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domingo, 30 de outubro de 2011

A PREVISÃO DE QUEDA DO PIB BRASILEIRO E A NOVA POLÍTICA ECONÔMICA CAPITANEADA POR DILMA

O risco é inerente à atividade econômica. Contudo a atividade de governo não precisa passar por ele voluntariamente, se não houver amplas e justificáveis razões. Ranços ideológicos não deveriam ser suficientes para justificar um risco que não é apenas do governo, mas de todo o país.

Quando se mudam políticas públicas existentes todos sabem que há risco, mas imagina-se que correremos algum por razões plausíveis. Foi assim na virada do Plano Real, um plano aplicado depois de muitos outros que fracassaram e apenas pioraram o que já estava ruim. Corremos riscos e vencemos a inflação descontrolada e persistente por muito mais de uma década.

Mas, vitória à parte, tivemos um problema: Foram perdidas décadas de crescimento. Certamente estaríamos hoje muito melhores e muito mais iguais, não fosse por isso.
Não se constrói igualdade com baixo crescimento e inflação alta!

Da vitória do Plano Real para cá a Política de Estabilidade vinha sendo bombardeada por segmentos do pensamento econômico de esquerda com argumentos fundamentalmente ideológicos e que a própria prática dos governos petistas mostrou serem inexatos. Principalmente se argumentava que “não era possível” fazer política social positiva com a Estabilidade. Na realidade toda a festa petista sobre o ingresso de milhões de pessoas no mercado de consumo, portanto “qualidade de vida”, se deve justamente ao fato de termos tido estabilidade nesse período. Da mesma forma o Bolsa-Família ou o Salário Mínimo só puderam ter ganhos reais pela mesma razão. Com a Estabilidade criou-se todo um conjunto de instituições que juntas forneceram os necessários incentivos para a atividade econômica se desenvolver de forma consistente trazendo o progresso. Mas não faz mal. De qualquer forma a Estabilidade é uma política “neoliberal” e precisava ser desconstruída. Isto parecia ser um senso que unia a esquerda dentro e fora do governo.

Quando Dilma resolveu mudar a política econômica mudando o foco do crescimento com inflação controlada para o crescimento a qualquer custo o que ela só teria como fazer isto desarticulando a proposta de política econômica de estabilidade. Para esse novo pensamento econômico dominante não bastam correções. São necessárias transformações profundas que garantam o povo trabalhador contra o capitalismo neoliberal e espoliador.

Ao contrário da política anterior a atual é potencialmente desestabilizadora, pois se alicerça na hipótese de que a inflação é passível do completo controle pelo Estado, quaisquer que sejam as regras do jogo. Nada mais elucidativo do que a tranqüilidade de Mantega ao tratar do assunto. Ou as tentativas do BC de elaborar modelos para explicar o inexplicável. O conceito estatizante de produção de políticas econômicas parece querer sempre ignorar que as expectativas podem ser bem mais poderosas que a ação do Estado. Ai está a economia mundial...

O “crescimento a todo custo” evidencia duas premissas que estão em sua própria essência:
- O gasto público é prioritário para a manutenção da estrutura de poder e a amplíssima faixa de aliança. Só o gasto permanente e em níveis elevados sustenta essas alianças no plano federal e suas bases patrimonalistas no plano local;
- A inflação não é um “problema” desde que o poder de compra dos salários não seja modificado. A leitura da previsão da evolução da massa salarial no PPA 2012-2015 é bem clara a este respeito.

Neste momento, como seria de se esperar, as previsões de crescimento vão se mostrando sempre mais pessimistas ao ponto de comprometer todo o projeto do Plano Plurianual em votação no Congresso Nacional, já defasado, mas também ao ponto de comprometer o futuro e não apenas o plano.
Com efeito, se o quadro de crescimento minimamente consiste, digamos que sejam os tais 5%, com inflação mais alta já não é um quadro satisfatório e necessariamente tem impactos negativos retornando sobre o crescimento futuro, muito mais negativos serão os impactos de uma expectativa de baixo crescimento com inflação mais alta. Estamos falando numa média de 3% daqui ao final do mandato de Dilma. Talvez menos a depender da qualidade do “pouso suave” da China e de quanto tempo ficarão “pousados”.

Prever crescimento na média de 3% ou menos pode parecer pessimismo demais, talvez. Contudo cabe ao gestor público, ao agente político eleito para isso, trabalhar com cenários e, neste momento, trabalhar com cenários excessivamente otimistas pode representar um risco que todos correremos e que poderá jogar a economia brasileira num processo que já conhecemos historicamente de inflação alta e baixo crescimento.

Nenhuma dúvida sobre os custos sociais de um modelo de baixo crescimento e inflação alta e toda a certeza de que ficam inviáveis correções reais de salário, como fica inviável a capacidade de manter em níveis controláveis a Dívida Pública e é evidente a sinergia entre essas duas questões e a expectativa dos agentes econômicos retornando como mais redução da atividade econômica futura.

