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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

GOVERNO DILMA, MUDANDO O FOCO DA TAXA SELIC PARA A TAXA DE CRESCIMENTO: A ORTODOXIA DA HETERODOXIA

      Há uma enorme facilidade para escrever sobre divisões entre heterodoxia e ortodoxia, facilita e simplifica a leitura do mundo criar dicotomias. Se é para ir por ai achamos que o grande problema é estabelecer o quanto ortodoxos os heterodoxos poderão ser, na insistência de que o problema central é crescer a qualquer custo....Quer dizer, há uma forte ortodoxia nessa heterodoxia governamental e ela é fundada numa “necessidade” de sobrevivência do projeto político deles e não em lógicas de pensamento econômico.

      O Professor Cardim, na matéria abaixo, fala de um excesso de cautela em querer manter as políticas de Estabilidade e o que a gente vê agora é um excesso de cautela não correr riscos políticos desacelerando a economia.

      Talvez até tenha sentido, pois eles sabem que todo o processo de promoção social que gerou esse movimento para cima ao longo das faixas de renda tem sustentabilidade muito discutível. Há discursos governamentais que deixam bem claro essa questão nas entrelinhas, principalmente aqueles ligados ao Brasil Sem Miséria.

      A pressa em promover esses indivíduos e buscar obter retornos eleitorais acabou eliminando qualquer debate sobre a “porta de saída” do Fome Zero, por exemplo, e essas portas se fundamentam em políticas públicas voltadas para a sustentabilidade de longo prazo. Algo muito parecido quando foram sendo incorporados ao sistema previdenciário segmentos como idosos, trabalhadores rurais, domésticas apenas como manobra para retirar esse custo do Orçamento Fiscal. Havia a pressa em incorporar renda, mas nenhuma preocupação com as conseqüências dessa decisão.

     Nesse quadro não crescer tem fortes implicações, pois pode significar para o governo não apenas o fim dos mecanismos de renda extra, livre de contingências, viabilizados pela subestimação das receitas, mas uma forte quebra no padrão de consumo das classe C, já que o governo não conseguirá manter o ritmo de consumo apenas com transferência de rendas.

    Talvez esse receio de uma redução no ritmo de crescimento explique tanto o programa acessório Brasil Sem Miséria, são mais alguns bilhões públicos injetados na economia e diretamente na base eleitoral, e a necessidade de mais um tributo como a ex-CPMF.

     Enfim, incapaz de oferecer um projeto sustentável de promoção social e de olho na sobrevivência política, de refém da Selic o governo passa a ser refém da taxa de crescimento.

      Na realidade não é tão complexo lidar com um regime de Metas de Crescimento, desde que se produzam os competentes e suficientes arranjos institucionais e se perceba que antes de tudo trata-se de administrar um processo que tem fluxos e refluxos, mas o governo não pode admitir refluxos: É a ortodoxia da heterodoxia...

Demetrio Carneiro

Crise global volta a testar capacidade de reação do BC

Fonte: Folha de São Paulo, por Érica Fraga

Críticos atacam estratégia do Banco Central por razões opostas às de 2008
Economistas de perfil ortodoxo acham que instituição põe em risco a estabilidade ao defender crescimento

A capacidade do Banco Central de proteger a economia brasileira contra choques externos voltou a ser posta à prova, três anos depois da quebra do banco americano Lehman Brothers e do início da crise econômica prolongada em que o mundo mergulhou em setembro de 2008.

Ainda não há sinais fortes de contágio no país, mas ninguém duvida de que o Brasil será afetado de alguma maneira pelos problemas nas economias mais avançadas.

Como há três anos, o BC tem sido criticado por economistas que discordam da sua estratégia para lidar com a crise. Mas a forma como a autoridade monetária reagiu aos riscos oferecidos pelo cenário externo atual contrasta com o que ela fez em 2008.
Depois da falência do Lehman, em 15 de setembro de 2008, o choque chegou ao Brasil com alta velocidade. A Bolsa despencou e a cotação do dólar disparou.

O BC elevou os juros pouco antes da quebra do Lehman, quando parecia claro que o mundo caminhava para uma crise. Mas preferiu mantê-los estáveis até janeiro de 2009, quando os sinais de que o país estava perto da recessão estavam evidentes.
O BC estava preocupado com a inflação, que estava muito alta, e foi criticado principalmente por economistas da chamada corrente desenvolvimentista, para quem o BC sacrificou o crescimento do país para preservar a estabilidade de preços.
"O BC errou em 2008", diz o economista Fernando Cardim, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). "Estava claro que a economia doméstica seria afetada e o excesso de cautela tirou flexibilidade da política econômica depois", analisa.
Os países desenvolvidos até hoje não se recuperaram completamente do choque de 2008 e nos últimos meses a crise ganhou novos contorno, com as dificuldades que os EUA e vários países da Europa encontram para corrigir seus desequilíbrios fiscais.
A economia brasileira continua em expansão, mas devagar, ao contrário do que se via em setembro de 2008, quando o país crescia com vigor. Como naquela época, a inflação está alta.
Mas desta vez o Banco Central decidiu se prevenir contra a possibilidade de um agravamento da crise externa e na semana passada cortou a taxa básica de juros da economia de 12,5% para 12%.
Foi alvo de nova saraivada de críticas, agora da corrente de economistas ortodoxos. Para eles, o BC pôs em risco a estabilidade da economia.

