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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DEMOCRATIZAÇÃO DO MERCADO DE OFERTA DE CRÉDITO

Conectado tanto com o modelo macroeconômico como com a questão do ciclo poupança/investimento, governamental das famílias, o mercado de oferta de crédito é outro que acaba se tornando um entrave para outro modelo de desenvolvimento.

Como vimos anteriormente a formação do “preço” dos juros básicos é afetada, em primeiro plano, por políticas fiscais que acabam pressionando a ação de governo na direção de aumentar as taxas básicas como meio de conter a inflação. Também vimos que há meios institucionais e operacionais de sair dessa armadilha, desde que haja vontade política para isso.

Mas como fica a questão das taxas de juros para empréstimos, cartão de crédito etc.?
Não estamos falando daquelas subsidiadas por mim ou por você, como ocorre atualmente com o BNDES, e que acabam custando bem barato para os amigos do Rei.
Estamos falando de indivíduos – micro e pequenos empresários informais que pedem crédito pessoal , famílias e empresas que não estejam naquele circulo mais fechado dos privilegiados. Gente normal.

Gente normal vai ao mercado. E o mercado de crédito brasileiro está nas mãos de um verdadeiro oligopólio. Não vamos falar aqui do consumidor desavisado que compra seu fogão em 5 anos e paga o valor de 10 fogões. Vamos falar de recursos necessário à expansão e/ou manutenção de empresas, informais ou não.

Existem fórmulas matemáticas para se calcular se o que se paga pelo recurso emprestado pode ser coberto pelo que se ganhará no futuro. Evidentemente o custo de um empréstimo pode comprometer um projeto de expansão empresarial.

O problema com mercado de crédito oligopolizado como os nosso é que quem empresta tem a liberdade de escolher taxas bem mais altas do que ocorreria num mercado mais competitivo.

É bom lembrar que vivemos num regime de oligopólio autorizado. Lá no início da crise, por conta de reforçar o sistema bancário brasileiro o governo autorizou fusões que encolheram o mercado ainda mais. Oligopolizar é política deste governo.

Não é preciso ser um grande especialista em economia para perceber que ampliar a capacidade de atuação das empresas tem a haver com a democratização do crédito.

Espremido entre os oligopólios e os esquemas de favorecimento dos amigos do Rei o empresário acaba sendo obrigado a um trabalho sub-aproveitado. É bem assim, empresas que não crescem o que podem por falta de recursos são sub-aproveitadas não gerando a renda e os empregos que são potencialmente capazes de oferecer.

Se vamos falar em economia sustentável teremos que falar em democratização do crédito e a única solução é abrir o mercado de crédito. Se o Estado tiver um papel regulatório nessa área terá que ser o de quebrar a estrutura oligopolizada, viabilizando novas instituições.
Mais concorrência = menor taxa de juros.

Calma ai! Não estou falando em intervir nos bancos, estatizar o demônio creditício burguês etc.
Estou afirmando que é possível estimular novas instituições de crédito. Por exemplo, instituições de crédito cooperativo. Elas podem democratizar e capilarizar o mercado.
Nenhuma novidade a legislação já está ai. Já existem cooperativas de crédito. Trata-se de induzir a ampliação do sistema. Se vamos falar em Estado pró-ativo vamos começar por ai.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

AS SÁBIAS PALAVRAS DE CÉSAR MAIA

Queiram perdoar, mas eu assino embaixo.
Demetrio Carneiro

A CAMPANHA MAIS FRIA DA HISTÓRIA!

1. Por onde se circula -capitais, municípios metropolitanos e interiores- não se consegue ver nenhuma iniciativa das campanhas presidenciais. A exceção se dá quando um candidato se apresenta -fisicamente- num local. E apenas por aquelas duas horas. E é essa a avaliação por todo o país. E que não se culpe a imprensa, pois essa tem feito força para animar a campanha, excedendo-se na divulgação de propostas e de conflitos.

2. Falta experiência eleitoral à candidata do governo, é verdade. Mas sobra no da oposição. E quando se pensava que a alternativa ambiental viria com alguma "verdade inconveniente", o que se vê é um bom comportamento que beira a uma espécie de 'saudades do governo'. O debate da Band foi apenas a apoteose da falta de brilho e de consistência.

3. As candidaturas favoritas fazem suas campanhas como se a instância presidencial estivesse completamente separada da política regional. Nem informação -reclamam as "bases" de ambos os lados- se tem. Isso, num país continental, em que por mais que os candidatos andem, não chegarão -diretamente- a 0,5% dos eleitores. E, por isso mesmo, precisam mobilizar suas "bases" para que estas deem capilaridade à campanha. A animação que se tentou com as Farc sequer passou pelo crivo de uma pesquisa que diria que as Farc não existem no imaginário do eleitor médio. Quem existe é Chávez.

4. Essa letargia pode até interessar a candidatura do governo, mas a sensação que se tem é que ocorre menos por estratégia que por falta de talento. E a oposição vive enjaulada numa tentativa de explicar ações do atual governo pelas ações do governo anterior. Só que, as ações do governo anterior -quando percebidas positivamente- se referem a 12 anos atrás. Ou seja, quem tem hoje 25 anos, tinha na época 13 anos, e quem tinha 70 anos, tem hoje 82. O que passa é que vai tudo bem e, se vai bem, para que mudar, comentava uma dona de casa num município do interior do Estado do Rio, semana passada.

5. O debate na Band foi a expressão desse quadro. Se os atores tivessem recebido um script para representar uma campanha insípida e inodora, não poderiam ter se saído melhor. O destaque foi nostálgico: como eram animados os anos 50, poderia se dizer do candidato da poli-oposição, que ainda ironizou os demais, batizando-os, num 'revival' de Brizola. E 'coerentemente' se debateu o tema saúde em torno dos mutirões de cirurgia -ou seja- daquilo que não foi feito pela rede e se tenta corrigir depois.

