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domingo, 4 de março de 2012

A CANDIDATURA SERRA

O arraial petista começa a ficar assustado, mas não apenas ele.

De início, quando Lula resolveu intervir na campanha da prefeitura de São Paulo, alguns como Marta Suplicy ficaram muito incomodados. Querendo repetir o efeito poste, que deu certo com Dilma, o ex-presidente preferiu plantar na cidade alguém da sua safra pessoal de amigos, o incompetente e inconveniente ex-ministro da educação: Haddad. De fato, se Haddad ganha a prefeitura seria a coroação do grande mestre, capaz de dar vida às pedras, transformar tudo apenas pelo seu toque. Caso raro na literatura de ciências políticas.

Para o partido de Lula, o PT, não é um desafio para construir uma biografia, mas um desafio pela sobrevivência política. Os estrategistas partidários já se deram conta de que se não tiver uma forte base municipal o partido será um eterno refém das outras forças políticas e jamais será capaz de seguir em frente com seus projetos. Trocando em miúdos a estratégia petista foi vender a alma ao diabo: patrimonialismo e sindicalismo, para chegar e se manter no poder. Apenas não se deram conta: Primeiro, que o patrimonialismo é pervasivo e podia, como pode, atacar as bases éticas do próprio partido; Segundo, que o projeto patrimonialista não tem qualquer afinidade com mudanças de fundo. O resultado é que o projeto original está enterrado debaixo de sete palmos de pragmatismo.

No caso São Paulo, ter a prefeitura de São Paulo, tem um poder simbólico importantíssimo: Rompe o monopólio oposicionista na mais importante capital brasileira e dá meios de atacar por dentro a presença histórica da oposição no governo do maior estado do país. Seria um duplo bônus e certamente a entrada de Lula na disputa animou corações e mentes. Uma perspectiva vencedora em SP seria fundamental para irradiar uma mensagem de otimismo aos quadros petistas em todo o país, estimulando o ego partidário.
Seja como for a entrada de Lula na disputa e a explicitação da estratégia nacional à medida em que isso foi ficando mais claro, deram ao pleito um caráter diferente, muito diferente, e o sinal vermelho acendeu no arraial oposicionista. De momento alguns setores dentro e fora do PSDB ainda não entenderam bem o que está em jogo e de alguma forma podem contribuir para complicar as coisas. Há insatisfeitos de ambos os lados.

A mudança de quadro acabou tornando possível o que parecia inviável, mas é assim que a política funciona, desmoralizando rapidamente as previsões muito rígidas. Serra deve sair candidato e dar uma resposta oposicionista nacional ao que era um simples pleito local. Serra candidato desestabiliza planos de um lado e de outro. Serra vencedor quebra a lógica de construção de poder na situação e desfaz o sonho que se construiu a partir do ego de Lula de plantar mais um candidato poste.

Há muitas vantagens na candidatura de Serra e alguns problemas bem sérios. A começar pela forte rejeição  na cidade de São Paulo. O candidato alia um alto índice de intenções de votos a um quase tão alto índice de rejeição. Não será uma campanha fácil e Serra terá que mudar de estilo, se quiser realmente ser vitorioso. A campanha de 2010 não foi uma campanha fácil e o próprio Serra ajudou muito a piorar, pois seu ego não é muito menor que o ego de Lula.

Seja como for Serra tem a chance de finalizar a sua carreira, não é exatamente um botão em flor, com uma vitória muito significativa. Não resta qualquer dúvida sobre suas qualidades como gestor e terá condições de produzir o governo exemplar e provavelmente paradigmático. 

Difícil dizer até onde isso acalma Aécio e seus planos presidenciais. Talvez um grande sucesso eleitoral e uma excelente gestão nos dois primeiros anos sejam excelentes para o conjunto da oposição, mas pode ser que só sirvam para inquietar o senador, no mínimo por transformar seu ex-adversário em um fortíssimo voto no colégio eleitoral oposicionista.

Tudo está a se conferir, mas o jogo está sendo jogado.

Demetrio Carneiro

sábado, 14 de janeiro de 2012

NADA COMO UMA VÉSPERA DE ELEIÇÃO PARA ARMAR AS ARAPUCAS DE VOTO PRÓ-GOVERNAMENTAL

Um doce para quem souber justificar minimamente um razão para perder mais dinheiro no ralo pró-apropriação de recursos do futebol profissional. 

Claro, uma razão diferente da razão governamental que é garimpar votos nas torcidas organizadas, na poderosa coalização dos dirigentes e jogadores - a alto clero é evidente -  do futebol profissional.


Demetrio Carneiro

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

AÇÕES ESTRUTURANTES NA QUESTÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO MUNICIPAL

Num post de ontem comentávamos que não há um projeto de desenvolvimento "nacional". Quer dizer, pode haver um "estilo" de desenvolvimento para o país. O nosso estilo atual, o concreto e não o das leituras midiáticas governamentais, envolve o ciclo de commodities, foco na expansão facilitada de crédito, industrialização baseada nas cadeias produtivas globais e nos paradigmas mais tradicionais do alto consumo de carbono. 

Evidentemente a discussão sobre um outro estilo de desenvolvimento para o Brasil é fundamental. Contudo a forte assimetria de desenvolvimentos dos municípios indica há outra grande luta a se travar por projetos de desenvolvimento municipal. 