Ainda é tempo do governo rever sua proposta de modelo econômico. Mais à frente, além de estarmos sujeitos a perder os ganhos dos últimos anos de Estabilidade talvez estejamos obrigados a um novo ciclo de tentativa com erros e acertos que se acumularão em novas décadas perdidas e mais desigualdade.


Demetrio Carneiro

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

LEITURA COMPARADA DE VOLPON REPERCUTE NA MÍDIA BRASILEIRA

Na segunda publicamos a tradução livre um texto do Tony Volpon. Comentávamos que o exercício que ele fazia lá, comparando as políticas econômicas do Brasil, Argentina e Turquia, embora pouco utilizado entre nós era um exercício importante para análise. Agora o texto repercute na mídia brasileira.
Demetrio Carneiro


Por Cristiano Romero

Não faltam entusiastas no Brasil do modelo de desenvolvimento adotado pela Argentina. As altas taxas de crescimento econômico que o país vizinho vem experimentando desde 2003 inspiram alguns a defender a adoção desse modelo aqui dentro. Outros vão além: as mudanças promovidas pelo governo Dilma Rousseff na política econômica que vigorou nos últimos 12 anos são um sinal de que caminhamos para o exemplo argentino.
A Argentina, ao contrário do Brasil e de um grupo representativo de nações em desenvolvimento, não adotou o regime de metas para inflação. Depois da falência, em 2001, do regime de câmbio fixo, passou a tolerar inflação alta e, claramente, a trabalhar com política monetária frouxa, política fiscal relativamente apertada, meta para a taxa de câmbio e prioridade ao crescimento a qualquer custo.
Com exceção de 2008 e 2009, quando seu Produto Interno Bruto (PIB) avançou, respectivamente, 6,8% e 0,8% por causa crise mundial, a Argentina não cresceu, desde 2003, menos que 8% ao ano. A inflação, no entanto, disparou nesse período e segue invencível. Com um agravante: desde o início de 2007, graças à intervenção política do governo Kirchner no Indec, o IBGE argentino, as estatísticas oficiais de inflação perderam credibilidade. Neste momento, por exemplo, a inflação, segundo o Indec, está em 9,9% ao ano, enquanto estimativas mais realistas indicam alta de 24%.
Apesar de mudanças, regime seguido pelo BC é o de metas
Tony Volpon, estrategista de renda fixa da Nomura Securities, disse, em relatório recente, que, embora os níveis argentinos de inflação não sejam politicamente aceitáveis no Brasil, três decisões tomadas pelo governo Dilma vão na direção do modelo da Argentina. A primeira foi o aumento do superávit primário; a segunda, o início de um ciclo de alívio monetário, mesmo com inflação esperada para 2012 acima da meta oficial; e a terceira, a imposição de controles de capitais, por meio de impostos.
"A estratégia de elevado crescimento perseguida pelas autoridades argentinas resultou em taxas de inflação que só rivalizam, na América Latina, com as da Venezuela", ironiza Volpon. O que aparentemente tem ajudado a manter a popularidade da presidente Cristina Kirchner, que se reelegeu de forma esmagadora na eleição de domingo, é o crescimento da renda real dos trabalhadores da economia formal.
De fato, a renda tem crescido desde meados do ano passado, embora não nos níveis declarados pelas autoridades - com a inflação expurgada, o crescimento real é superior a 16% ao ano; considerando a inflação real, é pouco superior a 1/5 disso. No Brasil, a renda real cresceu no período mencionado bem mais do que na Argentina e, em agosto, estava em 3,2% ao ano.
O desempenho favorável da renda real mitiga o impacto da inflação na percepção da população. Nos dois países, ela já está em queda, graças ao aumento da inflação e possivelmente ao desaquecimento da atividade econômica. É possível que o governo Dilma continue relevando os riscos de perda de popularidade associados à alta da inflação, em defesa de uma taxa mínima de crescimento econômico - 3% neste e no próximo ano.
Outro modelo citado em conversas dentro e fora do governo como passível de inspiração para o Brasil é o da Turquia. Ao contrário dos argentinos, os turcos possuem um regime de metas para inflação, mas, desde a crise de 2008, o vêm deixando de lado para priorizar a queda dos juros e taxas mais altas de crescimento. O custo da opção, embora não seja na mesma magnitude do incorrido pela Argentina, tem sido inflação elevada, permanentemente acima da meta oficial.
A Turquia derrubou os juros na marra em 2008 e 2009. A ideia por trás do movimento era a de que o país precisava testar o mercado, que estaria viciado em juros altos. Se necessitasse aumentar a taxa novamente para combater altas de preços, como já ocorreu depois do início do experimento, o faria a partir de um patamar mais baixo. Os juros, de fato, mudaram de patamar, mas a inflação se tornou saliente.
O caso brasileiro é mais complexo. Embora a presidente Dilma tenha dado a entender, em mais de uma ocasião, que a ênfase de sua gestão, neste momento, é garantir o crescimento, a despeito da inflação, o regime vigente ainda é o de metas para inflação, embora o governo trabalhe para flexibilizá-lo. Por esse regime, o Banco Central (BC) persegue a meta oficial. Se a inflação, que aparentemente começou a recuar, voltar a subir, o banco elevará os juros.
Há quem veja, no governo e entre simpatizantes de mudanças no tripé de política econômica vigente no Brasil, exemplos a serem seguidos tanto no modelo argentino quanto no turco. Falta combinar com o BC. Este surpreendeu o mercado com o início do alívio monetário antes do esperado, mas nas decisões e sinalizações recentes avisou que só tem uma meta: trazer o IPCA para 4,5% até o fim de 2012.
O governo tem expectativas distintas: quer que o BC controle a inflação, mas assegure uma determinada taxa de crescimento e uma certa desvalorização do real, em meio um patamar de gasto público elevado. Esse conflito de expectativas produzirá dias animados em Brasília nas próximas semanas e meses.

