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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

NOVAS MEDIDAS FISCAIS PARA CORTE DA TAXA BÁSICA DE JUROS

A se acreditar na mídia Mantega teria antecipado suas férias para discutir com Dilma novas medidas fiscais para baixar ainda mais a taxa Selic. Evidentemente antes da reunião do Copom.

Baixar a taxa Selic nesse momento é politicamente oportuno e uma política bom-bril, com mil e uma utilidades. Primeiro desvia o foco do desgastante debate sobre a demissão ou não de Bezerra. Afinal o ministro é da cota do PSB, aliado que não parece estar no conceito das gordurinhas que podem ser cortadas na base de apoio. Desvia o foco da prometida reforma ministerial. Implementa uma forte medida de estímulo frente a um cenário muito diferente do cantado em prosa e verso pelo governo: Números de PIB bem mais baixos em 2011 e 2012, retração do fluxo de investimentos estrangeiros.

Num artigo no Financial Times, repercutido pelo Valor, o articulista Martin Wolf coloca os emergentes como uma espécie de esperança da economia mundial, frente a nítida dificuldade de retomada das economias do Centro. É um ponto de vista não apenas dele, mas também do governo brasileiro. O problema aqui é que a economia globalizada depende do fluxo de comércio entre a Semi-Periferia e o Centro do Sistema. Há diferentes lógicas em cada um dos grupos. As economias do Centro dependem fortemente de seus mercados internos, importam meio ambiente da semi-periferia e bens de baixa e média tecnologia e exportam não apenas bens de alta tecnologia, mas fundamentalmente conhecimento no formato de propriedade intelectual. As economias da Semi-Periferia, as chamadas eufemisticamente de emergentes (emergindo de onde para onde?), têm seus mercados internos em fase de formação, sem que sejam sólidos o suficiente para sustentá-las sem os fluxos de exportação de meio ambiente ou/e bens para o Centro. Estão bem longe de ter estruturas amplamente competitivas de produção de conhecimento, embora a China especificamente esteja se tornando competitiva em áreas bem pontuais. No sentido inverso ainda são dependentes do fluxo de conhecimento em forma de propriedade intelectual. Vistas as coisas assim, talvez não seja tão simples quanto parece.

Nesse contexto a redução da taxa Selic mira diretamente o mercado interno. De fato a única aposta viável. Há apenas alguns pequenos problemas: Instituições consolidadas e confiabilidade. É inegável que a manipulação da taxa Selic tem sua importância como mecanismo de estímulo econômico. Mas não há com certeza uma relação mecânica entre a redução da taxa e o ritmo da economia. Entre uma coisa e outra há todo um sistema de filtros que podem de alguma forma comprometer a qualidade dos sinais emitidos pela política econômica governamental. Devemos somar a esses filtros o feito das avaliações dos agentes econômicos que podem não ter poder de voto no sentido político, mas votam no sentido de apostar ou não na atividade econômica.

Vamos viver uma período bem interessante desse ponto de vista. Durante anos, décadas, se insistiu que todos os problemas do nosso crescimento econômicos estavam na taxa Selic e na Política Neoliberal e pró rentistas das direções anteriores do BC. Agora que a taxa caminha na direção do solo e que o BC brasileiro foi enquadrado pelo projeto nacionaldesenvolvimentista vamos viver o teste das verdades dessa fé.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

UMA NOTA SOBRE OS LIMITES DA POLÍTICA MONETÁRIA, VOLPON: BC E JUROS


Parte importante da função de um BC é antecipar movimentos nos preços, inflação, e sinalizar um procedimento futuro como forma de orientar um certo comportamento da economia em geral que lhe pareça interessante. Se o BC pressente uma tendência de alta de preços ele sinaliza criando expectativas sobre a possibilidade uma taxa de juros básica maior etc.
Parte da arte é ler os sinais outra parte importante do papel dos analistas de mercado é prever como o BC poderá reagir perante fatos futuros.
É o que o Volpon vai fazendo nessa matéria do, abaixo, Valor Econômico. Repercutida pelo Blog do Carvalho.

Vale observar que o argumento do BC está ancorado na situação travada dos países desenvolvidos e na convicção de que o mercado interno ou a situação da China não impactarão os preços internos. É a leitura de que o ciclo de altas dos juros momentaneamente está interrompido.
Um exemplo de desacordo com essa leitura é um texto de Mendonça de Barros, publicado no Estado, onde afirma que a economia européia está se recuperando e deverá dar sinais positivos e consistentes de crescimento. Essa é a leitura de que a trégua no ciclo de aumentos poderá ser menor do que se imagina.

