nível de US $3750, nos próximos 10-11 anos. Mas o que exatamente vai conduzir às taxas superiores crescimento da Índia?

São três coisas que chamamos de fator DRG: Demografia, reformas e globalização.

Primeiro e mais importante é a melhoria de dados demográficos, como a relação entre a população dependente e o declínio de população em idade ativa na Índia, aumento da produtividade global humana do país. De acordo com os dados da ONU, até 2020 a Índia irá contribuir um adicional de 136 milhões de pessoas para total de mão-de-obra global contra apenas 23 milhões da China.

Em segundo lugar, a constante implementação de reformas estruturais está orientada para criar mais postos de trabalho da Índia para um número crescente de pessoas jovens instruídas e qualificadas, que estão alfabetizados e com fome de desenvolvimento. Suas demandas estão forçando os políticos a iniciar as reformas necessárias para gerar emprego.

O terceiro fator permitindo um rápido crescimento indiano é a globalização, que se reflete em um constante aumento do valor de suas exportações relativamente ao PIB e no volume das entradas de capital relativamente ao PIB. Ambos apontam para uma aceleração na produtividade.

Esses três fatores combinados empurrarão poupança, investimentos para um rápido crescimento do PIB da Índia.

Na China, enquanto isso, esperamos uma moderação no crescimento do seu atual e elevado nível, com o Governo iniciando uma mudança estrutural no seu modelo econômico. Ele quer reduzir a dependência da chinesa da demanda externa, aumentar o nível de consumo relativamente ao PIB e restringir o superávit em conta corrente.

Esse reequilíbrio pode ser alcançado principalmente pela elevação dos salários como uma porcentagem do PIB e aumentando os preços dos recursos econômicos, como matéria-prima para reduzir custos ambientais.

Um corolário desta tendência, acreditamos, será uma transição do modelo de exportação de país de fabricação de baixo valor agregado para a fabricação de maior valor agregado.

Para a comunidade global, pensamos que a história não é realmente sobre China ou a Índia. Mas China e Índia. Porém depois de uma década quando expansão da China tem cativado a atenção do mundo, a Índia vai agora para pegar a batuta e estabelecer o ritmo para mercados emergentes.

Chetan Ahya é diretor administrativo e economista para o Pacífico Asiático Ásia do Morgan Stanley

sábado, 9 de outubro de 2010

EDUCAÇÃO: O FUTURO TEM QUE SER AGORA!

O texto abaixo é de Roberto Freire, presidente do PPS e deputado federal eleito por São Paulo.

Nele, basicamente, Freire referencia a educação como um dos grandes temas do debate sobre o desenvolvimento nacional e propõe uma "Década para a educação" onde o tema seja realmente a grande preocupação nacional.
Não é necessário ficar insistindo na importância, mas é bom lembrar que a qualidade na educação básica foi o tema do atual Plano Plurianual e que o governo decidiu repriorizar o plano, dando destaque ao "carro-chefe" eleitoral que comprovaria a "eficiência" da gerentona, Dilma. A manobra eleitoreira não ajudou tanto Dilma, mas certamente tirou o ensino de qualidade do foco governamental. Se não houvesse qualquer outra comprovação bastaria ler a proposta para o Orçamento de 2011, ora tramitando no Congresso Nacional. Por lei ela deve conter as prioridades governamentais para 2011 e todas são obras do PAC. Educação nada.

Se o argumento não for suficiente ainda podemos falar do "bônus demográfico". O Brasil e alguns outros países passam por um processo de grande crescimento relativo das faixas intermediárias de idade. Em síntese nos próximos anos o número de jovens deverá ser crescente com relação ao total da população. Do ponto de vista do planejamento significará a necessidade primeiro de mais vagas no ensino, depois de postos de trabalho. Sabemo todos do papel excludente do ensino de baixa qualidade.

É isto.

Demetrio Carneiro

O FUTRO, AGORA!

