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domingo, 8 de abril de 2012

GOVERNO BRINCANDO DE DEUS DO MERCADO

Lula, com o mesmo Mantega, tentou uma brincadeira parecida: Demagogicamente baixou os juros dos bancos sob controle do governo. Além de ter que demitir o presidente do Banco do Brasil, para obrigar ilegalmente a instituição a cumprir seus desejos majestáticos, tudo o que conseguiu foram uns meses de juros baixos e notícias na mídia. Pouco mais tarde a própria mídia divulgava que os juros estavam novamente alinhados no alto e veio o silêncio.

Nada indica que será diferente desta vez: Novamente Mantega, o gênio; Novamente demagogia; Novamente ilegalidade, o uso de bancos comerciais como instrumento de política pública.

O governo faz de conta que é o Deus do Mercado para sair bem na mídia. Se fosse algo de sério começariam viabilizando o aumento da concorrência entre bancos, permitindo a ruptura do oligopólio bancário, mas um movimento verdadeiro talvez assustasse esses aliados fiéis de nossa variedade de capitalismo. Outro movimento verdadeiro poderia ser a recuperação do Banco Popular, como forma de democratizar o crédito. Mas isso contradiz a lógica da manipulação dos recursos para geração de caixa dois e arranjos políticos com os aliados.

Enfim, o de sempre...100% demagogia financeira e me engana que eu gosto.


O teste da facada dos bancos



Demetrio Carneiro


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O QUE DIRÁ O AMANHÃ

A crônica da Cantanhêde, abaixo, é emblemática. Faltou acrescentar que um dos personagens por trás do estímulo a greve de 2001 era justamente o atual governador, agora vítima de seu próprio veneno. 

Quanto à hipocrisia evidente tanto na questão da greve quanto na questão das privatizações ela é natural de qualquer governo. Todo governo sempre debita ao "outro" as coisas erradas ou supostamente erradas. Caberia ao eleitor definir até onde é capaz de carregar as falsas acusações etc. No fim do dia é o de sempre: Cidadania envolve uma visão crítica de qualquer governo. Sem esta visão crítica os governos navegam como tão bem sabem navegar. 

O governo de Dilma, sem todo o carisma de Lula, vem se mostrando um desastre que nem mesmo os apoiadores do petismo conseguem mais disfarçar. Quando se trata de conversas privadas. Isso apenas demonstra que Dilma foi posta lá apenas para viabilizar um interregno, já que o terceiro mandato não era viável. Agora que Lula 2014 não parece mais uma possibilidade real as variáveis mudaram e a equação é bem outra e as peças do xadrez eleitoral vão assumindo outras posições. O petismo, com base em sua cultura esquerdista ainda do socialismo real, criou uma mecânica de endeusamento da figura de Lula como o guia genial das massas. Agora é ver como tudo isso irá se sustentar no futuro.

Demetrio Carneiro


Quem te viu, quem te vê :: Eliane Cantanhêde

Na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) partiu para o confronto com policiais em greve, chamou o Exército e bateu o pé mesmo diante dos cadáveres que se amontoam por falta de segurança.

Em Brasília, o governo federal comemora alegremente o sucesso dos leilões de privatização dos aeroportos da própria capital, de Guarulhos e de Campinas, com resultado de R$ 24,5 bilhões, bem acima das expectativas.

Indaga-se: por que o PT condenou tão acidamente a repressão do governo do PFL-DEM a um movimento semelhante na Bahia em 2001? E por que não só criticou ferrenhamente as privatizações do governo FHC como as usou contra os adversários nas campanhas de 2002, 2006 e 2010?

Ou as greves dos policiais na era DEM eram legítimas e na era PT passaram a ser ilegítimas, ou o PT tem um discurso na oposição e uma prática na situação. Ou... o PT mudou.

Ou as privatizações eram ruins e agora são boas para o país, ou o PT de Lula e agora de Dilma aderiu ao vale-tudo eleitoral e mentiu, ironizou e foi sarcástico contra uma política que não apenas aprovava como agora aplica, feliz da vida.

Durante três campanhas seguidas, o partido recorreu ao mesmo discurso, atribuindo aos adversários tucanos a intenção até de privatizar o BB, a CEF, a Petrobras e a mãe de todos os eleitores. Era o PT antiprivatização versus o PSDB privatizante, o PT patriótico versus o PSDB impatriótico.

E agora, qual o discurso? Dilma e Lula deveriam pedir desculpas: ou mentiram aos eleitores ou estavam errados e agora reconhecem que greve de policiais era e é inadmissível e que a política de privatizações do governo adversário era e é correta. Suspeita-se que não vão fazer nem uma coisa nem outra. Vão deixar pra lá, como se nada tivesse acontecido.

Moral da história: greve no governo dos outros é bom, mas no nosso não pode; privatização no governo dos outros é impatriótica, mas no nosso é um sucesso do patriotismo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

MAIS UM ÍNDICE SINALIZA ALTA

       Agora é o IGP-DI com alta de 0,61% em agosto, quando havia registrado deflação em julho de 0,05%. O índice já acumula 7,81%.

      Historicamente falando as escolhas entre crescimento e inflação não resultam necessariamente em crescimento sustentável. O processo inflacionário a partir de certos limites nem sempre é um dado positivo e pode, muito rapidamente ser um dos componentes, junto com a falência dos instrumentos institucionais de controle da economia, para nos levar à famosa estaginflação ou estagflação. Isso é o que está na literatura.

      Escolhas pela inflação são escolhas típicas do chamado ciclo partidário. Isto é são escolhas interessadas na sobrevivência política. Algumas podem dar certo. Outras não. Por isso normalmente se associa nas análises inflação, crescimento e emprego, gerando o que se chama de Índice de Miséria. Talvez esteja na hora de usar esse instrumento.

      Como o governo deverá guardar a sete chaves o “ponto de retorno” da política de tolerância à inflação, quer dizer o ponto a partir do qual a inflação tolerada acima da meta não oferece uma escolha boa e sim um risco, resta cruzar os dedos...

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

DILMA E O DIÁLOGO COM O PRECIPÍCIO

      Dizem que o precipício atrai as pessoas para o salto final. Dilma deveria se cuidar.

      Agora que a heterodoxia se consagrou, para a alegria de nossos queridos nacional-desenvolvimentistas, num arco que vai do Serra até o Congresso do PT, passando pela academia, claro sempre tem acadêmico procurando a luz dos holofotes, uma pergunta: O quanto ortodoxos serão nossos heterodoxos?

      Calma, eu explico:

      Vejamos assim a heterodoxia decidiu que entre inflação e crescimento o crescimento é mais importante. Por conta dessa leitura o BC, não importa tanto o que está na Ata, mas o que ocorre no mundo real resolveu também ser heterodoxo e reduziu a taxa Selic. Os sinais são inequívocos e o mercado já faz suas apostas na alta da inflação.

