Mostrando postagens com marcador Adolfo S inflação no Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adolfo S inflação no Brasil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O DEBATE SOBRE A INFLAÇÃO: QUEM PAGARÁ A CONTA

      Primeiramente seria preciso esclarecer o que exatamente o governo chama de “inflação sob controle”. Aparentemente sob controle atualmente significa estar próxima ao topo superior da meta, algo por volta de 6,5% ao ano.

      Muito bem, foi uma escolha entre inflação e crescimento com implicações colaterais na relação entre a política monetária e a fiscal.

        Do que dá para se vislumbrar a inflação se manterá fora a meta em 2011, 2012 e 2013. Voltando para a meta já na segunda metade de 2013. Como ainda não passamos pelas eleições de 2012 e como a Coalizão que está no poder já deu mostras do que pensa sobre ciclo eleitoral não seria demais imaginar que a inflação venha a se manter perto do teto não só em 2013, mas e principalmente, em 2014. Outro ano eleitoral.

      Certo. Vamos imaginar que de 2011 a 2014 a inflação seja bem comportada e não passe do teto. A inflação acumulada desse próximos quatro anos chegará a cerca de 28% ou um pouco mais. Daqui para lá quer dizer uma quebra do valor real de aproximadamente um terço. O salário mínimo agora tem regras de indexação que lhe garantem correção e ganhos reais. É de se imaginar que todas as outras categorias de trabalhadores não ficarão olhando passivamente a banda passar. Hoje as Centrais Sindicais são parte do poder político ou pela participação direta de seus dirigentes no Executivo e no Legislativo ou pela capacidade de influenciar a produção de políticas. Situação diferente do passado de alta inflação quando a falta de capacidade de interferência dos sindicatos acabou deixando a conta pesar contra os salários. Para o período de 2005 a 2010, por exemplo a massa salarial parece não só ter sido corrigida pela inflação, como teve os ganhos equivalentes ao crescimento do PIB. De fato o PIB acumulado chegou a 23% e a massa salarial real cresceu 21% no período.

      Olhando assim não é difícil prever que ou teremos muito mais inflação que os 6,5% anuais ou teremos conflitos entre capital e trabalho e será inevitável que esses conflitos acabem gerando conseqüências no crescimento. Embora a leitura desse governo pareça ser a do capitalista explorador o fato é que estamos num regime capitalista e empresários criam expectativas quanto ao seu investimento e o risco sobre o retorno. Num contexto de inflação e Centrais poderosas, baseadas dentro do governo, não é difícil imaginar que a conta será coberta, pelo imposto inflacionário de uma lado e de outro pela redução da margem de lucro. A segunda situação seria relativamente uma novidade, mas a primeira é bastante conhecida. É quando o Estado corrige suas receitas sem corrigir suas despesas. Com dois ganhadores bem claros, trabalhadores e governo, só resta haver um perdedor, os empresários. Evidente que até o limite da capacidade de compra do mercado isso acará nos preços. Mas a partir desse limite acabará no desinvestimento.

       É bom registrar ainda que poderá haver um segundo e provável perdedor: A classe média urbana.

       Administrar a economia a partir da ideologia tem seus riscos.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

DILMA E O DIÁLOGO COM O PRECIPÍCIO

      Dizem que o precipício atrai as pessoas para o salto final. Dilma deveria se cuidar.

      Agora que a heterodoxia se consagrou, para a alegria de nossos queridos nacional-desenvolvimentistas, num arco que vai do Serra até o Congresso do PT, passando pela academia, claro sempre tem acadêmico procurando a luz dos holofotes, uma pergunta: O quanto ortodoxos serão nossos heterodoxos?

      Calma, eu explico:

      Vejamos assim a heterodoxia decidiu que entre inflação e crescimento o crescimento é mais importante. Por conta dessa leitura o BC, não importa tanto o que está na Ata, mas o que ocorre no mundo real resolveu também ser heterodoxo e reduziu a taxa Selic. Os sinais são inequívocos e o mercado já faz suas apostas na alta da inflação.

      Certo, qual o limite da flexibilização da taxa de juros para que o piso de 4% se mantenha? Tem sentido, pois nenhuma previsão coloca o PIB de 2011 com 4%. Até mesmo Mantega já deu uma insinuada com o seu “ao redor”. Se o a companheirada da PolíTica econômica for ortodoxa o limite da flexibilização é o momento que Dilma começar a perder pontinhos nas pesquisas. Mas, quando e se esse momento chegar será que dará para reverter? Esse é o flerte com o abismo.