Seja lá como for o que deve ficar evidente é a situação de “limite” colocada pela agressiva política fiscal do governo brasileiro.
Bom registrar que a atual política fiscal tem explicações muito mais políticas do que “técnicas”. A atual expansão fiscal brasileira é uma escolha marcada por razões ideológicas e de poder real.

O fato é que a margem de negociação é sempre muito reduzida e elementos internos e externos são capazes de interromper muito rapidamente situação de baixa ou calmaria no preço dos juros básicos, retomando-se com muita velocidade ciclos de alta, deixando nosso juros básico reais sempre entre os mais altos do planeta.

Essa é uma situação de vulnerabilidade macroeconômica muito pouco consistente com um crescimento que seja sustentável, que é o nosso grande desafio nesse século.

Demetrio Carneiro


Indicadores podem indicar uma direção

Eduardo Campos

Depois do susto da quarta-feira, o pregão de ontem foi inconclusivo, transparecendo certa indecisão entre recompor ou seguir desmanchando posições em ativos de risco.
Também não poderia ser muito diferente, já que os agentes seguem questionando o ritmo de recuperação da economia global.
Na Europa, a Bolsa de Londres teve valorização, mas Frankfurt voltou a perder fôlego. Em Wall Street, os índices também fecharam em baixa, mas longe das mínimas do dia. Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) garantiu fechamento em alta. E o euro teve um pregão errático, assim como o real, e acabou cedendo espaço para o dólar.
Os dados que estão na agenda desta sexta-feira podem ajudar o mercado a ganhar alguma direção mais definida. O dia começa com o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro no segundo trimestre. O consenso sugere crescimento de 0,70%. (veja gráfico abaixo)
Já nos Estados Unidos, os investidores aguardam o índice de preços ao consumidor referente ao mês de julho. A expectativa é de inflação de 0,2%, depois da variação negativa de 0,1%. Os dados de preço ganham peso especial conforme cresce a preocupação com uma deflação na economia americana. Vale lembrar que o núcleo da inflação, que tira alimentos e energia da conta, continua rodando ao redor de 1% em 12 meses, abaixo, portanto, da chama zona de conforto do Federal Reserve (Fed), banco central americano, de inflação ao redor de 2%.
Ainda na agenda americana, atenção às vendas no varejo de julho e à preliminar do índice de confiança do consumidor.
De volta ao pregão de quinta-feira, o mercado com rumo definido foi o de juros futuros.
Os contratos longos caíram com ajuda dessa deterioração de expectativas com a economia mundial.
Apesar da queda recente nas taxas, o chefe de pesquisa para América Latina da Nomura Securities, Tony Volpon, identifica uma clara divisão entre os "falcões" locais, que mantêm uma visão cética quanto ao menor ciclo de aperto monetário, e os investidores estrangeiros, que estão cada vez mais interessados no rendimento oferecido pelo Brasil dentro de um mundo deflacionário.
Para Volpon, o Banco Central claramente fez uma aposta com a turma da deflação. Afinal, não há cenário para um problema inflacionário em um mundo de fraco crescimento em países desenvolvidos.
O que segue válido mesmo com os emergentes crescendo apoiados em sua demanda doméstica.
Na visão do especialista, o BC compartilha dessa visão e já sinalizou que está olhando além de qualquer impacto residual que o crescimento chinês do primeiro trimestre tem sobre a inflação de 2010 e terá na de 2011.
A chave para esse raciocínio de Volpon foi a extensão do horizonte de previsão do BC para 2012. Vale lembrar que, na ata da reunião de julho, o BC fez considerações sobre a inflação no primeiro semestre de 2012.
Segundo o especialista, como o BC acredita que o cenário externo carrega um risco substancial de baixa, ele olha além da retomada dos índices de inflação e atividade, algo que deve começar a acontecer em breve. O próprio Nomura prevê IPCA ao redor de 0,35% já em setembro.
A conclusão, segundo Volpon, é que há oportunidade de ganho com aplicação na parte longa da curva de juros.
Os contratos curtos devem subir conforme os dados voltarem a apresentar variações "normais". Por isso, a recomendação é esperar um pouco mais antes de aplicar.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SOBRE A 'DOSAGEM CORRETA" DAS POLÍTICAS MACROECONÔMICAS E AS TAXAS DE JUROS

Três episódios recentes merecem destaque para a questão que abordaremos.