      Certo, qual o limite da flexibilização da taxa de juros para que o piso de 4% se mantenha? Tem sentido, pois nenhuma previsão coloca o PIB de 2011 com 4%. Até mesmo Mantega já deu uma insinuada com o seu “ao redor”. Se o a companheirada da PolíTica econômica for ortodoxa o limite da flexibilização é o momento que Dilma começar a perder pontinhos nas pesquisas. Mas, quando e se esse momento chegar será que dará para reverter? Esse é o flerte com o abismo.

     Se a companheirada da PolíTica econômica for heterodoxa talvez sejam eles sim flexíveis e voltem atrás, deixando o BC fazer o seu trabalho e retirem as política econômicas da área de manipulação ou, pelo menos, queiram manipular menos pela via dessas políticas.
A questão é saber se esse caminho iniciado semana passada tem volta.

    Então, nossos heterodoxos serão ortodoxos ou heterodoxos?

Demetrio Carneiro

domingo, 14 de agosto de 2011

CORRUPÇÃO E PATRIMINIALISMO


      Na edição de 27 de julho de 2011 da Revista Veja há uma matéria bem interessante: Pobres Homens Ricos. Sinteticamente ela relata numa reportagem o envolvimento de diversos políticos com empresas “laranja” – Jader Barbalho, Joaquim Roriz, Renan Calheiros, Gim Argelo e Romero Jucá, aquele do irmão “perdoado - com finalidades evidentes de fraude. Na mesma matéria cita uma auditoria do TCU em 142 mil contratos de compra do governo Lula, envolvendo gastos superiores da R$ 100 bi. A auditoria constatou 80 mil indícios de irregularidades – disputas simuladas, empresas de fachada, alterações absurdas do valor inicial, participação de empresas inidôneas, participação de funcionários públicos e/ou familiares diretos, fracionamento de empresas em pequenas empresas e, finalmente, empresas com participação direta de parlamentares.

      De início cabe ressaltar a diferença, grande, entre corrupção e patrimonialismo (anotando que o mais correto seria neopatrimonialismo, mas vamos, por enquanto seguir a onda de leitura). Corrupção é algo endêmico, mas que pode ser visto como pontual. Patrimonialismo, diferentemente, é sistêmico e, organizado numa rede de patronagem, é parte do sistema de poder atual. A Coalizão Dominante atual repousa sobre uma extensa rede vertical, federação, e horizontal, república, linkada à rede de patronagem com diferentes graus de profundidade.

      A questão que parece mais relevante está em definir como “patrimonialismo” se relaciona com “democracia” e “desigualdade”. De forma que me parece muito evidente o patrimonialismo é forte elemento de desvio da democracia. Aqui vamos assumir que é mais democrático o Governo capaz de transformar tributos apropriados na sociedade em políticas públicas que produzam bens públicos – bens de caráter não-excludente. Quando os tributos apropriados são transformados em benefícios privados dentro da rede de patronagem há um evidente desvio de finalidade, pois bens privados são excludentes por natureza. Governos que, de alguma forma, admitam o patrimonialismo como orgânico são menos democráticos. Evidentemente o patrimonialismo pode estar lá instaurado, mas toda a diferença estará no Líder e seu Grupo de Poder admitirem ou não a organicidade. A lógica é mais ou menos óbvia: O eleitor, em tese, vota na hipótese de quem tributo seja igual a bem público. Evidentemente haverá sempre o eleitor, aquele engajado na Rede de Patronagem, que votará na hipótese de que tributo é igual a bem privado, mas vamos admitir, para efeitos de atualidade, que a grande maioria estaria fora da rede e que a rede tem papel, no compto geral de votos, subsidiário. Enfim, Patrimonialismo e Democracia se relacionam de forma indireta.

       Do ponto de vista da desigualdade acredito que haja certa sutileza. Na media em que o eleitor fora da Elite percebe a possibilidade de disputar benefícios no formato de políticas públicas, e a Constituição Federal de 1988 é o melhor exemplo que ele é pode, ele o fará. A Rede de Patronagem é perfeitamente capaz de perceber esses sinais, da mesma forma que a Elite – aqui estamos dizendo que a Elite, mesmo no Brasil, necessariamente não precisa ser parte integrante da Rede de Patronagem, embora essa lhe seja extremamente útil. Há ai um balanço a ser ainda testado entre mais e menos desigualdade, mas parece que Elite e Rede de Patronagem, com razões que podem ser diferentes (Para a Elite certamente mais “mercado consumidor” e para a RP provavelmente protelação de um conflito mais forte) “cedem”, de forma limitada e controlada, algum grau de igualdade. Contudo, não é do Patrimonialismo e nem mesmo da Elite ceder tudo. Mas é muito menos do Patrimonialismo, pois ceder igualdade implica necessariamente em ceder , pela via do Estado, bens públicos e a Rede só permanece se for capaz de reter bens públicos enquanto bens privados. Enfim, a relação entre Patrimonialismo e Desigualdade também é indireta.

       Pessoalmente acho que ainda estamos no caminho, talvez um pouco longe demais, de um debate mais substancial sobre os arranjos de Poder e o papel que o Patrimonialismo joga neles, os arranjos. Por enquanto os debatedores se satisfazem em citações talvez genéricas demais e essa generalização talvez até ajude um discurso político que gosta de nivelar por baixo acreditando que a simplicidade dos termos chega melhor ao eleitor. Os adeptos dessa lógica apenas não percebem o que vai ficando pelo meio do caminho: A realidade. Quando Collor foi transformado em Collor o ganho, pelas mãos de Itamar Franco, foi o Plano Real e a Estabilidade. Há uma sensação de bem estar na deposição de Collor, mas depô-lo não nos trouxe o fim do Patrimonialismo. Não era ele o alvo real. Muito ao contrário o que veio depois foi o fortalecimento do Patrimonialismo via Presidencialismo de Coalizão, inaugurado com todas as pompas e honras por FHC. Do lado político a mensagem da deposição de Collor aos presidentes que vieram a seguir foi bem simples: Formem maiorias absolutas no Congresso Nacional para se garantirem. Nessa nossa jovem democracia de instituições ainda em formação e fortíssimo déficit de cidadania a lógica patrimonialista caiu como uma luva. Transformar Dilma em Collor não é necessariamente uma solução se não for para eliminar a Rede.

