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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

PATRIMONIALISMO E PODER: ALGUM DIA VAI ACABAR?

Idelí Salvati visita Sarney e nega que tenha tratado com o patriarca sobre nomeações na Agência Nacional de Petróleo. Seria em retribuição ao gentil ato de aprovação da DRU no Senado Federal. Nesta altura livrar a cara do amigo da Rainha, Pimentel, e aprovar a primeira "flexibilização" da Lei de Responsabilidade Fiscal teve ter sido um bônus extra dado de natal pelo nobre senador.

A relação de Sarney com o executivo central deixa transparente a razão pela qual Dilma jamais poderá verdadeiramente eliminar o patrimonialismo: Garantia de uma votação dócil. As práticas patrimonialistas são essenciais como forma de recompensa aos aliados, que só são aliados por serem muito bem recompensados seja em forma de empregos, seja em forma de transferência de recursos, seja em forma de oportunidades de negócio. 

Boas notícias para o circuito da corrupção: Os escândalos continuarão em 2012, 2013 etc.

Demetrio Carneiro


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O VOTO, ERRADO, DO SENADO NA PARTILHA DO PRÉ-SAL IGNORA EDUCAÇÃO E C,T & I

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC, fez reiterados apelos para que os senadores apoiassem a inclusão da Educação, Ciência, Tecnologia e Informação como despesa obrigatória dos beneficiários dos recursos da partilha do Pré-Sal.

O argumento de defesa chega a ser elementar: As quatro áreas são fundamentais para o desenvolvimento de qualquer nação. O petróleo é recurso finito e seus benefícios devem se dar em vantagem dos brasileiros, mas não apenas dos brasileiros do presente, mas dos brasileiros do futuro também. Investir no futuro é investir em educação e C,T & I.

Infelizmente os srs. senadores parece que tinham preocupações mais imediatas e ignoraram esses apelos, preocupados que estavam em beneficiar os estados fora do eixo produtor. Certamente é uma antecipação do que será o debate e a votação do FPE.

A partilha segue para a Câmara Federal. Resta esperar que os deputados sejam mais lúcidos...

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 2 de março de 2011

O SENADO SERVE PARA O QUÊ?

Abaixo um texto enviado por Helena Wernek. Foi publicado originalmente na excelente Revista Eletrônica de Estudos Urbanos e Regionais “@metrolope”, publicação dos alunos de pós-graduação dos programas vinculados ao Observatório das Metrópoles.

No texto me chamou a atenção a idéia de uma dinâmica cultural e histórica no estilo “conciliação que leva para a reforma” e o citação do papel do Senado como o lugar das oligarquias na política tradicional.
Na realidade eu leria o Senado como o lugar das oligarquias regionais. Como raciocino a estrutura de poder regional é quem faz a transmissão e interpretação da estrutura de poder federal para as estruturas dos poderes locais. Foi assim que interpretei num texto que escrevi recentemente para a Revista Política Democrática que aborda a relação entre Federação, Regionalidade, e Poder Local.
Na verdade, na medida em que essas oligarquias regionais fazem parte desse pacto de poder atual, revigorado e reforçado no processo que culminou na eleição de Dilma, o Senado passa a assumir importância e ele mesmo se revigora.
Não por acaso o PT decidiu concentrar esforços lá. Na verdade eu diria que a culminação de um processo que trata da consolidação das oligarquias regionais sob a aliança-tutela do PT, que, certamente está perfeitamente adequado para assumir seu papel nos espaços abertos que existirem, criando novas oligarquias regionais.

Enfim, a questão do Senado e o papel de fato que exerce no jogo de poderes é assunto relevante a faz parte de todo um debate Federativo inexistente que enfraquece de forma extrema a República já tão desequilibrada na relação entre seus poderes.
Por isso mesmo tem sentido apresentar o ótimo texto de Pedro Célio Alves Borges.