O primeiro foram as sucessivas declarações de Serra quanto a necessidade de coordenação das políticas macroeconômicas, fiscal e monetária tendo em vista questões como os juros altos.



O segundo foi o recente debate público entre Coutinho, presidente do BNDES e Meirelles, presidente do Banco Central, por conta da questão da taxa Selic.



O terceito foi uma entrevista feita pelo jornal Valor Econômico com Tony Volpon, Estrategista do banco japonês Nomura.



Vamos começar por Volpon. Na entrevista basicamente ele projeta para 2011 uma taxa Selic de 10%. Mais baixa que a atual, mas alerta ele, ainda assim com uma taxa real de 5%.
Simplificando: A taxa Selic futura é prevista em 10% anual. É uma taxa nominal. Para chegarmos na taxa real teremos que deduzir a inflação que se imagina será ao redor de 5% ou um pouco menos. Portanto a taxa real será de, ao menos, 5%. Anuais.
Como Tony é estimado pelo Bloomberg como um dos economistas com maior margem de acerto na previsão das taxas Selic e como a estimativa de inflação futura, mantidas as condições, é confiável, dá para imaginar que teremos em 2011 uma taxa real de Selic na ordem de 5%.
Problema: Deverá ser a taxa mais alta de todo o planeta, para países em crescimento.



Serra como economista sabe bem que uma parte do problema das altas taxas de juros Selic está no desencontro entre as políticas monetária e a fiscal. Daí a proposta de coordenação. Daí a lembrança sobre o modelo de operação do Banco Central chileno.



Um belo exemplo de descoordenação está justamente no debate que houve entre Coutinho e Meirelles.
Basicamente Meirelles deu como exemplo para subir a Selic o que vem ocorrendo com o BNDES. Coutinho rebateu alegando que a função de um banco de desenvolvimento é...desenvolver.
Até seria muito lógico, mas temos aqui um problema: É da boa teoria econômica que o gasto público, no caso os empréstimos do banco são gasto público, já que foram alavancados por recursos obtidos pelo Tesouro Nacional via aumento da Dívida Pública, tem dois papéis possíveis.
No primeiro, quando a capacidade real de produção está se afastando da capacidade instalada, como numa crise econômica, o gasto tem uma função positiva, pois direciona os recursos apropriados da sociedade – Dívida Pública é uma apropriação no futuro – para estimular a economia. Seria uma leitura positiva do papel do Estado na economia. A estimulação é feita aumento da demanda agregada. O Estado gasta e em última instância acaba transferindo recursos para o consumo aumentando a demanda que por sua vez estimula os empresários a produzir mais, aproximando o produto real do produto potencial.
O segundo papel é negativo. Quando a economia se apresenta próxima de seu potencial o gasto público acaba por estimular a demanda, mas a demanda maior do que a oferta de produtos e serviços por sua vez estimula a inflação e acaba interferindo na estabilidade econômica.
O que Meirelles criticou foi o fato de estarem usando estímulos fiscais após a pior fase a crise. E o que argumentou, ele e muitos outros especialista, é que esse gasto tem papel negativo e estimula a inflação.
Estimulada uma inflação maior que a que está no “alvo” o papel do BC é subir as Taxa Selic.



É bom abrir um parêntesis aqui e definir que taxa bancária, taxa de empréstimos pessoais ou taxa de cartão de crédito têm todas uma remota associação com a Selic. Nossas estratosféricas taxas, nesse caso, têm mais a haver é com o regime de monopólio autorizado do setor financeiro e bancário. Carecemos de uma “democratização” do regime de crédito. Mas isso é outro assunto. Comentei apenas para deixar claro qual é o foco.



Convém esclarecer que não é o Banco Central quem define a taxa a ser perseguida. Esse papel é do Conselho Monetário Nacional. O Conselho, composto pelos ministros da fazenda, presidente, ministro do planejamento mais o presidente do BC. O CMN estabelece um “alvo” ou “target” e os limites dentro dos quais essa taxa pode flutuar. São as chamadas “metas de inflação”.
A competência do BC é fazer com que a inflação real esteja sempre próxima do alvo. Quer dizer, a ação do BC é reativa, Ele reage e define taxas Selic que estimulem ou desestimulem a atividade econômica.
Da mesma forma que gastar mais ou menos, no caso da política fiscal, uma taxa maior ou menor também pode estimular ou não a economia.



O eterno choque entre os interesses da fazendo e do BC, e não foi apenas nesse governo, está ligado ao fato de que o desenvolvimentismo olha apenas para o gasto, vem nele apenas atributos positivos. O BC fica obrigado a olhar para o equilíbrio, a estabilidade macroeconômica, o que implica numa inflação sob controle.