     Se a companheirada da PolíTica econômica for heterodoxa talvez sejam eles sim flexíveis e voltem atrás, deixando o BC fazer o seu trabalho e retirem as política econômicas da área de manipulação ou, pelo menos, queiram manipular menos pela via dessas políticas.
A questão é saber se esse caminho iniciado semana passada tem volta.

    Então, nossos heterodoxos serão ortodoxos ou heterodoxos?

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 29 de abril de 2011

QUEM AVISA AMIGO É, COMO DIZ O DITADO

Vamos dizer que não será por falta de alertas que o governo deixará de fazer o que deve ser feito: Garantir a estabilidade da economia frente a um possível risco de alta inflacionária para além de um limite razoável, digamos assim. Mas poderá, infelizmente, deixar de agir por excesso de avaliações ideológicas pouco ou nada realistas. 

Ainda a história do gradualismo, desta feita abordado pelo Tony em matéria publicada na Folha de hoje.

Demetrio Carneiro


por Tony Volpon

Fonte: Folha de São Paulo

Na ata da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) temos a apoteose final da nova filosofia gradualista do Banco Central. Frente a um quadro inflacionário em franca deterioração, tanto em termos da inflação atual como nas próprias projeções para 2012, a maioria do comitê optou por diminuir o ritmo de ajuste da taxa Selic de 0,5 ponto percentual para 0,25 ponto percentual.

É verdade que o BC prometeu que o ajuste será "suficientemente prolongado" para que haja convergência da inflação à meta em 2012.

Mas tal estratégia de ajuste a conta-gotas, mesmo seguida à risca, deixa a economia exposta e vulnerável a choques externos ou inesperado vigor econômico doméstico.
Quais os riscos? Frente ao quadro atual, com a economia sofrendo os efeitos da aceleração da demanda do período pré-eleitoral e um choque de commodities internacional, tentar levar a inflação para a meta ainda neste ano cobraria terrível preço à atividade econômica.

Portanto um gradualismo nos resultados da política monetária é justificável. Mas não se pode confundir gradualismo de resultados com gradualismo na execução da política anti-inflacionária. O nível de ajuste atual será quase que certamente insuficiente se o quadro de alta dos preços das commodities e a queda do dólar continuarem.
E não há, até agora, nenhum movimento para responder de forma preventiva aos efeitos inflacionários do já grande aumento do salário mínimo programado para 2012. Tendo admitido que a inflação fique bem acima da meta pelo segundo ano consecutivo, o BC, por abandonar nesta reunião a regra de ouro do regime de metas- que é aumentar o nível de aperto se a projeção da inflação subir- coloca também a meta de 2012 em risco.

Frente ao ainda forte nível de indexação da economia brasileira, esse é um risco que deve ser dimensionado.



sexta-feira, 8 de abril de 2011

A GENALIDADE DOS GÊNIOS: INFLAÇÃO E CÂMBIO

A reação do câmbio mostra que as medidas que o governo possa adotar na área cambial não “resolvem” a apreciação do real. Emparedado pela nossa evidente incapacidade de formar poupança interna suficiente e tentado pela vasta e historicamente rara oferta de abundantes capitais internacionais o governo parece ir arquivando o discurso nacionalista de proteção da indústria nacional. Parece que a decisão é ir diretamente o ponto e discutir com os chineses o problema da “invasão oriental” em solo pátrio. As autoridades chinesas por sua vez vão dando sinal de compreender os insistentes recados da comunidade internacional. O que se entende, pois a gritaria é geral. O Brasil por sua vez é não é apenas consumidor de produtos chineses. É fornecedor da commodities estratégicas e talvez tenha posição de força para criar fatos que podem obrigar a China a ter um certo cuidado com as consequências de sua invasão.

Talvez, também fosse a hora do governo Dilma falar sério e apresentar propostas estruturantes na área de formação de poupança e institucionalização do financiamento de longo prazo à partir do jogo privado, por exemplo. O argumento do uso do BNDES para tudo que se trata de financiamento está vencido e é evidentemente inflacionário, sem contar o prejuízo no bolso do contribuinte em termos de custo tributário. Deve ser muito legal para o nacional-desenvolvimentismo ficar festejando o papel pró-ativo do Estado no crescimento brasileiro, mas está na hora de crescer e perceber que a feste tem um custo que vai na direção inversa da proposta final que seria o bem estar do povo brasileiro. Infelizmente a ideologia costuma deformar com muita eficiência a visão das pessoas, como diria o Althusser.

