terça-feira, 15 de março de 2011

ADOLFO SACHSIDA: MUDANÇA NO SISTEMA DE METAS DE INFLAÇÃO

Em 1999, o Banco Central do Brasil adotou o mecanismo de metas de inflação. A idéia básica desse regime é de anunciar uma inflação esperada para o ano e usar a taxa de juros para manter a inflação dentro da meta. Vários países adotam tal regime; outros, como os Estados Unidos não possuem um regime explícito de metas (mas é senso comum que eles perseguem alguma meta). O sistema de metas depende fundamentalmente da credibilidade do Banco Central.
No Brasil, o sistema de metas tem uma peculiaridade: as metas são ajustáveis, ou seja, elas podem ser revistas na presença de choques adversos na economia. Isso simplesmente vai contra a ideia de uma regra. Se uma regra pode ser ajustada ao estado da economia então isso não é uma regra, é sim uma política discricionária. Políticas discricionárias têm péssimo desempenho no combate à inflação.
Opiniões pessoais à parte, vários estudos acadêmicos têm defendido o sucesso do regime de metas de inflação no Brasil. Contudo, fatos estranhos estão ocorrendo. Sem grande alarde, o Banco Central começou a dar ênfase na estabilidade de preços, e na convergência da inflação para o centro da meta, em 2012. Isso só pode significar uma coisa: o BC está se preparando para mudar o sistema de metas de inflação no Brasil. Atualmente, o BC persegue uma meta anual de inflação. O que os últimos acontecimentos parecem sugerir é que o BC pretende alargar o horizonte temporal da meta (para dois anos, por exemplo).
Do ponto de vista teórico existem argumentos defensáveis para se perseguir uma meta de inflação para horizontes mais longos de tempo. Contudo, o que não fica claro é se o BC está alongando o horizonte do sistema de metas por razões teóricas ou por questões políticas. Se o BC tem argumentos teóricos para realizar a mudança, nada mais justo do que discutir isso com a comunidade. Ao se furtar dessa discussão e optar pelo silêncio, o BC levanta dúvidas quanto ao seu compromisso com o combate rigoroso da inflação. O resultado óbvio disso é a recorrente piora das expectativas de inflação que tem marcado o ano de 2011.
O BC não tem legitimidade para sozinho alterar o horizonte do sistema de metas. Se ele quer falar sobre convergência da inflação, para o centro da meta, em horizontes superiores a 1 ano, ele deve informar claramente à sociedade que está alterando o horizonte de tempo do regime de metas. Caso contrário, cabe ao BC explicar à sociedade as causas da inflação não convergirem para a meta no horizonte de tempo estabelecido (anual).
Texto publicado originalmente em Ordem Livre

NOMURA: "BRASIL DEVERIA AGUARDAR PARA LANÇAR MAIS MEDIDAS CAMBIAIS" E RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA JAPONESA


São Paulo, 15 - Diante da expectativa de que o governo brasileiro anuncie nos próximos dias novas medidas para evitar a valorização do real, o diretor executivo e chefe de pesquisas para a América Latina do Nomura Securities, Tony Volpon, acredita que a equipe econômica deveria esperar, dado o aumento do nível de incertezas sobre a economia global após a tragédia no Japão. "O nível do real está, em boa medida, atrelado às commodities. O governo deveria esperar", disse ele, em entrevista há pouco ao AE Broadcast Ao Vivo.

Segundo ele, na etapa de reconstrução do Japão, deve haver elevação da demanda pelas matérias-primas, como ferro e cobre. A região norte do país foi atingida na sexta-feira por um terremoto de magnitude 9 seguido por fortes tsunamis, que destruiu parte da infraestrutura de transporte, energia e comunicação e trouxe, ainda, risco de desastre nuclear por causa do vazamento de material radioativo de usinas.

Para Volpon, os recursos destinados à reconstrução virão, sobretudo, do próprio Japão, principalmente via governo e das seguradoras. "Há eventos únicos nesta tragédia, mas a experiência mostra que a queda de atividade é temporária e deve haver uma recuperação em 'V'. Estou otimista que a recuperação será rápida, mas é difícil fazer estimativas sobre esse timing", disse ele, ressaltando que a tragédia
não se estendeu à região de Tóquio, que é mais desenvolvida.