sábado, 15 de outubro de 2011

NOVA PREVISÃO DE QUEDA NO PIB: MAIS INFLAÇÃO

Segundo informa o Blog do Vicente já há previsão de que o PIB recue para 3%. Ainda segundo o mesmo Blog Dilma deve cercar o presidente do BC antes da reunião do Copom para uma conversinha ao pé do ouvido. Certamente não será para garantir a autonomia da instituição.

Disso tudo o que dá para deduzir é que teremos mais cortes na Selic e mais inflação.

Pelo menos Dilma poderá colocar a culpa da confusão que vem pela frente nos europeus afinal "foram eles que fizeram a crise e não nós". Obviamente a decisão de escolher mais inflação para, supostamente, poder garantir um piso de crescimento foi perfeita. A culpa é da conjuntura que não soube se adaptar às decisões presidenciais...

Demetrio Carneiro

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ECONOMIA COMO UM SISTEMA E O RISCO INFLACIONÁRIO

      Num movimento lateral, em decorrência tanto da crise, como da decisão de reduzir politicamente a taxa Selic, o dólar apresenta sinais de apreciação e previsões já há de que o novo piso é R$ 1,70, com expectativas de chegar a R$ 1,75 em 2012 e R$ 1,80 em 2013.

      Para o governo Dilma reter a apreciação do real e mesmo reverter a apreciação é um forte ganho político, frente ao setor industrial, exportador - a se conferir o ganho nas exportações - ou não – a se conferir os ganhos na redução das importações -, e também frente aos setores mais críticos das políticas econômicas, tanto na oposição, como no grupo de pensadores e apoiadores da atual gestão. Com efeito, em paralelo à crítica da alta taxa Selic a outra grande crítica vinha da apreciação do real.

      Olhando assim não faltou senso de oportunidade e ousadia em cortar exatamente agora a Selic e foi um movimento bem sucedido politicamente. Que o diga o silêncio da oposição, agora frente a mais um dilema no jogo sucessório de 2014.

     O que o atual modelo de planejamento estratégico governamental, já está bem claro que é outro modelo de pensamento diferente do de Lula, não controla é a inflação. Da mesma forma que a apreciação cambial trouxe ganhos políticos ela também trará conseqüências ao neutralizar ganhos da queda de preços das commodities. Nesse sentido a queda do preço das commodities, que poderia ser um componente de redução da pressão inflacionária mundial, internamente não gera resultados, pois é compensado pela apreciação do dólar. Mudou a equação.

      Todo o risco do atual planejamento é a inflação e num país que á teve nessa área experiências traumáticas. Desde o impacto do sucesso do Real no controle da alta/altíssima inflação, os sucessivos presidentes, aparentemente, sempre escolheram perspectivas mais conservadoras, onde o gasto público sempre em expansão, basta acompanhar o aumento real, em valores monetários, da arrecadação tributária nos últimos anos, precisava ser mediado pela taxa Selic de formas a controlar o aumento da inflação. O atual governo pensa diferente e colocou suas cartas na mesa. O jogo está feito e tem seus ganhos e perdas. Ainda é muito cedo para maiores avaliações e o debate ainda está mais no campo da teoria.

     O que é certo é que na economia do setor público normalmente há ganhos associados a perdas. O melhor dos mundos da política pública estaria no espaço onde ninguém perde, mas não parece ser esse o caso se o processo inflacionário se mantiver consistentemente alto. Certamente faz parte do plano de governo a consideração de que o forte aumento do salário mínimo, associado à confirmação dos gastos sociais, que escaparam dos cortes, de alguma forma irá compensar um aumento do ritmo inflacionário, já que são fortemente indexados na prática. 

      Todo o problema com esse estilo de pensamento é a questão das expectativas dos agentes. Na sua lógica keinesiana imaginam que o preponderante será o espírito animal e que o clima geral de sucesso irá impactar positivamente a economia, mesmo com um ritmo de inflação mais ampliado. Para nós o problema vai estar na racionalidade dos agentes econômicos que percebendo a forte indexação de componentes importantes do gasto públicos diretamente ligados à formação de renda, já cientes da indexação dos preços públicos com base na inflação passada, talvez decidam também indexar seus preços. Esta é uma variável exógena ao modelo governamental e sobre ela o governo não tem qualquer controle.

