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domingo, 23 de janeiro de 2011

DILEMAS DA OPOSIÇÃO II

A indefinição do que realmente é fazer oposição foi uma das vertentes que levaram ao fracasso de 2010. Na lógica de Serra o “pós-Lula” seria a única alternativa para não bater de frente com a imensa popularidade do ex-presidente. Para evitar perder preferiu...perder. Talvez tivesse em vista a leitura gentil de FHC, às vésperas da primeira vitória de Lula, em que o antigo presidente defendia a “normalidade” da rotação de poder. Bem, Lula não é muito chegado mesmo a gentilezas. Principalmente com um adversário histórico como Serra.
Depositar a culpa em Aécio, que tem sim a sua parcela, mas não na dimensão proposta, é uma forma de diluir os erros, mas o principal, o substancial foi mesmo da estratégia de valorizar o marketing eleitoral e, dentro do marketing, imaginar que seria muito fácil trocar alho por bugalho, desde que o bugalho estivesse vestido no modelito “eu sou (muito mais) competente”.
A insistência no bate-bate casual e pontual aliada ao completo abandono do debate programático e somada às atitudes fundamentalistas no final da campanha se encarregaram do resto.

Aparentemente a oposição se satisfez com um rápido balanço de suas “vitórias”: Tantos milhões não votaram, por Lula, em Dilma. Tantos governadores foram eleitos.
Seria correto se este capital eleitoral, os tantos milhões que não votaram, tivesse algum uso capacitado e objetivo. De momento a única proposta oposicionista parece ser continuar batendo. Será e está sendo, natural a diluição deste capital e sua pulverização frente à vida real.
Os tantos e tantos governadores eleitos se preparam para uma “política de governadores” que historicamente entre nós é de aproximação com o poder. O Serra hoje candidato à presidente do PSDB e “oposicionistassísimo” difere do Serra-governador, silencioso e circunspecto. As engrenagens de poder a partir do Executivo imperial não “permitem” que governadores e prefeitos se articulem enquanto oposição real. Entre nós estados e municípios não são entes verdadeiramente autônomos. Não é esta nossa cultura. Não é esta nossa história e muito menos a vontade desses principais.

Seja como for o praticismo serrista, rapidamente assimilado por toda a oposição, ao renunciar ao debate programático também renunciou ao debate claro de seu próprio programa. A oposição está condicionada, portanto, a ser oposição por ser oposição, num tautologismo banal de “ser porque é”. Governadores ou prefeitos ou parlamentares da suposta base de oposição e que resolverem entregar os pontos poderão ser acusados do quê exatamente. De não assumirem o programa “secreto” de Serra, divulgado na semana anterior às eleições? De se aproximarem de um governo que com certeza em algum dia do futuro será corrupto e imoral?

O bate-bate pode ser mais tranqüilo. Não pensar e acusar dá menos trabalho, mas é um beco sem saída onde oposicionistas ficarão debaixo da jaqueira esperando a fruta cair. Vamos torcer para que não caia na nossa cabeça.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

ELEIÇÕES 2010: UM DEBATE SOBRE FRAUDE E POLÍTICA

Já no final da campanha de sucessão de FHC, quando ficou claro que Lula venceria o presidente fez uma tranquila declaração sobre a importância da rotatividade de poder. Ali estava o reconhecimento de que política institucional se faz dentro dos marcos da democracia e, embora não tão comentado, essa deveria ter sido a grande lição que todos apreendemos nos episódios que começaram pela destituição de Collor, passaram pela confirmação de Itamar Franco, as duas eleições de FHC e a eleição de Lula. Normalidade democrática e respeito ao rito. Lula será o primeiro presidente desta safra da Nova República a receber a faixa presidencial de um presidente eleito e entregá-la a outro presidente eleito.

