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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

DESENVOLVIMENTO E SOBREVIVÊNCIA POLÍTICA

      Por trás dos discursos ufanistas e esperançosos do governo Dilma o que realmente há? Nesse governo, paralelo a um grau mínimo de preocupação com a crise que alcança os países do Centro, fala-se muito em janelas de oportunidade. Bem, basicamente para o governo essas janelas estão no forte ingresso de capitais externos e na alavancagem do mercado interno.

      Nada mais nacional-desenvolvimentista do que alavancar mercado interno. Mas nada mais ligado à sobrevivência política os políticos no poder do que manter a qualquer custo o ritmo de crescimento do mercado. Mesmo que para isso o conceito de piso mínimo de crescimento seja mais relevante que a possibilidade de Estabilidade da economia. O governo tem flertado com o abismo e aposta que os custos de romper com as políticas de Estabilidade serão fartamente compensados em 2012 e 2014. Não há outra explicação plausível para o que vai se descortinando a partir não do discurso errático, mas das ações concretas.

      Definitivamente entre um projeto de desenvolvimento auto-centrado e sustentável e uma política de fomento de mercado interno que garanta votos, a escolha está pelo lado da sobrevivência. Sendo assim que venha o capital para financiar não nossas potencialidades de desenvolvimento, focado na produção de conhecimento, mas nosso papel secundário de exportadores de commodities ou de produtores, por representação, de produtos manufaturados. Geradores de emprego concedido por cadeias produtivas controladas de fora. Criadores de oportunidades de lucro para outros.

       Os atores políticos no poder garantem seu futuro político ao mesmo tempo que nos garantem um próspero futuro como coadjuvantes dos processos que não são nossos. A ilusão nacional-desenvolvimentista é ilusão para quem quiser se iludir.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 31 de maio de 2011

VOLPON: CHOQUE NOS TERMOS DE TROCA E A DEMANDA AGREGADA

Matéria publicada no Valor, em 26 de maio passado. Envolve uma boa reflexão sobre a influência dos termos de troca (ganhos de exportação versus custos de importação) no comportamento da nossa economia. O que ainda é um debate meio desfocado entre nós.

Demetrio Carneiro

CHOQUE NOS TERMOS DE TROCA E A DEMANDA AGREGADA

Qual o verdadeiro peso dos fatores externos para explicar o comportamento da economia brasileira? Olhando para o período pós-crise, por exemplo, se convencionou explicar a forte recuperação como fruto das políticas anticíclicas executadas pelo governo. Outra avaliação comum é atribuir a demanda interna como verdadeiro motor da economia. Enquanto todos entendem que fatores externos têm sido importantes, o fato de que a corrente de comércio se encontre abaixo de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) parece ser prova de que é no mercado interno que encontramos os fatores dinâmicos da nossa economia.
Essa visão da economia brasileira, defendida com igual ênfase tanto pelos ortodoxos como desenvolvimentistas, está errada. Apesar dos acalorados debates entre essas correntes, ambas mantêm igual crença no mito de que a força da economia brasileira surge do mercado interno. Tanto o discurso ortodoxo, que vê nos excessos fiscais e monetários a causa principal dos problemas inflacionários, como o discurso desenvolvimentista, que vê nesses mesmos fatores a razão pelo alto crescimento, erram em não entender que são os fatores externos que explicam o que temos de bom (maior demanda e crescimento) e de ruim (maior inflação e câmbio apreciado) na economia brasileira.
A melhor métrica do impacto de fatores externos sobre a economia hoje é a tendência dos termos de troca, e como esses afetam tanto a demanda como a oferta agregada por uma variedade de canais. A alta dos preços de commodities foi desde 2003 importante para melhorar a posição externa do país. Apesar de alguma melhora nos termos de troca desde 2003, foi somente em 2007 que os preços das exportações começaram a subir de maneira mais consistente que os preços das nossas importações, movimento que acelerou depois da crise. De fato, a diferença entre os preços das exportações e os preços das importações se encontra hoje mais de 25 vezes maior que a média dessa diferença desde 2000.
Tal movimento representa um fortíssimo incremento de riqueza para o Brasil que se irradia pela economia. O maior preço das nossas exportações eleva tanto a renda atual das empresas como o preço das ações.
Só se optarmos por poupar e investir vamos ter no mercado interno uma duradoura fonte de desenvolvimento
O índice Bovespa, por exemplo, subiu mais de 350% desde 2006 em dólar americano. Essa grande alta na riqueza nacional gera vários efeitos. Do lado do consumo, sabemos que este sobe com o aumento da percepção de riqueza, ou "renda permanente". Do lado dos investimentos, temos na alta dos preços das exportações o principal fator que levou os níveis do investimento estrangeiro direto (IED) subir de US$ 18 bilhões em 2006 para US$ 48,4 bilhões em 2010; e os fluxos de carteiras de US$ 9 bilhões para US$ 63 bilhões no mesmo período.
Tal fluxo, para uma economia com baixa taxa de poupança (média de 17,3% do PIB desde 2006) tem sido vital para sustentar crescentes níveis de importações sem pressionar o balanço de pagamentos: o "quantum", ou quantidade, importada desde 2006 subiu 94% enquanto o quantum de exportações aumentou somente 4,4%, o que ajudou a diminuir o efeito inflacionário da expansão da demanda agregada durante esse período. Importação de bens de capital é hoje a maior categoria dessa pauta, representando 22,6% do total.
A queda relativa dos preços desses bens em relação às commodities tem permitido um maior incremento da capacidade instalada neste período de forte crescimento. Tudo isso explica a economia consegue crescer nos níveis atuais sem romper a restrição externa (financiamento do déficit em conta corrente) ou interna (aumento descontrolado da inflação).
Há outros efeitos que não devem ser menosprezados. A melhora da nossa posição externa nesses anos, representada, por exemplo, pela alta das reservas do Banco Central de US$ 54 bilhões em 2006 para US$ 330 bilhões hoje, permite a queda de volatilidade na economia que gera forte redução nos prêmios de risco, permitindo a expansão do mercado de crédito. E, finalmente, o governo na sua função fiscal é um sócio privilegiado de todo esse processo, com suas receitas subindo de R$ 555 bilhões em 2006 para R$ 853 bilhões em 2010, permitindo um proporcional aumento dos seus gastos.
Enquanto o efeito do aumento dos termos de troca tem reconhecido papel na valorização do real, seu lugar na determinação da demanda e, portanto, no nível de juros merece igual atenção. Em recente estudo mostramos como se pode, com resultados estatísticos similares, substituir o hiato do produto em uma função de Taylor com o "hiato dos termos de troca" para explicar o nível da Selic desde 2006. De fato mostramos como um aumento de 1% no "hiato" da relação de trocas leva a Selic a subir 0,17%. Esse resultado mostra como o choque externo tem sido o fator determinante para a economia.
Essa demonstração tem, em nossa opinião, varias consequências para a política econômica. Primeiro, se a mudança nos termos de troca é a causa exógena do aumento da demanda agregada, o subsequente aumento no nível de juros e câmbio são necessários ajustes de equilíbrio. Qualquer tentativa de impedir esses ajustes via, por exemplo, intervenções no mercado de câmbio, terá efeito temporário e resultado infrutífero, causando inevitável efeito compensatório no equilíbrio geral via aumento da inflação.
De fato, a única forma de impedir uma maior pressão sobre o câmbio e a taxa de juros seria diminuir a pressão sobre a demanda por outros meios, como um menor nível de gastos fiscais e exuberância do crédito. A preocupante perda de competitividade do setor de manufaturados deve ser compensada via medidas microeconômicas, como a maior tributação do excedente de renda dos setores de commodities. Também temos que estar cientes que todos os mecanismos descritos acima que nos levaram à atual abundância podem se reverter. Somente se optarmos por não consumir, mas poupar e investir que vamos poder realmente criar as condições para que haja no mercado interno uma duradoura fonte de desenvolvimento econômico.
Tony Volpon é diretor do Nomura Securities International, Inc.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A GUERRA CAMBIAL E UMA PROPOSTA DE SOLUÇÃO

