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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

SUPER-MARIO NO BANCO CENTRAL EUROPEU

Quando a crise se anunciou keynesianos de todos os matizes foram unânimes em afirmar que era a consagração das práticas keynesianas e o fim do neoliberalismo. Enfim o negócio era gastar. Agora o própria crise deixa exposta a falha e apresenta toda sua complexidade multidimensional, que descarta soluções simples e atalhos para ganhar tempo e votos.

O uso da dívida pública como instrumento e atalho  para a realização de um bem estar que não poderia ser obtido pela renda - no fim do dia uma estratégia de sobrevivência, leia-se reeleição, dos agentes políticos, num ambiente onde a competividade internacional da economia local não era uma preocupação, gerou o atual cenário de desequilíbrio.

Agora, para alguns países, será preciso fazer o dever de casa e os atalhos mostram abertamente sua ineficiência e as questões institucionais sua relevância. Evidentemente para os oportunistas atrás de resultados imediatos, transformáveis em voto & poder, soluções institucionais são muito demoradas.  

Talvez devesse servir como lição para nós brasileiros, quanto a "atalhos, competividade e soluções institucionais", mas não é muito provável. Pelo menos enquanto houver uma grande oferta de investimentos externos e pudermos gozar das vantagens de estarmos atrelados à locomotiva chinesa. Para os nossos agentes políticos encastelados na coalizão dominante parece que se trata de viver um dia depois do outro.

Demetrio Carneiro

Mario Draghi, o italiano germânico

Por Cristiano Romero, Valor Econômico

Experiência no setor público fez de Draghi  um negociador hábil, um pragmático com talento para lidar com políticos: "Para os italianos, a inflação é um meio de vida, como molho de tomate com espaguete." Foi dessa maneira, com deboche e sátira, que o tabloide alemão "Bild" saudou, em fevereiro, a possível escolha do italiano Mario Draghi para a presidência do poderoso Banco Central Europeu (BCE). "Mamma Mia!", exclamou o tabloide.

O que poderia parecer apenas uma zombaria refletia, na verdade, um sentimento disseminado na Alemanha, um forte preconceito em relação ao italiano Draghi, que, meses depois, se tornou presidente do BCE quase por acaso. O mais cotado para substituir o francês Jean-Claude Trichet era justamente um alemão - Axel Weber, presidente do Bundesbank (o banco central da Alemanha), que renunciou ao cargo em fevereiro e, assim, à disputa pelo comando do BCE.

Italiano de Roma, Draghi, 64 anos, chegou no início do mês passado a Frankfurt, onde fica a sede do BCE, sob forte desconfiança e em meio à crise financeira internacional, considerada a mais grave da história desde 1929. Pior: diante da ameaça de quebra de bancos e países, de desintegração da União Europeia (UE) e do fim do euro, moeda com apenas dez anos de circulação.

Marcados por um passado de hiperinflação, os alemães são, talvez, um dos povos mais apegados à estabilidade de preços. Qualquer ameaça a isso os tira do sério. Como principais patronos do pacto de 27 países que integram a UE, os alemães estão preocupados com o futuro do continente europeu. Ainda assim, ficaram ressabiados com o ativismo do BCE na gestão Trichet.

Draghi foi defensor ferrenho das privatizações italianas e é um apóstolo da austeridade fiscal como condição do crescimento

O BCE, ao contrário, por exemplo, do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, tem apenas um mandato: "Manter o poder de compra do euro e, assim, a estabilidade de preços na área do euro". Mesmo pressionados pelo risco de desintegração da UE, os alemães defendem que, para sair da crise, os países-membros afetados pela desconfiança dos mercados (Grécia, Portugal, Espanha, Itália e mesmo a França) promovam reformas estruturais para fortalecer a situação fiscal, aumentar a competitividade de suas economias e elevar as taxas de crescimento. Exatamente como eles, alemães, fizeram nos últimos anos, pressionados pela emergência da China como potência industrial.

Menos de duas semanas depois da posse de Draghi, o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, deu declarações que, no mercado, foram entendidas como um recado claro ao novo intendente do BCE. Sem meias-palavras, Weidmann disse que o apoio do banco central a governos seria ilegal e que o banco não poderia agir como emprestador de última instância de países. Fazer isso, observou a autoridade alemã, seria uma transgressão aos tratados da UE.

Weidmann também pontificou, em entrevista ao jornal "Financial Times", que dar dinheiro barato para governos europeus os desencorajaria a fazer reformas. "Draghi tem hoje apoio total do sul da Europa, mas falta o norte (leia-se: a Alemanha)", diz o economista Mário Mesquita, ex-diretor do Banco Central brasileiro e profundo conhecedor das principais instituições monetárias.

Francesco Giavazzi, economista mais próximo de Draghi e seu ex-colega de Tesouro: "Até agora, sua gestão é boa. Flexível nas decisões macroeconômicas, duro na cláusula de não fazer socorros (de países).

A ideia de que um italiano à frente do BCE poderia ser a receita para o desastre se baseia nas dificuldades econômicas atuais e passadas da Itália. Enquanto a Alemanha superou o drama da inflação no pós-guerra, a Itália registrou índices elevados (de quase 20% ao ano) até o fim dos anos 80 do século passado. No quesito dívida pública como proporção do produto interno bruto (PIB), é vice-campeã europeia. Perde apenas para a Grécia (142,8% do PIB).

Em 2010, a dívida italiana chegou a 119% do PIB, face a uma média de 100% das economias avançadas, 79,3% do mundo e 39,3% dos países emergentes e em desenvolvimento. O histórico de convivência da Itália com dívida elevada é antigo, mas foi justamente Draghi quem, nos anos 90 do século passado, trabalhou intensamente para tornar a situação fiscal do país solvente e, acima de tudo, crível.

Draghi foi o primeiro italiano a se doutorar pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das mais renomadas escolas de economia do planeta. Orientado por dois Prêmios Nobel - seu compatriota Franco Modigliani e Robert Solow -, Draghi concluiu sua tese, sobre teoria econômica, em 1976. Na mesma escola, também receberam o título de PhD, quase na mesma época, alguns de seus atuais colegas de comunidade financeira internacional - Ben Bernanke, presidente do Fed, e Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Depois de Draghi, passaram pelo MIT Paul Krugman, Prêmio Nobel de economia em 2008 e hoje colunista do "The New York Times", dois formuladores do Plano Real - Pérsio Arida e André Lara Resende - e a economista Eliana Cardoso. Arida e Lara Resende não conviveram com Draghi, mas se lembram dele porque o MIT admite a cada ano grupos reduzidos de estudantes (no máximo, 20). Eliana o conhece um pouco melhor porque ele se aproximou de seu ex-marido, o professor Rudiger Dornbush, que foi também, no MIT, mentor intelectual de Arida.

"A resposta para uma crise deve ser nacional: ação fiscal crível e reformas estruturais que relancem o crescimento", disse Draghi ao 'FT'

"Ele sempre foi diplomata, um estilo tipo Pedro Malan [ministro da Fazenda do Brasil entre 1995 e 2002]. Era muito elegante, em contraste com a maioria dos estudantes, que se vestiam muito à vontade", conta Eliana, ex-funcionária do Banco Mundial e ex-secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, hoje colunista do Valor. "Ele é dessas pessoas que não têm inimigo. É diplomata no bom sentido e bem conservador."