Infelizmente, para todos nós, é diverso o comportamento do atual presidente. Lula e seus aliados não estão dispostos e nem preparados para a rotação de poder. Não pretendem abrir mão de seus cargos ou estilo de vida. E fazem e farão o que for necessário, mesmo que implique em fraude.
Este último episódio de Lula e Dilma escarnecendo da agressão sofrida por Serra por conta de uma montagem maliciosa das cenas dá o tamanho da questão republicana. A Presidência da República, que não deveria servir apenas para abrigar famílias mafiosas, tem recursos e pessoal técnico para saber distinguir uma montagem de cena.
No entanto e muito rapidamente Lula preferiu adotar a linha do escárnio ou invés da linha de defesa do direito de oposição como deveria caber a um chefe de Poder Executivo.
Em proveito do próprio projeto de poder Lula faz questão de misturar reações de um cidadão qualquer com as responsabilidades do cargo.

Infelizmente a Justiça Eleitoral é “neutra” à favor do poder. O juiz não pensou duas vezes ao mandar apreender o material da Igreja Católica, dando base para o PT usar a ação em sua propaganda eleitoral. Agora que está comprovado que o material é legal e a apreensão foi na realidade inconstitucional, será que haverá o direito de resposta no mesmo volume e intensidade em que as mentiras foram veiculadas? Ou a justiça vai esperar acabarem as eleições para julgar o caso “com mais objetividade”? Como vai ocorrendo com a Lei da Ficha Limpa?

As atuais eleições embora ocorram na Nova República são típicas de eventos e posturas da Primeira República, a chamada Velha República, cujo processo eleitoral era apenas formalidade para justificar uma eleição decidida nos gabinetes. Outra similaridade é que as questões locais eram resolvidas pelos famosos coronéis em circuitos de aliança que ligam o local ao nacional. Hoje a lógica de poder petista ainda trabalha com os antigos coronéis revitalizados como Sarney e Collor, mas usa os novos coronéis agora instalados no comando de uma miríade de entidades do movimento social, como atuação local, financiadas única e exclusivamente com recursos públicos e que servem de palco a todo tipo de proselitismo eleitoral do poder. O mesmo fenômeno vem se consolidando nas redes sociais. Muito longe de redes espontâneas são redes capitaneadas profissionalmente por pessoas pagas com recursos públicos, como o mais recente caso do site que centraliza os blogs governistas. Ainda terá que haver um debate sobre esses fenômenos de confirmação e sustentação de poder, ligados aos novos coronéis.

Na realidade estamos numa encruzilhada entre perder concretamente conquistas da democracia, do acumulo de anos de luta contra a ditadura ou perder, como lê o petismo, perder qualidade de vida. O que eles esquecem de avisar que não estão lutando pela qualidade de vida da população, mas a deles, embora digam que é tudo pelo povo. O núcleo malicioso da estratégia é saber confundir essas coisas, tratando o eleitorado como algo manipulável.

Certamente faltou um debate sobre o atual Estado de Bem Estar Social , sobre suas próprias garantias constitucionais, que independem da vontade de um presidente e sim da vontade da representação eleita, e sua relação com um projeto de desenvolvimento. Questões vitais como a educação, se postas como pontuais, perdem seu nexo e viram apenas propostas que podem ser contrapostas por outras propostas identicamente pontuais ou por um debate sobre indicadores. Já postas num contexto de proposta de desenvolvimento chegam sem problemas às bases da política de bem estar e expõe com clareza as contradições que marcam as atuais políticas públicas.

Outra questão que merecerá um balanço é sobre a auto-identidade de esquerda. O processo eleitoral trouxe à tona um conflito latente entre a esquerda clássica e a esquerda que busca se recolocar no mundo atual. É um debate muito antigo. Na realidade já havia antes do muro e tem suas raízes no século 19, se aprofundando durante os anos do stalinismo. Aqui entre nós foi muito pesado durante a luta contra a ditadura quando o arco de alianças se rompeu em definitivo, com os segmentos de esquerda clássica buscando a luta armada. A ascensão desses grupos ao poder via PT mostrou que a questão anda muito longe de ser encerrada.
A própria confusão no campo da oposição sobre o que é exatamente este “ser-de-esquerda” facilitou a operação ideológica de separação entre esquerda e direita dentro dos moldes da dicotomia clássica. Dicotomia na realidade inexistente, bastando para isto observar o próprio arco de aliança petista. O mundo dividido assim ficou mais fácil de ser compreendido e mais fácil de justificar todas as manobras eleitoreiras. Afinal, até os assaltos a banco foram “pelo povo”. Foi mais simples também para apropriar a paranóia esquerdista da conspiração e da auto-vitimização.
A leitura do Financial Times situando Serra como um candidato de direita mostra como a questão “pega”. É fácil perceber que a insistência em se definir como “católico contra o aborto” colocou Serra justamente no campo dos setores mais conservadores da Igreja Católica, historicamente identificados com as elites dominantes tradicionais. Por ironia aquilo que parecia um facilitador de aproximação com o fundamentalismo evangélico de Marina, nas mãos do petismo militante virou prova cabal da aproximação, sempre anunciada, entre Serra e as “elites” brasileiras.