6. Lembre-se que, faltando 50 dias para as eleições, o eleitor já começa a transformar sua intenção inicial de voto em decisão final. Quem usa a audiência do debate como justificativa para torná-lo inócuo, se esquece da cobertura da imprensa, que por três dias abriu todos os espaços -escritos, ouvidos e vistos- para tratar do tema. A audiência pós-debate foi, assim, muito grande. E já veio com as conclusões: foi um não debate.

7. Agora, todos se concentram nos programas e comerciais na TV como se a criatividade dos publicitários pudesse transformar a realidade e produzir o milagre de mudar os produtos pela substituição da embalagem. A pré-campanha, como dizia Paul Lazarsfeld nos anos 40, é o momento da fotografia (de seu tempo), impregnando a imagem no celulóide. E a campanha é a revelação dessa imagem impregnada. Se não há pré-campanha, dizia ele, não há campanha.

8. Se os presidenciáveis pensam que a campanha é na TV, como não houve pré-campanha, a atenção estará voltada para as pesquisas, com cada um torcendo por elas, como se pudessem ser o retrato do que não fizeram. E se popularidade do presidente fosse a pedra de toque, o presidente do Chile hoje não seria Piñera e Churchill não teria perdido a eleição 3 meses depois de terminada a segunda guerra.

domingo, 8 de agosto de 2010

A PROPOSIÇÃO, DESENVOLVIMENTO, E SUAS PARTES, EDUCAÇÃO

Ontem postei sobre a incoerência do discurso de Dilma na questão da inclusão educacional.
Lá eu defendia que só poderíamos falar em verdadeira inclusão se houve uma radical transformação no ensino público brasileiro.
Nada a haver com continuar & melhorar.
Tudo a haver com transformar.

De imediato tive uma contestação, Gerci, sobre o custo desse projeto.
É verdade, com a tributação no limite onde se encontra muita gente vai se perguntando onde está o espaço para gastar mais.

Eu responderia que se trata de duas coisas:
a) Discutir a qualidade, a intensidade e a lógica do que se gasta hoje. Parte dos argumentos para não se tocar no assunto vem dos gastos sociais. Acontece que eles são a menor parte do gasto total. Existe sim espaço para rever, cortar gastos e redirecioná-los;
b) Discutir diretamente as escolhas. Políticas públicas enquanto orçamento são resultado de escolhas feitas pelo poder executivo, mas é bom não esquecer que o orçamento público, PPA-LDO-LOA, passa pelo legislativo e pode ser objeto de controle da sociedade, seja nas audiências públicas, seja por meio de entidades privadas de controle social.

Dá para perceber que na realidade há uma terceira coisa:
Não dá para fazer o debate da educação sem fazer o debate do desenvolvimento.
Ou seja, sem discutir um modelo de desenvolvimento não tem como discutir um modelo de educação.

A questão do gasto por exemplo.
O ensino público é constitucionalmente dividido. Creche, ensino infantil e fundamental, são atribuições dos municípios. Ensino médio convencional dos Estados. Ensino técnico dos estados e da federação. Ensino superior idem.
O trecho inicial, a porta de entrada, que é capilarizada, para se chegar ao ensino técnico ou a universidade passa pelos municípios.
Sabemos todos dos problemas que atingem a grande maioria dos municípios brasileiros, incapazes de gerar renda própria. Em tese sequer se trataria da União “ajudar”, como já ajuda municípios. No quadro atual a União teria que bancar a competência municipal. Do contrário o sistema jamais irá decolar.
Mesmo que intuitivamente todos sabem da incapacidade dos municípios assumirem suas competências por falta de renda própria.
Não é diferente no SUS e nem será no dia que tivermos que implantar o SUAS.
Se há um “tripé” para a política social do Estado deveria ser esse: Educação integral/SUS/SUAS.

Na realidade a questão do gasto nos municípios é uma questão federativa e tem tudo a haver com o modelo de crescimento econômico concentrador adotado. Da mesma forma está diretamente ligada ao atual conceito de desenvolvimento. Novamente estamos muito longe do continuar & melhorar. Trata-se de transformar.
Todo o problema desse debate de partes esta ai. Sem uma compreensão de conjunto discutir partes significa trabalhar com redundâncias e tautologias tipo as coisas são assim por que são assim...

Qual a razão da educação ser uma questão central?
É outro tipo política social. Voltada para a promoção e para a sustentabilidade do emprego. Empregos qualificados de longo prazo geram renda sustentável. Ampliam a capacidade do mercado interno etc.

Qual a outra razão?
O bônus demográfico. O Brasil terá um crescimento desproporcional de sua população jovem de agora até 2020. De 2020 a 2030 a pirâmide estaria estará quase que invertida em relação a atual.
Ficamos assim: O atual sistema educacional é incapaz de assimilar a demanda atual. Certamente, por NÃO SER inclusivo, teremos uma pressão maior sobre o sistema social. Mais desemprego, mais violência etc.
Invertida a pirâmide teremos problemas na previdência. Provavelmente o sistema que já está meio falido irá falir de vez. Mais tributos.
É evidente que o assunto extrapola a questão da escola é toca direto no núcleo de uma proposta de desenvolvimento totalmente diferente da atual.

Enfim, o debate da educação só se “completa” se estiver acomodado numa proposta muito mais ampla de desenvolvimento.
Talvez seja um pouco por isso que todas as falas pareçam ser meio iguais, a linha de corte, que é o modelo de desenvolvimento, não está presente.

Demetrio Carneiro

sábado, 7 de agosto de 2010

MUDANÇAS CLIMÁTICAS E CAMPANHA ELEITORAL

Abaixo uma tradução livre de um texto postado no blog Climate Progress ( leia no original ) no último dia 5.
A dramaticidade é um elemento importante e quem tiver um mínimo de discernimento com relação às questões ambientais haverá de ficar incomodado.