      O artigo abaixo, publicado originalmente no Estadão hoje, 14, trás uma reflexão sobre essas questões e aponta o que já vínhamos comentando: Dilma poderá entrar para a história de duas formas ou como a presidente que caiu devido ao seu comprometimento com a corrupção e o patrimonialismo ou a presidente que cresceu combatendo ambos. Talvez a oposição devesse refletir melhor sua atitude de colocar Dilma na parede, como responsável. É verdade que ela fez parte do núcleo duro de Lula, que concretizou os arranjos de Poder atuais. Mas também pode ser verdade, e a história tem muitos exemplos, que ela busque se autonomizar, já que sua origem, sua raiz, não está na Rede. É uma aposta. Há apostas bem piores...


O revolucionário Maximilien Robespierre dizia que seu negócio era combater o crime, não governá-lo

Carlos Guilherme Mota - O Estado de S.Paulo*

Na história, situações há em que personagens do Estado, da política ou da cultura se veem obrigados a assumir papéis que os levam a adotar medidas radicais, daquelas que mudam o curso dos acontecimentos. Analisados em perspectiva histórica, crescem ou diminuem conforme as respostas que deram aos desafios de seu tempo, desde antes dos gregos e romanos até os modernos, como Galileu, Napoleão, Roosevelt, De Gaulle, Mandela, todos aliás grandes leitores de livros de história.

Hoje, é a ex-revolucionária Dilma Rousseff que se acha sob a luz dos holofotes. Nas pesquisas da mídia e nas torcidas desorganizadas desta "sociedade civil" com lideranças precárias, vem se tornando mais difícil a posição da herdeira de um modus político neopopulista e desse ethos nacional insuportável, em que a noção de República é manipulada e banalizada por agentes desqualificados. A presidente com sua caneta vai assumindo papel inesperado de agente moralizador para repor nos trilhos a máquina desgovernada de um imenso Estado patrimonialista, familista, clientelista. Difícil a faxina, pois ainda chafurdamos na transição de uma ditadura explícita para essa ordem constitucional confusa e pseudodemocrática em que personagens, dejetos e, sobretudo, mentalidades herdadas dos vários tempos históricos, da Colônia e do Império às Repúblicas de 1889 a 1988, permitem qualificar o modelo atual de democracia de meia-confecção.

Como jamais ocorreu nestas plagas a consolidação de uma sociedade capitalista de contrato democrática, muito menos uma revolução popular, tem-se (temos?) que conviver com o tal "presidencialismo de coalizão". Ou seja, com essa invenção pervertida que jogou o País no patamar mais baixo do brejo da Conciliação, ideologia arquitetada pelas elites imperiais escravocratas do século 19 e imperante até hoje.
O resultado é o aprimoramento desse centralismo obtuso com imposição de normas jurídicas e de formas de comportamento que revelam o atraso de nossas instituições jurídico-políticas e, como decorrência, preocupante conformismo coletivo nacional. É nesse quadro que soam como radicais a atuação da promotoria com nova visão social e política, as ações rigorosas da Polícia Federal, de jornalistas e de lideranças iracundas da sociedade civil que tentam romper com um passado nefasto para a implantação de uma nova democracia.

Ora, impõem-se de fato maior transparência na gestão da coisa pública, efetiva representatividade dos políticos e rigor no combate à impunidade, com a prisão dos corruptos de variada ordem. Paralelamente, urge requalificar os quadros administrativos, políticos, educacionais, científicos, diplomáticos e militares. Nesse processo, como dizia Martin Luther King, "não me preocupa o grito dos violentos, os corruptos e os desonestos, mas o silêncio dos bons".

A presidente Dilma crescerá - ou não - nessa encruzilhada desafiadora. Na construção de uma nova sociedade civil, reunida em torno de liderança não populista e não coalescente, poderá ela ter papel histórico se não se acomodar docilmente à tal "coalizão", nociva por reaquecer hábitos que suporíamos ultrapassados pelo governo anterior, que se propunha "popular".

O governo de Dilma parece firme. Pois "nunca antes na história deste país" três ministros de Estado caíram em tão pouco tempo - por razões distintas - e outros passaram a ser fiscalizados de perto. Dado que a Polícia Federal está submetida ao Ministério da Justiça e o ministro é subordinado à Presidência, torna-se claro que a presidente terá papel decisivo com sua pouca disposição para conciliar a qualquer preço com partidos da base, sobretudo com os recheados por agentes do fisiologismo tacanho, no caldo de oportunismo boçal.

Poderá ela, se quiser, passar à história como aquela que pôs fim à "transação cordial" pouco séria que nos denigre interna e externamente. E o vice-presidente, Michel Temer, se escolher o lado correto e controlar com mão forte seu partido, poderá jogar papel importante na reconfiguração nacional em curso. Ou ficar fora da história.

Agora é torcer, pois com a corrupção à solta e em conjuntura mundial de crise, não há Estado que aguente. A violência urbana (arrastões em restaurantes e praias, latrocínios e sequestros) e a violência rural (agravada nos últimos anos), mais o retorno da inflação, exigem medidas fortes. Pois os simpáticos "capitães da areia" de Jorge Amado, malformados e famintos, migraram para as cidades e uma multidão deles engrossa as estatísticas de assaltantes e de jovens motoboys mortos em nossas travadas anticidades.

A história ensina que, desde antes da Revolução Francesa, o pânico coletivo pode sempre ocorrer e ser "contagioso", como se verifica na Inglaterra, no Chile, na Síria e outros países. Quanto a nós, somos filhos da Revolução Francesa ou do quê? A expectativa é que a presidente Dilma não passe por cima da lição do revolucionário francês Maximilien Robespierre, o Incorruptível, em seu célebre discurso de 1794: "Sou talhado para combater o crime, não para governá-lo".

*CARLOS GUILHERME MOTA, HISTORIADOR, PROFESSOR EMÉRITO DA FFLCH DA USP E PROFESSOR TITULAR DA UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, É AUTOR DE HISTÓRIA E CONTRA-HISTÓRIA (EDITORA GLOBO)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

COORDENAÇÃO DA AÇÃO DE GOVERNO: A CASA DA MÃE JOANA

O embate descrito na matéria abaixo, envolvendo deputados da base governista ligados ao Itamaraty e ao Ministério do Meio Ambiente mostram como o governo Dilma rapidamente vai virando a casa da mãe Joana, ao pontos de ministérios se degladiarem no Congresso Nacional.

Vai mal de coordenação e política esse governo.


Demetrio Carneiro

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CAMINHO PARA O GOVERNO MEDÍOCRE?

Já antes das eleições vínhamos comentando sobre a possibilidade de um governo medíocre e suas consequências na política.

De certa forma Dilma vai caminhando para isto. O quadro geral envolve a possibilidade de perda do controle da inflação, a insistente valorização cambial vista como um mal a ser combatido imediatamente e a queda do crescimento.