Ao contrário da maioria dos que passam pela prestigiosa universidade americana, Draghi não se dedicou à carreira acadêmica, embora tenha produzido, em coautoria, trabalhos relevantes para a literatura econômica - em 1990, organizou, com Dornbush, o livro "Public Debt Management: Theory and History" (Gerenciamento de Dívida Pública: História e Teoria). O tema é uma de suas especialidades.

No início dos anos 90, depois de atuar por seis anos como diretor-executivo da Itália no Banco Mundial, Draghi assumiu a chefia do Tesouro italiano. Ele chegou lá quando o país estava atolado em dívidas e os europeus negociavam o Tratado de Maastricht, a base econômica e política que transformou a então Comunidade Europeia em União Europeia. Em 1992, a situação era tão grave que, para rolar sua dívida, o governo italiano precisava emitir US$ 60 bilhões em títulos todo mês.

Como diretor-geral do Tesouro, Draghi poderia ter levado a Itália ao FMI, mas não o fez. Na ocasião, não havia um mecanismo de socorro na UE. O jeito foi enfrentar o problema sem ajuda externa. Nos dez anos que ficou à frente do Tesouro, Draghi cortou gastos públicos, desvalorizou a lira (a então moeda italiana) e promoveu o mais agressivo programa de privatizações da Europa, arrecadando o equivalente a 10% do PIB (em moeda corrente, seria algo como US$ 200 bilhões).

Em 1995, a diferença (o chamado "spread") entre o custo de financiamento da Itália e o da Alemanha chegou a 600 pontos-base (ou seis pontos percentuais). Para convencer os investidores de que os italianos eram capazes de honrar sua dívida, Draghi elevou o superávit primário (que não considera a despesa com juros da dívida), entre 1996 e 1999, para algo entre 5% e 6% do PIB por ano. A estratégia deu certo e o fez tirar uma lição da turbulência do período.

"A resposta primária para uma crise deve ser uma resposta nacional: uma ação fiscal crível e reformas estruturais que relancem o crescimento", disse ele, em entrevista ao "Financial Times", um ano antes de se tornar presidente do BCE. Draghi tirou da experiência italiana outra convicção: a importância de uma abordagem, em qualquer situação, baseada em regras claras e firmes.

"Observe dois países diferentes. Você tem o Japão, com uma extraordinária relação dívida-PIB [220% em 2010] e absolutamente sem tensões e problemas financeiros, tanto quanto sabemos. E nós tivemos países como a Argentina, que deram calote quando a dívida estava, eu acho, em menos de 50% do PIB [53,7% do PIB]. O que isso me diz é que, além da força da economia real, instituições contam", comparou Draghi.

Draghi acredita na economia de mercado, é avesso a heterodoxias e é muito apegado à estabilidade de regras

A austeridade com que Draghi conduziu as finanças da Itália por uma década rendeu-lhe mais do que um apelido - Super Mario, o herói do popular videogame japonês. Desde então, o economista passou a ter boa reputação na comunidade financeira internacional. Em 2002, foi contratado pelo banco de investimento americano Goldman Sachs para o cargo de diretor-gerente da área internacional e vice-presidente.

Durante os três anos seguintes, Draghi exerceu o único cargo privado de sua longa carreira. Foi uma passagem discreta, mas que acabou lhe causando dor de cabeça anos mais tarde, quando já tinha sido escolhido para suceder Jean-Claude Trichet no BCE. Ao eclodir a crise da Grécia, foi revelado o suposto envolvimento do Goldman Sachs nas operações para maquiar os níveis de endividamento do país.

Simon Johnson, professor do MIT e ex-economista-chefe do FMI, questionou o papel do banco americano e, segundo o "Financial Times", se mostrou cético quanto à insistência de Draghi em dizer que não teria participado da operação, que teria começado um ano antes de ele assumir o cargo, mas permanecera nos balanços do Goldman depois que ele passou a trabalhar lá. A imprensa alemã explorou o caso.

"Draghi tem hoje apoio total do sul da Europa, mas falta o norte (leia-se: a Alemanha)", diz o ex-diretor do Banco Central Mário Mesquita.

O episódio foi superado rapidamente por Draghi, que ganhou a disputa pela presidência do BCE e assumiu o posto no início de novembro. Depois de deixar o Goldman, convidado pelo então primeiro-ministro da Itália Romano Prodi para ser ministro da Fazenda, ele voltou a ter cargo importante no governo italiano. Por obra do acaso - um escândalo envolvendo conflito de interesses derrubou Antonio Fazio -, acabou assumindo a presidência do Banco da Itália, o banco central local, cargo que o catapultou à condição de presidente do Banco Central Europeu cinco anos depois.

Tanta experiência no setor público fez de Draghi um negociador hábil, um construtor de consensos, um pragmático com talento para lidar com políticos. Nascido numa família de classe média, perdeu seus pais ainda na adolescência - o pai foi funcionário do Banco da Itália e a mãe era química. Estudou em escola jesuíta e teve como tutor, na universidade La Sapienza, em Roma, Frederico Caffè, um famoso economista keynesiano.

É bastante provável que, na temporada americana, Draghi tenha se tornado mais ortodoxo. Defensor ferrenho e executor das privatizações italianas, além de apóstolo da austeridade fiscal como condição basilar do crescimento da economia, no Brasil seria tachado facilmente de "neoliberal". Draghi, de fato, acredita na economia de mercado, não considera o mercado financeiro necessariamente hostil, é avesso a experimentos heterodoxos e é muito apegado à estabilidade de regras.

"Por ter uma formação mais americana, mais próxima da que teve o Ben Bernanke, ele deve dar um peso maior, no BCE, à análise econômica tradicional. Deve trazer o banco para práticas mais próximas do Fed", prevê Mário Mesquita.

Há apenas 45 dias no cargo, Draghi reduziu a taxa básica de juros duas vezes, trazendo-a de 1,5% para 1% ao ano. Esta, porém, não foi sua decisão mais importante. Antes mesmo de assumir o posto, havia uma forte pressão do mercado para o BCE acelerar a compra de títulos emitidos pelos governos europeus para dar liquidez ao mercado. Ele tem atuado no mercado, mas de forma bastante limitada. Tem sempre em mente a vigilância alemã, mas, mais do que isso, suas convicções: o banco central não deve financiar Estados nacionais.

Na semana passada, os líderes europeus fecharam acordo para fornecer € 200 bilhões ao FMI. O objetivo foi fortalecer o caixa do Fundo, para que ele tenha condições de socorrer países da zona do euro em caso de debacle. O acordo gerou a expectativa de que o BCE entraria pesadamente no mercado, e de forma irrestrita, comprando papéis de economias da UE altamente endividadas, como a Itália. Sem perder tempo, Draghi tratou de desfazer essa ideia.

"O encontro confirmou que a solução para a crise é de responsabilidade dos governos. O financiamento de dívida pública via emissão de dinheiro pelo banco central é e continua banida dos tratados", fez coro Jens Weidmann, o indefectível presidente do Bundesbank.