Lamentavelmente o debate eleitoral está passando por fora das questões ambientais de fundo. Mais lamentavelmente ainda não há grandes preocupações de debater o impacto dessas questões no nosso futuro, na gestão pública ou no nosso desenvolvimento ou sobre as mudanças que serão necessárias para enfrentar com eficiência o que virá.

Muitos meses atrás, ainda no ano passado o Almirante Flores escreveu um texto no Estado de São Paulo comentando sobre a relação entre a prática política e as questões ambientais. Nele o articulista comenta achar muito difícil que políticos coloquem em risco suas carreiras por conta de defender mudanças tão radicais como as que se farão necessárias. É um pouco disso que estamos vivendo.

Demetrio Carneiro

Do presidente russo Medvedev: "O que está acontecendo agora nas nossa região central é prova da mudança climática global, em nossa história jamais enfrentamos condições climáticas semelhantes."

Fonte: Blog Climate progress


NYT: "A Rússia proíbe a exportação de grãos após fracasso na colheita devido à seca" .
5 de agosto de 2010.




A Rússia está sendo devastada por condições meteorológicas extremas - e seus líderes não estão calados sobre o acham que é a causa. Na quinta-feira, o presidente russo, Dmitry Medvedev falou a uma reunião de Conselho de Segurança da Rússia sobre a ameaça permanente de queimadas associadas com a onda de calor no país e a seca:

"... O nosso país não tem tido tal onda de calor nos últimos 50 ou mesmo 100 anos ... Eu quero dizer que este é, naturalmente, um acontecimento severo para o nosso país, uma grande prova de fato. Mas, ao mesmo tempo, não estamos sozinhos para enfrentar essas dificuldades, outros países também passaram por tais provas, e, apesar de todas as dificuldades, conseguiram lidar com a situação. ... Em geral, temos de aprender lições com o que aconteceu, e com a onda de calor sem precedentes que temos enfrentado neste verão.

Nenhum de nós pode dizer que o próximo verão vai ser assim. As previsões variam muito. Todo mundo está falando sobre a mudança climática agora.
Infelizmente, o que está acontecendo agora nas nossas regiões central é prova da mudança climática global, porque em nossa história nunca enfrentamos condições climáticas semelhantes. Isso significa que precisamos mudar a nossa forma de trabalho, mudar os métodos que usamos no passado. "


Bem, todo mundo está falando que a mudança climática é agora - exceto talvez a grande mídia americana, como o New York Times.
O NYT informa:

“A Rússia proibiu todas as exportações de grãos, na quinta-feira, depois de perder milhões de acres de trigo em seca severa, uma complexa decisão num momento em que existem deficiências nas safras mundiais, causadas pelo calor e inundações no hemisfério norte.”
O tempo continua a explicar por que os preços do trigo "aumentaram cerca de 90 por cento desde junho devido a seca na Rússia, Ucrânia, Cazaquistão e partes da União Européia, e as inundações no Canadá." Mas é toda uma série aleatória de coincidências de ondas de calor, segundo o Times.

Mas não para o presidente russo. Última sexta-feira, em declarações aos chefes de federações desportivas internacionais, Medvedev disse :

"Estamos no meio de uma onda de calor sem precedentes ... Nós nunca tivemos temperaturas tão elevadas desde que se registram temperaturas. Às vezes tenho a impressão de que estou em algum lugar na Itália ou no Egito, mas certamente não em Moscou ... Francamente, o que está acontecendo com o clima do mundo no momento em que deve incitar-nos a todos (quero dizer, os líderes mundiais e chefes de organizações públicas ) para fazer um esforço mais enérgico para combater a mudança climática global.

Teremos de ter este fator em consideração na nossa preparação para os Jogos Olímpicos e outras competições internacionais. Acho que teremos que fazer ajustes para o fator clima, e gastar o dinheiro extra, trata-se das Olimpíadas de Inverno também. Muito em breve, de fato, eu vou estar reunido ali [em Sochi], como acontece com os chefes de federações que representam o nosso desporto desportos de Inverno. Teremos de tomar o que está acontecendo com a natureza em consideração. O aquecimento global precisa ser levado em consideração no planejamento dos Jogos Olímpicos, ao contrário do que a multidão anti-ciência”.

A extensão dos incêndios na Rússia foi capturada em imagens postadas hoje pelo Earth Observatory da NASA no Incêndios e fumaça na Rússia. De acordo com a NASA:

"Intensos incêndios continuaram com força no oeste da Rússia em 04 de agosto de 2010. Queimando em turfeiras e florestas secas, os incêndios produziram uma densa nuvem de fumaça que atingiu centenas de quilômetros quadrados .... Os incêndios ao longo da borda sul da pluma de fumaça perto da cidade de Razan ... [em cima] da imagem, estão entre os mais intensos. Delineada em vermelho, uma linha de intensos incêndios está a gerar uma parede de fumaça. O incêndio no leste da imagem é extremo o suficiente para que se produza uma nuvem pyrocumulus, uma densa e alta nuvem formadas quando o calor intenso de um incêndio empurra o ar para o alto na atmosfera.

A parte inferior da imagem mostra a extensão da pluma de fumaça, abrangendo cerca de 3.000 quilômetros de leste para oeste. Se a fumaça fosse nos Estados Unidos, se estenderia de São Francisco até Chicago ....

Análise de dados recente ... indica que a fumaça dos dias anteriores, por vezes chegou a 12 km acima da superfície terrestre, na estratosfera. Em tais alturas, a fumaça é capaz de viajar longas distâncias para afetar a distância a qualidade do ar. Essa pode ser uma razão para que a fumaça cubra uma área tão grande. A nuvem pyrocumulus e a detecção de fumaça na estratosfera, são bons indicadores de que os incêndios são grandes e extremamente intenso.