De fato há uma saia justa quando o compromisso de manter o crescimento envolve uma noção de piso mínimo incompatível com o momento da economia. Mantega costuma dizer que ninguém sabe qual é realmente o teto do produto potencial, para efeito do que pode gerar um processo inflacionário mais intenso. Certamente também não sabe onde e quando parar o estímulo à demanda para garantir o piso mínimo. Talvez dai a dificuldade de reconhecer a existência de um componente inflacionário na demanda.

No discurso oficial havia um gatilho implícito nos 4%. Pois bem, chegamos lá.Agora o dilema inflação versus crescimento ficará mais explícito.
O irônico disto tudo é que a política de piso de crescimento, e o consequênte sacrifício dos pressupostos da estabilidade, poderá levar a uma perda maior do crescimento. Quando estávamos num período de crescimento garantido o dilema era entre manter o superávit ou investir em políticas públicas. O próprio crescimento, mais alguma criatividade, acabou abrindo espaço para a permanência da proposta de superávit.

Agora contexto e propostas são diferentes. A mediocridade pode estar batendo nossas portas.

Para Dilma a oposição amorfa e voltada para seu próprio umbigo é o melhor dos mundos. Bom registrar que muitos oposicionistas participam solidários da solução dilmista no dilema central "crescimento versus inflação" e devem estar tão confusos quanto ela.

Demetrio Carneiro


Para Samuel Pessôa, da consultoria Tendências, BC está mais heterodoxo e governo subestima a inflação de demanda

01 de abril de 2011

Raquel Landim - O Estado de S.Paulo
O Banco Central (BC) está se tornando mais "heterodoxo" no combate à inflação e o governo Dilma Rousseff corre o risco de "meter os pés pelas mãos". A avaliação foi feita ontem por Samuel Pessôa, sócio da Tendências Consultoria e professor do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV), em encontro com investidores em São Paulo.

Ele afirmou que está menos otimista em relação à administração Dilma. O especialista afirmava que as indicações iniciais eram de que seria um governo "fácil" e de "continuidade" em relação ao mandato de Lula.

Na sua avaliação, a presidente deveria focar em três pontos: um ajuste fiscal forte e liberdade para o Banco Central elevar a taxa de juros e manter a inflação sob controle; aumento da carga tributária para financiar a política de reajuste do salário mínimo; e investimentos em infraestrutura para conseguir promover a Copa e a Olimpíada.

"Com essas medidas, o País cresceria menos, mas a sensação de bem-estar seria mantida. Dilma chegaria a 2014 com a popularidade em alta e com chances de ser imbatível nas próximas eleições", disse Pessôa. "Mas apareceram alguns sinais preocupantes nas últimas semanas."

O principal temor do mercado é com a condução da política monetária. Pessôa está receoso com a percepção do governo de que não existe inflação de demanda no Brasil, expressa pela própria presidente Dilma, em entrevista ao jornal Valor.

Para ele, a demanda segue muito forte, impulsionada pelo mercado de trabalho robusto e pelo crédito abundante. A avaliação do governo é que a alta da inflação, que deve superar a meta de 4,5% este ano, foi provocada pelo choque de preços das commodities.

Demanda. Pessôa afirma que o nível da atividade econômica não deve ser medido pelo comportamento da indústria da transformação, que sofre com a concorrência dos produtos importados. Ele disse que a demanda das famílias está crescendo em ritmo bem mais forte.

Heterodoxo. "Agora o Banco Central também começou a ter ideias heterodoxas próprias", disse Pessôa, referindo-se às mensagens da autoridade monetária no Relatório de Inflação, divulgado na quarta-feira.

Para o economista, o sinal mais grave do novo comportamento do Comitê de Política Monetária (Copom) foi o de que "o mercado tenta cooptar o BC, com estimativas mais altas para a inflação, para forçar a alta da taxa de juros".

"Essa é uma percepção de algumas pessoas, mas não corresponde à realidade", disse. Segundo Pessôa, a pesquisa Focus demonstra que o mercado costuma "subestimar" a inflação.

Pessôa também criticou a política de intervenção do governo no câmbio, para tentar manter o dólar acima de R$ 1,60. Ontem o Banco Central atuou pesadamente e garantiu que a moeda americana fechasse com leve alta de 0,06%, a R$ 1,63.

"Não temos mais um câmbio flutuante no Brasil", disse o especialista. "É um câmbio fixo, que o governo gostaria que ficasse acima de R$ 1,70, mas estão perdendo essa briga."

Outra preocupação de Pessôa é com a intervenção do governo na iniciativa privada. Ele diz que os dois casos mais emblemáticos são o rombo no Banco Panamericano e a sucessão na Vale.

No caso Panamericano, os bancos privados concordaram em salvar o banco de Silvio Santos após pressão do governo. Na Vale, auxiliares de Dilma estão pedindo a substituição do atual presidente, Roger Agnelli.

Caindo na real

SAMUEL PESSÔA
SÓCIO DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA E PROFESSOR DO IBRE/FGV

"Não temos mais um câmbio flutuante no Brasil. É um câmbio fixo, que o governo gostaria que ficasse acima de R$ 1,70, mas estão perdendo essa briga."


sábado, 26 de março de 2011

BRASIL IMPORTA ALCÓOL COMBUSTÍVEL DOS EUA!!!!: MUDA A ESTRATÉGIA NACIONAL PARA OS COMBUSTÍVEIS RENOVÁVEIS.

Realmente para os americanos a viagem de Obama ao Brasil foi extremamente lucrativa.
O presidente americano voltou com uma garantia de fornecimento de petróleo bruto, o que facilita parcialmente a vida deles em relação a instável e problemática Venezuela do “amigo” Chaves, e, de quebra vendeu para nós o que já foi fonte de orgulho nacional pelo pioneirismo e pela liderança mundial na produção: Álcool combustível.

Em épocas passadas o antigo PT da presidenta Dilma, fosse outro presidente, FHC, por exemplo, já teria ido às ruas denunciando a confirmação da relação imperialista: Exportação de produto em estado natural contra a importação de produto beneficiado. Obama deve estar muito satisfeito. Talvez nem tenha se dado conta da ausência de Lula, nessa altura o “ex”-cara. Afinal vendeu para o Brasil um produto cuja produção dentro dos EUA tem sido razão de pesadas críticas por conta de um especial dilema entre produzir combustível ou produzir alimento essencial. No caso o álcool americano é derivado do milho que é o segundo maior produto agrícola americano depois do trigo. Muitos americanos apontam o exemplo negativo da produção de álcool brasileira sobre a produção e o preço do açúcar como um exemplo “a não ser seguido”.

No fim do dia nada demais. Apenas o que parece ser uma completa desorientação estratégica. Vamos argumentar e mostrar que está muito longe disso e é, na verdade, uma lógica já consolidada de despriorizar os combustíveis renováveis em favor do petróleo, combustível não renovável.