Ele lembrou ainda que, entre os elementos únicos do quadro japonês, está a situação fiscal delicada. "A relação dívida/PIB do país atinge 200%", afirmou ele, lembrando ainda da crise política pela qual passa o Japão. (Cristina Canas e Denise Abarca)




RESGATE DE INVESTIMENTOS JAPONESES NO BRASIL


13:59 NOMURA: NÃO DEVE HAVER GRANDE RESGATE RECURSOS JAPONESES/BRASIL

São Paulo, 15 - O Brasil não deve ver uma fuga de investimentos financeiros japoneses por conta da tragédia que se abateu sobre o Japão  desde a última sexta-feira, quando um terremoto de magnitude 9 seguido por fortes tsunamis atingiu várias cidades da região norte do país,  trazendo ainda o risco de um desastre nuclear. A avaliação é de Tony Volpon, diretor executivo e chefe de pesquisas para a América Latina do Nomura Securities, que é o principal banco de investimentos do Japão, com 40% do mercado local de varejo, e que administra os maiores fundos japoneses no Brasil. "Não deve haver um grande resgate líquido, mas sim redução temporária no volume de compras de
ativos", disse ele em entrevista há pouco ao AE Broadcast ao Vivo.

Volpon explicou que os investidores japoneses que aplicam no Brasil têm perfil basicamente de varejo e mais de 60 anos. Estes investem em ativos ligados ao real por meio dos chamados fundos Toshin que, além de moeda, têm em sua carteira ações e renda fixa. Segundo o
Banco Central do Japão (BOJ, na sigla em inglês), tais fundos têm US$ 80 bilhões em ativos ligados ao real. De acordo com o executivo, um dos maiores fundos Toshin administrado pelo Nomura tem ações de empresas dos EUA e dá a opção para escolha entre cinco moedas. "90% dos investidores escolheram o real", informou Volpon.

Volpon disse que os investidores de fundos Toshin não costumam promover mudanças em suas carteiras. "Na crise de 2008, por exemplo, houve somente um mês em que se verificou resgate líquido, em outubro", disse ele, enfatizando que eles preferem parar de comprar, de aumentar a exposição. Volpon pondera, entretanto, que nos últimos meses o crescimento desses fundos vem perdendo um pouco de ritmo por causa da busca pela diversificação das aplicações. (Cristina Canas e Denise Abarca)

AFINAL O "NOVO" BANCO CENTRAL

Alguns setores petistas andam comemorando o que chamam de “novo” BC, cuja marca principal seria o fato de não ser tão impressionável quanto ao desempenho da inflação.

O Mantega tem repetido insistentemente ao longo dos últimos anos que a política de metas não trabalha entorno do centro, mas dentro da banda.

Alguns economistas defendem que o olhar de médio prazo, para além deste semestre ou de longo prazo, para além deste ano, deve poder orientar melhor a política de alta da taxa Selic. A se saber esta também é a posição dos atuais dirigentes do BC.

Por seu lado outros economistas comentam que ao agir assim o BC pisa em gelo fino. Bem no gelo você pode derrapar e se ele for fino com água por baixo o tombo não termina no chão e as luxações podem ser o teu menor problema, pois você pode é morrer afogado por hipotermia. A nossa hipotermia seria a conhecida estaginflação. Inflação em alta num ambiente de redução da velocidade de crescimento.

Certamente há problemas de confiabilidade nos agentes públicos, conforme disse o Padovani ou de fortes contradições dentro e entre as diversas políticas, como disse o Tony. Ambas as questões com forte impacto nas expectativas e possibilidades de crescimento num ambiente internacional também tendendo às complicações.

Agora a questão do Japão e do quanto poderá impactar o lento processo de retomada acrescenta outra variável complicadora. No que interessa a nós trata-se de observar, adicionalmente, como o acidente irá influir na questão das commodities.