Nesse sentido algumas ações estruturantes podem ser um ponto de partida e um indicativo sobre os estilos locais de desenvolvimento. 

Não se trata apenas de entender desenvolvimento enquanto uma totalidade que soma diversos  momentos ou de entender que o desenvolvimento local deve estar  fundado sobre sólidas bases de coesão social e prescinde de uma forte interação de toda a sociedade local para "dar certo".  

Algumas ações estruturantes locais podem ser prioritárias. Pelo menos três delas precisam ser consideradas e deveriam ser trazidas para o debate eleitoral de 2012:

a) Zoneamento Econômico Ecológico. Não há como fazer qualquer planejamento municipal de longo e médio prazo sem a conclusão do ZEE, que é um instrumento anterior o próprio PDOT;

b) Inclusão do conceito de Orçamento Verde no Ciclo Orçamentário municipal . É preciso trazer para o orçamento municipal um balanço ambiental capaz de valorar o capital natural local e os serviços ecossistêmicos, podendo estabelecer assim parâmetros para a relação custo-benefício ambiental;

c) Introdução de noções de "ecologia e responsabilidade ambiental" já nos primeiros anos do ensino básico.

Claro que esse tipo de proposta de debate foge completamente do formato mais tradicional de campanha eleitoral municipal, mas se quisermos mudar alguma coisa precisamos começar mudando o próprio conteúdo das campanhas.

Demetrio Carneiro

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CÉSAR MAIA COMENTA GOVERNO DILMA EM 2011

Abaixo uma avaliação do governo Dilma em 2011 por César Maia.

Não concordo tanto com a leitura sobre Aécio Neves ou que esse fato mais o fato da oposição lançar candidatos próprios torne a base de governo mais fluída ao ponto da oposição poder ampliar a sua base por meio de cooptações na base de governo, o que seria a única forma de "vencer". 

Até outro entendimento ainda acho que o grande campo de embate vai ser dentro da base aliada e não fora dela. A não ser que Dilma, claro, resvale do governo medíocre que vem fazendo para um governo desastrado ou tão desastrado quanto a gerência dela. A estrutura de governo, principalmente a da Presidência da República, é complexa, muito ampla e tem diversas ilhas autônomas de excelência. No final do dia alguma coisa sempre anda em algum lugar. A máquina, mesmo ineficiente, não trava a ponto de ser inoperante.  

O poder executivo central conta com uma fonte enorme de recursos, muito significativos do ponto de vista dos indivíduos ou grupos. Pode lançar mão desses recursos com certa facilidade e no tipo de coalizão que existe importa é poder colocar a mão no bolso quando se torna necessário. Se houver problema ele não virá da base política, mas da reação popular a uma gestão desastrosa que não entregue as promessas de emprego, consumo & renda.

Vale observar com atenção a correlação entre eleições municipais e eleições estaduais e nacionais conforme comenta CM. Há uma certa e errada tradição sobre eleições municipais serem isoladas e não afetadas pelas disputas nacionais. Não é o que veremos este ano e certamente isso irá se refletir em 2014.

Demetrio Carneiro



2011: O GOVERNO FEDERAL!
                
1. O ano de 2011 foi um ano perdido para o governo federal, seja do ponto de vista político ou econômico. Do ponto de vista econômico, apesar de todos os indicadores internos e externos apontarem para um ano recessivo, o governo insistiu em manter um discurso otimista para criar expectativas. Só que ele mesmo se convenceu disso e manteve a simples rolagem da política econômica anterior. No final do ano, quando se deu conta que a situação era grave, é que vieram as medidas, mas de forma pontual e atabalhoada. Os fatos atropelaram o governo federal.
                
2. O crescimento de 7,5% produzido no ano eleitoral de 2010, a golpes de populismo fiscal e cambial, era insustentável. A inflação antecipou os fatos. Em nossas análises antecipamos isso desde o final de 2010 usando a renúncia do presidente do Banco Central como referência. Os fatos confirmaram as projeções. O Brasil, ao responder a crise de 2008 com medidas de keynesianismo juvenil, perdeu a oportunidade de investir em infraestrutura, reduzindo o "custo Brasil". A indústria brasileira perdeu competitividade e sua balança comercial saiu de um superávit de 18 bilhões de dólares em 2006 para um déficit de 80 bilhões de dólares em 2011. Quase 100 bilhões de dólares de "gap" em 5 anos. E a bolha de crédito só não estourou -ainda- pela rolagem da inadimplência.
              
3. O desembolso do BNDES para a Indústria em 2011 foi reduzido a menos da metade de 2010. O déficit em conta corrente subiu para quase 55 bilhões de dólares e as projeções do Banco Central para 2012 são de 65 bilhões de dólares, ou 3,5% do PIB, um dado semelhante a países europeus em crise. O PIB em 2011 não crescerá 3% e nos últimos meses o crescimento foi nulo. Para 2012, logo após a presidente oferecer números otimistas, o próprio Banco Central reduziu para números mais realistas.
              
4. No entanto, o impacto progressivo da crise europeia, com refluxo do crédito e retorno de capitais, leva 2012, na melhor hipótese, para o mesmo crescimento de 2011. O patamar inflacionário com que se trabalhou em 2011, no entorno de 7%, será mitigado pela própria recessão. Mas se o ano eleitoral levar a um novo açodamento keynesiano, nem isso se conseguirá. E uma incerteza adicional vem com a bolha chinesa de crédito e o arrefecimento da taxa de crescimento que, de uma ou outra maneira, afetará o crescimento das exportações brasileiras. A associação dos exportadores projeta, em 2012, um superávit comercial de apenas 3 bilhões de dólares. A crise internacional já se faz presente por aqui.
             