Segundo a imprensa, 520 incêndios ardiam no oeste da Rússia em 04 de agosto .... Altas temperaturas e a vegetação ressecada devido a severa seca em toda a Rússia central, criando condições de incêndio perigosos.

A partir de 04 de agosto, 48 pessoas morreram nos incêndios e mais de 2.000 perderam suas casas por toda a Rússia central, segundo informes da imprensa. A fumaça densa também criou uma perigosa falta de qualidade no ar sobre uma ampla região. A vsibilidade em Moscou caiu para 20 metros,em 04 agosto, e as autoridades de saúde advertiram de que todos, incluindo pessoas saudáveis, deviam tomar medidas preventivas como permanecer em ambientes fechados ou ao ar livre usando uma máscara, noticiou o Wall Street Journal. Na imagem, Moscou está escondido debaixo de uma nuvem de fumaça. Perto do fogo, o fumo constitui um risco para a saúde, pois contém pequenas partículas (fuligem) e gases perigosos que podem irritar os olhos e vias respiratórias. A fumaça também contém substâncias químicas que levam à produção de ozônio mais longe do fogo. "
Como o blog ligado ao clima da WWF nota:

A fumaça parece agora estender até além da Rússia à América do Norte. Em seu relatório diário sobre fumaças (05 de agosto de 2010), a National Oceanic Atmospheric Administration e diz que "uma área de fino aerossol, que se acredita ser o fumo, foi encontrada sobre Nunavut e estende-se a porções do norte de Manitoba. É possível que essa área pode estar associada com a atividade dos incendios em curso na Rússia. "

sábado, 31 de julho de 2010

SERRA, PROGRAMA DE GOVERNO, MERCADO E INDÚSTRIA

A matéria abaixo é interessante, mas acho que ela só captou o mais aparente.
Desde o início desse debate eleitoral ficou evidente que Serra fez a escolha de ser o “pós-Lula”. A fundamentação dos argumentos é largamente conhecida. Deu certo? Deu errado? Depende do copo de água estar meio cheio ou meio vazio.

De qualquer forma, claramente, o debate programático foi posto de lado e substituído por intervenções pontuais. O que eu venho chamando de “debate de partes”.

O debate de partes não é programático pela simples razão de que para sê-lo deveria partir da visão estratégica do programa para buscar a relação entre suas partes constituintes. Obviamente a visão estratégica é um segredo que pelo visto só Serra tem e não abre para ninguém.

Ai certamente está o cerne das dificuldades na economia. Campanha eleitoral é por natureza “econômica”, sem trocadilho. Se você dá o eixo central, a estratégia de construção do programa, não fica difícil esclarecer as amarrações e intenções. Se você sonega a informação, ai qualquer especulação é válida.

Em se tratando de um governo que já executa, bem ou mal, uma dada política, qualquer fala será referência à política já executada. Se for uma fala “crítica” irá denotar mudanças. Sem o eixo estratégico só quem saberá da mudança é quem fez a fala e o silêncio sempre será uma aceitação tácita das interpretações que circulam pelo ambiente.

Esse é o clima do momento. Se Serra tivesse referenciado sua fala econômica numa proposta estratégica provavelmente não estaria na saia justa que se encontra. Saia justa que só piorou quando Marina também foi fazer o circuito feito por Dilma e esteve papeando com investidores internacionais, mandando um claro sinal para o mercado.

Para não ficar embromando vamos colocar da seguinte forma: Estabeleço uma proposta estratégica – Outro projeto de desenvolvimento, já que o atual só nos conduzirá a outros ciclo de desenvolvimento medíocre, mantendo os atuais níveis de concentração de renda e a mesma dependência externa como exportadores de commodities etc.
Esse outro modelo “só funcionará bem” com um outro tipo de Estado fundado na coesão social – setor público, privado e sociedade civil. Para haver essa coesão é necessária uma profunda reforma “democrática/democratizante no sentido republicano” do Estado.
Da mesma forma só funcionará bem com “outra” macroeconomia que resolva de forma eficiente e estrutural, os “preços” fundamentais da economia : Taxa de juros. Que resolva a questão estruturalmente a questão cambial. Estando claro que há um problema de “competição” entre as políticas monetárias e fiscais fica evidente que é necessária a coordenação dessas políticas. Talvez eu possa “melhorar” o modelo e introduzir um sistema cruzado de Metas de Crescimento contra Metas de Inflação, usando o superávit Estrutural como “regulador” de ciclos, mudando institucionalmente a gestão dessas metas.
Também devo esclarecer que a Estabilidade Econômica continua sendo a base do modelo e que a proposta de alterações no Estado e na macroeconomia destina-se a fortalecer a sustentação de médio e longo prazo da proposta de Estabilidade.

Muito, bem, estabelecido isso, tudo que eu disser, por mais sintético que seja, estará encaixado no molde central.

É indolor. Não deveria incomodar. O problema são as escolhas e a escolha feita foi privilegiar um olhar voltado para a indústria. Muito lógico já que há uma forte base de indústria na região de maior densidade de Serra. Muito lógico que Serra fale, olhando para a indústria, contra as altas taxas de juros que dificultam os investimentos ou contra a apreciação cambial que afeta a exportação. O problema é que falando de forma telegráfica, sem contextualização, facilita a interpretação de uma expectativa que vai se criando.

Talvez Serra ache mais importante manter esse rumo. Talvez não dê a mínima para o Mercado, já que ele não tem tantos votos. Quem sabe? Se a gente sequer sabe o que ele realmente pensa sobre as questões mais amplas, o núcleo aglutinador do programa, como a gente vai poder querer saber sobre os detalhes?

Vai dar certo? 
Vamos aguardar outubro. Já está na esquina. 
De qualquer forma não é um debate pequeno. A matéria abaixo, da Reuters, repercutiu nos principais órgãos da mída brasileira. Convenhamos que não é exatamente uma mídia positiva nessa altura do campeonato.