Mas enfim, a taxa Selic pode baixar. Pode sim, mas depende de duas coisas:
a) Coordenação institucional entre as políticas monetária e fiscal;
b) Compreensão clara dos limites do gasto e seu papel pró ou anticíclico.



No caso da coordenação institucional fica claro que o Conselho Monetário Nacional deveria ter suas funções ampliada.
Também fica claro que não podemos trabalhar apenas de olho nas Metas de Inflação. Precisaremos criar um novo conceito de metas: Metas de Crescimento. De olho na relação entre PIB efetivo e PIB potencial poderemos criar um novo indicador que tenha relação válida com as Metas de Inflação e trabalhar de forma harmônica com os dois indicadores.
Ficaria faltando um regime de responsabilidade fiscal, o que depende por sua vez de uma clara definição do papel do Estado em outra proposta de Desenvolvimento que não seja essa que ai está.
O instrumento principal desse modelo seria a capacidade estatal de gastar ( como gasto corrente ou investimento ) e poupar.
Quer dizer o superávit primário serviria, de olho na relação entre metas de crescimento e metas de inflação, tanto para estimular o crescimento via gasto quando fosse o caso da queda na atividade econômica, como serviria de formação de poupança, criando futuras reservas ou liquidando dívida, nos bons momentos da economia.



Esse seria um modelo harmônico e que, corretamente direcionado, acabaria trazendo a taxa Selic para patamares bem mais civilizados que o atual.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

VOLPON E OS JUROS PARA 2011

A intensidade do debate atual sobre os juros básicos indica a importancia da avaliação abaixo. 

Mantido o contexto é viável reduzir os juros nominais para 10% em 2011. 
Com todo mundo reclamando, a queda dos juros nominais pode parecer e ser usada como indicativo de excelência de gestão econômica. Isso tem peso político. 
Se usarem esse argumento não deverá ficar esquecido outro lembrete do Volpon no mesmo texto: Juros reais na casa de 5%, contra juros reais negativos ou em zero nos outros países, ainda são uma taxa absurdamente alta.

Se houver excelência ela será trazer a taxa real para perto da taxa dos países. 
É no como fazer isso que está o problema. E é esse debate que não pode ser perdido.

Até porque se as verdadeiras questões, as insitucionais , de coordenação das políticas e as estruturais, não forem resolvidas, será apenas um ciclo de baixa sem qualquer garantias de que não haverá outro ciclo de alta.

Demetrio Carneiro

Há espaço para o BC reduzir juros em 2011?

Fonte: Valor Econômico- Eduardo Campos

Cenário externo menos favorável, menor pressão fiscal após as eleições e uma interpretação de que o que aconteceu no primeiro trimestre foi um fato isolado, que não transfere crescimento ao longo do tempo, dão embasamento à expectativa de que o Banco Central (BC) poderá voltar a cortar a taxa básica de juros já no primeiro semestre de 2011.
Essa é a avaliação da equipe do Nomura Securities, liderada por Tony Volpon, que responde como chefe de pesquisa para América Latina. Na visão do especialista, a taxa básica pode cair a 10% no ano que vem.
Permeando as considerações acima, diz Volpon, temos também os efeitos da normalização da política monetária passando a influir sobre o lado real da atividade. E uma mudança secular na taxa real de juros no Brasil, que poderia ficar ao redor de 5% sem grandes implicações inflacionárias.
Segundo o especialista, em função da maior penetração do crédito, entre outros fatores, movimentos menores de juros têm, de fato, maior impacto sobre o controle da inflação.
Um ponto levantado pelos especialistas da instituição é que o mercado local ainda encontra certa dificuldade em aceitar que o país caminha para um crescimento "normal", ao redor de 4%, abandonando o tal ritmo chinês do começo do ano.
Outro ponto levantado, mas menos palpável, é que o governo estaria preocupado com um avanço do Produto Interno Bruto (PIB) inferior a 4% em 2011. Para quem vem de um crescimento superior a 7%, uma freada para baixo de 4% teria cara de "recessão".
No mercado de juros futuros, tal avaliação de Selic em queda em 2011 mostra que ainda há espaço para aplicações, ou seja, há prêmio para ganhar, ainda mais caso se leve em conta que a curva ainda embute cerca de 150 pontos-base de alta nos juros até meados de 2011.
No entanto, dizem os especialistas do banco, essa redução de taxas não será suave e uniforme.
No mercado de câmbio, o dia teve cara de ajuste técnico. O dólar comercial subiu 0,51%, para R$ 1,760.
Na visão do analista de câmbio da BGC Liquidez, Mário Paiva, depois da queda de segunda-feira, que chegou a levar a cotação da moeda para baixo do piso informal de R$ 1,750, o preço tinha se afastou das médias móveis de três, cinco e oito dias, por exemplo, o que abre espaço para um ajuste de alta.
Olhando além do dia a dia, o especialista acredita que a tendência global para o dólar ainda é de queda. Afinal, o mercado continua inundado de moeda americana emitida para tirar os EUA da recessão.
Acontece que essa montanha de dólares não parece ter sido suficiente para engrenar a economia de volta ao crescimento e o Federal Reserve (Fed), banco central americano, já estaria pensando em novas medidas de estímulo, ou seja, ainda mais dólares podem entrar em circulação.
No mercado externo, a moeda americana continuou perdendo valor, o Dollar Index, que mede o desempenho do dólar ante uma cesta de moedas, chegou a marcar 80,4 pontos, o menor patamar desde abril.
Já o euro seguiu atraindo compradores e retomou a linha de US$ 1,32, o que não acontecia desde o começo de maio. (veja gráfico)
Na agenda desta quarta-feira, dados sobre o emprego privado nos EUA em julho. O consenso sugere que os números da ADP mostrem a criação de 25 mil a 30 mil vagas.
Por aqui, a CNI mostra os Indicadores Industriais de junho. Os dados de utilização da capacidade instalada podem ajudar a reforçar a percepção de retração da atividade no setor.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A SELIC E AS ELEIÇÕES