5. A combinação de uma base parlamentar de 17 partidos, com o maior deles -o PT- com apenas 16,7% dos deputados e a inexperiência da presidente em matéria parlamentar, já que nunca sequer foi vereadora, levou a uma parálise na tomada de decisões. A heterogeneidade da base aliada -da direita à esquerda- garante a aprovação da rotina, mas inviabiliza qualquer mudança nas direções imaginadas pelo PT e Dilma. Os escândalos com a saída de 6 ministros e com a desintegração da autoridade de um sétimo, exatamente o mais próximo da presidente, acentuou esta crise na capacidade de governar.
            
6. As avaliações das funções de governo são negativas e Dilma -ainda- escapa por passar, junto à imprensa, a imagem de que está longe disso tudo e que é apenas herança de Lula, a quem lealmente não desgasta. A expectativa da volta de Lula em 2014 mantinha a base aliada (expandida por um novo partido). Independente de que supere sua doença, como vem sendo noticiado, a possibilidade de ser candidato em 2014 fica eliminada.
            
7. O ano de eleições municipais de 2012 acirrará os ânimos na medida em que não se pode repetir, em nível municipal, a base em nível federal. E como se sabe (Jairo Nicolau-IUPERJ), a correlação efetiva está entre a eleição de vereadores e -dois anos depois- de deputados federais, o que acentua os conflitos internos na base aliada. No correr do ano de 2012 ficará claro que o senador Aécio Neves é um forte competidor para Dilma e estimulará o DEM e o PPS a lançarem candidatos. Isso tornará a oposição mais aguerrida, mais retórica e a base aliada ainda mais fluida.
            
8. E se o voluntarismo prevalecer em 2012, não será mais um ano perdido, mas um governo perdido.


sábado, 1 de outubro de 2011

QUATRO ANOS DE DILMA E DEPOIS...

       Democracia implica em instituições estáveis e um jogo de poder apoiado em regras evidentes e aceitas por todos. Até mesmo os desafiantes da coalizão vencedora jogam sob essas regras. Por mais que Dilma venha a errar ela terá sua cota e irá até o último dia de mandato. É assim que se joga, mas e depois...

       Na medida em que a política monetária foi sendo posta como uma forma de compensar a expansão da política fiscal o nacional-desenvolvimentismo sempre foi procurando meios de ser criativo, mas é preciso reconhecer que o regime de metas de inflação tornou-se um impecilho. Gastar muito além do equilíbrio e ainda assim manter a inflação controlada implica em altas taxas de juros para servirem de contra-peso. Nesse sentido ceder ao chamado da ideologia e assumir que tudo de ruim vem é do setor financeiro e que os juros remuneram os banqueiros e rentistas deixando o povo na miséria só aponta para uma saída: Desfazer o regime de metas.

     Por enquanto apenas se reconhece que não tem cumprimento de metas para 2011, 2012 e 2013. Ano que vem é eleitoral e o PT precisa se confirmar de qualquer forma nas prefeituras como uma força capaz de rivalizar ao PMDB. Sendo assim muito provavelmente 2014 também já era. Dilma provavelmente irá ser a presidente que terá passado todo o seu mandato fora das metas. Se um governo qualquer que ele seja pode controlar seus gastos não dá para dizer o mesmo da inflação. Esse governo flerta com o abismo. E o pior é que nem mesmo o flerte vai garantir mais crescimento. O mais provável é que o ambiente internacional conturbado vá se somar à instabilidade monetária e que a soma dos dois acabe refletindo no crescimento.

     O que parece mais previsível agora é um governo medíocre com inflação em alta e baixo crescimento. Independentemente das desculpas que possam dar. Para Lula era mais fácil, pois podia e culpou FHC, o neoliberalismo e as rosas amarelas de Marte. Para Dilma é mais complicado, pois ela joga pesado e terá que assumir o ônus de ter mudado a regra do jogo no meio do jogo. Tanto melhor para Lula, talvez, mas com certeza tanto melhor para o PMDB. Os estrategistas do PT sabem disso, mesmo que não reconheçam e é por isso que as eleições de 2012 terão significado diferente de outras eleições municipais. O PT precisa ganhar nos municípios para garantir que tenha cacife em 2014. É por isso também que o gasto em 2012, combinado com a leitura ideológica da economia, colocará em risco a capacidade desse governo de controlar o processo inflacionário. 2012 é o cachorro correndo atrás do rabo.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 16 de maio de 2011

FORMAÇÃO DE BASE DE GOVERNO E HEGEMONISMO PETISTA: BIPARTIDARISMO À BRASILEIRA

Apesar da revoada de partidos políticos o sistema político brasileiro tendê a se comportar de forma bipartidária. A origem desse processo de bipartidarização real num mundo de partidos nominais merece ampla discussão, mas parece estar numa forte composição entre a necessidade, derivada da experiência negativa de Collor, de formar alianças estáveis e amplas o suficiente para não correr riscos, do tipo 70% dos votos parlamentares nas duas casas. Ou não foi assim que o lulismo blindou todas as suas aventuras financeiras? Claro, nem sempre anda 100% bem, principalmente nesse momento de fragilidade da presidente, com problemas de saúde e problemas com seu principal articulador político que poderá ser abatido, ainda não foi, por fogo amigo.