O texto abaixo foi publicado originalmente no número 29 da revista Política Democrática.
Basicamente é possível produzir uma política cambial sem sair taxando tudo e eliminando o câmbio flutuante, o que já tem muita gente achando que é a saída?
Neste pequeno trabalho, produzida a três mãos, pretendemos mostrar que há como manter o câmbio flexível e ainda assim conter a apreciação cambial.
Demetrio Carneiro

Guerra Cambial - Uma Nova Proposta - 84-88

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CAMINHO PARA O GOVERNO MEDÍOCRE?

Já antes das eleições vínhamos comentando sobre a possibilidade de um governo medíocre e suas consequências na política.

De certa forma Dilma vai caminhando para isto. O quadro geral envolve a possibilidade de perda do controle da inflação, a insistente valorização cambial vista como um mal a ser combatido imediatamente e a queda do crescimento.

De fato há uma saia justa quando o compromisso de manter o crescimento envolve uma noção de piso mínimo incompatível com o momento da economia. Mantega costuma dizer que ninguém sabe qual é realmente o teto do produto potencial, para efeito do que pode gerar um processo inflacionário mais intenso. Certamente também não sabe onde e quando parar o estímulo à demanda para garantir o piso mínimo. Talvez dai a dificuldade de reconhecer a existência de um componente inflacionário na demanda.

No discurso oficial havia um gatilho implícito nos 4%. Pois bem, chegamos lá.Agora o dilema inflação versus crescimento ficará mais explícito.
O irônico disto tudo é que a política de piso de crescimento, e o consequênte sacrifício dos pressupostos da estabilidade, poderá levar a uma perda maior do crescimento. Quando estávamos num período de crescimento garantido o dilema era entre manter o superávit ou investir em políticas públicas. O próprio crescimento, mais alguma criatividade, acabou abrindo espaço para a permanência da proposta de superávit.

Agora contexto e propostas são diferentes. A mediocridade pode estar batendo nossas portas.

Para Dilma a oposição amorfa e voltada para seu próprio umbigo é o melhor dos mundos. Bom registrar que muitos oposicionistas participam solidários da solução dilmista no dilema central "crescimento versus inflação" e devem estar tão confusos quanto ela.