Primeiro vamos contar uma historinha. Existe um Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
É um entre uma verdadeira multidão, pós Constituição Federal de 1988, de “conselhos” de todo o tipo. A Administração Pública brasileira vai transformando o Brasil no “País dos Conselhos”, talvez numa analogia tardia com o “País dos Soviets”.
Muito bem. O papel principal do CDES é produzir a estratégia nacional. É o documento chamado Agenda Nacional de Desenvolvimento, renovado periodicamente, pari passu com o Plano Plurianual, que serve para informar a fundamentação estratégica do PPA que é o plano estratégico da gestão pública brasileira.

Em dezembro de 2010, ao apagar das velas da gestão Lula, o CDES produziu uma espécie de atualização da AND: Agenda para um novo ciclo de desenvolvimento. Obs.: Na página procure o tópico "documento estratégico".
Na realidade está dentro das competências do Conselho e das boas regras de planejamento atualizar documentos estratégicos. O que soa estranho é que tenha sido feito no último minuto do segundo tempo.
Eu diria que houve a nítida intenção de deixar já delimitado o pensamento estratégico do novo governo. Tentativa, aliás, feita em diversas outras áreas por ações construídas na última hora e que normalmente, até por respeito ao sucessor, não deveriam ser produzidas.

Bom, agora voltemos ao fio da meada. Lido o documento o que se fala sobre combustível?
Baratear os custos de energia e de combustíveis. Realizar estudos para viabilizar a redução das tarifas de energia e praticar a modicidade tarifária, considerando os encargos que incidem sobre as tarifas de energia elétrica e de combustível, inclusive a carga tributária.”
Uma interessantíssima proposta que estaria bem na oposição: Corte de impostos para baratear o combustível!?? Podemos realmente esperar este tipo de atitude do governo Dilma? Quem viver verá ou melhor, não verá.

Nada mais. Mesmo falando sobre economia verde, produção sustentável etc. nada se fala sobre álcool combustível. Apesar de um processo de mais de duas décadas com pesadíssimos investimentos, apesar do remanejamento da frota nacional para o motor flex, nada.
Pelo contrário o documento lança um argumento verdadeiramente revolucionário: O combustível fóssil “sustentável”:

“Aumentar a produção e exploração de petróleo e gás natural, com ênfase nas reservas da província petrolífera da camada do pré-sal, considerando os novos marcos regulatórios, o incentivo à formação de cadeia de fornecedores nacionais com competitividade internacional e adotando tecnologias que garantam a exploração, a produção e o refino da maneira mais sustentável possível, de modo que o Brasil possa liderar a produção global de hidrocarbonetos sustentáveis.”

Conforme pudemos argumentar em outros posts e argumentamos agora a visão estratégica governamental deixa de lado a questão dos combustíveis renováveis, usa o alcóol combustível para suplementar a balança comercial e foca sua atenção no Pré-Sal que se transforma na bola da vez. Assim, sem choro, nem vela. Não tem plano B.
A idéia é extrair tudo o que der. Não se discute o custo ambiental. Parece que a questão dos combustíveis renováveis fica para um segundo momento, o que é uma péssima orientação, pois desestimula pesquisas e congela propostas, inclusiva as alternativas ao álcool combustível.
É totalmente incoerente falar em Economia Verde, como está no documento, adotando este estilo de proposta quanto aos combustíveis.

E prior, a sustentação da lógica não parte da autoridade. Parte de um conselho paritário, exercendo a democracia participativa, que tem representantes da “sociedade civil” que nos representam a todas e todos.

Podem até me “representar”, mas ando muito longe de concordar com isso. Agora, para meu azar, ser voz discordante num país onde a esfera da política profissional e os partidos em geral estão mais perdidos que cego em tiroteio quando se trata de discordar do Poder é triste. Espero que pelo menos nisso todos concordemos.


Demetrio Carneiro

quarta-feira, 9 de março de 2011

DEPOIS DO CORTE E DO CONTRA-CORTE CÂMBIO VOLTA A INCOMODAR O GOVERNO

Dólar abaixo de R$ 1,65 desafia BC

Fonte: Valor Econômino

Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | De São Paulo

09/03/2011

Depois de um período de trégua, o clima de guerra cambial pode voltar ao ar. A queda da moeda americana na sexta-feira para o menor nível desde agosto de 2008, rompendo o suporte de R$ 1,65, tem tudo para mobilizar o governo que, por semanas, deixou de ameaçar o mercado com novas medidas. A taxa de câmbio não desvalorizou como o governo esperava, mas também não derreteu apesar do fluxo de capital, que engordou as reservas internacionais para US$ 310 bilhões. E volta à pauta depois de o mercado ter mergulhado em discussões sobre política monetária, gerenciamento de expectativas inflacionárias e a consistência do ajuste fiscal. Mas, na opinião de especialistas, o governo poderia encarregar o cenário externo de ajustar o mercado cambial.

A perspectiva de alta dos juros no Hemisfério Norte deverá, em algum momento, corrigir o excesso de fluxo de capital que tem enfraquecido o dólar mundialmente para economias emergentes e para o Brasil. Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, esse cenário deve elevar a taxa de câmbio para R$ 2,00 no fim de 2012. Inês Filipa, economista-chefe da Icap Brasil, compartilha dessa opinião, mas projeta real mais forte ao final do ano que vem: R$ 1,73.

O dólar vinha travado no patamar de R$ 1,66 desde o final de dezembro mesmo com fluxo muito forte de recursos externos. Mas na sexta-feira caiu a R$ 1,645, apesar das sucessivas intervenções do Banco Central, e disparou sinal vermelho no mercado, que vem contabilizando pesadas compras de dólar pela autoridade monetária no mercado à vista, além das intervenções com swaps reversos e operações a termo. A ação vigorosa do BC, basicamente mantendo um piso de preço para negociação da moeda, também incentivou analistas a considerarem que a taxa de câmbio está em linha com o cenário atual, de inflação corrente forte, expectativas de inflação aceleradas e perspectiva de aumento da taxa de juros no mundo desenvolvido. "O entorno externo torna o câmbio mais preocupante e justifica que o governo tolere uma taxa um pouco mais apreciada", afirma o diretor do grupo de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos.

O Banco Central Europeu (BCE) acenou na semana passada com a possibilidade de alta do juro já para abril. Da mesma forma, o juro americano terá de ser normalizado nos próximos meses. Ainda que boa parte dos especialistas acredite que, nos EUA, a alta da taxa só virá em 2012, o mercado deverá reagir antecipadamente a esse fato. "Isso tudo significa que o Brasil pode ficar menos atrativo em termos relativos, o que pode levar a uma desvalorização do câmbio", afirma Ramos, que admite que sua projeção de R$ 1,70 para o dólar no fim de 2011 deverá ser elevada diante desse ambiente. "Há algum risco de que o câmbio possa se deslocar", afirma Ramos. Ele observa ainda que, se essa alta ocorresse no ano passado, seria algo que deixaria o governo contente. Mas, diante da alta dos índices de inflação doméstica, essa situação é preocupante.