Nas eleições tivemos o choque oposição x situação onde a inteligente jogada de atração do PMDB colocou a oposição frente à suas perplexidades e contradições. As diversas fragilidades de Dilma abrem a porta tanto para o lulismo quanto para o PMDB. É de supor que o PMDB não assistirá na arquibancada e como herdeiro legítimo do processo irá se firmar frente as fragilidades do governo Dilma. Não é de duvidar que surgirá um novo esquema de enfrentamento bipartidário PMDB x PT. A incógnita vai estar por conta do posicionamento futuro das outras forças, mas o mais provável é que elas se agrupem à volta desses dois partidos. Por exemplo, o PSB fica "confortável" com o PMDB tendo em vista o nordeste? Ou esse olhar aliancista para o governo Dilma do partido do Kassab dá certo com o PT? Sendo a lógica verdadeira o espaço dos atuais partidos de oposição some, pois esse esquema não opera com uma terceira via. Onde fica o Aécio?

É um assunto a se pensar, pois, se correta a avaliação, muda e muito a lógica de construção de alianças, já para 2012.

Demetrio Carneiro

domingo, 30 de janeiro de 2011

DILEMAS DA OPOSIÇÃO III: A AVALIAÇÃO DO GOVERNO DILMA

O que vem primeiro? O ovo ou a galinha.

Há duas formas possíveis de fazer um debate de avaliação do governo Dilma. O se parte da conjuntura e se deduz tudo a partir dela ou se parte um olhar fundado na questão programática e, usando, ai sim, a conjuntura, se faz a avaliação.

Na primeira ficamos nas questões conjunturais e com base em nossos princípios (Que seriam quais? A ética?) fazemos projeções para o nosso futuro. O complemento seria “ser cuidadoso” e ir avaliando item por item o que presta e o que não presta. O que apoiamos e o que não apoiamos. Em 100 entre 100 tentativas este estilo de debate termina ou no completo antagonismo do nada presta e tudo fede ou, no lado inverso, na mais simples adesão fisiológica. Corremos o risco de uma oposição situacionista.
Depois de oito anos na seca e com perspectiva de mais quatro ou oito a oposição está mais para achar valores ocultos e inimaginados em Dilma do que para exercer a alegre e rejuvenescedora atividade do bate-bate.
O forte apelo do auto-reajuste, incontestado e resignadamente aceito por todos, dos parlamentares, do belíssimo reajuste do Fundo Partidário mostram bem com o que estamos lidando e como uma análise baseada apenas em conjuntura pode ser adequada.

Uma outra opção pode ser partir de uma proposta programática e avaliar o desempenho do governo Dilma a partir daí, ai sim usando os instrumentos de análise conjuntural.

Os exemplos possíveis são muitos:

Na questão ambiental a Belomonte ou a inexistência de propostas concretas quanto à Nova Economia.
Na questão das reformas o “alto custo” de fazer as reformas mais importantes.
Na questão da Estabilidade a resistência no ajuste fiscal e todas as consequências resultantes.
Na questão da equidade a inexistência de propostas concretas para além do assistencialismo.

E ai por diante. A lista pode ser muito grande, mas o que pode ou não “aproximar” mais ou menos a oposição do governo terão que ser os parâmetros programáticos e não os pragmáticos. Do contrário vamos estar sempre patinando e, no fundo, bem lá no fundo, mesmo que não se admita, contando com um governo desastroso para buscar a alternância de poder.

Claro que esse segundo viés depende da percepção de que haja um programa possível. Aqueles que acham que os episódios do passado eliminam o futuro e qualquer projeto possível de fato ou que nossa capacidade de inovar nas proposta ou na ação política estão eliminados terão enormes dificuldades de entender ou mesmos aceitar que sequer exista uma questão programática. Ai, de fato, só resta a "operação" da política pelo referencial do oportunismo. Aliás, o referencial que "deu certo" e elegeu o PT. Talvez por isto muito já não vejam muita dificuldade em "se aproximar" do viés petista. 

Seja como for, não termina ai. Avaliar o governo Dilma envolverá, também em principalmente, fazer o que a oposição se recusou a fazer durante todos os anos anteriores a campanha de 2010: Discutir um programa e pô-lo à prova no debate público, sendo capaz de apresentar proposições que contraponham o que parecer incorreto ou mal formulado.
Isto exige uma coisa chamada “capacidade-de-resposta-articulada-e-fundamentada”.
A oposição tem essas partes em diversos níveis, mas é incapaz de juntar as peças a produzir ação e jogar o jogo verdadeiro.

Por isto mesmo está perplexa e procurando, já agora, a bóia de salvação em 2014.
Será o Aécio? Será o Alckmin? Mas e se o Lula voltar? E se Dilma fizer um bom governo? Normalmente a teoria da bóia “esquece” prudentemente as duas últimas possibilidades.

No final isso implica em atropelar as eleições de 2012 e, desde já, fornecer todas as desculpas para o mais simples fisiologismo.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A GOVERNANÇA MIDIÁTICA E O FIM DOS PARTIDOS DE MILITÂNCIA ATIVA

Se há algo que o projeto petista domina com vigor é a percepção do papel da mídia nas propostas de poder no Estado.