Demetrio Carneiro

O Senado e os interesses das unidades territoriais

Por Pedro Célio Alves Borges*

Assegurar a integridade do imenso território nacional é a justificativa principal para o sistema bicameral brasileiro, desde 1891. A idéia hoje permanece, sem grandes interferências, dando vértebra ao federalismo. No Congresso Constituinte de 1988, poucas vozes sinalizaram a intenção de debater as vantagens para a democracia com a alternativa de uma única casa parlamentar. Implicaria, por óbvio, no fim do Senado. A escassa ressonância obtida à época entre as elites políticas e a opinião pública, fornece um exemplo da transição brasileira e de seu “marco normativo”: a constituição-cidadã. Como em outros temas centrais à luta democrática (anistia recíproca, indefinições da função social da terra), nesse também prevaleceu a fusão de mudanças e manutenção.

O modelo de conciliação e reforma, em que a primeira sempre retarda e às vezes subordina a segunda, comemorou sua saga de emblema de nossa República ao reaparecer no eixo das negociações que finalizavam a ditadura de 1964, com o mesmo vigor de um século antes. O nicho para a representação exclusiva das oligarquias regionais prossegue no desenho institucional da nova etapa de formação do país, agora regido pela democracia política. Imensidão do território e diversidade da sua ocupação mais uma vez combinam-se como cláusula pétrea fincada na cultura política. Reiteram a função legitimadora do controle das mudanças e da renovação, emanadas das dinâmicas de uma sociedade já tremendamente modificada, que se diferenciou na estrutura produtiva, na cultura e na estratificação social, nas ocupações e aspirações de seus diferentes segmentos por justiça, cidadania e representação democrática.

Retido na conceituação nominal, o Senado dá configuração a “interesses de unidades territoriais” e não a demandas populares. Insensatez e metafísica, tão somente? Nem tanto, quando se reconhece que na versão política em que vigoram conflitos e interesses, sua existência traduz uma retaguarda das forças conservadoras. Assim tem sido o presidencialismo à brasileira, em que a chamada Câmara Alta antagoniza-se – não somente – com a maior sensibilidade popular do executivo. Também as expressões dos movimentos populares que conseguem assento na Câmara dos Deputados têm seus pleitos dificultados, re-significados e até mesmo impossibilitados de realizarem- se graças aos freios do Senado, dada a eficácia dos conluios do campo político, diria Bourdieu, que se abastecem nos ritos e ritmos bicamerais.

Difícil encontrar melhor imagem para a questão do que a declamada por Jefferson na aurora do sistema federativo nos EUA que, aliás, inspira o liberalismo brasileiro pró-Senado: tomando chá, no bom costume inglês do spot of Milk (temperar com uma gota de leite) ele professa: “[o Senado] vai ser para isto: para esfriar”. No limite lógico, num lapso em sua reconhecida e respeitada erudição, Afonso Arinos chegou a proclamar que a solução de criar o Senado denotara uma inspiração divina para os norte-americanos.

O debate político atual no país pouco coloca em tela a hegemonia dessa visão de democracia hierárquica e condicionada. Talvez porque o pensamento progressista em boa medida ainda concebe o nível institucional como secundário ou mera derivação da infra-estrutura. Ou então temos simplesmente a reprodução do discurso conservador e oportunista dos liberais.

No PT, por exemplo, o debate do unicameralismo não vinga, nem quando proposto pelo presidente Berzoini, como no último congresso do partido, em 2007. Ao contrário, o senador petista Tião Viana – eleito governador na última eleição – acorreu célere à tribuna (do Senado) para trocar efusivos afagos doutrinários com os pares Marco Maciel e Marcelo Crivella, irmanados ideologicamente na ética bicameral.