É por ai, mas não apenas, que estas coisas se ligam: Carência de recursos de investimento para um uma país que deles necessita desesperadamente para aproveitar uma dada janela de oportunidade. Na ponta do câmbio tem a apreciação e na ponta da inflação o gasto como instrumento de crescimento. Somando aqui a teoria do piso mínimo poderemos ter uma mistura explosiva. Mesmo que o governo esteja meio que deixando as coisas andarem no câmbio, talvez parte do governo não quisesse mesmo. A chamada de ontem tinham tons de anúncio sensacional, a leitura política de um piso poderá trazer novos problemas. O IPCA continua firme na sua trajetória de ruptura da banda superior e logo vai transformar em poeira o argumento da flutuação admissível dentro da banda. Para baixo e para cima segunda as esperanças de Mantega. Além do horizonte, em 2012 as coisas também não andam nada bem.

Como ressaltou Dilma, não existe inflação gerada pela pressão da demanda devido ao excesso de recursos disponibilizados. Como disse Mantega este papo de teto de produção é furado. A depender do governo a culpa da inflação está em outro lugar, fora do Brasil, por exemplo. Portanto que culpa eles têm se a natureza e o mundo conspiram contra o país?
Com tal quantidade de gênios espertos na economia estamos bem arranjados.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 15 de março de 2011

ADOLFO SACHSIDA: MUDANÇA NO SISTEMA DE METAS DE INFLAÇÃO

Em 1999, o Banco Central do Brasil adotou o mecanismo de metas de inflação. A idéia básica desse regime é de anunciar uma inflação esperada para o ano e usar a taxa de juros para manter a inflação dentro da meta. Vários países adotam tal regime; outros, como os Estados Unidos não possuem um regime explícito de metas (mas é senso comum que eles perseguem alguma meta). O sistema de metas depende fundamentalmente da credibilidade do Banco Central.
No Brasil, o sistema de metas tem uma peculiaridade: as metas são ajustáveis, ou seja, elas podem ser revistas na presença de choques adversos na economia. Isso simplesmente vai contra a ideia de uma regra. Se uma regra pode ser ajustada ao estado da economia então isso não é uma regra, é sim uma política discricionária. Políticas discricionárias têm péssimo desempenho no combate à inflação.
Opiniões pessoais à parte, vários estudos acadêmicos têm defendido o sucesso do regime de metas de inflação no Brasil. Contudo, fatos estranhos estão ocorrendo. Sem grande alarde, o Banco Central começou a dar ênfase na estabilidade de preços, e na convergência da inflação para o centro da meta, em 2012. Isso só pode significar uma coisa: o BC está se preparando para mudar o sistema de metas de inflação no Brasil. Atualmente, o BC persegue uma meta anual de inflação. O que os últimos acontecimentos parecem sugerir é que o BC pretende alargar o horizonte temporal da meta (para dois anos, por exemplo).
Do ponto de vista teórico existem argumentos defensáveis para se perseguir uma meta de inflação para horizontes mais longos de tempo. Contudo, o que não fica claro é se o BC está alongando o horizonte do sistema de metas por razões teóricas ou por questões políticas. Se o BC tem argumentos teóricos para realizar a mudança, nada mais justo do que discutir isso com a comunidade. Ao se furtar dessa discussão e optar pelo silêncio, o BC levanta dúvidas quanto ao seu compromisso com o combate rigoroso da inflação. O resultado óbvio disso é a recorrente piora das expectativas de inflação que tem marcado o ano de 2011.
O BC não tem legitimidade para sozinho alterar o horizonte do sistema de metas. Se ele quer falar sobre convergência da inflação, para o centro da meta, em horizontes superiores a 1 ano, ele deve informar claramente à sociedade que está alterando o horizonte de tempo do regime de metas. Caso contrário, cabe ao BC explicar à sociedade as causas da inflação não convergirem para a meta no horizonte de tempo estabelecido (anual).
Texto publicado originalmente em Ordem Livre