Não é nenhuma coincidência o governador eleito do DF, o petista Agnelo, haver criado uma “Secretaria da Publicidade”. Abmael Nunes Carvalho, o secretário, já foi Coordenador de comunicação do PT. É alguém de dentro da máquina, já que suas outras qualificações: Professor pós-graduado em Geoprocessamento ou Administrador Regional não são exatamente assuntos ligados ao ramo.

Já passou a época que publicidade era colocar placa e fazer comício. Hoje a política trabalha não com o fato concreto, mas com a percepção do eleitor. Não é tanto o que se faz, mas como o eleitor percebe o que é feito. Boa parte da explicação dos números de Lula vem daí e foi essa percepção que ele não conseguiu transferir para Dilma, embora tenha conquistado a eleição dela com base nos acordos fisiológicos.
O que Lula conseguiu produzir foi a percepção de que de alguma forma ele é o responsável pessoal por todos as coisas positivas de seu governo e que as negativas nunca existiram, foram fantasias da mídia. Esse último tema tem sido presença constante em 9 de 10 falas do quase ex-presidente.
A produção dessa percepção na se dá a custo zero e é depende de uma estratégia clara e muito bem delineada. São as questões que derrotaram Serra.

Esse fazer política não sobre o que é feito, embora seja claro que deve haver uma base real mínima de partida, mas sobre o que o eleitor percebe é um formato muito diferente da política tradicional e empresta à propaganda uma qualidade que antes era da militância: Formação de opinião. Nesse modelo a militância reflui ao seu papel mais tradicional de mobilização durante as eleições. Estamos viivendo os momentos agônicos dos partidos de militância ativa.

O novo estilo de governança prescinde de produção de política orgânica e resolve sua sustentação de poder na ampliação ao infinito da “rede” de repetidoras da leitura oficial. Daí a extrema importância na organização da blogosfera e da rede social governista que vai se somando aos veículos institucionais numa verdadeira invasão do espaço público.

É na raíz desse novo formato de prática política que está a irrefreável vontade e necessidade de controle da mídia institucional. A não institucional devem imaginar capaz de ser esmagada pelo peso da rede social governista.

De outro lado a necessidade de velocidade, capilaridade e recepção da mensagem reforçam o uso do discurso ideológico nos estilo pobres contra ricos etc. Fortíssimos elementos presentes em nossa cultura. Uso extremamente facilitado pela despolitização da política, a inexistência do debate de categorias e pela inabilidade da oposição em repolitizar a política e reintroduzir o debate de categorias.

Essa é uma questão para 2012 e que vai muito além das propostas meramente administrativas ou organizacionais.

Demetrio Carneiro

Lula coloca publicidade estatal em 8.094 veículos

Desde 2003, aumento é de 1.522% em rádio, TV, jornal, revista e blog atendidos. Neste ano eleitoral, 1.047 novos meios de comunicação passaram a receber recursos de publicidade federal.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CRONICA DO DIA SEGUINTE

Diferentemente das eleições estaduais e municipais em que os gatos podem ser todos pardos, nas eleições presidenciais as posturas tendem a ficar mais claras. Pensando assim, os mais de 43 milhões de votos dados ao candidato de oposição dizem alguma coisa.
Para mim a questão é saber se viram capital político ou serão postos de lado.

Talvez a primeira coisa seja não confundir os apelos voltados para deixar mais serena a política com puro e simples adesismo. Voltaremos todos ao nosso lado brasileiro-cordato.

Sempre na linha de bom-senso foi FHC o primeiro a tocar no assunto. A seguir manifestou-se aquele que se julga herdeiro do espólio de votos: Aécio. Ambos falaram na sequência de outra fala agressiva de Lula, o pequeno, sobre o Serra “pequeno”. Lula, como sempre, tentava pregar em outro sua própria prerrogativa e parecia acenar com a continuidade pós-eleitoral do festival de agressões, a tudo, inclusive ao seu cargo, que ele mesmo começou cerca de dois anos atrás quando decidiu com seu grupo lançar Dilma.
As mensagens de FHC e Aécio são compreensíveis e válidas, mas não são uma abertura de porteiras no que já parece ser a leitura de alguns oposicionistas de ocasião mais apressadinhos.

A hora agora é de observar. Dilma está com as brancas e tem nas mãos a possibilidade de confirmar ou enterrar vaticínios. Como muitos sinais contraditórios foram emitidos são muitos os vaticínios.
Apenas para registrar, a proeminência de Palocci, a manutenção das linhas gerais da política de estabilidade econômica com todo o seu séquito são muito pouco compatíveis com os Conselhos “Sociais” de Mídia, por exemplo. Apontam para lógicas completamente diferentes. Suas bases políticas não falam a mesma linguagem.
Dilma terá que estabelecer na prática o que é passivo e ser carregado ou descartado.

De qualquer forma ela começa seu governo credora de muitos forças que parecem caminhar em direções divergentes, embora possam convergir em aspectos táticos:

Lula, o pequeno e seu grupo representam um forte vetor de restrições. Muito evidente que Dilma foi plantada para Lula continuar sendo pequeno. Também é evidente que seu grupo estará nos primeiros lugares da fila para compor a nova equipe.