"O Draghi tem explicado corretamente o risco moral envolvido nas compras de títulos de governo. O Silvio Berlusconi [ex-primeiro-ministro da Itália] caiu na farra e parou de falar em austeridade quando viu o BCE entrando em mercado em agosto último. Isso lhe custou o cargo, como sabemos", observa o economista José Júlio Senna, economista e sócio da MCM Consultores, que lançou no ano passado livro sobre a história da política monetária.

Em compensação, preocupado com o problema de liquidez de bancos europeus, que estão sob forte escrutínio por deter títulos soberanos da região, Draghi anunciou um programa de alívio, de três anos de duração. A medida foi bem recebida pelo mercado.

Deputados da Liga Norte (aliados do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi) protestam no Parlamento italiano contra o plano de austeridade apresentado pelo primeiro-ministro Mario Monti.

"A expansão do apoio financeiro dado aos bancos é uma maneira indireta de apoiar os mercados de bônus da zona do euro e evitar o pior da alavancagem. Foi uma forma inteligente de fazer QE [sigla em inglês de afrouxamento quantitativo de moeda] pelo lado do passivo do sistema bancário: possibilita aos bancos se financiar a 1% ao ano e comprar dívida da Itália de dois anos, por exemplo, a 5,8%", elogia o economista Tony Volpon, da Nomura Securities em Nova York. "Dentro das restrições institucionais do BCE, que não são pequenas, ele está fazendo o possível."

"Ao estabelecer um LTRO (sigla em inglês de operações de refinanciamento de longo prazo) de três anos, ele também se mostra ciente do problema de liquidez dos bancos e sinaliza para o mercado que não deixará nenhum banco quebrar", diz o operador de um grande fundo de hedge americano que pediu para não ser identificado. "Até agora ele tem se mostrado um operador extremamente hábil, rápido e de competência ímpar. Seu discurso é direto e transparente, essencial também em um momento durante o qual o mercado busca direção e liderança. Resta saber se os políticos europeus farão a sua parte para que, então, o mercado o consagre como o banqueiro central da década."

O mercado, evidentemente, quer muito mais do que já foi dado. John Paulson, presidente da Paulson & Co., uma gestora de recursos, estima que serão necessários € 590 bilhões em 2012 apenas para financiar dois países: Espanha e Itália. Ele defende que o BCE adote um programa de garantia das dívidas soberanas como uma solução para a crise de dívida europeia.

Os mercados seguem punindo as nações mais endividadas. Os spreads dos títulos de países centrais da Europa, como Itália e França, sem falar da Espanha, estão aumentando e se distanciando dos da Alemanha. Isso mostra que é crescente a preocupação dos investidores com a capacidade de pagamento desses países (ver gráfico na página ao lado).

Apesar das pressões, Draghi resiste. Ele não acredita em solução rápida para a crise. Crê que esta é uma crise de longa duração, cuja solução será construída aos poucos, a partir do esforço de cada país envolvido. O Draghi, italiano de quem os alemães tanto desconfiam, vai se mostrando cada vez mais germânico.

"Até agora, sua gestão é boa. Flexível nas decisões macroeconômicas, duro na cláusula de não fazer socorros [de países]", disse ao Valor Francesco Giavazzi, economista mais próximo de Draghi, seu ex-colega de Tesouro. "É exatamente assim que o BCE deve se comportar."

"No fundo, o Draghi é meio alemão, em matéria de linha de pensamento. Acredito que ele resistirá às pressões, a meu ver, corretamente. Nada garante que compras irrestritas pelo BCE de papéis soberanos resolveriam a crise", diz José Júlio Senna.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

BEYONDBRICS DO FINANCIAL TIMES SE PERGUNTA SOBRE O GÊNIO DA GARRAFA

O Beyndbrics do Financial Times trás hoje, quarta, uma matéria avaliando um projeto de lei, 477/11, que tramita no Senado Federal e deverá ir a plenário em breve. 
Basicamente ele altera a lei de criação do BC, de 1964, acrescentando à sua competência original do banco “ estimular o crescimento econômico e a geração de empregos”. Em paralelo irá também ao plenário outro projeto de lei, o 311/11. Esse altera competências do Conselho Monetário Nacional, acrescentando um “busca do pleno emprego”.

A matéria do BB não fala desse segundo PL, mas os PLs estão evidentemente conectados, ambos entraram por vias diferentes, mas foram apresentados este ano, e juntos criam o ambiente institucional para trazer a “meta de crescimento” para dentro da política monetária.

A matéria certamente foi uma rápida repercussão originada numa pequena nota do Tony Volpon, emitida pela manhã, comentando o primeiro PL. Abaixo o trecho citado da nota do Tony na matéria do BB:
Embora essa proposta ainda precise da aprovação de outro comitê(sic) antes de tornar-se lei, percebemos que este é um caminho para fazer oficial o que já é um fato: Que o Banco Central brasileiro efetivamente persegue uma meta de crescimento importante para o governo. Se a proposta for aprovada e não vemos razão para que não seja, dará condições ao BC de formalizar o regime de multi-alvos. Assim, esta lei indica uma discussão mais séria e eventual mudança nas políticas oficiais de operação do banco”.

O título da matéria é Regime de metas de inflação sob cerco e lá pelas tantas o articulista do Beyondbrics se pergunta se todo essa mudança no fim do dia não vai liberar o gênio da garrafa.

Deixo ao leitor o exercício de imaginar de qual gênio  ele está falando...

Demetrio Carneiro

terça-feira, 31 de maio de 2011

VOLPON: CHOQUE NOS TERMOS DE TROCA E A DEMANDA AGREGADA

Matéria publicada no Valor, em 26 de maio passado. Envolve uma boa reflexão sobre a influência dos termos de troca (ganhos de exportação versus custos de importação) no comportamento da nossa economia. O que ainda é um debate meio desfocado entre nós.