De uma forma ou de outra os dias vão se passando a o governo vai tomando um formato. Mesmo que a estratégia de olhar para além do horizonte de 2010 esteja correta já vão se desenhando outros elementos que indicam escolhas equivocadas derivadas da falta de clareza quanto aos objetivos estratégicos das políticas públicas, falta de coordenação, ainda, destas políticas, mas também de posturas claramente ideológicas como a questão do papel do Estado no processo de desenvolvimento.


Demetrio Carneiro


O GELO FINO E O GATILHO DO PISO

Ontem comentávamos sobre o gatilho que o governo parece ter criado e instalado num conceito político de piso de crescimento.

É por ai que o gelo fica fino para o BC, na verdade. A tragédia do Japão, retendo de alguma forma as chances de recuperação japonesa e se refletindo nas chances de recuperação da economia mundial, podem, de fato, levar o BC, como muitos analistas já apontam, a reduzir a intensidade do aumento da Selic. Seria uma nova equivocada escolha entre “Inflação ou Crescimento”, que poderia criar um novo item de deteriorização das expectativas de inflação que acabaria por afetar o desempenho geral da economia de forma negativa.

É um ponto a se considerar.

Demetrio Carneiro


segunda-feira, 14 de março de 2011

JAQUELINE RORIZ E O CAIXA DOIS

Como havíamos previsto logo no dia que o vídeo apareceu, Jaqueline Roriz vai sair pela porta do caixa dois. Muita gente vai ficar de saia justa. Tendo recebido recursos de caixa dois, que "todo mundo faz", segundo Lula, Jaqueline será cassada por seus pares, inclusive aqueles que estão lá e também praticaram o caixa dois? Ou será rapidamente processada pela mesma justiça incapaz de concluir os outros inquéritos de "caixa dois", que se arrastam pela eternidade à fora?

É um caso bíblico: Atire a primeira pedra quem não pecou...Ou o caixa dois só é crime quando é cometido por quem não é da base aliada?

Uma sugestão para a deputada: Faça como Lula e o PT e diga que é uma conspiração e é tudo mentira, quem sabe a sra. ainda não acaba presidente da Comissão de Constituição e Justiça?

Demetrio Carneiro

APRECIAÇÃO DO REAL E POLÍTICA CAMBIAL

Por Tony Volpon

Continuamos muito céticos de que novas medidas terão um impacto substancial sobre o nível do Real. A razão é muito simples: os principais tipos de entradas vistos no mercado são os investimentos orientados. Este é o tipo "bom" de afluxos que o Brasil precisa para crescer e duvidamos que o governo se esforçará para lhes dar um fim.

Fluxos este ano estão sendo enormes. Os ingressos financeiros já somam U$ 24,4 bilhões, ao passo que ao longo de 2010 foram de U$ 26 bilhões. Contudo e apesar deste enorme afluxo o Real ainda ficou dentro do intervalo 1,65-1,70, embora com um viés de valorização certa. Isto é em parte devido a uma política de intervenção igualmente pesada do Banco Central do Brasil (BCB), que comprou U$ 19,4 bilhões em moeda e U$ 9,6 bilhões em dólares no mercado de futuros e, ainda, nos mercados de swap. Ou seja, o Banco Central, de fato, comprou mais (U$ 29 bilhões) que o fluxo financeiro total do ano corrente.

Mas enquanto a "força irresistível" desses enormes fluxos tornaram-se um "objeto irremovível" por conta da intervenção do Banco Central, levando a uma escalada para limitar o desempenho da volatilidade para baixo do Real, tornando-o um excelente investimento de risco em termos ajustados, o governo parece estar decepcionado e frustrado pois o Real continua a apreciar, apesar da compra de mais do que o total de ingressos, e, portanto, a ameaça tomar novas medidas.

A verdadeira lição que o governo deveria apreender é que o nível verdadeiro do Real (ou de fato de qualquer moeda, em qualquer país) não é decidido por uma simples relação entre a oferta e a demanda imediata, mas pelo valor presente de todos os fluxos futuros.  A recente experiência brasileira deve deixar isso claro, do contrário o Real teria perdido seu valor...