Demetrio Carneiro


Para Samuel Pessôa, da consultoria Tendências, BC está mais heterodoxo e governo subestima a inflação de demanda

01 de abril de 2011

Raquel Landim - O Estado de S.Paulo
O Banco Central (BC) está se tornando mais "heterodoxo" no combate à inflação e o governo Dilma Rousseff corre o risco de "meter os pés pelas mãos". A avaliação foi feita ontem por Samuel Pessôa, sócio da Tendências Consultoria e professor do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV), em encontro com investidores em São Paulo.

Ele afirmou que está menos otimista em relação à administração Dilma. O especialista afirmava que as indicações iniciais eram de que seria um governo "fácil" e de "continuidade" em relação ao mandato de Lula.

Na sua avaliação, a presidente deveria focar em três pontos: um ajuste fiscal forte e liberdade para o Banco Central elevar a taxa de juros e manter a inflação sob controle; aumento da carga tributária para financiar a política de reajuste do salário mínimo; e investimentos em infraestrutura para conseguir promover a Copa e a Olimpíada.

"Com essas medidas, o País cresceria menos, mas a sensação de bem-estar seria mantida. Dilma chegaria a 2014 com a popularidade em alta e com chances de ser imbatível nas próximas eleições", disse Pessôa. "Mas apareceram alguns sinais preocupantes nas últimas semanas."

O principal temor do mercado é com a condução da política monetária. Pessôa está receoso com a percepção do governo de que não existe inflação de demanda no Brasil, expressa pela própria presidente Dilma, em entrevista ao jornal Valor.

Para ele, a demanda segue muito forte, impulsionada pelo mercado de trabalho robusto e pelo crédito abundante. A avaliação do governo é que a alta da inflação, que deve superar a meta de 4,5% este ano, foi provocada pelo choque de preços das commodities.

Demanda. Pessôa afirma que o nível da atividade econômica não deve ser medido pelo comportamento da indústria da transformação, que sofre com a concorrência dos produtos importados. Ele disse que a demanda das famílias está crescendo em ritmo bem mais forte.

Heterodoxo. "Agora o Banco Central também começou a ter ideias heterodoxas próprias", disse Pessôa, referindo-se às mensagens da autoridade monetária no Relatório de Inflação, divulgado na quarta-feira.

Para o economista, o sinal mais grave do novo comportamento do Comitê de Política Monetária (Copom) foi o de que "o mercado tenta cooptar o BC, com estimativas mais altas para a inflação, para forçar a alta da taxa de juros".

"Essa é uma percepção de algumas pessoas, mas não corresponde à realidade", disse. Segundo Pessôa, a pesquisa Focus demonstra que o mercado costuma "subestimar" a inflação.

Pessôa também criticou a política de intervenção do governo no câmbio, para tentar manter o dólar acima de R$ 1,60. Ontem o Banco Central atuou pesadamente e garantiu que a moeda americana fechasse com leve alta de 0,06%, a R$ 1,63.

"Não temos mais um câmbio flutuante no Brasil", disse o especialista. "É um câmbio fixo, que o governo gostaria que ficasse acima de R$ 1,70, mas estão perdendo essa briga."

Outra preocupação de Pessôa é com a intervenção do governo na iniciativa privada. Ele diz que os dois casos mais emblemáticos são o rombo no Banco Panamericano e a sucessão na Vale.

No caso Panamericano, os bancos privados concordaram em salvar o banco de Silvio Santos após pressão do governo. Na Vale, auxiliares de Dilma estão pedindo a substituição do atual presidente, Roger Agnelli.

Caindo na real

SAMUEL PESSÔA
SÓCIO DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA E PROFESSOR DO IBRE/FGV

"Não temos mais um câmbio flutuante no Brasil. É um câmbio fixo, que o governo gostaria que ficasse acima de R$ 1,70, mas estão perdendo essa briga."


terça-feira, 15 de março de 2011

BRASIL: GAVIÕES IRRITADOS RECLAMAM COM O BIG BOSS

Por Tony Volpon

Ontem, o Banco Central do Brasil (BCB) realizou a sua reunião trimestral com muitos economistas do mercado ( participantes da pesquisa Focus)  preparatória do próximo Relatório de Inflação de março. No entanto, esta reunião, ao contrário da maioria das reuniões anteriores, apresentou fortes críticas de alguns economistas que, abertamente, puseram em causa o compromisso do Banco Central no combate à inflação. Embora a maioria concordasse que a economia brasileira está desacelerando, alguns participantes mais radicais afirmaram que não se faz o suficiente para trazer a inflação de volta à meta,  ainda em 2012. Dúvidas sobre a eficácia das medidas de macro-prudencial, o compromisso com a austeridade fiscal e com o esperado  aumento de 13,5% ,ou mais, do salário mínimo para 2012 eram queixas repetidas muitas vezes. O Banco Central também foi criticado por ter, aparentemente, abandonado o objetivo de trazer a inflação para meta durante o ano corrente e pelas alterações sugeridas na composição da pesquisa Focus.
  
O Brasil é o único país no qual eu posso pensar que alguns economistas do mercado vêem como seu dever dizer ao Banco Central o que fazer ao invés procurarem prever o que o Banco Central vai realmente fazer. Culturalmente (e falo isso como um brasileiro) a maioria dos economistas do mercado gostam de fazer um  “Monday morning quarterbacking”*, da mesma forma a maioria dos brasileiros acha que eles seriam melhores treinadores do alardeado plantel de futebol do país.