Os setores radicais do PT e aliados. Esses setores vêem realizando intensas mobilizações e na reta final prestaram grande ajuda à campanha. Apesar da mobilização de toda a máquina federal, apesar de toda a dinherama despejada, é muito provável que Dilma tivesse problemas sem a participação ativa desses grupos. A estratégia de organização dos Conselhos Estaduais de Mídia mostra que estão ativos e funcionam em rede nacional coordenada. Isto dá outro tipo de protagonismo.

O PMDB. Na realidade se contássemos com a leitura de senso comum sobre a popularidade de Lula, o pequeno, somada às dimensões do PMBD, Dilma deveria ter sido eleita por mais que seus 54,9 milhões de votos ou cerca de 40 por cento do voto dos eleitores aptos ou 28,4 por cento dos votos sobre a população geral. Visto assim o auxílio do PMDB precisa ser bem relativizado.
Contudo ainda resta aguardar, já que caberá ao partido outra função concreta no próximo governo: Estabilizar a base da situação no Congresso Nacional.
Isso é muita coisa. A oscilação de postura do partido pode transformar rapidamente a maioria governamental em minoria. É muito poder.

E Dilma, ela mesma? Essa é a maior de todas as incógnitas. Estas campanha eleitoral trucada foi a seu favor, dispensando-a de dizer com clareza o que realmente pensa, embora o movimento intencionar de se deixar levar por Palocci tenha lá seu significado. Se vamos entrar ou não no terreno proposto por Tony em sua leitura sobre os 100 primeiros dias logo saberemos. Pois eles passam rápido.
Há toda uma equipe a ser montada. Logo começarão a ser confirmados os nomes da equipe da transição e as coisas ficarão mais claras.

Do lado de Serra fica propriamente a lição, que não foi apreendida na eleição de 2002: Arrogância só dá certo quando você tem poder real nas mãos.
A arrogância de Lula, o pequeno deu certo. A de Serra deu errado.
A campanha em si teve pontos extremamente negativos. Muito eu vim abordando ao longo dos últimos meses e não me furtei de criticá-los abertamente.
Para mim, pessoalmente, o ponto mais vulnerável foi a passividade de todos frente às decisões claramente erradas emanadas “daquele-que-tudo-sabia”. Como não é onipresente dá para imaginar é que havia um grupo “que-tudo-sabia” e deve ter colaborado muito para enterrar a campanha.
Evidentemente não é nada fácil enfrentar toda a máquina de governo e a leniência de uma Justiça Eleitoral amorfa e passiva. Aliás para quê Justiça Eleitoral? Já não está na hora de eliminar esse item de despesa?
Mais centrada e menos arrogante a campanha seria certamente mais interessante.
O elemento de piada foi ter divulgado o programa de governo no dia anterior à eleição do segundo turno. Piada de mau gosto, pois mostra o completo desprezo pelo debate de propostas. Mostra a intenção manipulatória de quem a apontava nos adversários, mas não reconhecia as suas próprias.
Com um forte núcleo na questão do desenvolvimento sustentável talvez não tenha sido divulgado para não constranger Marina e tenha acabado esquecido em algum armário da sede da campanha lá em São Paulo. Provavelmente na véspera alguém se lembrou que Serra não poderia ser derrotado, desculpe, eleito sem apresentar um programa de governo. Ai divulgaram o “plano secreto” de mais de 300 páginas. Um enorme desperdício de tempo e capital social, já que havia no paralelo uma lista de debates especificamente voltada para as questões produtivas. Ali ficou configurada a abordagem manipulatória.

A oposição ao mandato de Lula, o pequeno, foi uma sequência de estratégias discutíveis. A lógica agressiva e denuncista, casada com uma completa inexistência de proposições comparativas, jogou um jogo que levou a lugar nenhum.
Além de aguardar o primeiro lance das pedras brancas os segmentos de oposição deverão se reinventar mesmo.
Três governos seqüenciados, no formato como opera nossa República de Resultados e nossa Federação de Brinquedo, pesarão muito nos próximos anos e poderão criar um estilo de oposição mitigado. O PSDB tende a ser um partido de governadores, influentíssimos governadores é bom dizer, num país onde a política de governadores é sempre de acomodação com o governo central. Não é difícil imaginar que seja, principalmente nos estados onde governa, um partido de prefeitos buscando acomodação, também.
Devemos acrescentar uma atitude esquizofrênica que dá apenas aos parlamentares a função visível de oposição, como se não houvesse tensões administrativas entre os entes federativos.
O executivo nesta lógica se transforma numa oposição silenciosa. O que manda mensagens contraditórias. Aliás. é o que Serra fez. Foi um magistrado.
Quando da votação da Constituição mecanismos foram criados, é disso que o governo central reclama e chama de engessamento, para garantir que recursos chegassem a estados e municípios independentemente das alianças políticas.
Certamente os executivos preferem não testar essa lógica e jogam no colo dos parlamentares o papel oposicionista.
Pode ser que esse fato ajude e muito a definir o estilo de oposição que fomos.