Enfim, é apenas a opinião de um especialista em políticas públicas e não de um marqueteiro.

Demetrio Carneiro

sábado, 9 de outubro de 2010

ABORTO E CAMPANHA PRESIDENCIAL

Por ter opinião divergente de Serra quanto ao aborto e ser da equipe da coordenação da campanha dele, Soninha Francine, pessoa por quem tenho grande respeito, tem sido pressionada pela mídia a fazer declarações.

Mais simples ir direto à fonte, o Blog Gabinete Soninha Francine, em post de ontem, 8:

Aborto é uma questão delicada e complexa que deveria ser debatida com mais respeito. Apareceu em tudo quanto é sabatina e debate, como é natural que aconteça por ser um tema "polêmico", mas sequer é matéria para decisão presidencial. Também não creio que seja para decisão plebiscitária. É para discussão cuidadosa no Congresso e nos vários foros da sociedade. É comum haver conflitos entre o "foro íntimo" e a visão da questão social; a convicção religiosa e a experiência concreta. Eu sou a favor de mudança na legislação, meu candidato a presidente não é. Agora virou motivo de guerra, troca de acusações - na verdade, sempre foi. Até por isso acredito que seu efeito eleitoral está sendo bastante superestimado. Os documentos sobre esse assunto, os sites contra aborto, os vídeos com pronunciamentos de religiosos e as correntes circulam já há bastante tempo. Por que teriam causado mudança de opinião em cima da hora? O que realmente é relevante discutir, em relação à candidata do governo, é mais um caso em que se tenta reescrever o passado. Se ela mudou de opinião, ou se não mudou mas vai respeitar a que parece ser a opinião da maioria, é compreensível. Mas ela busca adaptar o discurso às circunstâncias e negar a posição anterior - e isso já aconteceu várias vezes. O próprio presidente, tido como muito "autêntico", também muda o discurso conforme a plateia. Ora se coloca como um baluarte anti-capitalismo, ora diz que "precisou um operário ensinar as elites a fazer capitalismo". :oP

Soninha coloca as coisas com muita lucidez e propriedade. A começar pelo fato de “aborto” não ser matéria de competência executiva e sim legislativa. O presidente fará ou deixará de fazer por conta de decisão do Congresso Nacional. Os candidatos a deputado federal e senador é que, muito habilmente, se esquivaram do debate.

De qualquer forma, penso eu, a opinião pessoal de um candidato a presidente não deveria ser matéria de filtro. A questão é questão de Estado e deve ser vista dessa forma. Posso até admitir que uma poderosa bancada religiosa se una e force um lei claramente restritiva. Ai não teremos mais um Estado laico e sim religioso, mas enquanto isso não ocorrer o Estado é laico e deve se movimentar nesse sentido. As objeções contra o aborto são religiosas. O SUS deve sim fornecer legalmente a opção de “aborto” às mulheres que assim o quiserem. É direito delas. As que são religiosas que façam o que já fazem: Não façam.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 10 de agosto de 2010

ELEIÇÕES, DESENVOLVIMENTO, ESTADO E MACROECONOMIA

O projeto nacional/desenvolvimentista envelheceu. De Getúlio à Lula, passando por todos os presidentes, mesmo os da ditadura, uma notável coerência gera uma linha de continuidade que a todos une.
A partir da década de trinta nenhum presidente eleito ousou não oferecer à nação uma visão desenvolvimentista e um futuro brilhante. Alguns conseguiram, a maioria falhou, mas todos tiveram a firme convicção de que só havia esperança em mais e mais crescimento.