Por conta dessas tendências culturais, devemos ainda acrescentar dois conjuntos de fatores agravantes:
 Em primeiro lugar, a partir de uma perspectiva normativa, muitos analistas locais simplesmente não concordam com as recentes alterações introduzidas pelo novo governo no mix de política macroeconômica.
Em segundo lugar, tanto o governo como o Banco Central precisa tornar mais claras as mudanças políticas que estão sendo planejadas e, de fato, concluí-las.
O mix do regime no Brasil também mudou. .
Simplificando um pouco as coisas, nós tínhamos o seguinte mix no governo Lula:

1. Uma política fiscal e creditícia frouxa;
2. Política monetária e cambial apertada;

Agora com o Presidente Dilma:
 
1. Uma apertada, mas nem tanto, política fiscal e uma política creditícia pela via das medidas prudenciais;
2. Menor dependência da Selic e da apreciação cambial para controlar a inflação.
 
Além disso, essas mudanças têm um maior grau de coordenação e coerência entre políticas agora do que durante o período Lula.
 
Alguns economistas não concordam com essas mudanças. Enquanto a grande maioria dos economistas de mercado não são fãs da política fiscal frouxa do período de Lula (ainda que mais aceita como uma necessidade no rescaldo da crise financeira), o claro direcionamento da inflação pelo instrumento da política de taxa de juro é visto por muitos como uma virtude. A maioria não aceita o argumento de que a articulação política de Lula levou a uma valorização enorme e perigosa da moeda, e que a decisão política tomada pelo novo governo mudou a combinação de políticas para diminuir a pressão sobre o Real.
 
Reconhecemos que a articulação política atual é mais complexa do que se deu no governo anterior. A execução desta combinação das complexas políticas atuais é o que governo escolheu para lidar tanto com a valorização do real, como as maiores taxas de política real do mundo. Em segundo lugar, a coordenação entre as políticas é muito importante e a necessidade de olhar tranversalmente as áreas políticas e fazer julgamentos informados é talvez a principal lição da crise financeira.
 
Mas a maior complexidade pode criar riscos que o governo e o Banco Central deveriam ter em conta. Por exemplo, o impacto real das políticas macro-prudenciais é difícil de estimar, dada a capacidade do sistema financeiro para ultrapassar as medidas (algo desse tipo está acontecendo no mercado de câmbio, com os bancos locais formando dívidas de curto prazo para contornar os recentes limites impostos sobre as posições pontuais de curto prazo).
 
Em nossa opinião, o Banco Central deve abordar esta incerteza, errando para mais no lado da cautela e impondo medidas mais eficazes para reduzir o crescimento do crédito. Acreditamos também que o governo deve caminhar para um regime fiscal de longo prazo que iria retirar a tentação política de estimular a demanda nos períodos próximos as eleições, como se estimulou em 2010. Esperemos que qualquer novo regime possa usar, como alvo, outra coisa além da medida fiscal primária, que, infelizmente, perdeu toda a credibilidade dada aos truques contábeis sucessivos utilizados pelo governo para "acertar" esta meta ao longo dos últimos dois anos.O governo também precisa lidar com a "super indexação" do salário mínimo, que será um importante desafio em 2012.
 
O Banco Central também deve ser mais direto em seus objetivos. É claro que não há apoio político para o tipo de aperto monetário que seria necessário para trazer a inflação para meta no ano calendário de 2011. O horizonte político efetivo é de 2012. Sendo assim, o Banco Central deve indicar isso claramente, e não através de atas habilmente redigidas, mas com uma linguagem opaca.
 
Os falcões infelizes estão certos em muitos pontos, mas assim é o governo e o Banco Central. O regime político mudou, e nós acreditamos na direção certa. No entanto, o governo tem muito mais trabalho a fazer, especialmente no lado fiscal. E o Banco Central tem que clarificar as suas reais intenções.

* Nota de tradução (DC): Termo informal, americano e canadense, que se refere à pessoas que gostam de opinar após os fatos, de forma retrospectiva, sugerindo outras opções.



quarta-feira, 9 de março de 2011

DEPOIS DO CORTE E DO CONTRA-CORTE CÂMBIO VOLTA A INCOMODAR O GOVERNO

Dólar abaixo de R$ 1,65 desafia BC

Fonte: Valor Econômino

Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | De São Paulo

09/03/2011

Depois de um período de trégua, o clima de guerra cambial pode voltar ao ar. A queda da moeda americana na sexta-feira para o menor nível desde agosto de 2008, rompendo o suporte de R$ 1,65, tem tudo para mobilizar o governo que, por semanas, deixou de ameaçar o mercado com novas medidas. A taxa de câmbio não desvalorizou como o governo esperava, mas também não derreteu apesar do fluxo de capital, que engordou as reservas internacionais para US$ 310 bilhões. E volta à pauta depois de o mercado ter mergulhado em discussões sobre política monetária, gerenciamento de expectativas inflacionárias e a consistência do ajuste fiscal. Mas, na opinião de especialistas, o governo poderia encarregar o cenário externo de ajustar o mercado cambial.

