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sábado, 1 de outubro de 2011

QUATRO ANOS DE DILMA E DEPOIS...

       Democracia implica em instituições estáveis e um jogo de poder apoiado em regras evidentes e aceitas por todos. Até mesmo os desafiantes da coalizão vencedora jogam sob essas regras. Por mais que Dilma venha a errar ela terá sua cota e irá até o último dia de mandato. É assim que se joga, mas e depois...

       Na medida em que a política monetária foi sendo posta como uma forma de compensar a expansão da política fiscal o nacional-desenvolvimentismo sempre foi procurando meios de ser criativo, mas é preciso reconhecer que o regime de metas de inflação tornou-se um impecilho. Gastar muito além do equilíbrio e ainda assim manter a inflação controlada implica em altas taxas de juros para servirem de contra-peso. Nesse sentido ceder ao chamado da ideologia e assumir que tudo de ruim vem é do setor financeiro e que os juros remuneram os banqueiros e rentistas deixando o povo na miséria só aponta para uma saída: Desfazer o regime de metas.

     Por enquanto apenas se reconhece que não tem cumprimento de metas para 2011, 2012 e 2013. Ano que vem é eleitoral e o PT precisa se confirmar de qualquer forma nas prefeituras como uma força capaz de rivalizar ao PMDB. Sendo assim muito provavelmente 2014 também já era. Dilma provavelmente irá ser a presidente que terá passado todo o seu mandato fora das metas. Se um governo qualquer que ele seja pode controlar seus gastos não dá para dizer o mesmo da inflação. Esse governo flerta com o abismo. E o pior é que nem mesmo o flerte vai garantir mais crescimento. O mais provável é que o ambiente internacional conturbado vá se somar à instabilidade monetária e que a soma dos dois acabe refletindo no crescimento.

     O que parece mais previsível agora é um governo medíocre com inflação em alta e baixo crescimento. Independentemente das desculpas que possam dar. Para Lula era mais fácil, pois podia e culpou FHC, o neoliberalismo e as rosas amarelas de Marte. Para Dilma é mais complicado, pois ela joga pesado e terá que assumir o ônus de ter mudado a regra do jogo no meio do jogo. Tanto melhor para Lula, talvez, mas com certeza tanto melhor para o PMDB. Os estrategistas do PT sabem disso, mesmo que não reconheçam e é por isso que as eleições de 2012 terão significado diferente de outras eleições municipais. O PT precisa ganhar nos municípios para garantir que tenha cacife em 2014. É por isso também que o gasto em 2012, combinado com a leitura ideológica da economia, colocará em risco a capacidade desse governo de controlar o processo inflacionário. 2012 é o cachorro correndo atrás do rabo.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

TONY VOLPON NO FT: DILMA PODE MUDAR A TENDÊNCIA DA TAXA DE JUROS

Ontem o Tony publicou um post no Blog “Beyond BRICS”,  Financial Times: “Dilma can break Brazil’s interest rate curse”.
Abaixo uma tradução livre que fiz.

Lembro que Dilma esteve em Nova Yorque, este início de ano, levada pelas mãos de Palocci, dialogando com representantes dos maiores grupos de investimento do mercado internacional.

Demetrio Carneiro

DILMA PODE MUDAR A TENDÊNCIA DA TAXA DE JUROS

Por Tony Volpon

O recente sucesso econômico do Brasil deve muito ao pragmatismo de Lula e seu antecessor como presidente, Fernando Henrique Cardoso. As políticas de ambos - consolidando a moeda, abrindo mercados – criaram os fundamentos para o Brasil aproveitar a crescente demanda de commodities pela China, hoje maior parceira comercial brasileira.

No domingo, os brasileiros irão eleger um novo presidente, e uma provável vencedora, Dilma Rousseff. É previsível que não ocorram grandes alterações no modelo econômico do país. No entanto, se ela assim escolher, poderá quebrar a maior anomalia da economia do Brasil: A moeda muito forte e as radicais taxas de juros do mercado.

Há ainda um acalorado debate sobre a razão pela qual as taxas de juros do Brasil continuam a ser tão altas. Alguns atribuem a situação ao imperfeições da moeda brasileira e ao mercado de crédito local, mas essas falhas podem ser facilmente superados pela atual ampla oferta de capital exterior.
De fato a política fiscal excessivamente frouxa do Brasil gera excesso de demanda agregada, o que por sua vez provoca um aumento do déficit da conta corrente e altas taxas de juros. Os fluxos de entrada de capital externo, necessários para financiar o crescimento estimulado pela demanda, aumentam o déficit em conta corrente gerando moeda local forte, penalizando a competitividade das exportações nos setores que não estão ligados às commodities.

Como a nova adminstração poderia lidar com isto? Adotando um plano para diminuir o nível de despesa em percentuais do PIB de forma transparente e progressiva, sem o uso de "engenharia financeira" criativa. Fazendo que o Brasil possa ter condições para que as taxas de mercado caiam no próximo ano.

Aumentar a poupança fiscal e taxas de juros mais baixas levarão a que o nível do real caia, aumentando a competitividade das exportações. Menores taxas de juros também oferecerão melhor incentivo para a "multidão" de investimentos privados, permitindo a economia quebrar a perigosa dependência de financiamento pelo BNDES, o banco de desenvolvimento. Desta forma, o Brasil seria capaz de realizar suas várias necessidades de investimentos em infra-estrutura de uma forma sustentável e eficiente.

Claro que, para Dilma Rousseff adotar tais políticas, ela teria que ter coragem de mostrar um retorno á própria decisão de Lula que, tomando posse em 2003, abandonou o radicalismo económico que defendia.

Dilma é vista como uma estadista. Ela supervisionou pessoalmente o "PAC" - programa de investimentos do governo, durante o segundo mandato de Lula. Estes investimentos se aceleram muito durante a crise financeira de 2008, juntamente com um conjunto de iniciativas de gastos e impostos que levaram o déficit orçamentário de uma queda de 1,3 por cento do PIB no final de 2008 para os atuais 3,4 por cento do PIB. O governo também aumentou os empréstimos do BNDES, cuja carteira de crédito cresceu 30 por cento em apenas um ano, tornando-se um grande credor tipo Banco Mundial.

Estas políticas contracíclicas foram a escolha certa para o Brasil em 2008: amorteceram o tamanho da recessão e estimularam uma rápida recuperação.
No entanto os tempos mudaram, e os desafios para o Brasil agora são de natureza diferente.
Adotando, de forma surpreendente e ousada, um novo modelo fiscal, Dilma Rousseff, se eleita, iria levar o Brasil, finalmente, a mudar a tendência das altas taxas de juros reais e colocaria o país no caminho do crescimento sustentável por muitos anos.


http://blogs.ft.com/beyond-brics/2010/09/30/guest-post-can-dilma-break-the-curse-of-brazils-high-interest-rates/