Demetrio Carneiro


Fonte: Estadão

O tucano José Serra iniciou sua campanha pela Presidência do país como o preferido dos mercados financeiros, mas suas últimas declarações contundentes sobre política econômica estão gerando dúvidas em muitos investidores.
Alguns investidores e especialistas políticos disseram que estão mais cautelosos sobre Serra do que sobre sua principal rival, Dilma Rousseff (PT). Serra, 68 anos, político veterano do PSDB, tem preocupado sobre Banco Central, juros e um maior papel do Estado na economia.
A aparente mudança na confiança causa uma reviravolta no senso comum relacionado à corrida presidencial, e pode mexer nos mercados de câmbio e de títulos se Serra permanecer forte nas pesquisas à medida que a eleição se aproximar, disseram investidores.
"O sistema financeiro secretamente prefere a Dilma", disse Tony Volpon, chefe de pesquisa de mercados emergentes da Nomura Securities em Nova York.
Em muitos quesitos, Serra deveria ser o preferido do investidor. Ele ostenta um doutorado em economia pela Cornell University, uma vasta experiência no Executivo e um partido que realizou privatizações e reformas pró-mercado no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
Dilma, por outro lado, funcionária pública de carreira, já foi guerrilheira e nunca foi eleita a um cargo público.
Ela, porém, abriu seu caminho para conseguir o apoio de investidores ao se distanciar de algumas propostas mais esquerdistas do PT. Dilma também prometeu continuar com políticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que agradam os mercados e que ajudaram a impulsionar a economia nos últimos anos.
"Nenhum dos candidatos é o sonho de Wall Street, mas Serra é o maior risco. Ele traz mais incerteza e possibilidade de mudança", disse Alexandre Barros, analista político que acompanha Serra desde que os dois eram ativistas estudantis em São Paulo, em 1962.
Xico Graziano, assessor de Serra, tentou amenizar as preocupações dos investidores: "Os investidores conhecem as qualidades do Serra e o modo dele entender a economia, não é segredo para ninguém."
NERVOSISMO NO MERCADO?
Até agora, poucos investidores se preocuparam com as eleições de 3 de outubro, descartando qualquer um dos principais candidatos como populistas que ameacem a estabilidade econômica.
Mas esse sentimento de calma está em risco com a proximidade da eleição e a articulação mais clara dos candidatos sobre suas propostas e programas.
Serra disse nesta semana que as taxas de juros precisam ser reduzidas e que o real está "megavalorizado".
"Com o Serra há preocupação com as taxas de juros e câmbio, embora eu pense que ele seria mais rígido na disciplina fiscal do que a Dilma", disse Reginaldo Alexandre, diretor da Abamec (Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais) em São Paulo.
Dilma tem conseguido avanços nas pesquisas de intenção de voto, apoiada pelo crescimento da economia e pela alta taxa de aprovação de Lula, embora não tenha chegado a uma liderança clara.
"O mercado não precificou o risco de Serra porque ele acha que a Dilma vai vencer", disse Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências.
Se a petista não estabelecer uma vantagem sólida sobre Serra em agosto, Volpon disse que "pode haver movimentos violentos (do mercado), especialmente na taxa de câmbio".
PAPEL DO ESTADO
Serra também deu sinais mistos sobre o papel do Estado na economia. Ele criticou a criação de uma nova companhia estatal e o uso de recursos do Estado para o trem-bala, e prometeu restaurar os poderes das agências reguladoras.
Mas também elogiou as medidas de estímulo econômico de Lula e propôs mais desenvolvimento liderado pelo Estado.
"Defendo um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil, o ativismo governamental", disse Serra.
Apesar de querer cortar os excessos do governo, Serra também quer dobrar o Bolsa Família de Lula, criticado durante anos por muitos de seus partidários.
Alguns analistas dizem que as posições variadas refletem sua estratégia de campanha. Ele pretende ser visto como uma mudança, mas não quer abandonar as políticas que tornaram Lula popular.
"A Dilma diz ao mercado o que ele quer ouvir. A mensagem de Serra é mais política, porque ele precisa ganhar votos", disse Dany Rappaport, sócio da consultoria financeira InvestPort.
Mas Serra tem um histórico de intervenção governamental e é ligado à escola de pensamento que defende planejamento econômico, Estado forte, controles de capital e substituição de importações.
Como ministro do Planejamento, ele peitou a ala pró-mercado do governo Fernando Henrique e foi transferido ao Ministério da Saúde. Lá, ele fez a gigante farmacêutica suíça Roche diminuir os preços sob ameaça de quebrar a patente da empresa.
"Suas propostas refletem suas crenças --não é propaganda. Mas, de qualquer forma, isso gera incerteza", disse Barros.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

DO QUE OS PROGRAMAS DE SAÚDE DOS CANDIDATOS NÃO FALAM...

Como mencionou um amigo referindo-se às questões da saúde pública: “não costuma existir soluções muito simples para problemas muito complexos”.
Programas de governo voltados para a mídia tentam na realidade repercutir a percepção dos eleitores. Se todos acharem que o quadrado é redondo os marqueteiros se encarregarão de resolver rapidamente a quadratura do círculo. De preferência em três linhas e uma palavra-de-ordem.
Questões como a saúde pública, que são complexas e apresentam problemas que vão muito além de sua própria dimensão específica, são resolvidas de forma bem simples e elementar.
É isso que transforma todos os discursos numa só fala, pasteurizada, asséptica, já que o assunto é saúde.

Vejamos o caso das famosas filas que fazem a festa das mídias em todo o Brasil.
A percepção da população, em geral, é de que as filas são uma aberração tão injusta quanto as consultas marcadas com quatro meses de antedência por falta de horário.
A “solução” marqueteira é acabar com as filas. Se lá como for o que deve estar na boca do candidato que as filas irão acabar.