A perspectiva de alta dos juros no Hemisfério Norte deverá, em algum momento, corrigir o excesso de fluxo de capital que tem enfraquecido o dólar mundialmente para economias emergentes e para o Brasil. Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, esse cenário deve elevar a taxa de câmbio para R$ 2,00 no fim de 2012. Inês Filipa, economista-chefe da Icap Brasil, compartilha dessa opinião, mas projeta real mais forte ao final do ano que vem: R$ 1,73.

O dólar vinha travado no patamar de R$ 1,66 desde o final de dezembro mesmo com fluxo muito forte de recursos externos. Mas na sexta-feira caiu a R$ 1,645, apesar das sucessivas intervenções do Banco Central, e disparou sinal vermelho no mercado, que vem contabilizando pesadas compras de dólar pela autoridade monetária no mercado à vista, além das intervenções com swaps reversos e operações a termo. A ação vigorosa do BC, basicamente mantendo um piso de preço para negociação da moeda, também incentivou analistas a considerarem que a taxa de câmbio está em linha com o cenário atual, de inflação corrente forte, expectativas de inflação aceleradas e perspectiva de aumento da taxa de juros no mundo desenvolvido. "O entorno externo torna o câmbio mais preocupante e justifica que o governo tolere uma taxa um pouco mais apreciada", afirma o diretor do grupo de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos.

O Banco Central Europeu (BCE) acenou na semana passada com a possibilidade de alta do juro já para abril. Da mesma forma, o juro americano terá de ser normalizado nos próximos meses. Ainda que boa parte dos especialistas acredite que, nos EUA, a alta da taxa só virá em 2012, o mercado deverá reagir antecipadamente a esse fato. "Isso tudo significa que o Brasil pode ficar menos atrativo em termos relativos, o que pode levar a uma desvalorização do câmbio", afirma Ramos, que admite que sua projeção de R$ 1,70 para o dólar no fim de 2011 deverá ser elevada diante desse ambiente. "Há algum risco de que o câmbio possa se deslocar", afirma Ramos. Ele observa ainda que, se essa alta ocorresse no ano passado, seria algo que deixaria o governo contente. Mas, diante da alta dos índices de inflação doméstica, essa situação é preocupante.

O executivo do Goldman Sachs alerta que o Brasil precisa estar preparado para uma eventual reversão desses fortes fluxos, uma vez que é dependente de capital externo para financiar a conta corrente. "Diferentemente da Ásia, o Brasil tem uma situação de dependência do capital externo", completa.

Para Tony Volpon, estrategista da Nomura Securities, ainda que o BC não tenha abandonado a decisão de enxugar o excesso de fluxo, ele parece ter desistido do esforço de levar à casa de R$ 1,70. Essa mudança se deve, em sua opinião, à percepção de que o BC está "aceitando a imposição dos fatos". "A única coisa que afeta o câmbio são os termos de troca, que hoje continuam contribuindo para a valorização do real", explica Volpon, referindo-se à alta das commodities. Para ele, entretanto, a ação dos bancos centrais mundiais deve levar à reversão desse processo de valorização dos preços e, portanto, pode contribuir para interromper a queda do dólar aqui.

"Além disso, em um momento em que o investidor tem a perspectiva de crescimento maior de sua economia, a tendência é que seu dinheiro volte para lá. É bom lembrar que investir em mercado emergente não é um processo natural", afirma Volpon.

O esforço que o governo tem feito para conter a apreciação do real não é pequeno e foi capaz de ao menos limitar a volatilidade da moeda. "O que acaba atraindo ainda mais capital", lembra Volpon.

As aquisições de dólar pelo BC neste início de ano estão nas máximas históricas, sendo superadas apenas por calendário inédito pautado pela capitalização da Petrobras em setembro passado. Dados parciais do mercado cambial no primeiro bimestre deste ano, até 25 de fevereiro, apontam compra média diária pelo BC de US$ 380 milhões - nível de atuação semelhante à marca superada pela média diária de US$ 512 bilhões de setembro de 2010. O IOF alentado já levou à retração do fluxo de capital estrangeiro para a renda fixa local em novembro, dezembro e janeiro, mostram dados mais recentes divulgados pelo BC.

"Se havia alguma dúvida sobre o IOF como instrumento de restrição aos fluxos de capital, ela deixou de existir", comenta Darwin Dib, economista do Itaú Unibanco e especialista em operações cambiais. Ele lembra que o fluxo líquido de investimento estrangeiro para a renda fixa local oscilava em torno de US$ 1,9 bilhão nos meses precedentes a outubro passado. E, após as duas elevações do IOF, o fluxo reverteu para zero em novembro, passou a US$ 200 milhões negativos em dezembro e a US$ 500 milhões também negativos em janeiro deste ano.

O economista do Itaú Unibanco pondera que o câmbio havia saído dos holofotes nas últimas semanas porque a taxa estava extremamente estável em termos nominais, reforçando a ideia de que o BC está, sim, bem disposto a evitar a apreciação da moeda. Fernando Rocha, economista-chefe da JGP, concorda com Dib. Mas considera possível uma mudança de tendência de apreciação em 2012. "Em algum momento os juros subirão lá fora e quando isso ocorrer haverá mudança no fluxo de capitais, afetando o Brasil", avalia.

