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domingo, 23 de janeiro de 2011

CORRUPÇÃO, POBREZA, GÊNERO, SAÚDE PÚBLICA: MISTURA EXPLOSIVA , ATÉ NOS EUA

Abaixo a parte inicial de uma matéria publicada hoje no Huffington Post.

É um show de horrores e mostra quanto o cruzamento entre pobreza, questão de gênero, a saúde pública e, sem dúvida,  a corrupção, podem ser problemas universais...

Tem alguma lição ai para nós?

Demetrio Carneiro

Clínica de aborto de Kernit Gosnell não tinha inspeção a 17 anos.

Enquanto uma denúncia, esta semana, envolvendo uma macabra fábrica de abortos na Filadélfia chocava muita gente, um relatório do
Grande Júri, com cerca de 300 páginas, também continha surpresas e revelações pouco difundidas: Em meados da década de 90 a administração do governador da Pelsinvânia, Tom Ridge, republicana, encerrou a inspeção regular das clínicas de aborto, política que continuou até o último ano.

De acordo com o relatório do Grande Júri, divulgado esta semana por promotores da Filadélfia, os agentes públicos de saúde da Pensilvânia deliberadamente escolheram não usar a lei para forçar estas clínicas de abortO a terem os mesmos níveis de atendimento do que os outros provedores de serviços médicos.

O escritório do Promotor Distrital esta semana acusou um médico especializado em abortos, Kermit Gosnell, por assassinato e infanticídio. Outros nove trabalhadores da Clínica de Aborto, a Women’s Medical Society, também enfrentarão denúncias. De acordo com o promotor, Gosnell e seus associados não apenas descumpriram a lei que controla os abortos após 24 semanas, eles também assassinaram bebês vivos perfurando-os com tesouras e cortando a espinha dorsal. Investigadores descobriram móveis manchados de sangue, instrumentos sem esterilização e restos de fetos espalhados pela clínica. Por último uma mulher, refugiada do Nepal, morreu sob os cuidados de Gosnell após repetidas doses de um perigoso sedativo. O promotor disse que Gosnell fez milhões tratando e às vezes mutilando, suas pacientes, que eram em sua maioria pobres e mulheres pertencentes a minorias.

sábado, 9 de outubro de 2010

ABORTO E CAMPANHA PRESIDENCIAL

Por ter opinião divergente de Serra quanto ao aborto e ser da equipe da coordenação da campanha dele, Soninha Francine, pessoa por quem tenho grande respeito, tem sido pressionada pela mídia a fazer declarações.

Mais simples ir direto à fonte, o Blog Gabinete Soninha Francine, em post de ontem, 8:

Aborto é uma questão delicada e complexa que deveria ser debatida com mais respeito. Apareceu em tudo quanto é sabatina e debate, como é natural que aconteça por ser um tema "polêmico", mas sequer é matéria para decisão presidencial. Também não creio que seja para decisão plebiscitária. É para discussão cuidadosa no Congresso e nos vários foros da sociedade. É comum haver conflitos entre o "foro íntimo" e a visão da questão social; a convicção religiosa e a experiência concreta. Eu sou a favor de mudança na legislação, meu candidato a presidente não é. Agora virou motivo de guerra, troca de acusações - na verdade, sempre foi. Até por isso acredito que seu efeito eleitoral está sendo bastante superestimado. Os documentos sobre esse assunto, os sites contra aborto, os vídeos com pronunciamentos de religiosos e as correntes circulam já há bastante tempo. Por que teriam causado mudança de opinião em cima da hora? O que realmente é relevante discutir, em relação à candidata do governo, é mais um caso em que se tenta reescrever o passado. Se ela mudou de opinião, ou se não mudou mas vai respeitar a que parece ser a opinião da maioria, é compreensível. Mas ela busca adaptar o discurso às circunstâncias e negar a posição anterior - e isso já aconteceu várias vezes. O próprio presidente, tido como muito "autêntico", também muda o discurso conforme a plateia. Ora se coloca como um baluarte anti-capitalismo, ora diz que "precisou um operário ensinar as elites a fazer capitalismo". :oP

Soninha coloca as coisas com muita lucidez e propriedade. A começar pelo fato de “aborto” não ser matéria de competência executiva e sim legislativa. O presidente fará ou deixará de fazer por conta de decisão do Congresso Nacional. Os candidatos a deputado federal e senador é que, muito habilmente, se esquivaram do debate.

De qualquer forma, penso eu, a opinião pessoal de um candidato a presidente não deveria ser matéria de filtro. A questão é questão de Estado e deve ser vista dessa forma. Posso até admitir que uma poderosa bancada religiosa se una e force um lei claramente restritiva. Ai não teremos mais um Estado laico e sim religioso, mas enquanto isso não ocorrer o Estado é laico e deve se movimentar nesse sentido. As objeções contra o aborto são religiosas. O SUS deve sim fornecer legalmente a opção de “aborto” às mulheres que assim o quiserem. É direito delas. As que são religiosas que façam o que já fazem: Não façam.

Demetrio Carneiro

domingo, 18 de abril de 2010

FUNDAMENTALISMO E SINCRETISMO NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

Há uma evidente onda de conversão fundamentalista, principalmente na baixa classe média urbana. Natural que candidatos à presidência procurem atuar de forma “neutra” ou como, Dilma, até se convertam. Contudo ainda somos historicamente sincretistas. Somos, pela nossa formação, culturalmente sincretistas. Somos, por todos os ângulos de formulação, dados colhidos, sicretistas.

O presidente brasileiro será presidente de todos e não apenas de fundamentalistas. Como seria se um fundamentalista que fosse contra a transfusão de sangue fosse eleito? Proibiríamos a rede pública de realizar transfusões? Se um fundamentalista for eleito presidente vamos destruir nossa herança sincrética e obrigar nossas crianças ao ensino religioso?

As declarações “de consciência” de Marina comprometem o projeto do PV. Tradicionalmente o movimento ambientalista tem se aliado, e mesmo encontrado fortes e pioneiros adeptos, nas questões de opção sexual.
Será muito difícil o palanque dela com Gabeira, por exemplo. E este deveria ser o principal. Será muito difícil explicar aos apoiadores do PV no Rio de Janeiro que sua candidata se posiciona contra o homosexualismo.

Marina deveria ter guardado para si suas objeções de consciência. Até porque, em sendo a presidente e o Congresso aprovando, por exemplo, a união civil homosexual, ela faria o quê? Não sancionaria a lei?

Demetrio Carneiro