Demetrio Carneiro

CHOQUE NOS TERMOS DE TROCA E A DEMANDA AGREGADA

Qual o verdadeiro peso dos fatores externos para explicar o comportamento da economia brasileira? Olhando para o período pós-crise, por exemplo, se convencionou explicar a forte recuperação como fruto das políticas anticíclicas executadas pelo governo. Outra avaliação comum é atribuir a demanda interna como verdadeiro motor da economia. Enquanto todos entendem que fatores externos têm sido importantes, o fato de que a corrente de comércio se encontre abaixo de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) parece ser prova de que é no mercado interno que encontramos os fatores dinâmicos da nossa economia.
Essa visão da economia brasileira, defendida com igual ênfase tanto pelos ortodoxos como desenvolvimentistas, está errada. Apesar dos acalorados debates entre essas correntes, ambas mantêm igual crença no mito de que a força da economia brasileira surge do mercado interno. Tanto o discurso ortodoxo, que vê nos excessos fiscais e monetários a causa principal dos problemas inflacionários, como o discurso desenvolvimentista, que vê nesses mesmos fatores a razão pelo alto crescimento, erram em não entender que são os fatores externos que explicam o que temos de bom (maior demanda e crescimento) e de ruim (maior inflação e câmbio apreciado) na economia brasileira.
A melhor métrica do impacto de fatores externos sobre a economia hoje é a tendência dos termos de troca, e como esses afetam tanto a demanda como a oferta agregada por uma variedade de canais. A alta dos preços de commodities foi desde 2003 importante para melhorar a posição externa do país. Apesar de alguma melhora nos termos de troca desde 2003, foi somente em 2007 que os preços das exportações começaram a subir de maneira mais consistente que os preços das nossas importações, movimento que acelerou depois da crise. De fato, a diferença entre os preços das exportações e os preços das importações se encontra hoje mais de 25 vezes maior que a média dessa diferença desde 2000.
Tal movimento representa um fortíssimo incremento de riqueza para o Brasil que se irradia pela economia. O maior preço das nossas exportações eleva tanto a renda atual das empresas como o preço das ações.
Só se optarmos por poupar e investir vamos ter no mercado interno uma duradoura fonte de desenvolvimento
O índice Bovespa, por exemplo, subiu mais de 350% desde 2006 em dólar americano. Essa grande alta na riqueza nacional gera vários efeitos. Do lado do consumo, sabemos que este sobe com o aumento da percepção de riqueza, ou "renda permanente". Do lado dos investimentos, temos na alta dos preços das exportações o principal fator que levou os níveis do investimento estrangeiro direto (IED) subir de US$ 18 bilhões em 2006 para US$ 48,4 bilhões em 2010; e os fluxos de carteiras de US$ 9 bilhões para US$ 63 bilhões no mesmo período.
Tal fluxo, para uma economia com baixa taxa de poupança (média de 17,3% do PIB desde 2006) tem sido vital para sustentar crescentes níveis de importações sem pressionar o balanço de pagamentos: o "quantum", ou quantidade, importada desde 2006 subiu 94% enquanto o quantum de exportações aumentou somente 4,4%, o que ajudou a diminuir o efeito inflacionário da expansão da demanda agregada durante esse período. Importação de bens de capital é hoje a maior categoria dessa pauta, representando 22,6% do total.
A queda relativa dos preços desses bens em relação às commodities tem permitido um maior incremento da capacidade instalada neste período de forte crescimento. Tudo isso explica a economia consegue crescer nos níveis atuais sem romper a restrição externa (financiamento do déficit em conta corrente) ou interna (aumento descontrolado da inflação).
Há outros efeitos que não devem ser menosprezados. A melhora da nossa posição externa nesses anos, representada, por exemplo, pela alta das reservas do Banco Central de US$ 54 bilhões em 2006 para US$ 330 bilhões hoje, permite a queda de volatilidade na economia que gera forte redução nos prêmios de risco, permitindo a expansão do mercado de crédito. E, finalmente, o governo na sua função fiscal é um sócio privilegiado de todo esse processo, com suas receitas subindo de R$ 555 bilhões em 2006 para R$ 853 bilhões em 2010, permitindo um proporcional aumento dos seus gastos.
Enquanto o efeito do aumento dos termos de troca tem reconhecido papel na valorização do real, seu lugar na determinação da demanda e, portanto, no nível de juros merece igual atenção. Em recente estudo mostramos como se pode, com resultados estatísticos similares, substituir o hiato do produto em uma função de Taylor com o "hiato dos termos de troca" para explicar o nível da Selic desde 2006. De fato mostramos como um aumento de 1% no "hiato" da relação de trocas leva a Selic a subir 0,17%. Esse resultado mostra como o choque externo tem sido o fator determinante para a economia.
Essa demonstração tem, em nossa opinião, varias consequências para a política econômica. Primeiro, se a mudança nos termos de troca é a causa exógena do aumento da demanda agregada, o subsequente aumento no nível de juros e câmbio são necessários ajustes de equilíbrio. Qualquer tentativa de impedir esses ajustes via, por exemplo, intervenções no mercado de câmbio, terá efeito temporário e resultado infrutífero, causando inevitável efeito compensatório no equilíbrio geral via aumento da inflação.
De fato, a única forma de impedir uma maior pressão sobre o câmbio e a taxa de juros seria diminuir a pressão sobre a demanda por outros meios, como um menor nível de gastos fiscais e exuberância do crédito. A preocupante perda de competitividade do setor de manufaturados deve ser compensada via medidas microeconômicas, como a maior tributação do excedente de renda dos setores de commodities. Também temos que estar cientes que todos os mecanismos descritos acima que nos levaram à atual abundância podem se reverter. Somente se optarmos por não consumir, mas poupar e investir que vamos poder realmente criar as condições para que haja no mercado interno uma duradoura fonte de desenvolvimento econômico.
Tony Volpon é diretor do Nomura Securities International, Inc.

domingo, 29 de maio de 2011

A META DE CRESCIMENTO É UM OBJETIVO VÁLIDO DE POLÍTICA ECONÔMICA?

Embora no texto abaixo, do Estado de São Paulo, o articulista encontre "semelhanças" entre a possível política atual do BCB e o FED, com relação à meta de crescimento,  na realidade são muito diferentes. A começar pelo fato de que o FED não fica subordinado a um comando externo. Outra questão a considerar é que "meta de crescimento" por lá é fundamentalmente nível de emprego, de olho no produto potencial, que Mantega não acredita que exista, uma lógica de longuíssima tradição que remonta desde o Act of Employment de 1948.

É interessante. Na esteira do debate lançado por Serra, nas eleições de 2010, sobre a coordenação das políticas econômicas nossa crítica era de que Serra pretendia era "coordenar" a política monetária a partir da política fiscal. O que criticávamos era que mais que coordenação era uma proposta de que a política monetária não causasse obstáculos à política fiscal. O foco de Serra também era o crescimento. No fim do dia Serra derrotado, venceu. O que o governo Dilma vem fazendo é exatamente condicionar o BC à métrica do projeto de crescimento econômico de seu governo. Dai o conceito de flexibilização do foco do BC do centro para o limite superior da banda para 2011 e, talvez agora, para 2012.

Quanto a meta de crescimento o governo a fixou em 4% e parece disposto a tolerar até mesmo a ruptura do teto, desde que os 4% sejam garantidos. Já Delfin, prudencialmente, previu uma meta mínima de 3,5%.

Em dezembro de 2009 Tony e eu tivemos um texto publicado pela revista Política Democrática, posteriormente discutimos, separadamente ou não, em diversos outros textos, principalmente durante as eleições, onde propunhamos um modelo de política econômica com base em um sistema de meta de crescimento. A diferença é que buscamos oferecer um local institucional, o Conselho Monetário Nacional, propusemos uma ampliação em sua representação e o debate aberto e transparente, com o estabelecimento de critérios para definir "meta de crescimento" e sua monitoração. Além disso propusemos uma sistema que tivesse em conta um papel ativo para o superátivit. Flexibilizando o uso do superávit entendido por nós como uma poupança gasta nos tempos de bonança para suavizar a dívida, mas utilizada nos tempos ruins para sustentar investimentos. Um leitura diferente da proposta implícita da LRF, que não admite essa flexibilização.

Outra questão é que na proposta de que fazemos esta questão da coordenação é apenas um dos elementos de um processo maior que passa também por ter em vista questões institucionais fundamentais como a formação de poupança interna e políticas de estímulo ao investimento privado de longo prazo, qualificação para o trabalho via um sistema educacional eficiente, correção das fortíssimas falhas de infra-estrutura etc.