    Algumas lições ainda não foram completamente absorvidas. Quando a crise começou, em 2008, os economistas e pensadores ligados à corrente keinesiana festejaram o “fim” do controle neo-liberal da economia e o sinal verde do gasto foi aceso. Algumas dezenas de trilhões de dólares depois o mundo continua com problemas, pois gastar e gastar não resolveu a problema da expectativa dos agentes. Para a lógica do gasto dar certo seria necessário que os agentes econômicos fossem como os peixinhos de aquário: Uma vez posta a ração eles se atiram a comê-la. Se fosse sempre exatamente assim seria uma maravilha para o Estado como diretor, driver, das economias nacionais. Apenas não é, e o próprio Keynes alertou sobre isso.

      Todo o problema desse modelo é que ele é pensado sem a consideração de que os agentes econômicos podem estar suficientemente informados sobre a aposta na inflação e podem reagir indexando seus preços e ai os custos talvez venham a ser mais altos que os benefícios. Muito em breve isso poderá deixar de ser um problema apenas teórico.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

MAIS UM ÍNDICE SINALIZA ALTA

       Agora é o IGP-DI com alta de 0,61% em agosto, quando havia registrado deflação em julho de 0,05%. O índice já acumula 7,81%.

      Historicamente falando as escolhas entre crescimento e inflação não resultam necessariamente em crescimento sustentável. O processo inflacionário a partir de certos limites nem sempre é um dado positivo e pode, muito rapidamente ser um dos componentes, junto com a falência dos instrumentos institucionais de controle da economia, para nos levar à famosa estaginflação ou estagflação. Isso é o que está na literatura.

      Escolhas pela inflação são escolhas típicas do chamado ciclo partidário. Isto é são escolhas interessadas na sobrevivência política. Algumas podem dar certo. Outras não. Por isso normalmente se associa nas análises inflação, crescimento e emprego, gerando o que se chama de Índice de Miséria. Talvez esteja na hora de usar esse instrumento.

      Como o governo deverá guardar a sete chaves o “ponto de retorno” da política de tolerância à inflação, quer dizer o ponto a partir do qual a inflação tolerada acima da meta não oferece uma escolha boa e sim um risco, resta cruzar os dedos...

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

DILMA E O DIÁLOGO COM O PRECIPÍCIO

      Dizem que o precipício atrai as pessoas para o salto final. Dilma deveria se cuidar.

      Agora que a heterodoxia se consagrou, para a alegria de nossos queridos nacional-desenvolvimentistas, num arco que vai do Serra até o Congresso do PT, passando pela academia, claro sempre tem acadêmico procurando a luz dos holofotes, uma pergunta: O quanto ortodoxos serão nossos heterodoxos?

      Calma, eu explico:

      Vejamos assim a heterodoxia decidiu que entre inflação e crescimento o crescimento é mais importante. Por conta dessa leitura o BC, não importa tanto o que está na Ata, mas o que ocorre no mundo real resolveu também ser heterodoxo e reduziu a taxa Selic. Os sinais são inequívocos e o mercado já faz suas apostas na alta da inflação.

      Certo, qual o limite da flexibilização da taxa de juros para que o piso de 4% se mantenha? Tem sentido, pois nenhuma previsão coloca o PIB de 2011 com 4%. Até mesmo Mantega já deu uma insinuada com o seu “ao redor”. Se o a companheirada da PolíTica econômica for ortodoxa o limite da flexibilização é o momento que Dilma começar a perder pontinhos nas pesquisas. Mas, quando e se esse momento chegar será que dará para reverter? Esse é o flerte com o abismo.

     Se a companheirada da PolíTica econômica for heterodoxa talvez sejam eles sim flexíveis e voltem atrás, deixando o BC fazer o seu trabalho e retirem as política econômicas da área de manipulação ou, pelo menos, queiram manipular menos pela via dessas políticas.
A questão é saber se esse caminho iniciado semana passada tem volta.

    Então, nossos heterodoxos serão ortodoxos ou heterodoxos?

Demetrio Carneiro

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A MANIPULAÇÃO POLÍTICA DA QUESTÃO DOS JUROS E AS CENTRAIS SINDICAIS

      O que há em comum é que todos concordam que as taxas de juros são altas, mas é ai que acaba a concordância.
Às vésperas de uma reunião que se decidirá sobre o valor da Selic Mantega aumenta o valor do Superávit Primário em R$10 bi, depois de toda uma semana onde a linha de fala é reduzir gastos para reduzir a pressão inflacionária e assim reduzir juros.

      As Centrais, por enquanto apenas as chapa-brancas, entenderem o recado e já começam a somar na pressão sobre o BC para que reduza a taxa. Segundo o braço sindical do PT, a CUT: “O que estraga e sangra o Brasil nesse momento é a taxa de juros criminosa praticada pelo Banco Central”. Ou “Vamos fazer manifestação na frente do BC, para iluminar as cabeças”, segundo o braço sindical do PDT, atual controlador do Ministério do Trabalho e dos fartos recursos do FAT, a Força Sindical. Manifestação na porta do Banco Central com direito à UNE.