O executivo do Goldman Sachs alerta que o Brasil precisa estar preparado para uma eventual reversão desses fortes fluxos, uma vez que é dependente de capital externo para financiar a conta corrente. "Diferentemente da Ásia, o Brasil tem uma situação de dependência do capital externo", completa.

Para Tony Volpon, estrategista da Nomura Securities, ainda que o BC não tenha abandonado a decisão de enxugar o excesso de fluxo, ele parece ter desistido do esforço de levar à casa de R$ 1,70. Essa mudança se deve, em sua opinião, à percepção de que o BC está "aceitando a imposição dos fatos". "A única coisa que afeta o câmbio são os termos de troca, que hoje continuam contribuindo para a valorização do real", explica Volpon, referindo-se à alta das commodities. Para ele, entretanto, a ação dos bancos centrais mundiais deve levar à reversão desse processo de valorização dos preços e, portanto, pode contribuir para interromper a queda do dólar aqui.

"Além disso, em um momento em que o investidor tem a perspectiva de crescimento maior de sua economia, a tendência é que seu dinheiro volte para lá. É bom lembrar que investir em mercado emergente não é um processo natural", afirma Volpon.

O esforço que o governo tem feito para conter a apreciação do real não é pequeno e foi capaz de ao menos limitar a volatilidade da moeda. "O que acaba atraindo ainda mais capital", lembra Volpon.

As aquisições de dólar pelo BC neste início de ano estão nas máximas históricas, sendo superadas apenas por calendário inédito pautado pela capitalização da Petrobras em setembro passado. Dados parciais do mercado cambial no primeiro bimestre deste ano, até 25 de fevereiro, apontam compra média diária pelo BC de US$ 380 milhões - nível de atuação semelhante à marca superada pela média diária de US$ 512 bilhões de setembro de 2010. O IOF alentado já levou à retração do fluxo de capital estrangeiro para a renda fixa local em novembro, dezembro e janeiro, mostram dados mais recentes divulgados pelo BC.

"Se havia alguma dúvida sobre o IOF como instrumento de restrição aos fluxos de capital, ela deixou de existir", comenta Darwin Dib, economista do Itaú Unibanco e especialista em operações cambiais. Ele lembra que o fluxo líquido de investimento estrangeiro para a renda fixa local oscilava em torno de US$ 1,9 bilhão nos meses precedentes a outubro passado. E, após as duas elevações do IOF, o fluxo reverteu para zero em novembro, passou a US$ 200 milhões negativos em dezembro e a US$ 500 milhões também negativos em janeiro deste ano.

O economista do Itaú Unibanco pondera que o câmbio havia saído dos holofotes nas últimas semanas porque a taxa estava extremamente estável em termos nominais, reforçando a ideia de que o BC está, sim, bem disposto a evitar a apreciação da moeda. Fernando Rocha, economista-chefe da JGP, concorda com Dib. Mas considera possível uma mudança de tendência de apreciação em 2012. "Em algum momento os juros subirão lá fora e quando isso ocorrer haverá mudança no fluxo de capitais, afetando o Brasil", avalia.

Felipe Tâmega, economista-chefe do Modal, viu na estabilidade relativa da taxa de câmbio um sinal de que ela estaria próxima dos fundamentos citados pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, quando foi sabatinado no Senado. "Quando questionado sobre o dólar, Tombini foi direto. Disse que o câmbio continuará flutuando e seguindo os fundamentos. Para nós, isso significa que o BC deve utilizar um modelo de avaliação para captar o valor justo da taxa de câmbio", afirma. Ele diz que um dos modelos de médio e longo prazo do Modal aponta para taxa entre R$ 1,68 e R$1,69. "Portanto, não muito distante do que estamos hoje", explica.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera que o governo parece ter percebido que não dá para fazer mágica quanto à tendência de apreciação da moeda. "Essa questão só se resolve por algum desbalanceamento estrutural na conta de capital e/ou na conta corrente. A conta de capital pode ficar mais complicada este ano em função da mudança de política monetária nos Estados Unidos e/ou o petróleo no Oriente Médio. A conta corrente vira um problema quando o déficit em conta corrente começar a ficar muito elevado, o que ainda vai levar um tempo. Assim, como está fora da alçada do governo, ele deveria tentar mudar a parte estrutural dos custos das empresas: custo trabalhista, tributário e de infraestrutura menor. Mas não há nada efetivo e de qualidade nesse sentido. Portanto, a indústria vai ter que continuar apanhando do câmbio ainda"

quarta-feira, 2 de março de 2011

EMBATE ENTRE LULA E DILMA PELA VIA DOS PORTA-VOZES INFORMAIS DO PT

Dilma vai trabalhando com lógicas de governo diferenciadas, clara e publicamente marcadas, do governo do ex-cara. Lula sempre esteve disposta as concessões aos setores mais ideológicos, vide a política externa sul-contra-o-norte. Dilma parece não querer seguir pelos mesmos caminhos. Aliás, uma coisa interessante: Os apressados adesistas que militam no movimento social ao novo governo vão aderir a qual grupo

Setores do PT já acenderam o sinal amarelo. Interessante ver petista de carteirinha com manifestações agressivas e referenciadas na herança de Lula. Na realidade talvez estejamos vendo um embate que não teve chances nos dois governos de Lula entre os segmentos mais ideológicos, nem por isso menos fisiológicos, e os segmentos apenas fisiológicos ou outros que estejam de fato convencidos da necessidade de mudança das políticas. Enfim é uma questão interna corporis que no melhor estilo petista de bater e quebrar vai chegando à mídia. São os partos de transformação do PT em um partido viável, dentro da atual conjuntura do que são os partidos políticos, no longo prazo.Nós da platéia assistimos interessados.

Aliás, uma coisa interessante em termos da "oposição": Os apressadíssimos adesistas que militam no movimento social vão aderir a qual grupo? Qual será que tem mais futuro? Será que Dilma faz uma gestão medíocre e Lula volta? Ou será que Dilma faz uma gestão razoável e se reelege quebrando o movimento lulista dentro do PT? O adesismo tem seus riscos.



Demetrio Carneiro

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

LÍBIA: POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA FAZENDO UMA INFLEXÃO?