O que talvez não tenha ficado muito claro é que o modelo brasileiro ainda é excessivamente “hospitalocêntrico”, como poderíamos dizer.
Como “ganho na margem” construir hospitais dá mais resultados para políticos e, muito provavelmente, empreiteiros.
Evidentemente não fica apenas ai.
A ideologia hospitalar também tem suas conecções com os laboratórios farmacêuticos, uma das mais poderosas industrias do planeta.

O problema é que a proposta do SUS fala em uma interconecção de diferentes níveis de assistência.
No primeiro nível, o básico, seriam feitas a maior parte dos atendimentos, que são os mais simples. Este nível tem uma forte vocação preventiva. Ao contrário dos níveis de média e alta complexidade que lidam com os fastos consumados.

A grande questão é que dá trabalho, é complexo, articular as redes de baixa, média e alta complexidade.
Dentro do princípio federativo os municípios têm a competência direta para instalar as redes de atenção básica.
Para a maioria dos prefeitos é bem mais simples e vistoso comprar ambulâncias. Que é uma versão “social” da prefeitura-chafariz.
Ai, mesmo que um município tenha a melhor rede de atenção básica do planeta os seus hospitais permanecerão lotados pela demanda dos municípios próximos.

É um pouco um “beco sem saída” federativo que só se resolveria se houve um mandato constitucional punitivo contra prefeituras ineptas para as grandes questões como saúde e educação, por exemplo. Até lá tem que contar é que as populações locais façam algo por si próprias. No fim do dia tem a haver também é com déficit de cidadania.

As lógicas atuais para superar o problema das filas acabam sendo lógicas de quebra-galho dada o completa assimetria de instalação do SUS no território nacional.
Na realidade é muito mais que um debate, falso, entre privatizar, usar o terceiro setor ou estatizar, pois toca em nossas raízes federativas e republicanas.

Programas de governo midiáticos andam muito longe de capturar este tipo de questão ou de ousar chamar a sociedade para este tipo de debate.

Saudações
Demetrio Carneiro

terça-feira, 6 de julho de 2010

UM ECONOMISTA KEYNESIANO ADOTA AS NOSSAS PROPOSTAS...

O economista keynesiano Jose Oreiro adotou nossa já conhecida proposta de coordenação das políticas fiscais e monetárias.

Infelizmente o texto não dá muitos detalhes e apesar de sugerir que a ação fique dentro do CMN, ao contrário da nossa proposição de um Conselho Econômico Nacional, que seria o CMN com mais funções, estamos contentes em constatar que ela esta sendo assumida por diferentes correntes econômicas, mesmo correntes com as quais temos pouca convergência sobre outros assuntos, especialmente o mercado de cambio e o papel do BC.

Tony Volpon

quarta-feira, 23 de junho de 2010

REPERCUSSÃO DO TEXTO DE TONY NA VEJA

Na Veja, o Radar on-line, de Lauro Jardim e outros, repercutiu o texto de Tony que publicamos (aqui) no Blog, ontem.

Compete fazer aqui alguns comentários:

a) Não se deram conta que “Nomura” não é uma “consultoria”, mas um dos maiores bancos do mundo;

b) A matéria tem implícita a intenção de “mostrar” como o “mercado” se posiciona contra Serra, mas não cita o trecho em que Tony declara explicitamente: “Assim como os manipuladores da campanha de Dilma, que estão escondendo ela da imprensa como um competidor em vantagem evidente, os locais acreditam que muito em breve ela vai consolidar uma liderança nas pesquisas e, provavelmente, ganhar a eleição já no primeiro turno. Embora nós mesmos não compartilhemos essa crença”.

A postagem e a tradução do texto em inglês foram minhas e a intenção foi mostrar outro ponto de vista sobre o desenrolar da campanha, mas principalmente mostrar como as ambigüidades na fala de Serra podem, de fato, comprometer a sua campanha. A reação de diversos segmentos do mercado deveria servir de alerta para a necessidade de um discurso mais claro e objetivo sobre a economia.

Os comentários feitos ao texto do Radar pelos leitores, em sua maioria, são divertidamente inconsistente e claramente ligados aos grupos da webcampanha de Dilma, principalmente.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 30 de abril de 2010

PARA QUÊ SERVE UMA PROPOSTA?

O Tony passou um e-mail questionando o fato de que há um silêncio generalizado sobre a atuação do Tesouro comprando dólares para segurar o câmbio, quer dizer, para impedir uma maior apreciação do real. 
Em realidade há uma diferença quando o Tesouro cria uma dívida para comprar dólares que o Tony estima hoje em 10% ao ano.
O problema é que eles acham sim que tem que controlar o câmbio de alguma forma, mesmo com aumento da dívida pública.

Na realidade é uma forma de “proteção” à indústria e responde às demandas da FIESP/CNI. Nesta altura do campeonato situação e oposição estão “sensíveis”.

Como aqui no Brasil o debate da dívida é especializado e não feito publicamente, quando o Tesouro vende títulos públicos na realidade “joga para baixo do tapete”.

Outro detalhe é que eles medem em termos de PIB. Outro dia escutei o argumento de um técnico do governo explicando que a atual formação de dívida não é fundamental porque não influenciará o percentual DP/PIB, já que o PIB esperado é alto. Quer dizer o que aparece na mídia é a despesa relativa e não a absoluta.

Enfim, comprar dólares serve para todos os gostos.
É como a questão dos juros. Politicamente é mais simples atacar o aparente e não o estrutural.
É mais simples dizer que os juros estão altos do que criticar a estrutura e o processo que levam a isso. Da mesma forma é mais complexo buscar as ações estruturantes para mudar o quadro. 
Com a questão do câmbio, desde que se resolva o “hoje”, o “amanhã” é problema do “outro”, quer dizer dos que virão.