Fonte: Brasil Econômico

O segundo turno foi uma conquista da cidadania que não se deixou envolver pela propaganda oficial e os artificiosos números dos institutos de pesquisa. Como já tínhamos observado, na semana passada a necessidade do segundo turno se impunha, entre outras coisas, para que pudéssemos saber que resposta nos dará o próximo presidente sobre questões essenciais.

Quaisquer que sejam essas propostas, uma urge por sua relevância e importância estratégica: o país está maduro para uma efetiva revolução cultural, a ser atingida mediante a transformação do atual processo educativo. Trata-se de um processo longo e difícil, já que o Brasil é um país de cultura participativa recente e, por que não dizer, incipiente.

No entanto tal transformação, mesmo lenta, é essencial para as modificações de fundo de nossa realidade política e social.

Por que defendemos este ponto específico como a chave para uma efetiva transformação de nossa realidade social?

Por estarmos convictos que é radical a transformação de nosso superado sistema educativo, o elemento estratégico que nos garantirá, no decurso de uma década, a base para criarmos uma efetiva sociedade de cidadãos e cidadãos.

Por que a difusão do conhecimento, fruto da melhoria da qualidade do ensino, do básico ao médio, com uma oferta ampla de escolas técnicas e tecnológicas para nossa juventude, em um primeiro momento, tornando a educação uma política de Estado - e não meramente de governo, como hoje - imantará todas as políticas sociais dirigidas para o resgate da cidadania, e não para a formação de clientelas.

Não é o cidadão que deve estar a serviço do Estado, mas o Estado que deve servir ao cidadão. Dessa forma, o Estado e a máquina serão tão úteis e eficazes quanto mais atuante e organizada a cidadania que os sustentam.

No que diz respeito às políticas públicas, nossa contribuição ao programa de um futuro governo Serra tem na educação a pedra de toque das futuras transformações que almejamos para nossa sociedade. Por isso defendemos que façamos de 2011 a 2021 a década da educação.

Isso no exato momento em que nosso maior desafio, enquanto nação, é o de acompanhar as transformações globais que estão ocorrendo agora na superação da sociedade industrial pela sociedade do conhecimento.

Uma política de inclusão e de combate às nossas históricas desigualdades sociais, se não tiver a educação como centro da ação coordenada do Estado, não logrará êxito.

Estamos sendo desafiados a responder a essas questões e garantir a ampliação e aprofundamento do processo democrático, com a efetiva constituição de uma sociedade onde vigoram os direitos e deveres da cidadania. O futuro é agora.

domingo, 1 de agosto de 2010

A EXPOSIÇÃO DAS INTIMIDADES DO PODER

Há o debate sobre a continuidade do governo Lula. Se continua melhorado parece que é a vontade de todos os candidatos. Então o debate deveria ser mais sobre o que é que vai continuar.

Já não é mais segredo, nem novidade, que o projeto de Lula é a construção de um regime de Capitalismo de Estado.
Se não faltassem comprovações bastaria a leitura da participação dos recursos do Tesouro Nacional que passaram de 6% em 2001 para 40% em 2009. Em termos mais imediatos já foram injetados 80 bilhões e há autorização para mais 80. O detalhe é que é recurso público captado no mercado ao preço dos juros aturais, mas repassado ao tomador subsidiados. Enfim, cria-se Dívida Pública para subsidiar um projeto de crescimento de segmentos escolhidos a dedo pela burocracia estatal. São esse recursos que irão, por exemplo, subsidiar a compra de carvão boliviano para tocar as “modernas” usinas termoelétricas de um certo amigo do Rei.