Para ser uma política substancial faltaria o pelo menos o governo agir com clareza e discutir publicamente de onde retirou esses números de meta. Por exemplo, por qual razão 4% ou outro número qualquer e explicar como esse comando se realiza dentro da estrutura da gestão da economia. 
Faltaria também conectar com um projeto mais amplo que trate da sustentabilidade do crescimento no longo prazo. Faltaria discutir isto com a sociedade.   

Mais um questão é com o conceito

De momento o que parece estar por trás da leitura de "metas de crescimento" não é bem uma estratégia diferente e nova, mas argumentos que justifiquem a velha continuidade do uso dos gastos públicos como instrumento de manutenção de um nível mínimo, decidido pelo governo também de forma solitária, de demanda agregada. 
Sabedores que somos do uso político do gasto dentro da lógica de poder governista, não fica difícil estabelecer uma ponte sobre o que ocorre agora nas decisões econômicas e o que ocorre no mundo da política e da luta pela permanência no poder. Acabamos de sair de um ciclo eleitoral e entraremos em outro no próximo ano. 

Ainda iremos ver se em 2012 o governo será capaz de se conter em termos de gasto frente a inflação ou se, mais uma vez, o trade-off será na direção de afrouxar os controles. O que vem ocorrendo no mundo da política, as debilidades de Dilma e os embates com o PMDB parecem indicar que teremos mais inflação no próximo ano.

Sob Dilma, BC muda e tenta estimular crescimento, além de vigiar a inflação


Demetrio Carneiro 

terça-feira, 26 de abril de 2011

DEVAGAR NEM SEMPRE SE VAI LONGE

Dilma veste um modelito de micro-saia extremamente justo, mal dá para se movimentar. Basicamente o modelito é conhecido como gatilho de crescimento e já pudemos explanar aqui em outras ocasiões: O governo petista admite não crescer muito como forma de conter a economia e, por conseqüência, desaquecê-la, reduzindo a evolução geral dos preços.

Porém, o não crescer para aqueles que imaginam que a tarefa principal é o crescimento (por favor, diferente de desenvolvimento, certo?) significa que patamares FHC de crescimento são execráveis.

Enfim, a flexibilidade concessiva aos termos básicos da Estabilidade termina por ai. De forma muito visível entre inflação e crescimento o governo Dilma escolheu crescer, mesmo que com alguma inflação.

O problema é que apesar do blá-blá-blá da ministra, do ministro e da presidenta o dever da casa fiscal está muito longe de ser feito e o peso todo vai para a política monetária. Ai tem um problema. Não subir a Selic, além de promessa de campanha, virou compromisso moral. Percebido pelo setor nacional-desenvolvimentista de quem o IPEA foi a voz ao “denunciar” a pressão do mercado por maior aumento.

Talvez coordenação de políticas não seja exatamente isso: O resultado final é o BC, ao contrário de cumprir seu trabalho de afetar positivamente as expectativas, no sentido de indicar combate à inflação, afetando negativamente, se mostrando retraído.
Faltou coragem para um choque que indicasse claramente que não haveria tolerância. Tem hora que o discurso, mesmo da presidente, como de fato foi, não resolve nada e é a ação que importa.

Enfim, de vagar e querendo ir longe talvez não dê para ir muito longe. O governo caminha no fio da navalha, pois mesmo políticas monetárias mais pesadas podem falhar quando o processo inflacionário decola. Brasileiros têm uma farta experiência no pedaço. Que o diga o amigo, e conselheiro, do Rei, Delfin.

Devagar e sempre, BC espera conter a inflação

Eduardo Campos - Valor
26/04/2011

Sem grande surpresa e movimentação, o mercado de juros futuros colocou no preço a decisão e a sinalização dada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na sua reunião da semana passada.
A alta de 0,25 ponto percentual, que levou a Selic para 12% ao ano, colocou os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) curtos para baixo, mas estimulou uma alta no vencimentos mais longos.
A expectativa nas mesas recai sobre a ata, que sai na quinta-feira, e deve explicitar os motivos que levaram o Banco Central (BC) a reduzir o ritmo e optar pelo alongamento do ciclo de aperto monetário.
Seria salutar saber, também, o que argumentaram os dissidentes, já que dois dos sete diretores pediram nova alta de meio ponto.
Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, o colegiado tomou uma decisão salomônica, ou seja, tentou contentar duas correntes distintas.
A alta de um quarto de ponto percentual está alinhada com o discurso recente do próprio Copom e com o desenho da curva futura antes da decisão. Já o aceno de que o ajuste será alongado visa conter uma piora nas expectativas de inflação.
Juros futuros de longo prazo sobem após Copom
Ainda de acordo com Leal, um fato positivo é a melhora na comunicação da autoridade monetária.
Ao defender o 0,25 ponto, o Banco Central foi claro ao indicar que vale o que foi dito na comunicação oficial.
Objetivamente, diz Leal, os dados divulgados desde o Copom de março iam contra essa decisão, mas, para não ser atropelado pelos fatos, o colegiado manobrou com o comunicado, indicando que novas altas devem vir.
"Leia o que estou escrevendo e ouça o que estou falando, que o caminho é por aí. Esse foi o recado do BC. Em termos de comunicação o resultado é positivo", avalia Leal.
Pelo lado da estratégia, no entanto, o economista acredita que a decisão foi um tanto arriscada. O BC teria perdido a chance de dar um choque de credibilidade, colocando-se à frente do mercado.
O especialista lembra que o importante não é o tamanho do ciclo, mas sim por quanto tempo a taxa ficará acima daquela considerada neutra. Portanto, quanto antes a Selic atingir tal patamar, maior será o impacto das decisões de política monetária.
Outros questionamentos comuns nas mesas são se outra alta de 0,25 ponto está no programa, por que esperar mais 40 dias? E o que poderia acontecer para justificar uma mudança de postura até o encontro de 8 de junho? Quem sabe a ata responda essas dúvidas.
O sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, aponta que o aumento de taxa nos vencimentos longos ilustra a incerteza do mercado com relação a essa estratégia gradualista adotada pelo Copom.
O especialista também vê como arriscada essa "aposta" do BC. O cenário usado pela autoridade monetária poderá levará alguns meses para se confirmar e, caso haja uma surpresa no preço das commodities ou no comportamento da inflação doméstica, o BC precisará responder com mais altas de juros no decorrer do ano.
Na visão do estrategista-chefe da CM Capital Markets, Luciano Rostagno, além da questão de controlar uma piora nas expectativas, a redução de passo com aceno de novas altas também mira a questão cambial.
Ao dividir o aperto, o BC segue no modo de alta de juros e dilui impacto disso para o mercado de câmbio. O comportamento do real e dos fluxos de recursos externos também está no radar do BC, lembrou Rostagno, que não descarta a adoção de novas medidas prudenciais.
O chefe de pesquisas para América Latina do Nomura Securities, Tony Volpon, nota que o BC busca "comprar tempo" com essa decisão para ver se as incertezas que cercam o ambiente externo e doméstico se dissipam.
Para Volpon, parece existir certa cautela do BC para não "apertar demais" os juros, por isso da opção pelo modo "conta-gotas".
Para o especialista, se os fatores externos, especificamente o preço das commodities, se estabilizarem é possível que a estratégia gradualista do BC funcione. Mas, considerando o quadro atual, essa é uma suposição forte para um período marcado pela fraqueza continuada do dólar e pela demanda ainda aquecida.
"O Banco Central também perdeu uma oportunidade de construir um seguro sobre a sua estratégia atual ao optar pela moderação do ritmo de ajuste. Agora, só o tempo dirá se essa decisão se mostrará correta", conclui Volpon.
Colocando as avaliações acima de outra forma, na linguagem dos traders de juros: "Deus proteja o vendido em DI".