O processo de jogar debaixo do tapete os custos das políticas atuais, desde a taxa de juros até Belomonte, é mais ou menos como o cara que joga o lixo num terreno público. Depois que ele jogou o lixo o problema não é mais dele, mas dos outros. 
É alguma coisa como a socialização da incompetência.

Demetrio Carneiro

sábado, 27 de março de 2010

ESCÁRNIO

Um dia após ser multado por campanha eleitoral antecipada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou que não está preocupado com o cerco da Justiça Eleitoral. Ao lado da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, ele comandou dois eventos públicos animados com jingles eleitorais e gritos de guerra de simpatizantes e militantes petistas.
"Generala". Dilma foi o foco das atenções de autoridades e sindicalistas que discursaram na cerimônia. O governador da Bahia, Jaques Wagner, chamou-a de "generala" e o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, referindo-se ao cargo que ela ocupou na administração da estatal, tratou-a por "minha presidente".

Lula não está satisfeito apenas em desmoralizar a tradicional e equilibrada política externa brasileira. Agora parte para desmoralizar de forma acintosa da justiça eleitoral. Do alto de sua arrogância se imagina imbatível, fale a besteira que falar. O que estamos vendo é a verdadeira face daqueles que utilizam a democracia apenas para manipulação e são capazes de descartá-la a qualquer momento.

É nas urnas que a resposta deve ser dada.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

DESABA ESTRUTURA DE FINANCIAMENTO DA CAMPANHA DE DILMA

A volta de José Dirceu era inevitável. A campanha de Dilma precisava de fontes seguras e generosas de recursos e J. Dirceu é o rei da caixa dois.
A denúncia da Folha de São Paulo, vinculando José Dirceu ao esquema de especulação montado com as ações da Telebrás derruba em plena decolagem a estrutura ilegal de financiamento da campanha de Dilma Roussef.

O que estamos presenciando é uma monumental maquinação voltada para a utilização do Estado brasileiro no financiamento do projeto petista de poder. Trata-se de crime de formação de quadrilha. Nem mais nem menos.

Cria-se uma demanda “nobre” fundada no conceito de que - embora mais de 900 empresas operem a questão da banda larga no Brasil, embora existam recursos fartos para financiar via a taxação que já é feita sobre as empresas do segmento – é o Estado brasileiro quem tem competência para criar uma rede nacional de banda larga que nos traga para a modernidade. Uma empresa falida estrategicamente detém uma rede de cabeamento. Outra empresa é escolhida como operadora e magicamente suas ações ganham valor. A proposta de uma rede pública de banda larga vira programa do PT para as eleições de 2010. O presidente brasileiro, em meio a uma onda especulativa registrada já na mídia, dá entrevista explicitando que a empresa alvo da especulação será a escolhida. Tem alguma coisa mais para dizer?

E agora, pegos todos com a boca na butija, o que é que vai acontecer?
Muita gente graúda disse que a prisão de José Roberto Arruda era paradigmática. Quem vai para a cadeia?

Para brasileiros sérios chegou a hora de questionar essa estrutura de poder fundada na hegemonização da Republica nas mãos de um centralismo executivo e baseada no uso da máquina pública para garantia da eternização de grupos, quadrilhas?, na estrutura de poder do Estado. O episódio de Dirceu mostra claramente como se locupetam empresas privadas, intermediários, partidos políticos, empresas públicas, agentes políticos, poder executivo e poder legislativo.
A crise é REPUBLICANA.
É falso e estrategicamente pensado jogar nos ombros do legislativo uma crise que tem sua origem nas estruturas de poder e sua manutenção que estão é no executivo presidencialista. Curiosamente o núcleo do questionamento da democracia representativa parte dos mesmos grupos que, defendendo a democracia direta e a democracia participativa como melhores que a democracia representativa, estão consorciados ao PT de José Dirceu.
O questionamento que tem que ser feito é para essa estrutura que ao contrário da negociação precisa comprar tudo e todos como única forma para se perpetuar. Isso é o inverso da proposta democrática que assimila e admite a alternância de poder.
Talvez esteja na hora de rediscutirmos o Parlamentarismo como forma de gestão e fazer política, inclusive e principalmente nos municípios.

Demetrio Carneiro

sábado, 23 de janeiro de 2010

O PARAÍSO QUE DILMA NOS EFERECE


Difícil fugir da associação disparada por Temer e assumida prazerosamente por Dilma. “A classe operária vai ao paraíso” foi um filme lançado no início da década de 70, 71. Só nos chegou efetivamente com o fim da ditadura. É considerado um dos clássicos da filmografia política italiana no pós-guerra. Seu personagem principal é Lulu. Operário metalúrgico meio alienado que se transforma politicamente ao sofrer um acidente e perder um dos dedos, passa pelo sindicalismo, mas oscila entre a luta política e o consumismo. A arte imita a vida?
O grande dilema do filme é estabelecer de qual paraíso se está falando. É a mesma dificuldade com Dilma, mas a construção dos links que retomem o projeto petista como um projeto de esquerda fica sempre mais evidente. A imagem deve ter deliciado o PSTU, MST, PSOL e outros, que passados dois mandatos ainda imaginam que “dessa vez”, no terceiro, o projeto revolucionário se concretizará.
Resta saber se a soma de tantas tensões em direções diferentes, não dá para dizer que o PMDB esteja exatamente na esquerda, vai resultar num governo que responda aos desafios que estarão postos e que decorrem não só da mais lenta recuperação da economia mundial, mas também das medidas equivocadas que são tomadas hoje.
Demetrio Carneiro


Dilma diz que gostaria de levar brasileiros ao paraíso
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse hoje que "gostaria muito de levar os brasileiros ao paraíso", ao ser indagada se assumiria a missão de ser a candidata à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Acho uma das maiores e melhores ambições que podemos ter", afirmou após cerimônia de cessão de uma área pública ao município de Rio Claro, SP, que teve a participação do ministro da Relações Institucionais, Alexandre Padilha, deputados e 25 prefeitos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O QUE APROXIMA E O QUE AFASTA



Nakano escreveu um interessante artigo sobre a questão da apreciação cambial. Mas, o ponto de interesse não está na análise feita. Está na falta de proposição. Na solução.