As eleições acabam jogando, mesmo que não se queira, a economia para o centro do debate.

O atual governo, com o foco no processo eleitoral, mas também por ter os conceitos que tem, força a mão na economia. As projeções anualizadas do PIB são altas e indicam que poderemos chegar ao teto de produção. As proximidades desse limite são potencialmente geradoras de inflação.

O papel do BC, o seu mandato institucional, é agir para que a inflação fique dentro das metas que o Conselho Monetário Nacional estabelece. 
Note-se que neste conselho sentam-se representantes do setor econômico do governo. Até o ministro Mantega, por acaso o presidente, ferrenho defensor das taxas baixas, tem assento lá. As metas de inflação que disparam a ação do BC são decididas no CMN.

Caberia ao CMN a coordenação entre as políticas fiscal e monetária. Mas não é o que ele faz no mundo real. O mundo real, desde que o BC é BC no Brasil, é o mundo dos choques e entrechoques dentro da área econômica de todos os governos. Entreveros entre o Planejamento e a Fazenda, entre a Fazenda e do BC são rotineiros e estão nas primeiras páginas dos jornais desde sempre.

O choque real, e não o eleitoral, é entre diferentes concepções da relação entre inflação, taxas de juros e desenvolvimento. Ou seja, em que exatamente a inflação e as taxas de juros adiantam ou prejudicam o nosso desenvolvimento enquanto nação e como dar a essa questão uma solução eficiente.

Uma das soluções para um desenvolvimento brasileiro  coerente e suficiente seria uma coordenação real entre as políticas fiscal e monetária, feita dentro de um CMN que agregasse representantes do setor de produtivo e de serviços e que falasse de forma efetiva e não apenas formal com o Senado, que deveria ser o seu controlador social. 
Mas isso é o que não se quer para não se tocar em áreas muito definidas de interesse dos grupos que apoiam qualquer governo desde que estejam nele.

O fato. Sempre há um fato. é que é mais fácil, mais digerível com nossa vocação nacional para a esquerda e mais eleitoral, reclamar da SELIC, acusar banqueiros e rentistas. Este é o discurso comum que une oposição e situação. 
A culpa é do Outro.

É bem mais simples acusar a taxa do que procurar na estrutura de relações, nas propostas de gestão ou no próprio projeto de desenvolvimento superado e anacrônico as raízes para a inflação que força o BC a fazer o que ele tem que fazer porque é para isto que ele existe.

Se banqueiros e rentistas se beneficiam dos juros mais altos do mundo é porque há uma estrutura e uma relação de poderes entre a gestão pública e a economia real que tem que ser alterada. O mais divertido é ver entrevistas de representantes desses setores estigmatizados declarando com todas as letras que preferem investir na economia e não no governo e que os entraves estão nas questões regulatórias e estruturais que cabem ao governo resolver.