Eduardo Campos é repórter

quarta-feira, 30 de março de 2011

O QUE A TAXAÇÃO RESOLVE OU NÃO

Em entrevista dada ao Financial Times  ontem, 29, o Tony coloca pontos a serem considerados:

"O mercado de câmbio não tem dado muita atenção a essas medidas. O que impulsiona o real são, essencialmente, os fundamentos brasileiros e preços das commodities.", nas palavras dele.
É um processo de aprendizado: Adotar medidas e ver o que funciona.

Na base da questão cambial a capacidade concorrencial da indústria brasileira.
Quero, então, agregar outro ponto:
Ontem a mídia registrava uma mudança de posição de Dilma, portanto do governo brasileiro, quanto à China. Aparentemente a inicialmente firme defesa feita por Lula de que naquele país haveria um “regime de mercado” definitivamente será posta em cheque. O contra-ataque chinês não tardou e tocou num ponto sensível de nossa política externa ligado à visão geoestratégica brasileira.
Para além de todas essas ações experimentais na política cambial, que poderão ser mais paliativas do que eficientes, parece que a relação China/Brasil receberá uma outra abordagem com o governo brasileiro retirando a luva de pelica. Na base justamente a fortíssima concorrência dos manufaturados chineses dentro do próprio mercado brasileiro. Se com relação à concorrência no exterior obviamente não há muito para fazer.
Em última análise a China protege seus pintinhos. Cabe ao Brasil sair da neutralidade e tentar fazer com que pelo menos internamente os reflexos não sejam tão potentes. Ou seja, quem tem que cuidar de seus pintinhos é o Brasil.
Neste sentido tirar da China a qualidade de regime de mercado abre a porta para ações mais efetivas.
Não por acaso a Polícia Federal tem produzidos ações pesadas contra a máfia de importação irregular de manufaturados. Poucos dias atrás fizeram quase que um showmício num shopping paulista, aliás de propriedade de um conhecidíssimo contrabandista chinês.

Enfim o futuro mostrará os limites desta ação direta. No fundo também não deixa de haver um experimentalismo e algum grau de incerteza na medida em que um recado mais forte poderá retrair os preciosos investimentos diretos estrangeiros, dos quais uma parte bem significativa é de origem chinesa. O que, alias, recoloca outra nova questão quanto à uma estratégia de reorientação de IDEs do setor de commodidities para o de manufaturados, por exemplo. Sendo o primeiro o foco principal dos investimentos diretos chineses.

Possam ou não ser saudadas estas medidas protecionistas voltadas para a questão cambial ou para a relação comercial Brasil/China são pontuais quando em realidade deveriam ser medidas inseridas numa lógica de desenvolvimento economicamente sustentável que só se realizará com efetivas ações quanto ao custo-Brasil ou aos empréstimos de longo prazo fora da estrita órbita do BNDES ou à inexistente cultura interna de poupança, apenas para apontar alguns temas.

Não há nada a comemorar. Falta do governo Dilma sair do tradicional imediatismo das políticas de defesa da indústria brasileira. Olhando para a história não é difícil perceber ao lado do dado positivo um enorme passivo negativo nos custos do estímulo à permanência da baixa capacidade competitiva. Precisamos não de discursos, mas de políticas de longo prazo que permitam à nossa indústria uma real capacidade de competição interna e externa.
Como diz o ditado: De boa vontade o inferno está lotado.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 16 de março de 2011

O "BALANÇO CAMBIAL" DO BRASIL É SUSTENTÁVEL?

Por Tony Volpon

O câmbio está realmente sobrevalorizado? Frente uma apreciação de mais de 35% em relação ao dólar, a resposta óbvia parece ser que sim. Certamente isso é o que o governo brasileiro acredita, dado a recente agressividade de suas intervenções.
E talvez o governo tenha razão em estar preocupado. Apesar de todo otimismo com o Brasil, a situação atual lembra os anos 70. Nos anos 70, os preços das commodities estavam subindo, a política monetária nos países desenvolvidos estava frouxa, e a inflação começava a subir. O Brasil crescia rapidamente com forte entrada de recursos estrangeiros. Mas esse "boom" acabou de forma amarga: para finalmente domar a inflação, os EUA apertaram drasticamente sua política monetária, enxugando a liquidez global, derrubando os preços das commodities e levando o Brasil à crise da dívida externa. O governo, apesar do seu interesse político em manter os "espíritos animais" da economia em alta, tem muitas razões para se preocupar.
Mas como existem preocupantes paralelos com os anos antes da década perdida, há importantes diferenças. Diferentemente dos anos 70, hoje temos um sistema de câmbio flutuante enquanto naquela época o nosso passivo eram empréstimos denominados em moeda estrangeira, hoje a grande acumulação de passivos se dá na moeda nacional. Isso muda muito o perfil do risco que enfrentamos, e nos permite analisar a sustentabilidade dos níveis atuais da nossa moeda.
Como nossa moeda não é conversível, os fluxos cambiais devem ser registrados no Banco Central. Isso permite que o BC crie um verdadeiro "balanço cambial" para a economia brasileira, calculando os ativos dos estrangeiros no Brasil (portanto passivos para a economia) e os ativos dos brasileiros no exterior (os dados estão disponíveis no site do BC como "Posição internacional de investimento").
Essa posição patrimonial foi calculada como um passivo de US$ 657 bilhões em setembro de 2010. Como no caso de uma empresa, podemos tratar esse montante como o estoque de investimentos feitos na empresa "Brasil S.A." que deve gerar um fluxo de retornos. Mas qual a melhor medição desses retornos?
Olhando o balanço de pagamentos, vemos que a linha "serviços e rendas" gerou um fluxo negativo de US$ 70,6 bilhões em 2010. Mas esse montante, apesar de representar em parte um fluxo real de retorno sobre os investimentos estrangeiros no Brasil, não leva em conta que boa parte da renda deve estar sendo reinvestida. Como no caso de uma empresa, temos que distinguir o lucro líquido dos dividendos pagos.
Investimentos dos estrangeiros no Brasil, de US$ 1.205,7 bilhões, geram retorno de cerca de 16,5% ao ano
Para determinar o montante de lucros sendo gerados, temos que olhar a estrutura desse passivo, e atribuir retornos esperados a cada linha desse balanço. Em recente estudo fizemos isso e chegamos à conclusão que os investimentos dos estrangeiros no Brasil no valor de US$ 1.205,7 bilhões geram um retorno estimado de mais ou menos 16,5% ao ano, enquanto os ativos estrangeiros dos brasileiros no exterior, de US$ 548 bilhões, geram um retorno de mais ou menos 6,7%. A grande diferença de retorno se deve à composição dos recursos: do lado estrangeiro temos investimentos diretos (US$ 436,9 bilhões) e investimentos em portfólio (US$ 608,5 bilhões), ambos de alta rentabilidade. Do lado brasileiro, o maior item são as reservas internacionais do Banco Central (US$ 275,2 bilhões) de baixíssimo retorno.
Essa diferença implica um retorno esperado no montante de US$ 162,8 bilhões, US$ 92,2 bilhões acima do que é apurado na balança de pagamentos.
A importância desse montante para a sustentabilidade cambial tem a ver com a necessidade da empresa "Brasil S.A." de gerar recursos em moeda forte para rentabilizar esses investimentos já que estrangeiros querem ser pagos em sua moeda. E dado o fato que o Brasil hoje tem déficit na sua conta de serviços, isso tem a ver basicamente com nossa habilidade como economia exportadora de bens (basicamente commodities) de gerar superávit comercial suficiente para sustentar esse passivo externo.
De fato, a taxa de câmbio estará em equilíbrio quando o valor presente do superávit comercial for igual ao passivo externo. Assim, se por qualquer razão o valor futuro do nosso superávit comercial cair, o câmbio sofre desvalorização que diminui nosso passivo externo em dólares.
Reconhecendo as dificuldades em calcular valores presentes, decidimos simplificar a tarefa usando o "modelo de Gordon" da teoria da precificação das empresas para capitalizar a balança comercial. Especificamente, capitalizamos o superávit esperado para 2011, de US$ 10 bilhões e calculamos que a taxa de crescimento da balança comercial teria que ser de 23% ao ano para ser compatível com a taxa de câmbio (de R$ 1,687) e o passivo externo apurado pelo BC.
Esse valor é factível, ou indicaria que estamos em uma posição insustentável? Atualmente temos não um aumento, mas uma queda de 18,6% ao ano da balança comercial, e isso com nossos termos de troca (razão entre o preço das exportações e o das importações) nos maiores valores da história.
Tal resultado parece indicar a existência de uma preocupante "bolha especulativa" cambial. Como no caso de uma bolha especulativa na bolsa, parece que estamos descontando um crescimento na renda da empresa "Brasil S.A." que é muito improvável de se concretizar no futuro.
Mas será isso verdade? Acreditamos que uma possível explicação é que o mercado esteja racionalmente descontando um forte aumento futuro no superávit comercial advindo das futuras exportações de petróleo das reservas do "pré-sal". Enquanto fica difícil prever forte crescimento em moeda estrangeira da receita vindo das nossas já grandes exportações agrícolas e de minérios, o pré-sal parece oferecer um possível incremento de exportação grande o suficiente para sustentar o nosso crescente e caro passivo externo na taxa de câmbio atual.
Mas a verdadeira boa notícia é que esse alto risco está hoje nas mãos de estrangeiros. Se o pré-sal desapontar, basta o real cair para reestabelecer o equilíbrio, impondo perdas em moeda forte nos investidores estrangeiros. Isso, afinal, é a grande e importante diferença entre hoje e os dias que antecederão a crise dos anos 80.