Felipe Tâmega, economista-chefe do Modal, viu na estabilidade relativa da taxa de câmbio um sinal de que ela estaria próxima dos fundamentos citados pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, quando foi sabatinado no Senado. "Quando questionado sobre o dólar, Tombini foi direto. Disse que o câmbio continuará flutuando e seguindo os fundamentos. Para nós, isso significa que o BC deve utilizar um modelo de avaliação para captar o valor justo da taxa de câmbio", afirma. Ele diz que um dos modelos de médio e longo prazo do Modal aponta para taxa entre R$ 1,68 e R$1,69. "Portanto, não muito distante do que estamos hoje", explica.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera que o governo parece ter percebido que não dá para fazer mágica quanto à tendência de apreciação da moeda. "Essa questão só se resolve por algum desbalanceamento estrutural na conta de capital e/ou na conta corrente. A conta de capital pode ficar mais complicada este ano em função da mudança de política monetária nos Estados Unidos e/ou o petróleo no Oriente Médio. A conta corrente vira um problema quando o déficit em conta corrente começar a ficar muito elevado, o que ainda vai levar um tempo. Assim, como está fora da alçada do governo, ele deveria tentar mudar a parte estrutural dos custos das empresas: custo trabalhista, tributário e de infraestrutura menor. Mas não há nada efetivo e de qualidade nesse sentido. Portanto, a indústria vai ter que continuar apanhando do câmbio ainda"

domingo, 14 de novembro de 2010

BC: RISCOS PARA A AUTORIDADE MONETÁRIA

Por mais que pessoas do BC procurem arrumar explicações a instituição sai do evento do PanAmericano bastante chamuscada.
Péssimo, já que o BC é a autoridade monetária do Brasil.

O governo Lula consegue bater o recorde de desmoralização das instituições. Só nos últimos meses foram problemas graves na Receita Federal, Presidência da República, Petrobras, Caixa Econômica Federal e, agora, o BC. Sem contar os sucessivos ataques contra o TCU e o total desrespeito às decisões do TSE. Os sucessivos ataques à liberdade de opinião e a criação dos conselhos de controle da mídia podem ter a mesma leitura.
Nunca é demais lembrar que a desmoralização das instituições públicas é uma bela forma de aplainar o caminho para o autoritarismo.

De outro lado é mais um argumento para quem vê no BC um obstáculo a ser removido e acabará fatalmente vinculado a um discurso que já existe e vincula a política monetária aos interesses dos banqueiros. Enfim, depõe contra a autonomia do banco num momento bastante complicado das políticas econômicas para o próximo governo.

Demetrio Carneiro



Fonte: Reinaldo Azevedo

Por Leonardo Souza e Mario César Carvalho, na Folha:
O Banco Central encontrou o primeiro indício concreto de desvio de dinheiro no PanAmericano. Um único cliente pessoa física recebia mais de R$ 120 milhões de rendimento por ano numa aplicação na instituição, a taxas muito superiores às de mercado. Técnicos do BC suspeitam que os juros do investimento eram inflados artificialmente para camuflar a saída dos recursos. Não se sabe ainda se o cliente está envolvido no suposto esquema. O titular da aplicação é o empresário Adalberto Salgado, de Juiz de Fora (MG). Ele mantinha R$ 400 milhões num CDB (Certificado de Depósito Bancário) do PanAmericano, que o remunerava a mais de 30% ao ano. O BC já havia identificado problemas na contabilidade, mas não tinha indícios de desvio de dinheiro.

O CDB é um instrumento usado pelos bancos para captar recursos. O investidor empresta dinheiro ao banco e recebe juros baseados no CDI -taxa cobrada nas transações entre instituições financeiras. O CDI segue a taxa básica da economia (Selic), hoje em 10,75% ao ano. Em sua aplicação, o empresário obteve 20% ao ano de retorno mais o total do CDI -cerca de 30,75%. O prazo da aplicação é de cinco anos.

(…)
A descoberta de uma aplicação tão extravagante só após a intervenção é um indício de que a fiscalização do BC cometeu falhas graves no caso do PanAmericano. Segundo dois especialistas ouvidos pela Folha, sob a condição de que seus nomes não fossem citados, a fiscalização deveria ter notado o CDB, no mínimo, pelo risco que o pagamento de juros tão altos significaria ao banco.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

NO OUTONO AS FOLHAS CAEM, MAS A SELIC VAI SUBIR

Abril é outono, embora o outono brasileiro não seja exatamente bem definido, ainda assim, no nosso imaginário é o mês em que as folhas caem das árvores. Mas apenas as folhas deverão continuar caindo...

Abril continua sendo o lugar da inflexão da curva da Selic. Preventivamente, digamos assim, o sistema bancário já reajusta para cima suas taxas, principalmente no crédito às empresas. No mercado a retomada do emprego, aumentando o potencial de demanda, é vista como um elemento a mais de pressão sobre a Selic.

Política econômica responsável nunca foi fácil, principalmente quando as condições estruturais ajudam muito pouco. Incapacidade de investimentos de médio e longo prazo, inconsistências na construção de políticas de estímulo à poupança que possam reverter como investimento. Resultado: O produto real sempre oscila muito perto do produto potencial, condição de pressão inflacionária.