Contudo como continuar crescendo num mundo de mudanças que apontam para outros paradigmas que não são os do atuais: consumo predatório e insustentável, industrialização fundada na matriz do petróleo, destruição ambiental. De fato houve uma época em que o planeta pertencia e servia ao ser humano. Hoje, a duras penas e com acidentes climatológicos em ritmo acelerado o recado que recebemos é que o planeta até aceita parcerias, mas não se deixará destruir impunemente. Soa muito dramático, mas basta ler as manchetes.

No quê dá a soma de reclamações de partes: Juros altos, câmbio sobrevalorizado, custo-Brasil, concentração de renda, exportação de commodities, falta de investimento das famílias e do governo, relações bilaterais fragilizadas, burocracia, patrimonialismo etc. etc.? São todas evidências isoladas ou são parte de um todo e esse todo é justamente uma proposta, um estilo de desenvolvimento ultrapassado porque não satisfaz as demandas de nossa sociedade?

A economia cresce, o país está no lugar certo e na hora certa, mas essa soma altera a qualidade da soma anterior. Não. Não porque crescimento NÃO É desenvolvimento, porque desenvolvimento não pode ser visto apenas como desenvolvimento econômico, precisa alcançar outros momentos: Social, político, pessoal, sustentabilidade etc.
Desenvolvimento é uma totalidade. Soma de diversos momentos e todos esses momentos ou estão “se falando” e se relacionando de forma harmônica ou não teremos o desenvolvimento que queremos. Há sim uma diferença, enorme, entre o desenvolvimento que temos e o que queremos.

Nossa República envelheceu precocemente e o presidencialismo tem ares de monarquia. Nossa federação é apenas nominal e somos na realidade um regime unitário, vertical e centralizado a partir do nível federal. A lista de críticas é muito ampla, mas a questão é que nada disso muda isoladamente.

O projeto de desenvolvimento que queremos terá que ser um salto e ter ousadia ou estaremos fadados a crescer, mas crescer como crescemos até hoje: Sem qualidade para todos e todas. Sem oportunidade para todos e todas. Sem um projeto de desenvolvimento que seja outro, diferente desse atual não haverá assistencialismo ou política afirmativa que resolva. Seremos a oitava, a sétima, a sexta, a quinta, a quarta, a terceira, a segunda e, finalmente, seremos a primeira. Mas, como a China, seremos e continuaremos injustos e desiguais. Injustos, desiguais e desequilibrados pois teremos esgotado, ainda como a China, nossos recursos finitos.

Qual Estado serviria para esse salto trasformativo?
Com certeza não será esse que ai está: patrimonialista, falsamente “aberto” à participação da sociedade civil, mas basicamente manipulador e cooptativo. Não precisamos desse Estado que quer dominar a economia pela lógica de grupos que associam o poder real com o poder estatal em seu único interesse. Não precisamos de um Estado que espolie a sociedade, que tribute de forma injusta os mais pobres, que cinicamente se apresente como distribuidor de justiça social e use isso para garantir a permanência dos mesmos grupos de sempre.
Nunca se tratou de “tamanho” ou tributação máxima. Sempre se tratou de responsabilidade republicana e coesão social.
O Estado que queremos não depende de tamanho para ser eficiente. Depende de vontade política e coesão social. Nada disso se obterá sem uma profunda reforma democrática do Estado. Nada disso se obterá se não houver um pacto de ação entre sociedade civil, mercado – no termo mais geral e não apenas o de capital – e gestão pública.

Da mesma forma a macroeconomia que precisamos terá que ser a que viabilize esse projeto. Terá que ser a macroeconomia que prossiga na política de estabilidade, mas também crie condições para um ciclo de poupança e investimentos. Que propicie um ambiente de juros a câmbio que alavanquem nosso crescimento econômico. A macroeconomia, ela sim, pode ser melhorada pela via da coordenação, hoje inexistente, das políticas econômicas de governo.

