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domingo, 30 de outubro de 2011

A PREVISÃO DE QUEDA DO PIB BRASILEIRO E A NOVA POLÍTICA ECONÔMICA CAPITANEADA POR DILMA

O risco é inerente à atividade econômica. Contudo a atividade de governo não precisa passar por ele voluntariamente, se não houver amplas e justificáveis razões. Ranços ideológicos não deveriam ser suficientes para justificar um risco que não é apenas do governo, mas de todo o país.

Quando se mudam políticas públicas existentes todos sabem que há risco, mas imagina-se que correremos algum por razões plausíveis. Foi assim na virada do Plano Real, um plano aplicado depois de muitos outros que fracassaram e apenas pioraram o que já estava ruim. Corremos riscos e vencemos a inflação descontrolada e persistente por muito mais de uma década.

Mas, vitória à parte, tivemos um problema: Foram perdidas décadas de crescimento. Certamente estaríamos hoje muito melhores e muito mais iguais, não fosse por isso.
Não se constrói igualdade com baixo crescimento e inflação alta!

Da vitória do Plano Real para cá a Política de Estabilidade vinha sendo bombardeada por segmentos do pensamento econômico de esquerda com argumentos fundamentalmente ideológicos e que a própria prática dos governos petistas mostrou serem inexatos. Principalmente se argumentava que “não era possível” fazer política social positiva com a Estabilidade. Na realidade toda a festa petista sobre o ingresso de milhões de pessoas no mercado de consumo, portanto “qualidade de vida”, se deve justamente ao fato de termos tido estabilidade nesse período. Da mesma forma o Bolsa-Família ou o Salário Mínimo só puderam ter ganhos reais pela mesma razão. Com a Estabilidade criou-se todo um conjunto de instituições que juntas forneceram os necessários incentivos para a atividade econômica se desenvolver de forma consistente trazendo o progresso. Mas não faz mal. De qualquer forma a Estabilidade é uma política “neoliberal” e precisava ser desconstruída. Isto parecia ser um senso que unia a esquerda dentro e fora do governo.

Quando Dilma resolveu mudar a política econômica mudando o foco do crescimento com inflação controlada para o crescimento a qualquer custo o que ela só teria como fazer isto desarticulando a proposta de política econômica de estabilidade. Para esse novo pensamento econômico dominante não bastam correções. São necessárias transformações profundas que garantam o povo trabalhador contra o capitalismo neoliberal e espoliador.

Ao contrário da política anterior a atual é potencialmente desestabilizadora, pois se alicerça na hipótese de que a inflação é passível do completo controle pelo Estado, quaisquer que sejam as regras do jogo. Nada mais elucidativo do que a tranqüilidade de Mantega ao tratar do assunto. Ou as tentativas do BC de elaborar modelos para explicar o inexplicável. O conceito estatizante de produção de políticas econômicas parece querer sempre ignorar que as expectativas podem ser bem mais poderosas que a ação do Estado. Ai está a economia mundial...

O “crescimento a todo custo” evidencia duas premissas que estão em sua própria essência:
- O gasto público é prioritário para a manutenção da estrutura de poder e a amplíssima faixa de aliança. Só o gasto permanente e em níveis elevados sustenta essas alianças no plano federal e suas bases patrimonalistas no plano local;
- A inflação não é um “problema” desde que o poder de compra dos salários não seja modificado. A leitura da previsão da evolução da massa salarial no PPA 2012-2015 é bem clara a este respeito.

Neste momento, como seria de se esperar, as previsões de crescimento vão se mostrando sempre mais pessimistas ao ponto de comprometer todo o projeto do Plano Plurianual em votação no Congresso Nacional, já defasado, mas também ao ponto de comprometer o futuro e não apenas o plano.
Com efeito, se o quadro de crescimento minimamente consiste, digamos que sejam os tais 5%, com inflação mais alta já não é um quadro satisfatório e necessariamente tem impactos negativos retornando sobre o crescimento futuro, muito mais negativos serão os impactos de uma expectativa de baixo crescimento com inflação mais alta. Estamos falando numa média de 3% daqui ao final do mandato de Dilma. Talvez menos a depender da qualidade do “pouso suave” da China e de quanto tempo ficarão “pousados”.

Prever crescimento na média de 3% ou menos pode parecer pessimismo demais, talvez. Contudo cabe ao gestor público, ao agente político eleito para isso, trabalhar com cenários e, neste momento, trabalhar com cenários excessivamente otimistas pode representar um risco que todos correremos e que poderá jogar a economia brasileira num processo que já conhecemos historicamente de inflação alta e baixo crescimento.

Nenhuma dúvida sobre os custos sociais de um modelo de baixo crescimento e inflação alta e toda a certeza de que ficam inviáveis correções reais de salário, como fica inviável a capacidade de manter em níveis controláveis a Dívida Pública e é evidente a sinergia entre essas duas questões e a expectativa dos agentes econômicos retornando como mais redução da atividade econômica futura.