"O papel de um banco central é agir com base em fatos concretos e não tomar decisões com base em cenários possíveis", afirma o economista Tony Volpon, da corretora japonesa Nomura.

terça-feira, 15 de março de 2011

ADOLFO SACHSIDA: MUDANÇA NO SISTEMA DE METAS DE INFLAÇÃO

Em 1999, o Banco Central do Brasil adotou o mecanismo de metas de inflação. A idéia básica desse regime é de anunciar uma inflação esperada para o ano e usar a taxa de juros para manter a inflação dentro da meta. Vários países adotam tal regime; outros, como os Estados Unidos não possuem um regime explícito de metas (mas é senso comum que eles perseguem alguma meta). O sistema de metas depende fundamentalmente da credibilidade do Banco Central.
No Brasil, o sistema de metas tem uma peculiaridade: as metas são ajustáveis, ou seja, elas podem ser revistas na presença de choques adversos na economia. Isso simplesmente vai contra a ideia de uma regra. Se uma regra pode ser ajustada ao estado da economia então isso não é uma regra, é sim uma política discricionária. Políticas discricionárias têm péssimo desempenho no combate à inflação.
Opiniões pessoais à parte, vários estudos acadêmicos têm defendido o sucesso do regime de metas de inflação no Brasil. Contudo, fatos estranhos estão ocorrendo. Sem grande alarde, o Banco Central começou a dar ênfase na estabilidade de preços, e na convergência da inflação para o centro da meta, em 2012. Isso só pode significar uma coisa: o BC está se preparando para mudar o sistema de metas de inflação no Brasil. Atualmente, o BC persegue uma meta anual de inflação. O que os últimos acontecimentos parecem sugerir é que o BC pretende alargar o horizonte temporal da meta (para dois anos, por exemplo).
Do ponto de vista teórico existem argumentos defensáveis para se perseguir uma meta de inflação para horizontes mais longos de tempo. Contudo, o que não fica claro é se o BC está alongando o horizonte do sistema de metas por razões teóricas ou por questões políticas. Se o BC tem argumentos teóricos para realizar a mudança, nada mais justo do que discutir isso com a comunidade. Ao se furtar dessa discussão e optar pelo silêncio, o BC levanta dúvidas quanto ao seu compromisso com o combate rigoroso da inflação. O resultado óbvio disso é a recorrente piora das expectativas de inflação que tem marcado o ano de 2011.
O BC não tem legitimidade para sozinho alterar o horizonte do sistema de metas. Se ele quer falar sobre convergência da inflação, para o centro da meta, em horizontes superiores a 1 ano, ele deve informar claramente à sociedade que está alterando o horizonte de tempo do regime de metas. Caso contrário, cabe ao BC explicar à sociedade as causas da inflação não convergirem para a meta no horizonte de tempo estabelecido (anual).
Texto publicado originalmente em Ordem Livre

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ECONOMIA CRIATIVA DO NOVO GOVERNO

O ministro da contabilidade criativa resolveu ampliar sua criatividade para a questão das metas de inflação. Realmente não precisamos mexer nas metas. Basta que a gente “neutralize” certos efeitos que podem influenciar a alta inflacionária.
Criativamente a gente retira tudo que coloque a inflação para cima e, viva!, estaremos sempre no centro da meta. Como é que nunca pensaram nisso?
Vamos começar retirando alimentos e combustíveis. Realmente foi muito importante esclarecer que os americanos não consideram essas coisas triviais. Claro, como o peso no custo de vida de alimentos e combustíveis é o mesmo para brasileiros e americanos, já que nossas rendas e perfil de consumo são iguais, podemos,dessa única vez, acreditar que o que é bom para os americanos é bom para os brasileiros.

Tudo bem. Já deu para entender como o ministro pretende garantir a tal da “responsabilidade” fiscal.

Demetrio Carneiro

sábado, 26 de setembro de 2009

BCB ENTRA NO DEBATE-CONTRA-DO GASTO PÚBLICO


Uma pequena nota do bem informado Vicente Nunes, em seu blog, dá conta de que o Banco Central passou a apresentar em seu relatório trimestral, divulgado ontem, sexta, 25, o impacto do gasto público na inflação,
Obviamente, somente Mantega e sua equipe técno-ideológica imaginavam ao contrário, o gasto público tem impacto negativo na inflação e pode ser forte, conforme a conjuntura. Nesse caso especificamente já deixo aos formuladores teóricos do lulo-desenvolvimentismo uma sugestão tipo “vamos livrar a nossa cara”: Façam rapidamente um estudo provando que o efeito inflacionário do gasto, negativo, é menor que o efeito, positivo, no estímulo à economia e na redução da miséria/combate à fome. Aproveitando, incorporem o discurso de que a inflação e o equilíbrio fiscal são menores que a luta contra as injustiças sociais.
Como certamente aumento de gasto ajuda a tirar a inflação da meta, para mais, o BCB irá começar a pensar em reajustes, para cima, da Selic. Nessa altura o argumento que sugeri será muito importante para a luta política contra a elevação da taxa. Ser contra a Selic dá votos e não importa o motivo. Como o cenário desse embate deverá estar em 2010, vai dar muito pano para manga ter uma base científica para argumentar. Nisso nossos lulo-desenvolvimentistas são muito bons, mesmo que tenham que alterar um pouco algumas premissas para fundamentar suas conclusões.
Demetrio Carneiro