Curiosamente o autor nos leva ao limiar da solução, mas não a aponta.
Talvez não a aponte, pois a sua solução, por dedução do que lá está, é a mesma do governo: Taxação de capitais externos.

Certamente não ficaria bem para um economista “do lado de cá” apontar soluções usadas “do lado de lá”. Ele prefere, então, deixar implícito.
Outros como o Oreiro, que transita muito bem entre oposição e situação, não têm essa preocupação.
Outros, ainda, realmente estão do lado do governo e não têm qualquer problema em defender a medida.

Certamente o debate vai muito além da taxação, geração da caixa para o governo ou do tiro no pé.
Existe implícita uma premissa nacionalista e protecionista, clássica, do clássico desenvolvimentismo keynesiano gestado no Brasil.
A ação protecionista sempre foi um dos pontos mais fortes dessa proposta. Por seu profundo suporte nacionalista a ação protecionista do Estado sempre foi bem avaliada e tem sido a contrapartida obrigatória dos argumentos contra o movimento de globalização da economia.

Evidentemente cabe todo um debate sobre o quanto o protecionismo apenas favorece grupos e o anel de poder que se estabelece à volta do poder real e o quanto o Estado deveria, em parceria de fato com famílias e empresas, estimular a competitividade e a produtividade da economia privada nacional.

Nossa história econômica está ai para mostrar o quanto o protecionismo alimentou uma burguesia industrial e o quanto esse foi um dos processos de nos colocou no atual patamar de concentração de renda ao quebrar as regras de competitividade, inibindo a ampliação do mercado.

Um dos elos que une os economistas do desenvolvimentismo keynesiano brasileiro é essa visão do Estado e de seu papel como “condotiere” principal e solitário do crescimento econômico.
Importante ressaltar que não é uma visão keynesiana, no conceito da Teoria Geral, mas uma derivada local articulada de forma ideológica para sustentar as posições de uma determinada burguesia também local, com fundos vínculos com o Estado e dele dependente para realização de seu lucro melhorado. Disfarçados de economistas do desenvolvimento e defensores da nação não são mais que arautos de outros interesses bem diferentes.

Desde o início desse blog, já estamos com mais de um ano, sempre lutamos pela politização da economia.
Nosso ponto sempre tem sido que os economistas devem sair da estrita área econômica e olhar para os resultados de suas propostas.
Mas também defendemos que na avaliação desses resultados os economistas verifiquem quem são os ganhadores e quem são os perdedores. Nem sempre o mundo é tão linear quanto parece.

O desenvolvimentismo keynesiano brasileiro trás claramente uma visão inversa.
Sua proposta insistente tem sido a economização da política a partir de suas próprias premissas.
É esse o principal ponto que une os discursos de economistas que estão em campos políticos diametralmente diferentes.
Para esses economistas a questão da política é irrelevante, pois o principal está no projeto desenvolvimentista que os une a todos. Não há qualquer contradição entre estar ou não no governo, desde que o projeto seja o mesmo: Estado forte, a solução única.
A esse grupo não interessa o custo social desse aparato.
Essa questão é resolvida pela premissa da atenção aos pobres a qualquer que seja o custo.
Nessa linha, se existe ou não eficiência no próprio processo de eliminação da pobreza trata-se apenas de dar mais eficiência à máquina, contratar mais etc...
Não se olha, por trás dos que aparentemente ganham, quem são os reais ganhadores.
Na lógica deles a leitura nesse formato unificante do mundo é tão óbvia que isso talvez explique a extrema irritação de alguns no debate. Algo do tipo: Vocês não percebem o que é tão evidente...?

2010 será um pouco o confronto dessas duas formas de olhar o mundo e a relação entre a economia e a política.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Epa! Lula desembarca de Dilma?


Nota no Blog do Noblat, abaixo, pode provocar suspense.
Claro que em se tratando da metamorfose ambulante tudo é possível, mas existe um certo padrão que já ocorreu em outras situações como o caso de José Dirceu, por exemplo. Lula é muito solidário e bota a mão no fogo, como botou por Benedita, mas também tira e rápido. Atualmente Dirceu e Benedita mão passam de fantasmas, eco de um passo distante.
Como Roriz, ex-governador do DF, Lula vai com os amigos até a beira do abismo. De lá para frente o salto é solitário.
Demetrio Carneiro

Lula diz que tem candidato a presidente. E diz que não tem.


Apesar de já ter propalado aos quatro cantos que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, é o nome do governo para disputar a sucessão de 2010, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que ainda não tem candidato ou candidata.
Ele garantiu porém, que fará campanha no ano que vem para alguém que represente a "continuidade".
- Eu ainda não tenho candidato, não tenho candidata, nem a governador e nem a presidente, mas pode ficar certo que o ano que vem eu virei a Porto Alegre e a todo Brasil porque nós vamos eleger alguém para dar continuidade a tudo que nós estamos fazendo neste país - discursou ele em um evento no Rio Grande do Sul. 
Mais cedo, porém, em entrevista à Rádio Guaíba, Lula disse que o PT está preparado para lançar a candidatura dos ministros Tarso Genro (Justiça) ao governo do Rio Grande do Sul e Dilma Rousseff (Casa Civil) à presidência da República.
- Estamos preparados para lançar o Tarso, preparados para lançar a Dilma e preparados para ganhar as eleições - disse Lula em entrevista exclusiva para a Rádio Guaíba. - Tenho muita humildade na questão de eleição, porque já perdi muitas vezes. Já tive na frente e depois perdi. Então é preciso que a gente construa um time capaz de ganhar. E acho que temos condições de construir em torno da Dilma esse time para ganhar as eleições - completou.