Se há um desafio que pode ser feito ao candidato, ao nosso candidato é esse e é o mesmo que podemos fazer à nação: Um outro projeto de desenvolvimento, mas desenvolvimento enquanto totalidade.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 23 de julho de 2010

CONCENTRAÇÃO DE RENDA: ESTE É O PONTO

A “garantia” de Dilma é a percepção popular de que a política social desse governo é justa.

O discurso da base aliada do governo, e de seus associados oportunistas, é que “nunca, jamais em tempo algum” se produziu neste país tanto em favor dos mais pobres.

O argumento para colocar o Brasil como campeão em tributação, apropriação da renda nacional, é que esses recursos são utilizados pelo bem do povo brasileiro. Embora Dilma tenha dito que considera a tributação baixa.

Este é o mito.


O fato está nos números que o PNUD, órgão da ONU, acaba de divulgar:


Dos 15 países mais desiguais do mundo 10 estão na América Latina e no Caribe. É, não são a África ou a Ásia, os piores continentes!

Cabe ao Brasil a honrosa(?) TERCEIRA posição quanto ao PIOR Índice de Gini – 0,56.

Somos vizinhos do Equador e, de mais de 180 nações, só não estamos piores que África do Sul, Haiti e Tailândia, com 0,59 e Bolívia, Camarões
e Madagascar, com 0,60.


Criou-se e aceitou-se o mito de que política social para o povo é distribuir bolsa-família ou terras para quem quiser.

Ai estão os fatos.

Políticas sociais se constroem é com educação qualificada, com emprego sustentável, com um projeto de desenvolvimento que dialogue com o futuro.


O Brasil de hoje é ainda o Brasil de ontem.

República dos “coronéis”, atenção não é a dos “tenentes”. Coronéis daqueles do interior arcaico transvestidos de “modernos” como Sarney e sua família ou Collor ou dezenas de outros “amigos” deste governo.


É preciso mudar.

Nem oito, nem oitenta anos transformarão esse país se o governo permanecer no controle dessas pessoas.

Demetrio Carneiro

quinta-feira, 24 de junho de 2010

BRASIL: EFICIÊNCIA ENERGÉTICA E PROGRAMA DE GOVERNO

Abaixo uma rápida entrevista com o Deputado Federal, por São Paulo, Arnaldo Jardim, coordenador do Grupo de Eficiência Energética da Comissão de Minas e Energia e representante do PPS na Comissão que cuida da formulação do programa de governo de Serra.
Neste momento onde é necessário um debate mais aprofundado sobre o desenvolvimento que queremos e suas particularidades o deputado aponta a questão da eficiência energética como um dos assuntos mais relevantes se pensarmos em termos de uma economia sustentável.

Demetrio Carneiro



AB – Há muito desperdício de energia em nosso país?
AJ - O Brasil desperdiça muita energia, mais de 15 bilhões/ano segundo pesquisa divulgada durante o 7ª Congresso Brasileiro de Eficiência Energética (COBEE), do qual participei. Há tempos tenho dedicado atenção ao desafio de transformar este desperdício em oportunidades. Necessitamos de mais energia para sustentar nosso crescimento e o melhor caminho, sem comprometer ainda mais os nossos recursos naturais, é a economia, a eficiência!

AB – Se o problema é tão amplo, não existe uma política pública que lide com esta questão?
AJ - Como coordenador do Grupo de Eficiência Energética da Comissão de Minas e Energia, da Câmara dos Deputados, entendo que “é melhor racionalizar o uso da energia de que dispomos, a energia mais barata e ambientalmente correta é aquela que não precisamos gerar”. Assim, defendo a definição imediata de uma Política Nacional de Eficiência Energética.