Ainda é tempo do governo rever sua proposta de modelo econômico. Mais à frente, além de estarmos sujeitos a perder os ganhos dos últimos anos de Estabilidade talvez estejamos obrigados a um novo ciclo de tentativa com erros e acertos que se acumularão em novas décadas perdidas e mais desigualdade.


Demetrio Carneiro

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ECONOMIA COMO UM SISTEMA E O RISCO INFLACIONÁRIO

      Num movimento lateral, em decorrência tanto da crise, como da decisão de reduzir politicamente a taxa Selic, o dólar apresenta sinais de apreciação e previsões já há de que o novo piso é R$ 1,70, com expectativas de chegar a R$ 1,75 em 2012 e R$ 1,80 em 2013.

      Para o governo Dilma reter a apreciação do real e mesmo reverter a apreciação é um forte ganho político, frente ao setor industrial, exportador - a se conferir o ganho nas exportações - ou não – a se conferir os ganhos na redução das importações -, e também frente aos setores mais críticos das políticas econômicas, tanto na oposição, como no grupo de pensadores e apoiadores da atual gestão. Com efeito, em paralelo à crítica da alta taxa Selic a outra grande crítica vinha da apreciação do real.

      Olhando assim não faltou senso de oportunidade e ousadia em cortar exatamente agora a Selic e foi um movimento bem sucedido politicamente. Que o diga o silêncio da oposição, agora frente a mais um dilema no jogo sucessório de 2014.

     O que o atual modelo de planejamento estratégico governamental, já está bem claro que é outro modelo de pensamento diferente do de Lula, não controla é a inflação. Da mesma forma que a apreciação cambial trouxe ganhos políticos ela também trará conseqüências ao neutralizar ganhos da queda de preços das commodities. Nesse sentido a queda do preço das commodities, que poderia ser um componente de redução da pressão inflacionária mundial, internamente não gera resultados, pois é compensado pela apreciação do dólar. Mudou a equação.

      Todo o risco do atual planejamento é a inflação e num país que á teve nessa área experiências traumáticas. Desde o impacto do sucesso do Real no controle da alta/altíssima inflação, os sucessivos presidentes, aparentemente, sempre escolheram perspectivas mais conservadoras, onde o gasto público sempre em expansão, basta acompanhar o aumento real, em valores monetários, da arrecadação tributária nos últimos anos, precisava ser mediado pela taxa Selic de formas a controlar o aumento da inflação. O atual governo pensa diferente e colocou suas cartas na mesa. O jogo está feito e tem seus ganhos e perdas. Ainda é muito cedo para maiores avaliações e o debate ainda está mais no campo da teoria.

     O que é certo é que na economia do setor público normalmente há ganhos associados a perdas. O melhor dos mundos da política pública estaria no espaço onde ninguém perde, mas não parece ser esse o caso se o processo inflacionário se mantiver consistentemente alto. Certamente faz parte do plano de governo a consideração de que o forte aumento do salário mínimo, associado à confirmação dos gastos sociais, que escaparam dos cortes, de alguma forma irá compensar um aumento do ritmo inflacionário, já que são fortemente indexados na prática. 

      Todo o problema com esse estilo de pensamento é a questão das expectativas dos agentes. Na sua lógica keinesiana imaginam que o preponderante será o espírito animal e que o clima geral de sucesso irá impactar positivamente a economia, mesmo com um ritmo de inflação mais ampliado. Para nós o problema vai estar na racionalidade dos agentes econômicos que percebendo a forte indexação de componentes importantes do gasto públicos diretamente ligados à formação de renda, já cientes da indexação dos preços públicos com base na inflação passada, talvez decidam também indexar seus preços. Esta é uma variável exógena ao modelo governamental e sobre ela o governo não tem qualquer controle.

    Algumas lições ainda não foram completamente absorvidas. Quando a crise começou, em 2008, os economistas e pensadores ligados à corrente keinesiana festejaram o “fim” do controle neo-liberal da economia e o sinal verde do gasto foi aceso. Algumas dezenas de trilhões de dólares depois o mundo continua com problemas, pois gastar e gastar não resolveu a problema da expectativa dos agentes. Para a lógica do gasto dar certo seria necessário que os agentes econômicos fossem como os peixinhos de aquário: Uma vez posta a ração eles se atiram a comê-la. Se fosse sempre exatamente assim seria uma maravilha para o Estado como diretor, driver, das economias nacionais. Apenas não é, e o próprio Keynes alertou sobre isso.

      Todo o problema desse modelo é que ele é pensado sem a consideração de que os agentes econômicos podem estar suficientemente informados sobre a aposta na inflação e podem reagir indexando seus preços e ai os custos talvez venham a ser mais altos que os benefícios. Muito em breve isso poderá deixar de ser um problema apenas teórico.

Demetrio Carneiro