O programa da redução da taxa de juros é simples. O que é preciso é coragem política:

- Coordenação institucional entre política fiscal e política monetária;
- Controle do gasto público;
- Estabelecimento de metas de crescimento econômico e sua compatibilidade com as políticas fiscal e monetária.

Se quisermos ir mais longe:

- Fim do oligopólio bancária e das políticas que o sustentam;
- Criação de uma Política Nacional de Estímulo à Poupança;
- Criação de uma Política Nacional de Investimentos coerente com um novo modelo de desenvolvimento que adote os paradigmas ligados à sustentabilidade econômica e ambiental, portanto às inovações como elemento de transformação da economia.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 29 de março de 2010

PANORAMA ASSUSTADOR DA ECONOMIA PRÉ-ELEIÇÃO

Ai abaixo um alerta do Normann Kalmus, publicado em seu Blog Pensando Eco-Eco
É um texto contundente sobre essa questão do contingenciamento, mas basicamente é sobre a manipulação da economia em função de um projeto de perpetuação no poder.
Demetrio Carneiro

Panorama assustador da economia pré-eleitoral

Não me chamem de pessimista. Não antes de ler o texto. Depois, tudo bem!

Se eu fosse do ramo do misticismo, diria que há uma “conjunção de astros” muito preocupante no panorama da economia nacional.

De um lado, apesar do tombo no PIB, Lula permanece com a histriônica aprovação do eleitorado. Para o povão, não há como descolar a atuação do governo dos resultados relativamente positivos dos últimos anos. E não importa se as condições básicas foram dadas pelos governos FHC. O que vale é o agora.

A arrecadação federal em Fevereiro bateu recorde, o que quer dizer que o governo terá mais para gastar mas, por outro lado, decidiu contingenciar (bloquear) R$21,8 bilhões do orçamento aprovado. Não parece um tanto estranho? Não é, se considerarmos outros “detalhes”.

Apesar da pressão inflacionária crescente, ontem o COPOM decidiu manter a SELIC inalterada, fato estranho se considerarmos o histórico da gestão Henrique Meirelles. Meirelles preside o BC somente até o fim de Março, quando se desincompatibilizará para concorrer às eleições. Só que ele sempre foi o esteio da instituição contra as investidas populistas de Mantega e companhia, que queriam a redução da taxa, mesmo correndo o risco de aumento da inflação.

Com dinheiro sobrando e as taxas de juros mais baixas, São Lula vai mandar e desmandar na economia, lançando todo o tipo de incentivo ao consumo, garantindo a popularidade de sua candidata, inclusive através do novo PAC.

Note-se que, se contingenciados os valores do orçamento aprovado, eles deixam de ser aplicados nas áreas onde o Congresso havia destinado. Ora, para que Congresso, afinal, quando se tem um Lula no governo? Lula sabe onde o povo precisa de dinheiro.

Como o presidente ainda lembra dos tempos que não tinha dinheiro (às vezes a memória dele é boa), ele sabe que se puder comprar à prestação, o pobre acha que “está tudo bem, graças a Deus”. Fica de bom humor e vota no poste que o presidente indicar.

Claro que ficam os ônus para depois. Mas, ora, o que são alguns pontos na inflação e a desestruturação da economia para conseguir consolidar seus projetos de poder?

Eu vou buscar meu passaporte da Comunidade Européia porque a coisa está ficando muito complicada para quem acha que Cuba e Venezuela não são bons exemplos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

QUANDO O OUTONO CHEGAR...

A matéria abaixo, publicada no Valor de hoje, 26, não diminui a força dos argumentos do post anterior.
A redução da liquidez, via redução do compulsório, realmente retira pressão e a pressa, mas não elimina a questão estrutural ou a pressão de demanda gerada pela despesa do setor público ou o efeito, mesmo inercial,das políticas de estímulo, o produto potencial continua no mesmo lugar, com ou sem aumento do compulsório.
A notar o fim da matéria onde Meirelles especula sobre onde estará o PIB potencial do Brasil pós-crise, deixando em aberto uma leitura de que o poderia haver uma mobilidade para cima da fronteira, o que retiraria igualmente a pressão inflacionária adiando um aumento da Selic. A se ver.
De qualquer forma a pressão política sobre o BC não será pequena, já que o assunto abala o discurso de Lula.
Demetrio Carneiro