É necessário formular um marco regulatório capaz de impulsionar políticas públicas que possam “premiar a eficiência”, tais como:

Estabelecer os chamados Contratos de Performance no setor público, por meio de reformulação da Lei 8.666 (que trata de contratos e licitações públicas);

Impulsionar a inovação tecnológica (ex.: Smart Grid – tecnologia remota para controlar aparelhos em casas dos consumidores para economizar energia, reduzir custos e aumentar a confiabilidade e transparência);

Aquecer o mercado de “Green Buildings” (prédios sustentáveis);

Além de disseminar práticas cotidianas de racionalização de energia e consumo de água para a população.

AB – E o congresso sobre eficiência propriamente dito?
AJ - Vale destacar que representantes das principais candidaturas à Presidência da República estavam presentes no congresso, o que demonstra a importância estratégica do tema.
Como um dos formuladores do programa de governo de José Serra e entusiasta da Economia Verde, destaquei a lei estadual paulista de mudanças climáticas que vai impor à necessidade de ganhos de eficiência em todos os setores da economia, a instalação de aquecedores solares em novas moradias da CDHU, além do uso do poder de compra das instituições públicas para privilegiar produtos/empresas que estejam compromissadas com a eficiência energética.
Na ocasião, também defendi a etiquetagem de produtos/empresas como critério para orientar as concessões de financiamentos/isenções fiscais pelo setor público, a exemplo do que foi feito com a redução do IPI da linha branca, produtos estes que a partir do próximo ano terão de atender normas mais rígidas de economia de energia segundo nova determinação do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial).
Também destaquei a proposta das “Usinas Virtuais” – o potencial de energia acumulada e que se torna realidade a partir da eficiência energética. Para este último, seria necessário, inclusive, criar um mercado de contratos de ganho em eficiência energética, a exemplo do que já acontece na comercialização dos créditos de carbono estabelecidos pelos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas no combate as mudanças climáticas.

AB – Alguma observação final, deputado?
AJ - Em suma, disseminar projetos de energia eficiente é o melhor caminho para aumentar a competitividade do País, além de proporcionar redução de emissão de poluentes e de impactos ambientais e sociais.
Estou certo que a eficiência energética vai desempenhar um papel estratégico na nossa matriz energética.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

REPERCUSSÃO DO TEXTO DE TONY NA VEJA

Na Veja, o Radar on-line, de Lauro Jardim e outros, repercutiu o texto de Tony que publicamos (aqui) no Blog, ontem.

Compete fazer aqui alguns comentários:

a) Não se deram conta que “Nomura” não é uma “consultoria”, mas um dos maiores bancos do mundo;

b) A matéria tem implícita a intenção de “mostrar” como o “mercado” se posiciona contra Serra, mas não cita o trecho em que Tony declara explicitamente: “Assim como os manipuladores da campanha de Dilma, que estão escondendo ela da imprensa como um competidor em vantagem evidente, os locais acreditam que muito em breve ela vai consolidar uma liderança nas pesquisas e, provavelmente, ganhar a eleição já no primeiro turno. Embora nós mesmos não compartilhemos essa crença”.

A postagem e a tradução do texto em inglês foram minhas e a intenção foi mostrar outro ponto de vista sobre o desenrolar da campanha, mas principalmente mostrar como as ambigüidades na fala de Serra podem, de fato, comprometer a sua campanha. A reação de diversos segmentos do mercado deveria servir de alerta para a necessidade de um discurso mais claro e objetivo sobre a economia.

Os comentários feitos ao texto do Radar pelos leitores, em sua maioria, são divertidamente inconsistente e claramente ligados aos grupos da webcampanha de Dilma, principalmente.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 7 de maio de 2010

JOSÉ DIRCEU, MERCOSUL E UNASUL

Patético o que argumenta José Dirceu, hoje, no Blog do Noblat.
Na intenção de comprometer a fala de Serra questionando a inoperância real do Mercosul , fala mesmo em “indignação internacional”. De quem cara-pálida? Hugo Chaves?
O pior é querer colocar o projeto ideológico do Unasul no mesmo nível da União Européia que é uma tentativa de integração econômica e não de hegemonização.
Serra está certo é precisa uma profunda revisão na política externa brasileira, inclusive a comercial e as relações bilaterais e multilaterais, posta ao serviço de um projeto que só tem a haver com a vontade de poder de um grupo e não com os interesses nacionais. Essas coisas não se confundem.
Demetrio Carneiro