Há mais um exemplo possível na questão da “democratização” do acesso à internet. Foi montado todo um cínico discurso sobre a Telebrás e a urgência de dar ao Estado a capacidade de pulverizar no território nacional a rede. O que foi a especulação com os papéis da ex-falida empresa ainda deverá um dia ser objetio de investigação e certamente será mais um caso de polícia envolvendo os personagens de sempre. Agora aparece a outra ponta: O principal acionista dessa maravilha de esforço nacionalista será uma empresa estrangeira, a Portugal Telecom (por acaso mais conhecida como PT!). Enfim, mais de 900 empresas brasileiras, capacidatas, foram postas para escanteio para abrir espaço para a futura “gigante” estatal e suas associada estrangeira.

Para não cansar com muito exemplos podemos citar agora a maravilhosa operação de swap cambial defendida por Mantega. Aparentemente o objetivo seria melhorar o desempenho cambial e retirar a pressão sobre a apreciação do real. O único problema é que, como no caso do BNDES, a avaliação acurada acaba mostrando que há outros ganhadores e certamente não será a nação, conforme matéria do Valor Econômico baseada na avaliação de especialistas do mercado.

Essa é justamente as marca do regime de Capitalismo de Estado: Uma funda associação política entre a tecno-burocracia estatal e os grandes interesses econômicos. Por trás do discurso “social” ou até “socialista” do Estado + forte, do Estado mais competente, do Estado diretor do desenvolvimento, está a aliança que sustenta e é sustentada, vinculando os segmentos para-estatais, partido políticos, políticos, dirigentes governamentais e os segmentos do poder real na sociedade. Certamente “continuar” Lula não se trata disso e é preciso que fique muito claro.
É essa a clivagem feita por FHC em matéria publicada hoje no Estadão.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 10 de maio de 2010

CURANDEIRISMO ECONÔMICO

Bresser-Pereira assumiu o número mágico de Mantega: R$2,40.
Segundo os dois esse número será a salvação da lavoura, da pátria e da FIESP. Mantega, mais modesto, falou alguns meses atrás em um crescimento forte. Bresser garante o dobro ou nada.
Enfim, mais um atalheiro ou curandeiro. Tanto faz.
Demetrio Carneiro

Dólar valorizado poderia dobrar crescimento do Brasil, afirma Bresser-Pereira

Fonte: Valor Econômico

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira afirmou hoje (10) que uma mudança na política cambial poderia dobrar a taxa de crescimento do Brasil.
Para ele, o governo deveria trabalhar pela valorização do dólar e, com isso, estimular as exportações, os investimentos e a geração de emprego no país.
"Com o dólar valorizado, todas as empresas competentes teriam uma chance de exportar muito mais, investiriam muito mais, e o país cresceria muito mais", afirmou Bresser-Pereira. "O crescimento do país poderia ser 50% maior ou até dobrar."
O ex-ministro participou de um evento realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para discussão da política cambial brasileira.
No evento, ele apresentou algumas alternativas para que o dólar alcance o patamar considerado razoável de R$ 2,40. Nesta tarde, a moeda era negociada a R$ 1,77

segunda-feira, 22 de março de 2010

CONTROLE CAMBIAL COMO NECESSIDADE

VENDO VOLKSWAGEN TRANSPORTER de 9 lugares, 1900 cc, 144.000 Km, de Maio de 2004, 1 dono, revisões sempre feitas na marca. Inspecção válida até 2010.
Marca: Volkswagen
Modelo: Transporter
Quilometragem: 144.000 Quilómetros
Ano: 2.004
Condição: Usado
Preço 13.900 euros.

Ai está, se vc quiser comprar a moderna versão da Kombi, a Tranporter, basta ir até...Portugal.
No Brasil, no ano do 60º aniversário da Kombi, o que vc consegue é uma versão melhorada do modelito original.

De fato uma indústria que produz Kombis no lugar de Transporters precisa demais de controle cambial.
Um gestor competente se preocuparia em estimular veículos modernos com combustível alternativo, os nossos usam o BNDES para financiar o Eike Batista na compra de carvão vegetal para tocar termoelétrica.

Ai não tem saída o real tem que chegar onde o Mantega quer que ele chegue: R$2,40/1 USD. Não é câmbio. É necessidade.