Compulsórios devem adiar a alta dos juros

Cristiano Romero, de Brasília

26/02/2010

O recolhimento de depósitos compulsórios, no valor estimado de R$ 71 bilhões, terá impactos sobre a política de juros do Banco Central. Meirelles: "Há recuperação forte da demanda, do consumo privado e público e do investimento"
O recolhimento de depósitos compulsórios, no valor estimado de R$ 71 bilhões, terá impactos sobre a política de juros do Banco Central. Segundo o presidente do BC, Henrique Meirelles, a medida foi adotada para diminuir o excesso de liquidez na economia, que ameaçava levar o mercado a assumir posições de risco. Em entrevista ao Valor, ele deixou claro, no entanto, que, ao reduzir a liquidez, a decisão ajudará o BC na tarefa de controlar a inflação.
Meirelles se recusa a vincular o recolhimento dos compulsórios com a política de juros. Na prática, porém, isso pode significar o adiamento da elevação da taxa básica, aguardada para breve por setores do mercado. "A liquidez se mostrou elevada nas últimas semanas e meses, e nós temos meios de medir isso através das nossas operações de mercado aberto", explicou o presidente do BC. Como o aumento dos compulsórios não é neutro do ponto de vista de política monetária, cumprirá parte da tarefa que, antes, estaria a cargo apenas da taxa Selic.
"Não há dúvidas que a decisão tem efeitos de política monetária. Restrição ou injeção de liquidez tem impactos monetários", afirmou Meirelles, ressalvando, porém, que o melhor instrumento para combater a inflação ainda é a política de juros. "Não procuramos substituir um mecanismo por outro. Para o controle específico de liquidez, em alguns momentos o recolhimento ou a liberação de compulsório, como fizemos em 2008, é um mecanismo extremamente eficaz".
Questionado se a previsão de crescimento de 5,8% para a economia brasileira neste ano, feita pelo BC, é sustentável, Meirelles respondeu que, como o país passa por momento de recuperação de uma crise, é possível crescer acima do seu potencial sem gerar descontrole inflacionário. Ele disse, todavia, que ninguém sabe ainda em quanto está o chamado PIB potencial do Brasil pós-crise.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A VONTADE E O MUNDO REAL


A Secretaria do Tesouro Nacional divulgou hoje, terça, 26, o Plano Anual de Financiamento da Dívida Pública, além de prever uma possível expansão do estoque da dívida de mais de 15% com relação à 2009 ( de R$1,49 tri. para um máximo de R$1,73 tri. ), aponta uma clara estratégia de desviar a remuneração dos papeis em Selic (de 33,4% em 2009 para um mínimo de 30% em 2010) para outros índices. Já a estrutura dos vencimentos de curto prazo, 12 meses e de médio prazo, 36/48 meses não tem previstas significativas mudanças.


Além do crescimento acelerado da dívida, que pode ser debitado às políticas de expansão fiscal com objetivo de combater a redução da atividade econômica, antes, agora são outros os motivos, é interessante observar como vai se preparando o terreno para aumentos na taxa Selic.


Na semana passada já comentávamos a tentativa de utilização de instrumentos fiscais com vistas a tentar conter uma possível aceleração do ritmo inflacionário. Há uma enorme distância entre o discurso político das “vontades” e o mundo real da economia.
Evidentemente essa gestão trabalhará para esticar ao máximo a data a partir da qual a taxa Selic será alterada para cima, mas isso acabará acontecendo, pois a política eleitoral de expansão dos gastos induzirá a isso.
A atitude da Secretaria do Tesouro é apenas o reconhecimento do inevitável.
De qualquer forma é conveniente guardar essas informações de estoque, sua evolução e perfil. Serão úteis quando iniciar o verdadeiro debate sobre as necessidades de financiamento que serão geradas pelo Pré-Sal, Copa e Olimpíadas. Estamos só no começo.



Demetrio Carneiro


sábado, 10 de outubro de 2009

MERCADO INTERNO E CRESCIMENTO




Não há muitos especialistas em avaliação de política monetária brasileira com credibilidade no mercado internacional. O Tony Volpon é um deles. Essa avaliação de conjunto que ele está fazendo, nas três entrevistas publicadas aqui no blog, logo abaixo, mostra uma defasagem de política monetária que poderá haver entre o Brasil e os outros países referenciais importantes, caso vença a lógica política de manter a Selic artificialmente baixa.

Na questão de formação de mercado interno, que é a bola da vez no papo do pós-crise, reparem, está na entrevista ao Estado de São Paulo, a relação crédito/PIB dos outros membros do grupo dos BRIC. A Rússia tem oferta quatro vezes maior que a nossa!!! Na ponta tem algumas coisas que se ligam: 


1) O gasto público de estímulo de demanda agregada pode facilmente virar estímulo à inflação, para isso basta a economia começar a se aproximar de seu nível potencial.