terça-feira, 15 de março de 2011

BRASIL: GAVIÕES IRRITADOS RECLAMAM COM O BIG BOSS

Por Tony Volpon

Ontem, o Banco Central do Brasil (BCB) realizou a sua reunião trimestral com muitos economistas do mercado ( participantes da pesquisa Focus)  preparatória do próximo Relatório de Inflação de março. No entanto, esta reunião, ao contrário da maioria das reuniões anteriores, apresentou fortes críticas de alguns economistas que, abertamente, puseram em causa o compromisso do Banco Central no combate à inflação. Embora a maioria concordasse que a economia brasileira está desacelerando, alguns participantes mais radicais afirmaram que não se faz o suficiente para trazer a inflação de volta à meta,  ainda em 2012. Dúvidas sobre a eficácia das medidas de macro-prudencial, o compromisso com a austeridade fiscal e com o esperado  aumento de 13,5% ,ou mais, do salário mínimo para 2012 eram queixas repetidas muitas vezes. O Banco Central também foi criticado por ter, aparentemente, abandonado o objetivo de trazer a inflação para meta durante o ano corrente e pelas alterações sugeridas na composição da pesquisa Focus.
  
O Brasil é o único país no qual eu posso pensar que alguns economistas do mercado vêem como seu dever dizer ao Banco Central o que fazer ao invés procurarem prever o que o Banco Central vai realmente fazer. Culturalmente (e falo isso como um brasileiro) a maioria dos economistas do mercado gostam de fazer um  “Monday morning quarterbacking”*, da mesma forma a maioria dos brasileiros acha que eles seriam melhores treinadores do alardeado plantel de futebol do país.

Por conta dessas tendências culturais, devemos ainda acrescentar dois conjuntos de fatores agravantes:
 Em primeiro lugar, a partir de uma perspectiva normativa, muitos analistas locais simplesmente não concordam com as recentes alterações introduzidas pelo novo governo no mix de política macroeconômica.
Em segundo lugar, tanto o governo como o Banco Central precisa tornar mais claras as mudanças políticas que estão sendo planejadas e, de fato, concluí-las.
O mix do regime no Brasil também mudou. .
Simplificando um pouco as coisas, nós tínhamos o seguinte mix no governo Lula:

1. Uma política fiscal e creditícia frouxa;
2. Política monetária e cambial apertada;

Agora com o Presidente Dilma:
 
1. Uma apertada, mas nem tanto, política fiscal e uma política creditícia pela via das medidas prudenciais;
2. Menor dependência da Selic e da apreciação cambial para controlar a inflação.
 
Além disso, essas mudanças têm um maior grau de coordenação e coerência entre políticas agora do que durante o período Lula.
 
Alguns economistas não concordam com essas mudanças. Enquanto a grande maioria dos economistas de mercado não são fãs da política fiscal frouxa do período de Lula (ainda que mais aceita como uma necessidade no rescaldo da crise financeira), o claro direcionamento da inflação pelo instrumento da política de taxa de juro é visto por muitos como uma virtude. A maioria não aceita o argumento de que a articulação política de Lula levou a uma valorização enorme e perigosa da moeda, e que a decisão política tomada pelo novo governo mudou a combinação de políticas para diminuir a pressão sobre o Real.
 
Reconhecemos que a articulação política atual é mais complexa do que se deu no governo anterior. A execução desta combinação das complexas políticas atuais é o que governo escolheu para lidar tanto com a valorização do real, como as maiores taxas de política real do mundo. Em segundo lugar, a coordenação entre as políticas é muito importante e a necessidade de olhar tranversalmente as áreas políticas e fazer julgamentos informados é talvez a principal lição da crise financeira.
 
Mas a maior complexidade pode criar riscos que o governo e o Banco Central deveriam ter em conta. Por exemplo, o impacto real das políticas macro-prudenciais é difícil de estimar, dada a capacidade do sistema financeiro para ultrapassar as medidas (algo desse tipo está acontecendo no mercado de câmbio, com os bancos locais formando dívidas de curto prazo para contornar os recentes limites impostos sobre as posições pontuais de curto prazo).
 