No conceito de política econômica populista é mais simples ampliar a faixa de variação da inflação. Ou seja reações mais lentas das autoridades monetárias na lógica de que um pouco a mais de inflação viabilizando um pouco a mais de crescimento é melhor para o país.
Outros grupos mais radicais e que entendem menos ainda da economia, preferem “segurar” a Selic por decreto, imaginando que o Estado tem poder, que não tem de fato, de controlar os juros reais.
Outros, mais radicais ainda, afirmam que é tudo coisa neoliberal e que não precisa ter qualquer grau de preocupação com inflação, pois o importante é o crescimento que minorará as questões da desigualdade.
Olhando para a política nenhum desses grupos olha para onde realmente deveriam olhar sem estivessem autenticamente interessados nas soluções dos problemas de nosso desenvolvimento: Para a questão estrutural.

As políticas públicas brasileiras têm um longo histórico de atuação ineficiente frente ao processo inflacionário e o impacto disso na distribuição de rendas está ai nos livros para quem não for incapaz de ler, não por analfabetismo, mas por questões ideológicas e culturais. Contraditoriamente os que criticam a política monetária da estabilidade são os mesmos que criticam a concentração de renda. Na prática estão muito próximos, e não por acaso, de Delfim Netto, aquele que defendia “uma pouco mais de inflação”, mas já alertava que o bolo teria que ser dividido depois. Nesse ramo não há coincidências.

Então ficamos assim. Lula passou todo o ano de 2009 afirmando que a Selic não podia subir. Aliás, mirando a Selic como “responsável” pelo custo do crédito. A taxa administrada pelo BC seria ela a culpada de nossos males, pois o custo de financiamento das empresas nacionais é muito alto. Concentração bancária patrocinada pelo poder público, aquecimento da demanda via gastos públicos, também não são problemas. Na estratégia de governo são soluções, ações inocentes e bem orientadas, portanto não podem ser capazes de gerar o mal. Nessa lógica é mais fácil bater no rentismo patrocinado pelas autoridades monetárias. Não diz nada, mas impressiona e soma aliados à esquerda.
Já Dilma Roussef, mais realista e de olho na questão do financiamento externo, portanto sensível ao problema da confiabilidade, que deverá sustentar seus projetos mais fortes, Pré-Sal-Copa-Olimpíada-PAC, fez declarações públicas defendendo a estabilidade.

Abril vem ai. Vamos ver o que dirão os principais atores políticos.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A TEORIA ECONÔMICA E O PT - 1

Vivemos nos últimos dias uma sequência de falas coordenadas:Meirelles, Delfim, o guru de Lula, Nelson Barbosa, membro da atual equipe econômica e, pelo que parece, da futura. Finalmente, Andre Singer, porta-voz de Lula. Todas as falas são na direção do papel das políticas de estabilidade econômica no desenvolvimento e da não-contradição entre responsabilidade fiscal e responsabilidade social. Ao contrário das afirmações de Paulo Singer, por exemplo, a responsabilidade fiscal não impediria a aplicação de políticas sociais eficientes.
A crise econômica trouxe à luz do dia todo um debate petista sobre quebrar a responsabilidade fiscal para obter mais implementação das políticas sócias. Aparentemente, com a candidatura de Dilma Roussef, esse grupo vinha ganhando exposição e força. O ponto de inflexão, ou ordem unida se quiserem, vem se dar num momento crítico que é a realização do Congresso do PT.
Em um outro post recente já havíamos comentado que o pragmatismo lulista percebendo a importância dos investimentos diretos estrangeiros, face a impossibilidade de poupança interna, acabariam levando o governo para a linha de defesa das políticas de estabilidade econômica. Que era exatamente o que o Meirelles havia acabado de mencionar numa entrevista no dia do post a que me refiro.
Resta ver como a esquerda radical vai assimilar o golpe no fígado. Talvez tenha sido para satisfazer os “conselhistas” e minorar as críticas que a proposta do conselho de controle social da mídia tenha passado.
Da entrevista de Nelson Barbosa e da nova mística econômica que ele tenta criar – agora pela primeira vez na história do país a responsabilidade fiscal fica a serviço da responsabilidade social e foi Lula o cara – falaremos ainda hoje. É importante perceber como essa mística esta sendo construída e o que exatamente ela visa. Na lista também está a entrevista de Delfin. É muito esclarecedora.
Para quem apostou que o debate econômico não teria qualquer importância o que está ocorrendo mostra justamente o contrário.
Demetrio Carneiro

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

DILMA FORA DE SEU LEITO NATURAL

O “leito natural” a que Dilma parecia predestinada era recuperar o discurso petista pré-2002 deitando falas contra o neo-liberalismo que sustentaria a lógica da estabilidade econômica e ao próprio estilo de política econômica que é o modelo que viabiliza essa proposta.
Nos últimos meses esse discurso tem sido repetido à exaustão no arraial situacionista. Alguns mais apressados como Paul Singer já chegaram até a comemorar o início de uma nova era.

O discurso pró estabilidade não se tratou apenas de uma lógica de oportunidade que viu nas falas da oposição política uma brecha, um flanco aberto.
Havia uma clara questão de confiabilidade e Dilma soube se posicionar rapidamente.