      Há uma retomada do antigo discurso esquerdista sobre os males do mundo serem todos originados no capitalismo e em particular nos capitalismo financeiro. Nessa leitura, compactuada por Mantega e, provavelmente por Dilma Roussef, o Banco Central é o lugar onde o crime se realiza. Algo assim: Um conluio entre dirigentes do BC e os agentes dos banqueiros numa conspiração em favor desses últimos. Nessa leitura subir ou baixar juros da taxa Selic é uma decisão originada na vontade dos dirigentes do BC.

      Seja como for o circo está montado e o governo se sentirá docemente constrangido a exigir que o BC baixe suas taxas consumando o velho sonho nacional-desenvolvimentista, que nesse caso não tem cor, pois também era esse o projeto de Serra, de controlar o BC a partir do Ministério da Fazenda.

      Não é difícil imaginar que logo entrará na ordem do dia o questionamento do pagamento da Dívida Pública, não mais apenas a externa, mas toda ela, tendo em vista que os acordos teriam sido manipulados.

      Estamos cumprindo um ciclo já conhecido em outros países e aqui mesmo no passado. Primeiro nós gastamos, sem preocupação de entender que a partir de certo ponto o gasto público acaba gerando inflação. Mas o governo não pode parar de gastar, pois entre nós o gasto é utilizado como instrumento permanente de negociação de maioria. Entre nós o gasto está diretamente ligado à permanência no poder. Foi assim em 2010. E foi assim, com o caixa aberto, que choveram aliados e Dilme se elegeu. O segundo problema é quando o gasto excede a arrecadação. Foi assim com o BNDES que, primeiro para “combater” a crise e depois para garantir as eleições, recebeu do Tesouro Nacional algo por volta de R$230 bi sem que houvesse recurso a não ser criar Dívida Pública. Com efeito toda vez que o governo gasta mais do que arrecada necessariamente está criando Dívida Pública.

     Enfim, embora politicamente seja muito produtivo, pois coloca o boda na sala, acusar o BC é muito bom, mas ele não tem nada a haver com isso. Em situações em que a política fiscal é usada como forma de barganha a política monetária é “reativa” e não ativa. Há todo um sistema de pesos e contrapesos na política econômica de governo visando o controle da inflação. O BC pode até ter uma leitura mais “ortodoxa” e pautar para que a inflação não vá muito além da meta fixada, tendo uma política mais reativa e aumentando a taxa Selic com mais freqüência ou pode, como agora, ter “maior tolerância”. O que estamos presenciando agora: A “maior tolerância” já leva a inflação para o ponto mais alto da faixa de oscilação. Primeiro 2011 bateu no teto, mas 2012 “estava sob controle”. Agora 2012 também baterá no teto, mas 2013 “está sob controle”. Provavelmente logo, 2012 é ano eleitoral, 2013 também estará batendo ou passando o teto.

      O grande problema com a inflação, na realidade, são dois grandes problemas:
A partir de certo ponto ela fica fora de controle. Historicamente nós mesmos temos diversos exemplos e todos sabem ou leram onde foi terminar o processo: A hiperinflação.
A inflação é especialmente maléfica para os mais pobres. Argumentos de indexação jamais resolveram o problema da inflação. Apenas aceleraram o processo.

      Enfim, se o BC não é o diabo e muito menos o lugar onde criminosamente agentes públicos estão em conluiu com os banqueiros capitalistas, então onde está o problema?

     Certamente ele vai estar numa retomada da leitura eminentemente populista de desmonte dos mecanismos de Estabilidade e de retomada da lógica de irresponsabilidade fiscal, jogando o problema no colo do futuro.

      Por enquanto a palavra de ordem é “combater a crise” e garantir o nível de emprego. Não políticas econômicas plásticas. Só há uma saída: Para frente e para cima. Num mundo sem inflação e sem dívida pública até que seria uma boa solução.

      De momento o que dá para imaginar é que ao reduzir a taxa de juros o BC irá gerar mais estímulos à economia e assim teremos maior pressão sobre a inflação. O jogo da Mantega se baseia na previsão de que há uma tendência à queda da inflação. Nesse momento se o BC reduz em 0.25 a taxa Selic não é muito, mas será uma vitória política que certamente será capitalizada pelo governo na mídia. Criando finalmente um dado diferente, fugindo de todo o desgaste dos últimos meses. No final do dia a redução natural do ritmo somada ao estímulo acaba gerando uma economia levemente estimulada e poderá ocorrer uma permanência do ritmo inflacionário. Vamos dizer que a a diferença entre a inflação que poderia haver e a inflação que haverá é um custo político facilmente absorvível pela “vitória” obtida em dobrar o BC e dar uma resposta ao conluio crimonoso com a banca.