No Brasil, devido a inexistência de uma política sistemática de estímulo ao investimento em infraestrutura - o tal do custo-Brasil -, mais questões de ordem institucional que limitam os investimentos privados, a capacidade instalada potencial da indústria e, por consequência dos serviços - pois as expectativas dos agentes são iguais - acabam sendo "baixas". Esse teto baixo dá muito pouca flexibilidade à política monetária, pois logo existe pressão de demanda sobre a oferta que gera expectativas inflacionárias. Era esse problema que vinha ocorrendo no Brasil logo antes da crise; 


2) Se o gasto público é inflacionário, mas se por razões de estrutura de poder ele deve permanecer, então ou você convive com maiores taxas de inflação e assume que "dever é bom" e aumenta a participação da dívida pública no PIB ou você aumenta a Selic. Nove entre dez "progressistas" brasileiros não vêem nada demais numa inflação um pouco maior ou em dever um pouco mais. Talvez esquecidos daquele ditado: trair e coçar é só começar. Também esquecem que as classes de menor poder aquisitivo são as vítimas principais de ciclos inflacionários e que são elas que arcam com maior carga tributária relativa à renda. esquecem que só se resolve dívida com mais tributo.
Mas, enfim, se o surto de "relativização da LRF" passar e se Lula for o pragmático que alguns querem enxergar, o mais provável é que a Selic cumpra um novo ciclo de altas como se prevê.

3) Havendo o ciclo de alta aparece a perversão do processo de má formação de crédito e o que explica boa parte do fato de nosso crédito oferecido ser bem menor que o dos outros BRICs. Gastos, além do necessário,   levam à inflação ou à dívida.
A forma clássica de controlar a inflação é vender papel. A expectativa dos agentes econômicos é que os papeis tenham que remunerar melhor, pois há o componente de risco embutido. Ai o BC aumenta a taxa Selic para poder vender os papeis que necessita para ou enxugar a liquidez do mercado e controlar a inflação ou arranjar grana para garantir despesas compromissadas, como fez recentemente vendendo papeis para repassar ao BNDES R$ 30 bi.
A perversão se concretiza no fato do agente econômico preferir depositar seus recursos no cofre da viúva, que tem um componente de risco menor que o componente de risco do crédito, seja para as famílias, seja para as empresas.
No caso dos EUA e Canadá a expansão saiu, inicialmente por fora desse esquema, pois a expansão se deu via colateral da família, as residências, criando uma outra forma de crédito.

Claro que o oligopólio bancário ajuda muito, mas isso não parece preocupar nossos "progressistas" internos ou externos a ressaltar o lado perverso do efeito. 



Enfim, uma boa discussão para quem acha que o mercado interno é importante para o nosso crescimento.


Demetrio Carneiro

sábado, 26 de setembro de 2009

BCB ENTRA NO DEBATE-CONTRA-DO GASTO PÚBLICO


Uma pequena nota do bem informado Vicente Nunes, em seu blog, dá conta de que o Banco Central passou a apresentar em seu relatório trimestral, divulgado ontem, sexta, 25, o impacto do gasto público na inflação,
Obviamente, somente Mantega e sua equipe técno-ideológica imaginavam ao contrário, o gasto público tem impacto negativo na inflação e pode ser forte, conforme a conjuntura. Nesse caso especificamente já deixo aos formuladores teóricos do lulo-desenvolvimentismo uma sugestão tipo “vamos livrar a nossa cara”: Façam rapidamente um estudo provando que o efeito inflacionário do gasto, negativo, é menor que o efeito, positivo, no estímulo à economia e na redução da miséria/combate à fome. Aproveitando, incorporem o discurso de que a inflação e o equilíbrio fiscal são menores que a luta contra as injustiças sociais.
Como certamente aumento de gasto ajuda a tirar a inflação da meta, para mais, o BCB irá começar a pensar em reajustes, para cima, da Selic. Nessa altura o argumento que sugeri será muito importante para a luta política contra a elevação da taxa. Ser contra a Selic dá votos e não importa o motivo. Como o cenário desse embate deverá estar em 2010, vai dar muito pano para manga ter uma base científica para argumentar. Nisso nossos lulo-desenvolvimentistas são muito bons, mesmo que tenham que alterar um pouco algumas premissas para fundamentar suas conclusões.
Demetrio Carneiro