Em nossa opinião, o Banco Central deve abordar esta incerteza, errando para mais no lado da cautela e impondo medidas mais eficazes para reduzir o crescimento do crédito. Acreditamos também que o governo deve caminhar para um regime fiscal de longo prazo que iria retirar a tentação política de estimular a demanda nos períodos próximos as eleições, como se estimulou em 2010. Esperemos que qualquer novo regime possa usar, como alvo, outra coisa além da medida fiscal primária, que, infelizmente, perdeu toda a credibilidade dada aos truques contábeis sucessivos utilizados pelo governo para "acertar" esta meta ao longo dos últimos dois anos.O governo também precisa lidar com a "super indexação" do salário mínimo, que será um importante desafio em 2012.
 
O Banco Central também deve ser mais direto em seus objetivos. É claro que não há apoio político para o tipo de aperto monetário que seria necessário para trazer a inflação para meta no ano calendário de 2011. O horizonte político efetivo é de 2012. Sendo assim, o Banco Central deve indicar isso claramente, e não através de atas habilmente redigidas, mas com uma linguagem opaca.
 
Os falcões infelizes estão certos em muitos pontos, mas assim é o governo e o Banco Central. O regime político mudou, e nós acreditamos na direção certa. No entanto, o governo tem muito mais trabalho a fazer, especialmente no lado fiscal. E o Banco Central tem que clarificar as suas reais intenções.

* Nota de tradução (DC): Termo informal, americano e canadense, que se refere à pessoas que gostam de opinar após os fatos, de forma retrospectiva, sugerindo outras opções.



quinta-feira, 3 de março de 2011

Volpon : Brasil, Cortes...expansão de crédito?

Brasil: Cortes...expansão de crédito?

Por Tony Volpon

Depois de muito trabalho e suspense no detalhamento final dos planejados R$ 50bi de cortes fiscais para o orçamento previsto de 2011, o Ministro da Fazenda Mantega anuncia agora um empréstimo de R$ 50 bi do Tesouro Nacional para o banco estatal de desenvolvimento BNDES visando apoiar a sua atividade de crédito este ano, estimada em cerca de R$ 75 bi. A reação do mercado tem sido bastante negativa, com taxas DI cruzando o teto, assumindo um viés de maior inclinação. É o caso, o governo estar tirando com uma mão (cortes fiscais), mas apenas para colocar de volta com a outra (maior de crédito)?

Do ponto de vista da gestão da demanda seria muito melhor para o governo reduzir severamente este tipo de empréstimos subsidiados. É verdade que o ministro prometeu que estes novos créditos serão "alguns pontos percentuais"
mais caros do que no ano passado, mas o que não disse, é que esse tipo de empréstimos subsidiados são em parte os responsáveis pelo fato de que o Brasil tem uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Tenham em mente que a “taxa básica” do BNDES, conhecida como "TJLP" é de 6% ao ano, contra a taxa, política, Selic que é de 11,75%.

Embora essa notícia não seja boa para a gestão da política fiscal global, especialmente quando a gestão da demanda deve ser a prioridade número um do governo, não é algo inesperado. Também é verdade que, do ponto de vista do produto potencial, esse tipo de empréstimo é necessário já que, infelizmente, este tipo de crédito baseado no empréstimo subsidiado em longo prazo no Brasil é escasso, e, assim, eliminá-lo levaria a níveis de investimento muito menores. Infelizmente, o ministro não soube aproveitar essa oportunidade para falar sobre a implementação das medidas anunciadas no ano passado para promover empréstimos de longo prazo com a finalidade de apoiar os investimentos e permitir que o BNDES, que já é sistematicamente muito grande ( agora é maior do que o Banco Mundial), abrandar o seu crescimento nos empréstimos.

Continuamos a acreditar que o verdadeiro problema não é tanto as medidas tomadas per si, mas com a mensagem que se passa. Muito ou pouco, após a desastroso desempenho fiscal de 2010, o mercado não confia no ministro Mantega. Ele também assume uma atitude esquiva tentando manter a tese muito improvável que a inflação pode ser mantida sob controle com crescimento próximo de 5%, ou que o Brasil tem um problema de inflação devido aos altos preços das commodities, e não devido ao excesso de demanda que as políticas governamentais de 2010 ajudaram a criar.
Uma avaliação internamente mais consistente e realista das perspectivas para a economia brasileira, reconhecendo que o governo está sendo obrigado a ajustar os excessos do ano eleitoral, seria um passo importante para recuperar a credibilidade perdida.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

DETERMINAÇÃO DA ECONOMIA PELO CICLO ELEITORAL

Abaixo texto de Tony Volpon, publicado na Folha de São Paulo e citado pelo "Democracia Política e Novo Reformismo", tratando da relação, pouco observada no debate atual, né?, entre o processo eleitoral e o uso do aparelho de Estado na permanência das estruturas de poder. Ou seja o "ciclo econômico-eleitoral". Não é assunto novo. Novo é ser tratado por um analista de mercado que decide sair do espaço das "questões de mercado" para questões mais amplas e de determinação estratégica. 

Mais uma questão que não empolga nosso incipiente controle social. Aliás que controle social pode haver quando o controle do executivo sobre o legislativo é no mais eficiente estilo rolo compressor, como está se vendo na votação do SM? É assim que consolidaremos a democracia em nosso país?

Demetrio Carneiro


Período eleitoral seguido de aperto fiscal determina o ciclo econômico do país

por Tony Volpon

Existe um "ciclo eleitoral" no Brasil? O ciclo eleitoral é a tese segundo a qual governos tentam controlar o ciclo econômico para influenciar o resultado das eleições.
Essa tese encontrou pouco apoio nos Estados Unidos, onde, diante de uma economia complexa, seria difícil manipular o ciclo econômico para coincidir com o calendário eleitoral.
Mas, se não parece ter obtido sucesso nos EUA, no Brasil a historia é outra em relação a esse ciclo eleitoral.
O economista Marcelo Neri, da FGV, estudou a variação na renda, pobreza e gastos do governo nas eleições de 1982 a 2006 e encontrou forte evidência sobre a existência do ciclo eleitoral.
Por exemplo, Neri descobriu que o aumento da renda mediana foi de 12,5% no período pré-eleitoral, para cair a 11,9% nos anos pós-eleição.
Essa evidência empírica mostra que infelizmente nossa ainda jovem democracia, onde o Estado possui muitas políticas para influenciar o nível da atividade, parece estar sujeita ao ciclo eleitoral.
De fato isso parece ser a única maneira de explicar o último ano do governo Lula, que acelerou o impulso positivo da política econômica apesar da fortíssima recuperação pós-crise.
Por exemplo, os gastos do governo aumentaram em 10,1% entre 2009 e 2010.
Acelerações em 2010 em relação a 2009 foram também vistas nos aumentos de salários dos servidores, transferências para cidades e municípios e aumento de crédito dos bancos públicos.
Não surpreende que em 2010 a economia brasileira deva ter o maior crescimento anual em décadas.
Se 2010 for de fato um caso extremo, mas não atípico, do ciclo eleitoral no Brasil, o que esperar para 2011?
Como mostram os dados, o boom pré-eleitoral é seguido por forte ajuste. Afinal, não vale a pena deixar a economia perseguir um caminho insustentável no inicio de um novo mandato.
As recentes medidas de ajuste do governo devem ser entendidas dentro desse contexto.
TONY VOLPON é chefe de pesquisas de mercados emergentes da Nomura Securities International Inc