Abaixo o rascunho, em inglês, da proposta de Resolução que deve ser votada e provavelmente aprovada no Conselho de Direitos Humanos da ONU, conforme está no site da comissão

Os termos da nota são duros, tendo em vista toda a coisa diplomática etc.. 
Muito resumidamente:

Apela incisivamente para o Governo da Líbia assumir a responsabilidade de proteger a sua população;

Apela incisivamente para o governo da Líbia Interromper todas as prisões arbitrárias;

Demanda às autoridades líbias que garantam a segurança de civis, inclusive de outras nações;

Que as autoridades interrompam imediatamente o bloqueio às redes de telecomunicações;

Que as autoridades líbias respeitem as demandas, desejos e aspirações da população;

Reafirma a importância da responsabilização e da necessidade de atuar contra a impunidade dos responsáveis pelos ataques a civis, inclusive por parte das forças sob controle governamental;

E, muito importante: Cria uma Comissão Internacional de Inquérito para investigar a violação da Lei Internacional de Direitos Humanos na Líbia, estabelecendo os fatos e circunstâncias dessas violações e os crimes perpetrados e que possa possívelmente identificar os responsáveis, responsabilizá-los etc.

Claro diplomacia é diplomacia e ainda falta ver o teor da nota que será de fato aprovada. Mas tendo em vista que os apoiadores mais claros do pobre e inocente do Kadafi são a Venezuela e Cuba é muito provável que o que saia saia mesmo nesses teremos.

Importante ressaltar que o Brasil deverá ser signatário da nota. Conforme Editorial do jornal O Globo, repercutido pelo Blog do Noblat, essa assinatura poderá mesmo indicar uma importante inflexão na política externa brasileira.
É aguardar e conferir.

Demetrio Carneiro

Situation of human rights in the Libyan Arab Jamahiriya

The Human Rights Council,

Reaffirming the Charter of the United Nations, the Universal Declaration of Human Rights, and relevant international human rights instruments, and relevant international law,
Recalling General Assembly resolution 60/251 of 15 March 2006,
Recalling further Council resolution 5/1 and 5/2 of 18 June 2007,
Expressing deep concern at the deaths of hundreds of civilians and rejecting unequivocally the incitement to hostility and violence against the civilian population made from the highest level of the Libyan government;
Reaffirming that all States have an obligation to protect the rights to life, liberty and security of the person,
Reaffirming also the responsibilities of all States, in conformity with the United Nations Charter, to respect human rights and fundamental freedoms for all,
Reaffirming further that all Member States of the United Nations Human Rights Council should uphold the highest standards in the promotion and protection of human rights and that the United Nations General Assembly may suspend the rights of membership in the Council of a member that commits gross and systematic violations of human rights;
Supporting the statements made by the Secretary-General of the United Nations and by the United Nations High Commissioner for Human Rights, in particular the latter’s statement of 22 February 2011 calling for international investigation into Libyan violence and justice for victims;
Supporting also the Press Statement of the United Nations Security Council on Libya of 22 February 2011,
Also supporting the statement issued by the Council of the League of Arab States of 22 February 2011, the statement of the Secretary General of the Organisation of Islamic Conference of 20 February 2011, the communiqué of the 261th Meeting of the Peace and Security Council of the African Union, and the relevant conclusions of the European Union Foreign Affairs Council of 21 February 2011;

1. Expresses deep concern with the situation in Libya, strongly condemns the recent gross and systematic human rights violations committed in Libya, including indiscriminate armed attacks against civilians, extrajudicial killings, arbitrary arrests, detention and torture of peaceful demonstrators, some of which may also amount to crimes against humanity;
2. Strongly calls upon the Government of Libya to meet its responsibility to protect its population, to immediately put an end to all human rights violations, to stop any attacks against civilians, and to fully respect all human rights and fundamental freedoms, including freedom of expression and freedom of assembly;
3. Strongly calls upon the Government of Libya for the immediate release of all arbitrarily detained persons, including those who were detained before the recent events, as well as for the immediate cessation of intimidation, persecution and arbitrary arrests of individuals including lawyers, human rights defenders and journalists;
4. Urges Libyan authorities to ensure the safety of all civilians, including citizens of third countries, to refrain from any reprisals against people who have taken part in the demonstrations, to facilitate the departure of those foreign nationals wishing to leave the country, and to allow the provision of urgent humanitarian assistance to those in need;
5. Also urges Libyan authorities to immediately cease the blocking of public access to the internet and telecommunication networks
6. Further urges Libyan authorities to respect the popular will, aspirations and demands of its people and to do their utmost efforts to prevent further deterioration of the crisis and to promote a peaceful solution ensuring safety for all civilians and stability for the country;
7. Recalls the importance of accountability and the need to fight against impunity and in this regard stresses the need to hold to account those responsible for attacks in Libya, including by forces under government control, on civilians;
8 Urgently calls for an open, inclusive, meaningful and national dialogue aimed at systemic changes responding to the will of the Libyan people and at the promotion and protection of their human rights;
9. Reminds the Government of Libya to respect its commitment as a Member of the Human Rights Council to uphold the highest standards in the promotion and protection of human rights and to cooperate fully with the Council and its Special Procedures;
10. Calls on the Libyan authorities to guarantee access to human rights and humanitarian organisations including human rights monitors;
11 Decides to urgently dispatch an independent, international commission of inquiry, to be appointed by the President of the Council, to investigate all alleged violations of international human rights law in Libya, to establish the facts and circumstances of such violations and of the crimes perpetrated, and , where possible identify those responsible to make recommendations, in particular, on accountability measures, all with a view to ensuring that those individuals responsible are held accountable, and to report to the Council at its seventeenth session, and calls upon the Libyan authorities to fully cooperate with the Commission;

12. Requests the Secretary-General and the High Commissioner to provide all administrative, technical and logistical assistance required to enable the above-mentioned commission of inquiry to fulfil its mandate;
13. Requests the High Commissioner to provide an oral update to the Council at its sixteenth session on the human rights situation in Libya, and to submit a follow-up report to the seventeenth session, as well as to organize an interactive dialogue on the human rights situation in Libya during the seventeenth session of the Council;

14. Recommends to the United Nations General Assembly, in view of the gross and systematic violations of human rights by the Libyan authorities, the consideration of the application of the measures foreseen in OP8 of General Assembly resolution 60/251;

15. Decides to remain seized of the matter.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

CÉSAR MAIA: AVALIANDO O FUTURO DO GOVERNO DILMA

O texto abaixo eu retirei do mailling do CM.
É uma avaliação com um viés bem interessante. Acho que vai bem até abrir caminho para o catastrofismo.
É uma questão que havíamos comentado antes das eleições:
Um bom governo não interessa à oposição e muito menos ao grupo ligado à Lula;
Um péssimo governo joga 2014 não no colo da oposição necessariamente, mas sim no colo de Lula "o salvador";
Para todos o melhor seria o que parece que será - Um governo medíocre, seguindo a trajetória do que se considera por aqui um "ótimo" crescimento, algo por volta de 4,5%/5%.
Acho que é para este horizonte provável que deveriam estar olhando.