      O único problema dessa lógica eminentemente populista, além do flerte com o abismo, é que tudo muda e nada muda.
As centrais sindicais chapa-branca, mais o movimento estudantil chapa-branca, que estão ai criticando o conluio criminoso do BC até aqui não criticaram o juros que se cobra no financiamento dos bens de consumo. Eles seriam menos “criminosos” do que a Selic? Também não criticam os juros pagos pelos empresários para alavancar os negócios que geram os empregos que pagam o imposto sindical que sustenta as Centrais. Um e outro são resultado direto do sistema bancário brasileiro, fortemente oligopolizado. Os sindicatos dos bancários, todos controlados pelas centrais chapa-branca silenciam. Então, como fica? Quando é o BC que reaje aos gastos quase descontrolado é crime, mas o sistema bancário oligopolizado, com todo o beneplácito e estímulo dado por Lula em seus oito anos, não é “crime”? Também não é crime o governo até agora não ter sido capaz de regular o financiamento privado de longo prazo? Ou será porquê é mais interessante para os bancos viver dos juros escorchantes cobrados o consumidor? E isso não é conluio? O BC está errado e o governo está certo? São questões que não cabem na lógica oportunista do populismo.

      Há espaço para políticas mais arriscadas, afinal? Ou tudo isso quer dizer que fora dos mecanismos formais de Estabilidade não há saída?

      Mecanismos formais de Estabilidade são mecanismos e não políticas públicas pontuais. São instrumentos que buscam viabilizar um ambiente mais previsível para a execução dessas políticas. A questão mais relevante está é nas políticas propriamente ditas.

     Agora mesmo o governo comemora a vinda de uma montadora chinesa de veículos para o Brasil, quando, se fosse o caso, deveria estar buscando comemorar a criação de uma montadora nacional, com tecnologia nacional. É evidente que receber linhas de montagem gera empregos, mas é evidente que a parte do leão está na propriedade do conhecimento criando e não no veículo propriamente. Esse é um debate que remete diretamente ao modelo de desenvolvimento atual. Se as Centrais estivessem tão interessadas realmente estariam questionado é esse modelo desenvolvimentista dependente. É esse o melhor nome. O Brasil apenas mudou o parceiro. De americanos para chineses não mudou mais nada. Continuamos sendo exportadores de commodities sem qualquer tipo de valor tecnológico agregado. Continuamos a consumir bens de consumo importados. Não será uma política protecionista que só favorece os acionistas das empresas que resolverá isso. É preciso uma mudança de fundo e ela só virá se mudar a lógica de desenvolvimento.

      Por enquanto, e pelo resto da vida, é mais produtivo não discutir nada disso. Até porque um novo modelo de desenvolvimento coloca em cheque as atuais alianças de poder. Essa simbiose profunda do Capitalismo de Estado brasileiro, envolvendo os setores patrimonialistas, fundos de pensão via sindicatos, empresários nacionais beneficiários dos favores de governo, os diversos oligopólios aceitos e estimulados pelo governo como legítimos, agentes públicos, vai muito bem obrigado. Nossas Elites nos seu diversos formatos serem foram bem. Podemos não se tão bons e desconcentração de renda ou redução da desigualdade, mas somos muito bons em formar riquezas individuais. É só procurar saber quantos brasileiros estão entre os 100 mais ricos do mundo.

     Políticas heterodoxas são erradas? O economista americano Dan Rodrik acaba de publicar um extenso trabalho comparando as economias latino-americanas, africanas e asiática. Nele, usando séries históricas de  Renda Per Capita como referência ele mostra que:
a) Há uma convergência histórica entre a renda per capita das economias emergentes em relação às economias avançadas, mas apenas em uma situação específica que envolve o que ele chama de indústrias convergentes;
b) Que, portanto, essa convergência é diferenciada dentro do grupo das economias emergentes;
c) Que enquanto as economias asiáticas estão em regime de convergência acelerada as economias da África e da América Latina caminham em passo bem mais lento e até mesmo retrocederam com relação ao período pós-guerra, pelo que ele denomina de estruturas de mudança redutoras de crescimento.

     Dan Rodrik debita isso ao fato dessas economias africanas e sul-americanas terem seguido rigorosamente os manuais de boas práticas. O eu não foi feito pelas asiáticas. Na leitura de Rodrik políticas excessivamente ortodoxas travaram o desenvolvimento na região. Não é errado pensar assim. Provavelmente políticas mais heterodoxas seriam melhores. Na questão do protecionismo, por exemplo, há fortes evidências de que os países desenvolvidos usaram e abusaram dele para garantir suas indústrias. Em parte essa é a lógica que move o atual governo. Experimentos heterodoxos.

      Onde, a meu ver, Rodrik e o atual governo falham é que não adianta executar movimentos heterodoxos se o modelo de desenvolvimento não mudar. Por exemplo, a atual coalizão de poder compõe com os oligopólios bancários, os primeiros interessados em manter a alta estrutura de juros nos empréstimos ao consumidor e a não investir em financiamento de longo prazo. Sem financiamento sustentável de longo prazo aonde chegaremos?