Logo chegaremos a 2012. Se insistirmos em não travar o debate programático, se não questionarmos claramente esse modelo de desenvolvimento, logo a força dos três governos se fará manifestar e o poder de pressão de um Estado que é o Estado de uma das maiores economias do mundo fará o resto.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CAPITAL POLÍTICO EM VOTOS E ELEIÇÕES

Já estava com a intenção de escrever algo sobre essa questão do capital social que se acumula em uma eleição e, logo após, se dilui.
De modo geral partidos e eleitores convergem na mesma lógica de mobilização apenas eleitoral. Não pretendo ficar avaliando leituras, apenas quero constatar que os projetos políticos dos partidos não passam por um estado permanente de mobilização. As ações são pontuais e orquestradas apenas às vésperas das eleições. Não há, portanto, políticas que visem organizar e mobilizar o imenso capital social que se acumula a cada eleição.


O texto de César Maia, abaixo, acabou me estimulando a escrever. Na realidade minha curiosidade também é saber como este capital social acumulado em 2010 pode ser empregado em 2012. Certamente a análise é válida para ser e deveria ser feita estado-a-estado.


Do meu lado estou partindo de uma avaliação nacional, que também acho importante, já que o plano nacional corta de forma mais clara situação e oposição. Sabemos que no âmbito estadual e municipal esses cortes não são tão eficientes. Outro debate que deveria haver é esse. É um debate bem longo, mas me atrevo a mencionar que a inexistência de programas partidários objetivos e claros ajuda muito a despolitização da política quando descemos a escala federativa na direção dos municípios.


Alguns números


Entre esta eleição e a primeira do atual ciclo somamos seis eleições federal/estaduais.


Em 1989 éramos, segundo o IBGE, 143,9 milhões de brasileiros e, segundo o TSE, 76 milhões de eleitores.
Hoje somos, 193, 2 milhões de brasileiros e 135 milhões de eleitores.
Ou seja, o número de eleitores cresceu relativamente ao número de pessoas 32,3%.
Enquanto entre 1989 e 2010 nasciam 49,1 milhões de brasileiros, em paralelo 59 milhões de brasileiros adquiriam o exercício do voto.
Os números são impressionantes.


Entre 1989 e 2002 o número de eleitores cresceu cerca de 50%. Entre 2002 e 2010 cresceu cerca de 17%. De uma ponta até a outra foi um crescimento de 77% num período menor que uma geração.


O voto como estoque de capital político


Atualmente 69,9% dos brasileiros estão de posse de um título eleitoral e acho bastante óbvio imaginar que a eleição realmente é um instrumento de representação das escolhas da sociedade brasileira. Obviamente não estou discutindo se essa vontade é manipulada/manipulável. Estou afirmando que é uma base material que por si só represente um imenso ganho de capital político.


Também afirmo que este ganho de capital político ainda não é tratado como um ganho político e que partidos em geral ainda são mobilizados pelo lado manipulatório e que o investimento pontual nos períodos eleitorais, a inexistência do debate programático, seja internamente, seja entre partidos ou entre partidos e a sociedade civil comprovam a minha afirmação.
Deste estrito ponto de vista lutar pela Reforma Democrática do Estado ou Governanças Democráticas por exemplo, pode ser uma leitura bastante moderna do fazer política, mas não soluciona a questão da relação entre capital político digamos “estocado” no exercício da democracia representativa e a política como meio de transformação.
Da mesma forma todo o debate da democracia direta ou da democracia representativa acabam encalhados ai.
Vistos assim. Reforma Democrática do Estado, Governança Democrática, Democracia Direta e Democracia Participativa são estandartes que anunciam vontades e não objetivos que se direcionem a mudar situações.


Abstenção no primeiro turno das eleições de 2010


Uma questão que já deveria ter chamado a atenção de todos e todas é o altíssimo nível de abstenção.
O primeiro turno tinha 135,8 milhões de eleitores aptos ao voto. Desse total 24,6 milhões se abstiveram de votar. Tendo em vista os números absolutos de votos da cada candidato não dá para dizer que é desprezível.
Pouco mais de 18% em um país onde o voto é obrigatório e restritivo em diversos momentos.
Região a região temos :


Norte – 18,9 de abstenções
Nordeste – 19,8
Centro-Oeste – 18,1
Sudeste – 17,4
Sul – 15,1


Cruzando os votos de Serra e Dilma dá para constatar que Serra teve menos votos nas regiões onde a abstenção foi maior. Com a perspectiva do feriado no segundo turno podendo gerar mais abstenções...


De 2010 para 2012


Vamos ver as coisas assim: São 135,8 milhões de eleitores aptos.
Vamos usar os números da pesquisa de hoje, DATAFOLHA, e imaginar que os indecisos, os que votarão em branco e os que votarão nulo irão, de fato votar. Vamos imaginar também que o nível de abstenção suba ai para uns 22%, puro chute, por conta do papel desmobilizador do feriado, por conta de haver apenas esta votação na maioria dos estados etc.


Muito bem, 135,8 milhões menos 22 por cento de abstenção = 105, 92 milhões. Supondo que os indecisos anulem ou votem em branco. São 105, 92 milhões menos 9 por cento = 96, 3 milhões de votos válidos.
Se for mantida a proporção da pesquisa: 56 por cento Dilma e 44 por cento Serra, teremos então
Dilma – 53, 9 milhões de votos ou 27,8 por cento dos votos sobre o população total ou 39,6 por cento dos eleitores aptos.
Serra – 42,4 milhões de votos ou 21,9 por cento dos votos sobre a população geral ou 31,9 por cento dos eleitores aptos.