Viva o desenvolvimento brasileiro!

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

OS VENDEDORES DE DIFICULDADES


Aos ilustres amigos que pretendem “interpretar” o sentimento da esquerda ou a vontade das massas e saem por ai criticando “os juros altos” ou o “câmbio que prejudica nossa indústria” deixo como sugestão o texto abaixo publicado no Valor Econômico.
Pessoalmente já esgotei meu repertório. Pode ser que escrito o argumento por outros talvez prestem atenção e se dêem conta de que num ano eleitoral precisam de argumentos mais bem elaborados.
No fundo essa fala fácil de criticar no geral sem procurar entender as origens ou tratar das verdadeiras soluções não deixa de ser um formato de vender dificuldades para oferecer facilidades ou, quem sabe, soluções mágicas, atalhos...
Talvez se prestassem atenção naquela pesquisa que relata a reação das classes de menor renda à tributação excessiva tivessem assuntos mais interessantes para tratar. Apenas uma sugestão, claro.
Demetrio Carneiro

Câmbio, poupança e os vendedores de ilusão

Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fradelli Cardoso
29/01/2010

Muitos economistas têm defendido a adoção de uma taxa real de câmbio desvalorizada como estratégia de desenvolvimento, no intuito de preservar a competitividade de vários setores industriais nacionais ameaçados pela valorização cambial. Como exemplo de sucesso a ser copiado apresentam os países asiáticos, onde o acelerado crescimento econômico vem acompanhado de uma taxa real de câmbio competitiva, sem pressão inflacionária. Teria o Brasil condições de emular a estratégia asiática, sem provocar a elevação da inflação?
A resposta à pergunta acima é categoricamente negativa, pois o modelo asiático está calcado em uma alta taxa de poupança doméstica, inexistente no Brasil. É importante compreender por que, de posse de uma poupança doméstica elevada, os bancos centrais asiáticos conseguem facilmente manter a taxa real de câmbio desvalorizada sem provocar inflação. Um banco central que decida manter a taxa real de câmbio mais desvalorizada do que o determinado pelo mercado precisará comprar dólares dos exportadores. Se as compras forem pagas com emissão monetária, cedo ou tarde surgirão pressões inflacionárias. A fim de evitar a inflação, a emissão monetária decorrente da acumulação de divisas terá que ser esterilizada mediante venda de títulos do próprio banco central - ou de títulos do governo que estejam em seu ativo. Quando a poupança doméstica é alta, esses títulos são facilmente colocados no mercado interno, mesmo a taxas de juros baixas, pois há poupadores dispostos a comprá-los. Entretanto, diante de uma poupança doméstica baixa, o banco central não consegue neutralizar a pressão monetária provocada pela acumulação de divisas, gerando inflação.
Como exemplo de comparação com o caso brasileiro, tome-se a China, país cuja poupança doméstica - pública mais privada - alcança 45% do PIB, enquanto no Brasil ela é de apenas 17%. A poupança pública chinesa é elevada por dois motivos. Primeiro porque o governo não precisa arcar com elevadas despesas previdenciárias, pois lá não existe um programa previdenciário em regime de repartição deficitário como aqui. No Brasil, diferentemente, apesar de sua população relativamente jovem, os gastos com aposentadorias e pensões - INSS e servidores públicos -, transferem a gigantesca fração de 12% do PIB às famílias, equivalente a um terço da enorme carga tributária de 36% do PIB brasileiro.
O segundo motivo é o fato de que, nos principais setores da economia chinesa, há uma empresa hegemônica estatal que, por operar como monopolista - ou quase isso - tem alta margem de lucro, que contribui para a poupança pública. Vale lembrar que, num país com mercado de capitais em estágio embrionário, é natural que as empresas estatais chinesas dependam de lucros retidos para financiar seus investimentos. Ademais, num regime politicamente fechado como o chinês, o governo desconsidera pressões populares por redução de margens de suas estatais. O mesmo fenômeno se observava na década de 1970 no Brasil. No Brasil democrático atual, as estatais são frequentemente chamadas a dar sua contribuição para a redução das pressões inflacionárias, reduzindo a poupança pública.