    Rodrik chama de “growth-reducing”, “redutoras de crescimento”, as estruturas que, segundo ele, se confirmaram na América Latina e África, entre 1990 e 2008. Basicamente envolvendo um movimento das atividades de alta produtividade para os serviços de baixa produtividade e informalidade. No caso brasileiro vivemos um processo parecido, não tão radical, mas bem parecido. Somos fortemente exportadores de commodities, dedicados à indústria de manufatura, mas pouco voltados para intensificação do uso da produtividade pela via da criação de conhecimento. Nosso mercado interno se sustenta mais pela oferta de crédito do que pela renda. E, finalmente, os números da População Economicamente Ativa mostram uma lentíssima transição da informalidade para a formalidade. Cerca de 49% de nossa PEA ainda é de setores informais. Há evidente conexão entre baixa produtividade e informalidade e essa talvez seja a explicação mais forte para as nossas taxas históricas de crescimento estarem tão abaixo das taxas históricas de crescimento de outros emergentes.

     Se nosso conceito de desenvolvimento não estiver focado nesses aspectos dificilmente chegaremos a níveis de crescimento mais acelerado e sustentáveis no longo prazo. Naquilo que Rodrik chama de “convergence industries”, ou industrias geradoras de convergência. Referindo-se a convergência da renda per capita entre enmergentes e os países desenvolvidos.




      Enfim, ao invés de flertar com o retorno do populismo, onde todos os nacional-desenvolvimentistas de todos os matizes políticos irão se encontrar, instrumento verdadeiramente útil para ocultar os fatos reais e manter a estrutura de poder, as Centrais talvez devessem estar preocupadas com o emprego sustentável no longo prazo, esse sim promotor das melhorias, o que implica em questionar diretamente o atual modelo de desenvolvimento e tudo o mais que está conexo a ele, inclusive a estrutura do atual consórcio de poder da qual elas são parte integrante.




Demetrio Carneiro

sábado, 27 de agosto de 2011

NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO FLERTA COM O ABISMO

      Há todo um estudo sobre as chamadas Falhas de Governo. Uma das mais badaladas e a falta de controle sobre os resultados das Políticas Públicas. Quer dizer, é fato que o gestor não controla todos os resultados das políticas que implementa.

      No momento em que o governo decide usar o corte dos juros básicos como um instrumento a mais de Política Pública Midiática, vamos assumir que há a política pública para valer e a política pública para "inglês ver" há, é a meu ver, um perigosíssimo flerte com o abismo.

      Estamos vivendo a glória do nacional-desenvolvimentismo. Dilma não faz nem melhor, nem pior do que Serra dizia que faria. fixou um piso de crescimento e relativizou o controle da inflação. No teto da meta ela oficialmente está "controlada". Agora cumpre sua promessa de campanha e, para o bem ou para o mal, reduzirá o juro básico da economia "no muque".

      O nacional-desenvolvimentismo vive uma forte ilusão sobre ser isso que fazem "desenvolvimento" quando na verdade não se trata mais do que uma acomodação à nova distribuição de trabalhor e poder na economia internacional.

      Hoje apenas confirmamos nosso papel periférico, agora com a China. Da mesma forma a ilusão com relação a criar um mercado interno a partir da concessão de crédito, sem criar possibilidades de renda sustentável e crecente. Espero que todos concordem que assistencialismo estatal não é renda sustentável e crescente...

      Agora, satisfeitos em suas ambições estratégicas avançam sobre as escolhas dentro do debate distributivo. Já ajeitaram o gasto. Negado na teoria e executado na prática, a vida segue.
      Ajeitaram o dilema entre controlar a inflação e gastar mais, não controlando a inflação.
Agora vão ajeitar o dilema entre custos da polkítica pública e juros, baixando por decreto os juros. É não tem outro nome. É uma forte crença entre os economistas nacional-desenvolvimentistas que os juros básicos do mercado podem ser controlados desde a vontade do gestor na Presidência e na Fazenda.

      Resta ao Bc "fazer-o-que-seu-dono-mandar". Nosso problema é que não estamos numa brincadeira de crianças.

      Delfim, o guro lulo-petista flertou com a inflação. Lembram que ele, além de aconselhar dividir o bolo depois, aconselhava que uma inflação de 1% ao mês era "saudável"? Bem, todo mundo ou lembra ou já leu aonde isso foi dar...

      É de se imaginar que Dilma precisa muito de "novidades" agora que entregou, em nome da sobrevivência política, os pontos na luta contra a corrupção e o patrimonialismo. Não estamos frente a uma escolkha econômica, mas política.

      Sem dúvida pensam nas políticas heróicas de JK no Plano de Metas ou dos genarais da ditadura do IIº PND, que remaram contra a maré e investiram onde o recomendável era recolher os flaps. Imaginam que a história sempre se repete e, certamente, já sonham com os discursos nas campanhas de 2012 e 2014. Vamos torcer para que estejam certos, pois se estiveram errados quem pagará a conta serão todos, mas principalmente o "povo" que eles dizem defender, pois períodos de alta inflação são especialmente maléficos `s baixas rendas.