Demetrio Carneiro


"HERANÇA PERVERSA"!

Coluna de sábado de Cesar Maia na Folha de SP (19).

1. As primeiras medidas do governo Dilma em relação aos cortes nos gastos públicos, ao câmbio, aos juros e à política externa são apresentadas como herança recebida do governo Lula. São vistas como produto das distorções eleitorais relativas aos anos de 2009 e 2010. Por isso, sua abordagem cria no governo um certo constrangimento. Mas nada disso é problema. Ao contrário. Dilma aparece como mais centrada, mais racional e mais dedicada às questões administrativas, o que a eleva ao andar de cima do meio acadêmico, empresarial, jornalístico e político.

2. Com todos os desdobramentos relativos a essa herança, ela certamente não é o problema que Dilma e seu governo terão de enfrentar. Todas as pesquisas nos últimos anos, em relação às funções do governo, mostraram uma avaliação mais próxima do regular. Mas as mesmas pesquisas mostraram uma avaliação ótima de Lula. É como se o personagem que criou, inserido nas massas e confundido com elas, nada tivesse a ver com seu governo. Até o fato de a crise financeira de 2008/2009 não ter chegado aos países emergentes como chegou aos desenvolvidos foi percebido como efeito Lula.

3. Seus atos são sempre confundidos com seu populismo retórico. As inaugurações de pedras fundamentais eram percebidas como realizações, e a "caravana holiday" de seus comícios inaugurava nada, mas que -em outras partes do país, via satélite- era percebido como tudo.

4. Com o mensalão de 2005, Lula abandonou o uniforme de líder operário urbano e incorporou o jeito de líder retirante num populismo protorreligioso que tão bem se conhece Brasil afora, desde a segunda metade do século 19. Essa condição é que é a herança perversa. Nem Dilma nem nenhum outro nome cogitado no processo pré-eleitoral desde 2008 teria condições de parecer-se com o personagem criado e mitificado por Lula.

5. Todos sabem que o ano de 2011 será um ano de desconforto social, com a economia crescendo metade da de 2010, com inflação acima da meta, especialmente nos alimentos, e os juros mais altos. Há ainda a economia europeia desacelerada, a crise nos países árabes e seus reflexos etc e tal. Esse desconforto social se acentuará com a menor capacidade de compensação pelos Estados e municípios, maior desemprego, alguma reversão de expectativas e muito maior assanhamento dos políticos da base aliada e da oposição.

6. E o imaginário popular, tão acostumado ao estilo anterior, vai suspirar nas esquinas: "Ah, com Lula isso não estaria acontecendo". Nesse momento, a popularidade de Dilma despencará. E Lula correrá em seu auxílio, piorando a situação. Como disse Bertolt Brecht: "Infeliz a nação que precisa de heróis".

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

BRASIL: NO PLANEJAMENTO FISCAL A CHAVE ESTÁ NA EXECUÇÃO DOS INVESTIMENTOS

Pensamos que a reação do mercado para o recente pacote fiscal tem sido quase que universalmente cética. Em nossa opinião, a razão é simples: se tomarmos pelo “valor de face” o que foi anunciado pelo ministro Mantega, a probabilidade de alcançar o ajuste necessário é muito pequena.

Pensamos que o problema com essas análises pessimistas é a interpretação demasiado literal das intenções do governo, especificamente a promessa de manter os níveis de investimento, como previstos no PAC.

Em nossa análise, mais otimista, defendemos a idéia de que o governo usaria a execução do programa PAC como um "amortecedor" para cumprir as metas de ajuste fiscal em uma base contínua. Ou seja, se as receitas ficam aquém do previsto, o governo vai retardar a execução de investimentos para atingir a meta. Isso equivaleria a adiar gastos. Da mesma forma, durante o boom pré-eleitoral, a execução de muitos programas foi acelerada. Assim, o governo poderia cumprir as suas metas fiscais e, ao mesmo tempo manter a sua promessa de não cancelar projetos de investimento, que são vistos como sagrados pela esquerda política.

No Estado de São Paulo de hoje, o conhecido economista Samuel Pessoa, do conservador instituto IBRE / FGV, sediado no Rio, concorda com a nossa análise.

No estudo de Pessoa, dos R$ 50 bilhões em cortes, R$18 bilhões são pelo cancelamento de despesas previstas pelo Congresso. A partir das excessivamente infladas despesas discricionárias em saúde e educação o governo pode cortas outros R$13.9 bilhões e mais R$ 5 bilhões de custos do serviço púbico civil. O restante, R$15.3 bilhões, virá do retardo da execução do PAC, o que pode ser feito aplicando a mesma taxa de execução do ano passado: 65%.

Embora se possa discutir sobre estes números, pensamos que eles mostram que é possível alcançar o nível dos cortes necessários dado que uma visão mais realista dos desafios concretos da política a serem enfrentados pelo novo governo estejam sendo tomados em consideração.

Dilma esta sendo confrontada com o desafio de lidar com a herança inflacionária do governo Lula, sem, entretanto, repudiar abertamente suas políticas. Achamos que isso vai exigir uma declaração, cuidadosa e nem sempre muito transparente, de intenções.

Tony Volpon


domingo, 13 de fevereiro de 2011

ONDE O GOVERNO NÃO QUER OUVIR FALAR DE CORTES

Sem muitos comentários: 
Estava na LDO 2011, aprovada pelo Congresso Nacional, a autorização para tocar as obras mesmo que estivessem na lista de obras com irregularidade grave do TCU.
Como o TCU é uma estrutura especializada de controle social do Congresso, são os parlamentares desmoralilizando uma estrutura que em última análise foi criada para apoiar o mandato constitucional de Controle Social.


Demetrio Carneiro

GANHOS POLÍTICOS DO “CORTE”

Alguns ganhos políticos do corte, para o grupo de Dilma Roussef:

a) Centrar a estratégia do corte no aumento da eficiência do serviço público reforça a imagem da gerentona;

b) Da mesma forma mostrar que dá para ter mais eficiência apenas por um ato de vontade política expõe com toda clareza os oito anos de “gestão Lula”. Talvez por isto a pressa do PT em anunciar ao mundo a herança positiva de Lula ou do próprio Lula em afirmar que está tudo bem. Não, claro que não está e evidente que haverá a partir daí um termo de comparação entre Lula e Dilma.

É um jogo arriscado investir na economia pela via da eficiência, mas há muito espaço:
Na tolerância da mídia tradicional que sempre busca "novos enfoques", vide o FT;
Também nas manipulações orçamentárias, nem sempre tão evidentes. Vide os primeiros momentos da fala de Mantega.