De imediato os números deveriam recomendar muito prudência a todos os atores:
A possível vitória de Dilma está muito longe de expressar a “vontade do povo” que poderia ser deduzida do altíssimo índice de Lula. Definitivamente não poderá se considerar sua vitória como um cheque em branco.
Uma vitória de Serra, se houver, seria apertada e indicaria a mesma coisa.


Num universo de 135 milhões de eleitores aptos e 193 milhões de brasileiros menos de 10 por cento consolidarão a escolha.


Evidentemente esta é a regra do jogo e quem tiver um voto a mais ganha.


Vejamos assim:


Ganhe quem ganhar o que os partidos pretendem fazer com seu capital de votos? Ficarão como estoque utilizável para 2012 ou se assumirá que há um imenso caminho para os próximos dois anos e que é preciso que este capital vire ação política?


Demetrio Carneiro




DESDOBRAMENTOS DA CAMPANHA DE 2010 PARA 2012 NO RIO-CAPITAL!


Fonte: César Maia


1. A eleição de 2012, para Prefeito da Capital do Rio, passará a contar com dois novos e fortes vetores. Para isso, há que se analisar os resultados das eleições na Capital, para deputados e senadores, a origem de seus votos e os compromissos que esses levam para 2012.


2. Crivella foi eleito graças a um acordo com Garotinho. A dobradinha passou a ser Crivella-Waguinho e vice-versa. Sem essa, Crivella teria perdido para Picciani. Isso gera uma enorme dívida política de Crivella com Garotinho.


3. Ajustando os votos para senador (dois), para o que efetivamente correspondeu a cada candidato individualmente, isolando, portanto, o efeito "colinha" e o segundo voto residual, se tem duas conclusões óbvias. A primeira é que a grande concentração de votos de Lindberg, Crivella, Picciani e Waguinho, se deu entre estes. Uma espécie de análise combinatória de 4, dois a dois. Além disso, a concentração de votos dos mesmos se deu fora da capital. Na capital, Lindberg teve 36% de seus votos, Crivella 34%, Picciani 35% e Waguinho 34%. Cesar Maia teve 51% de seus votos na capital.


4. Com base em pesquisas na véspera e na boca de urna, se pode usar os seguintes redutores para se chegar aos votos próprios de cada um na capital: Lindberg 50%, Crivella 50%, Waguinho 50%, Picciani 30% e Cesar Maia 70%. Ou seja: Lindberg 760 mil, Cesar Maia 577 mil, Crivella 561 mil, Picciani 355 mil e Waguinho 277 mil. Aplicando a Temer 70% de votos próprios, temos 230 mil votos. Ou de outra forma: esquerda 990 mil, Evangélicos 838 mil, Centro/Centro-Direita 577 mil e PMDB 355 mil.


5. Recortando os votos para deputados federais acima de 50 mil (16 deputados), e agrupando por vetor político, temos: Esquerda (somando PT, PSOL, PCdoB, PV): 425 mil votos. Evangélicos 370 mil votos. Centro/Centro-Direita 219 mil votos. Máquinas PMDB (estado+prefeitura): 208 mil votos.


6. Recortando os votos para deputados estaduais acima de 30 mil, temos: Máquina PMDB- 300 mil \ Esquerda: 200 mil \ Centro/Centro-Direta: 200 mil \ Evangélicos: 109 mil. Foram excluídos os votos de Wagner Montes (sozinho 300 mil) porque não caracterizam um vetor político, devendo se espalhar sem seu nome, claro, ele não sendo candidato.


7. Na medida em que o PMDB terá como candidato à reeleição o atual prefeito, cabe avaliar os demais 3 vetores. Supondo que a esquerda finalmente tenha um só candidato a prefeito, as votações de Lindberg/Molon, Freixo/Alencar, os destacam. Havendo essa unidade, teríamos um vetor fortemente competitivo. O PV -em função de seus compromissos, antes e agora- não pode gerar unidade neste vetor. Teria que apoiá-lo. O terceiro vetor é o evangélico. O destaque é a deputada estadual Clarissa Garotinho, que contará com o apoio derivado dos compromissos assumidos por Crivella com Garotinho. Ela, sozinha, teve na capital 69 mil votos, e 140 mil no estado todo. Essa unidade parece óbvia.


8. Finalmente, o vetor de centro/centro-direita, cujos destaques na Capital foram os deputados federais Otavio Leite e Rodrigo Maia e o candidato a vice-presidente, Indio da Costa. Três nomes que exigiriam também a unidade do PSDB/DEM em torno de um deles. Lembre-se que o PSDB perdeu nesta eleição 20% de seu tempo de TV e o DEM perdeu 30%.


9. Com estes 4 vetores unificados, um a um, teríamos uma eleição competitiva, na Capital-Rio, entre quatro candidatos, em 2012. Lembre-se que (com a exceção à regra de 2004) desde 1992 os candidatos que chegaram na frente no primeiro turno tiveram, sobre votos totais, 24%, 33%, 30% e 28%. E que 20% sempre leva ao segundo turno. Mas sempre pode prevalecer a irracionalidade e um ou outro vetor se dividir. Aliás, isso tem sido comum.


10. Bem, 2011 será um ano de negociações dentro desses grupos. Um ano de economia frágil, de baixo crescimento, de estresse político pela pulverização da câmara de deputados, inflação mais alta, portanto um ano bom para a igualação das condições de partida entre governos e oposições.