       Vamos acompanhar.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A GENALIDADE DOS GÊNIOS: INFLAÇÃO E CÂMBIO

A reação do câmbio mostra que as medidas que o governo possa adotar na área cambial não “resolvem” a apreciação do real. Emparedado pela nossa evidente incapacidade de formar poupança interna suficiente e tentado pela vasta e historicamente rara oferta de abundantes capitais internacionais o governo parece ir arquivando o discurso nacionalista de proteção da indústria nacional. Parece que a decisão é ir diretamente o ponto e discutir com os chineses o problema da “invasão oriental” em solo pátrio. As autoridades chinesas por sua vez vão dando sinal de compreender os insistentes recados da comunidade internacional. O que se entende, pois a gritaria é geral. O Brasil por sua vez é não é apenas consumidor de produtos chineses. É fornecedor da commodities estratégicas e talvez tenha posição de força para criar fatos que podem obrigar a China a ter um certo cuidado com as consequências de sua invasão.

Talvez, também fosse a hora do governo Dilma falar sério e apresentar propostas estruturantes na área de formação de poupança e institucionalização do financiamento de longo prazo à partir do jogo privado, por exemplo. O argumento do uso do BNDES para tudo que se trata de financiamento está vencido e é evidentemente inflacionário, sem contar o prejuízo no bolso do contribuinte em termos de custo tributário. Deve ser muito legal para o nacional-desenvolvimentismo ficar festejando o papel pró-ativo do Estado no crescimento brasileiro, mas está na hora de crescer e perceber que a feste tem um custo que vai na direção inversa da proposta final que seria o bem estar do povo brasileiro. Infelizmente a ideologia costuma deformar com muita eficiência a visão das pessoas, como diria o Althusser.

É por ai, mas não apenas, que estas coisas se ligam: Carência de recursos de investimento para um uma país que deles necessita desesperadamente para aproveitar uma dada janela de oportunidade. Na ponta do câmbio tem a apreciação e na ponta da inflação o gasto como instrumento de crescimento. Somando aqui a teoria do piso mínimo poderemos ter uma mistura explosiva. Mesmo que o governo esteja meio que deixando as coisas andarem no câmbio, talvez parte do governo não quisesse mesmo. A chamada de ontem tinham tons de anúncio sensacional, a leitura política de um piso poderá trazer novos problemas. O IPCA continua firme na sua trajetória de ruptura da banda superior e logo vai transformar em poeira o argumento da flutuação admissível dentro da banda. Para baixo e para cima segunda as esperanças de Mantega. Além do horizonte, em 2012 as coisas também não andam nada bem.

Como ressaltou Dilma, não existe inflação gerada pela pressão da demanda devido ao excesso de recursos disponibilizados. Como disse Mantega este papo de teto de produção é furado. A depender do governo a culpa da inflação está em outro lugar, fora do Brasil, por exemplo. Portanto que culpa eles têm se a natureza e o mundo conspiram contra o país?
Com tal quantidade de gênios espertos na economia estamos bem arranjados.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 15 de março de 2011

AFINAL O "NOVO" BANCO CENTRAL

Alguns setores petistas andam comemorando o que chamam de “novo” BC, cuja marca principal seria o fato de não ser tão impressionável quanto ao desempenho da inflação.

O Mantega tem repetido insistentemente ao longo dos últimos anos que a política de metas não trabalha entorno do centro, mas dentro da banda.

Alguns economistas defendem que o olhar de médio prazo, para além deste semestre ou de longo prazo, para além deste ano, deve poder orientar melhor a política de alta da taxa Selic. A se saber esta também é a posição dos atuais dirigentes do BC.

Por seu lado outros economistas comentam que ao agir assim o BC pisa em gelo fino. Bem no gelo você pode derrapar e se ele for fino com água por baixo o tombo não termina no chão e as luxações podem ser o teu menor problema, pois você pode é morrer afogado por hipotermia. A nossa hipotermia seria a conhecida estaginflação. Inflação em alta num ambiente de redução da velocidade de crescimento.

Certamente há problemas de confiabilidade nos agentes públicos, conforme disse o Padovani ou de fortes contradições dentro e entre as diversas políticas, como disse o Tony. Ambas as questões com forte impacto nas expectativas e possibilidades de crescimento num ambiente internacional também tendendo às complicações.

Agora a questão do Japão e do quanto poderá impactar o lento processo de retomada acrescenta outra variável complicadora. No que interessa a nós trata-se de observar, adicionalmente, como o acidente irá influir na questão das commodities.

De uma forma ou de outra os dias vão se passando a o governo vai tomando um formato. Mesmo que a estratégia de olhar para além do horizonte de 2010 esteja correta já vão se desenhando outros elementos que indicam escolhas equivocadas derivadas da falta de clareza quanto aos objetivos estratégicos das políticas públicas, falta de coordenação, ainda, destas políticas, mas também de posturas claramente ideológicas como a questão do papel do Estado no processo de desenvolvimento.


Demetrio Carneiro