terça-feira, 4 de maio de 2010

O QUE UNE SERRA E DILMA

O artigo do Nerval Pereira, abaixo, é emblemático e sintetiza o pragmatismo eleitoral que a todos une.
Infelizmente há outra coisa, além do pragmatismo, que une o debate atual: A inexistência de uma avaliação do atual modelo de desenvolvimento e das proposições para outro modelo que responda às demandas desse nosso tempo.
Mesmo que pareça aos marqueteiros abstrato demais para o eleitorado é do debate de nosso futuro, ou não, que estamos falando.
Demetrio Carneiro

Querer é poder?
De Merval Pereira:
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É esse sentimento de que qualquer dos dois candidatos pode prosseguir no projeto de Lula, que é uma continuação do projeto de FH, que permite um ambiente tranquilo, quase modorrento na eleição, e dá margem a que o candidato oposicionista consiga fazer a comparação entre ele e Dilma, e não entre Lula e FH, como querem os petistas.
Ao atuar como um candidato que não confronta sua adversária, e muito menos o popularíssimo presidente Lula, o candidato tucano José Serra desmobilizou, pelo menos no momento, a expectativa governista de radicalizar as posições para colocá-lo no córner, caracterizando-o como o representante do retrocesso.
Ao contrário, ele se coloca como o mais capacitado para dar continuidade ao projeto, e somente os militantes petistas e tucanos são capazes de levar a campanha para comparações desqualificantes, ou agressões radicais.
Atribui-se a Lula a decisão de assumir a tarefa de "desconstruir" Serra e mostrar aos seus seguidores que o candidato oposicionista não pode ser sua continuidade.
Vai ser difícil Lula atacar Serra gratuitamente, ainda mais que o tucano não perde ocasião para elogiá-lo. Dilma tentou o confronto com aquela história de "lobo em pele de cordeiro", mas não deu muito certo.
A face radical dessa eleição está na internet, enquanto os dois candidatos comem feijoada juntos na mesma mesa em Uberaba.
O sociólogo Rudá Ricci considera que analisar as diferenças e proximidades entre gestões FHC e Lula pode ser útil para ter-se "uma visão mais clara da trajetória e tendência que o país vem adotando".

sexta-feira, 16 de abril de 2010

QUESTÃO MAIS PARA MENINOS

O debate entre o “Estado mínimo”, que tentam colar na testa de Serra, e o “Estado Forte” que Dilma procura usar como lema foi comprado por parte da mídia, mas também por muitos outros e outras. 
Além de ficar parecendo aquela disputa de meninos, qual é mesmo a importância prática deste debate para o debate eleitoral sobre o próximo governo?

Certamente nenhuma. 
O uso manipulatório do conceito mira na tentativa ou de promover Dilma como a "campeã" na defesa dos legítimos direitos dos pobres ou de “isolar” Serra como agente do neoliberalismo, termo que significa na leitura de uma esquerda atrazada uma espécie de conspiração dos grandes rentistas, quer dizer capitalistas, contra os interessas do povo. 
Automaticamente o Brasil estaria dividido entre “bons”, PT e seus aliados defendendo as bandeiras populares, o socialismo etc... e o “maus”, PSDB e aliados, agentes do capitalismo, do rentismo.

A discussão é estéril. Basta conhecer um mínimo das relações entre, por exemplo, Eike Batista e o governo ou entre as grandes empreiteiras e a política externa “amiga” do Brasil na África, na América Latina ou no Haiti, por exemplo.

A comparação  entre "tamanhos" também é ineficiente, pois o problema nos Programas de Governo vai estar é no conceito de desenvolvimento que se está propondo e, ai sim, qual Estado ou estrutura de Estado servirá com eficiência a este modelo.

O choque real é e será entre propostas de modelos de desenvolvimento. Se devemos nos esforçar por manter o atual modelo ou devemos nos esforçar por ter um novo modelo adequado ao nosso futuro e às nossas demandas.

Demetrio Carneiro