Mais que isso, houve também a compreensão de que os investimentos diretos estrangeiros – IDE terão que fazer parte de qualquer projeto de desenvolvimento futuro, frente a impossibilidade de financiamento pela poupança interna.
De forma paradoxal o +Estado, na medida em que inviabiliza a formação de poupança interna, só se sustenta com a poupança externa financiando. Uso do sistema bancário público para alavancar o crédito, Pré-Sal, Copa, Olimpíada. A fila de demandas é grande.
Poupança externa a preços razoáveis não se conquista com bravatas bolivarianas e sim com estabilidade econômica. O que parece um paradoxo é uma solução. Claro que exportação qualificada também é, mas é bem mais complexo, então prudentemente, até segunda ordem, Dilma é pró estabilidade.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A MP MULTIFUNCIONAL


Em 15 de dezembro último o executivo lançou mais uma MP. A de número 472, a 19ª das 26 editadas em 2009.
Uma MP interessante, pois acumula mil e uma utilidades atualizando urgências de fim de ano.


Numa das utilidades altera parte da legislação do imposto de renda no sentido de agravar as penalidades ao contribuinte que se beneficiar de descontos mas não tiver meios de comprovar o pagamento à médico, escola etc. que tenha feito. Nada mais justo. O Estado brasileiro está se especializando em olhar de onde vem a grana. Pena que não dê tanta atenção quanto ao seu destino. Parece que a lógica de gastar é estruturada no gasto e não na eficiência do que se gasta. O PAC e suas desventuras, quando há capacidade técnica para o gasto, mostra maios ou menos isto.


O tema da punição do contribuinte desatento ou não foi o que mais chamou a atenção da mídia. Contudo....


Seguindo em frente a MP distribui bondades para a indústria aeronáutica:
“Fica instituído o Regime Especial de Incentivos Tributários para a Indústria Aeronáutica Brasileira - RETAERO, nos termos desta Medida Provisória”.


E para a indústria de informática:
“Fica criado o Programa Um Computador por Aluno - PROUCA e instituído o Regime Especial para Aquisição de Computadores para uso Educacional - RECOMPE, nos termos e condições estabelecidos nos arts. 7o a 14 desta Medida Provisória.”
E todo um elenco de isenções tributárias.
Este programa tem um corte extremamente ambicioso:
“O PROUCA tem o objetivo de promover a inclusão digital nas escolas das redes públicas de ensino federal, estadual, distrital ou municipal.”
Em 2009 eram cerca de 53 milhões de jovens em 198 mil estabelecimentos. Deste universo apenas cerca de 8 milhões estavam na rede privada. Segundo dados do INEP. Estamos falando, então, de 41 milhões de computadores? Em 2008, segundo a Computer Industry, eram 33 milhões de máquinas e estávamos em décimo lugar. Com 41 milhões a mais chegaremos perto da China – 98 milhões em 2008 – que é o segundo país em número de máquinas. Resta torcer para este programa não ficar nas mãos da Dilma e emPACar.


Bom considerar que, hoje, outra MP expande as bondades para empresas envolvidas na Copa de 2014. Pelo visto Lula legisla sobre o mandato de outro presidente e já prepara seu retorno triunfal nas eleições daquele ano.


Interessante comentar que, lá trás, muitos economistas, inclusive o ministro Mantega, duvidavam deste instrumento que o governo passa a usar com tanta intensidade e intimidade. Política pró-cíclica. Não é isto?


Outro assunto que o governo está ficando íntimo, além de gestar o que tem e o que não tem, é dever.


No caso da Marinha Mercante:
“Fica a União autorizada a conceder crédito aos agentes financeiros do Fundo da Marinha Mercante - FMM, no montante de até R$ 15.000.000.000,00 (quinze bilhões de reais) para viabilizar o financiamento de projetos aprovados pelo Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante - CDFMM.“
“Para a cobertura do crédito de que trata o caput, a União poderá emitir, sob a forma de colocação direta, em favor do agente financeiro do FMM, títulos da Dívida Pública Mobiliária Federal, cujas características serão definidas pelo Ministro de Estado da Fazenda.”


No caso do BNDES:
“Fica a União autorizada a conceder crédito ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES, no montante de até R$ 180.000.000.000,00 (cento e oitenta bilhões de reais), em condições financeiras e contratuais a serem definidas pelo Ministro de Estado da Fazenda."
Na realidade a lei executiva 11.498/09, aprovada pelo Senado Federal, em julho passado já falava em R$ 100 bilhões e que estes recursos seriam realizados via a venda de títulos da dívida pública ou do superávit do Tesouro Nacional apurado em 2008. No caso desta MP e seis meses depois, são agregados mais R$80 bilhões.


Juntando o recurso para o FMM com o recurso para o BNDES estamos falando na contratação de uma dívida de perto de R$100 bilhões de reais. Isto é que é intimidade. E bom não esquecer aquele princípio que fala que a dívida pública de hoje é a arrecadação tributária de amanhã.


A MP generosamente ainda trata de mais três ou quatro assuntos diferentes, mas vamos poupar o leitor, pois o texto já está bem longo. É um texto interessante, pois num pequeno espaço sintetiza todo um conceito de gestão pública e política econõmica.


Demetrio Carneiro