Quanto à poupança privada chinesa, ela é alta porque a inexistência de um sistema previdenciário público estimula a poupança pessoal. Diante da perspectiva de insuficiência de renda na velhice, o chinês humilde que migrou do interior para trabalhar nas grandes cidades opta voluntariamente por poupar metade de sua renda do trabalho. Como consequência, o consumo pessoal chinês é de apenas 35% do PIB, cerca de metade da fração observada no Brasil.
Os chineses poupam muito e os brasileiros muito pouco. Isso não ocorre porque os brasileiros são intrinsecamente diferentes dos chineses, mas porque reagem a incentivos econômicos muito distintos. Um trabalhador brasileiro de baixa renda, caso atue no setor formal, não tem estímulo a poupar, pois receberá aposentadoria integral do INSS. Se estiver no setor informal, terá direito ao LOAS, um benefício mensal de um salário mínimo - equivale a mais de um terço da renda per capita nacional -, mesmo que nunca tenha contribuído para o INSS. No caso do trabalhador de classe média, se for servidor público, não terá incentivo a poupar, pois receberá aposentadoria integral. Somente os trabalhadores da classe média alta do setor privado têm incentivos a poupar, pois receberão do INSS uma renda mensal inferior ao salário pré-aposentadoria.
Os dólares comprados pelo banco central chinês são aplicados no exterior, sobretudo em títulos da dívida pública norte-americana, o que explica as gigantescas reservas internacionais chinesas. Do ponto de vista macroeconômico, o banco central chinês atua como um intermediário financeiro entre o poupador chinês e o tesouro norte-americano. Isso significa que, no futuro, quem pagará a aposentadoria do trabalhador chinês que hoje poupa metade de sua renda será o contribuinte norte-americano das próximas décadas.
O Brasil só poderia cogitar uma estratégia de crescimento do tipo asiática se adotasse medidas destinadas a aumentar significativamente a poupança doméstica. Mas isso exigiria um novo pacto intergeracional completamente distinto daquele fixado pela Constituição de 1988. As gigantescas pressões pelos aumentos de gastos sociais observados nas duas últimas décadas, a resistência à reforma de nosso sistema previdenciário concentrador de renda, o tabu em relação à cobrança de mensalidade no ensino superior público, para citar apenas alguns exemplos de compromissos constitucionais do Tesouro, refletem a opção da sociedade brasileira por um modelo de desenvolvimento distinto do asiático.
O espetacular crescimento dos tigres asiáticos baseou-se na conjugação de enorme taxa de poupança doméstica, elevado investimento em educação e em infraestrutura, e economia aberta ao comércio internacional. Ao benefício do crescimento acelerado e baixa inflação correspondeu o sacrifício do adiamento do consumo, o esforço educacional e a resistência aos lobbies protecionistas.
Os entusiastas do modelo de crescimento econômico asiático deveriam apresentar também seus custos. Não podem vender ilusões à sociedade brasileira. Além da valorização cambial, há outras dificuldades enfrentadas diariamente pelos empresários brasileiros, como a voracidade tributária do Estado, o cipoal de regulações impostas por diversos órgãos das três esferas de governo, os achaques de fiscais que vendem facilidades criadas por aquelas regulações, a má qualidade da mão de obra, a lentidão da Justiça, o elevado spread bancário, para citar apenas algumas.
Por que eleger a taxa de câmbio a solução miraculosa de toda essa gama de distorções resumida na expressão Custo Brasil? Em vez de apresentarem o câmbio real desvalorizado como o ovo de Colombo do crescimento, a fórmula mágica e indolor que geraria crescimento sem sacrifícios, eles deveriam defender as eternamente adiadas reformas estruturais destinadas a aumentar a poupança pública e privada no Brasil.