Claro que não queremos dizer que a intervenção é inútil, especialmente no curto prazo. Sem dúvida, teríamos visto um valor bem maior do Real durante a recente alta nos preços das commodities, mas, como a média dos nossos modelos sobre o Real mostram, o valor da moeda brasileira não se desviou muito do valor indicado por uma ampla gama de fatores fundamentais (que não incluem a intervenção do Banco Central ou fluxo de dados). A política de intervenção do governo, na sua forma atual, parece ser contraditória, sobretudo se levarmos em conta o enorme custo fiscal que ela envolve.

Maior controle governamental sobre o capital externo melhorará as coisas? Duvidamos. Desde o início do ano, a maior fonte de ingressos tem sido a emissão de Eurobonds por empresas brasileiras, chegando a U$ 10,9 bilhões no total, incluindo os U$ 6 bilhões. Se o governo estivesse realmente interessado melhoras os seus esforços, ele teria de taxado ou restringido estes fluxos e não vemos nenhuma boa razão para o governo fazer isto. Aumentar a tributação sobre os investidores internacionais de renda fixa podem ter valor de referência, algum impacto temporário no sentimento do mercado, mas nenhum impacto significativo e duradouro sobre o nível da moeda.

Mas no final do dia os temores do governo podem ser infundados: recente mudança para baixo dos valores das commodities aponta para menores valores no Real. As perspectivas de crescimento para o Brasil este ano, estão se enfraquecendo(esperamos 3,9% para este ano, contra 4,29% de consenso*, e que acreditamos irá baixar mais), como também as perspectivas para taxas de juro mais elevadas. Tudo isso deve trabalhar para tirar a pressão futura sobre o Real, que deverá permanecer dentro de uma faixa relativamente estreita.

* Nota: o texto é anterior à Focus de hoje, 14.03, que já fala em 4,10%.

CARGA TRIBUTÁRIA

Por conta do debate do corte em algum momento ainda chegaremos no debate da tributação, mesmo que à revelia do governo que considera a Reforma Tributária um assunto "difícil" e acabará por exercer seu uso apenas pontual para resolver os seus problemas e, talvez, os dos governadores..

O José Roberto Afonso, via seu Portal de Economia, vem prestando um ótimo apoio para aqueles que se interessam em dados e informações econômicas originais. Não foge à regra o que foi divulgado hoje.

São dois textos sobre tributação:

O primeiro, de autoria de Amir Khair, trata da apuração, com base nos dados já existentes, da carga tributária de 2010 e apresenta uma tabela com sua evolução desde 1991. 
Olhando para a tabela uma pergunta interessante é: Se as cargas tributárias de 2009 e 2010 têm uma diferença de apenas 0,8%, de onde vieram os recursos que deram o "impulso" extra de gasto de 2010?


O segundo é um estudo sobre a derivação da carga a partir da Constituição de 1.988. Segundo o autor,Denis Sarak, "O artigo busca estabelecer uma relação técnica e jurídica entre o desenvolvimento consagrado pela Constituição Federal de 1988 e a política tributária praticada nos últimos anos."

Na sua conclusão Sarak argumenta:

"O fator tributação é apenas uma das condicionantes do processo de desenvolvimento, podendo tanto estimulá-lo quando inibí-lo.

Não há dúvida que o poder de tributar concebido ao Estado Moderno, é um instrumento essencial para estimular o processo de desenvolvimento, porém, o abuso no seu exercício pode levar uma nação ao retrocesso.

Os tributos geram efeitos imediatos na economia e na vida particular de cada cidadão, uma redução da carga tributária, tende a fomentar o setor produtivo, aumentando o emprego formal, a renda dos trabalhadores, o consumo e a obtenção do lucro, do mesmo modo que um aumento na carga tributária é capaz de produzir efeitos desastrosos na economia, como por exemplo, a elevação dos preços repassados ao consumidor, a diminuição da demanda, o aumento do desemprego e a sonegação fiscal."


Demetrio Carneiro