Curioso é verificar que o segundo tema acoplado ao emocionado discurso de Viana, de defesa do Senado, não foi outro que a absoluta reprovação da legalização do aborto, com base na firmeza de sua formação cristã.(1)

Dessa maneira, o pequeno expediente do Senado tem a utilidade de propiciar amenidades e fervores discursivos que revelam o essencial das razões antigas e contemporâneas para a sua alegada inevitabilidade na república. Garantir a unidade territorial do país, repetindo a abertura desta reflexão, fornece o slogan primaz e mais incisivo. No entanto, o federalismo em território continental não tem per si correlação exclusiva com o Senado. Também a Câmara dos Deputados traduz a representação dos estados, malgrado as distorções e outros limites à vontade popular que não desgrudam do nosso sistema eleitoral. Mas o temor aí é de que a representação proporcional, mantida a base de sua adoção em 1932, instigue eventuais vocações separatistas dos estados sub-representados.

Essa objeção ignora que a política é movida por distintas e simultâneas clivagens através das quais as lealdades e os antagonismos se revezam e misturam os atores políticos, imprimindo complexidade e fluidez às alianças e aos perfis das bancadas. E basta lembrar aqui que o cenário das bancadas partidárias vê-se acometido de lealdades corporativas e setorializadas, resultando num jogo irreverente de votações ruralistas, sindicais, feministas, evangélicas, católicas, étnicas etc., distantes de fixarem-se em filiações regionais (ou estaduais) permanentes.

Além disso, em que medida de legitimidade cabe anteceder o primado do federalismo ao da proporcionalidade?
Como desconhecer experiências de estabilidade nas interações interterritoriais em países de sistemas unicamerais, alguns deles também de grandes territórios (Suécia, Ucrânia, Nova Zelândia, para não citar países menores e contaminar o argumento)? Ou que em democracias bicamerais, como Canadá, o Senado é ocupado de forma quase proporcional, tendo as regiões mais populosas maior número de assentos que as menores? E, ainda, para apimentar, o adensamento da base dinâmica da economia, da cultura e da representação social do país em regiões metropolitanas está a demonstrar que a noção de federalismo não comporta perenidade ou cláusula pétrea.

Outra argumentação a favor do Senado, desde a origem, assenta-se no efetivo reforço à descentralização, que seria inerente à paridade entre estados desiguais. A ela também cabe repto. Sua utilização traz doses maiores de intencionalidade do que de substância democrática, conforme mostra uma breve visita ao debate atual. O antiestatismo hegemônico nos circuitos teórico-políticos dos anos 1990 parece superado, ao menos como receita automática para crises e ajustes. Hoje já ecoam mais os alertas feitos à época por algumas vertentes da inteligência acadêmica
(Ana Clara Torres Ribeiro e Marta Arretche, entre outros), de que descentralização e democracia não constituem sinônimos automáticos. A aproximação de seus significados depende da história e merece relativização analítica.

Na trajetória brasileira, (essa mesma, do grande território e dos diferentes estados) descentralização tem rimado com mandonismo dos chefes regionais. O rumo costumeiro da descentralização, sob diferentes modalidades (não apenas na República Velha), segue as vias do pacto federativo, indo do Estado central para os blocos regionais de poder, já descrito por Victor Nunes Leal, com a lei da reciprocidade:governabilidade sustentada no reforço e na sobrevida das oligarquias.

Um último aspecto, que nem conforma outro argumento, mas ornamenta os anteriores, mostra-se na acaciana declaração de ser o todo constituído pelas partes, cujas especificidades não caberiam jamais suprimir no desenho institucional da nação. Ora, será necessário dissertar sobre a heterogeneidade social dentro das partes ou de cada unidade federativa?

Dificilmente um estado, territorialmente considerado, constitui uma entidade unívoca, com interesses e vocações pré-existentes aos sistemas de estratificações, desigualdades e até mesmo de segregação que dinamizam suas respectivas sociedades. Isso somente ocorre, ao modo desta análise, nas hegemonias discursivas dos que, ao ditarem as fronteiras da unidade territorial, buscam convertê-las em fatores de unificação do interesse político do território. Representações heterogêneas coexistem e se cruzam no interior do território, não raro nutrem ensejos de solidariedade horizontal e integração política com segmentos similares de outras unidades federativas.

Certamente que a formação da unidade nacional tem aí razões mais decisivas do que as do propalado e inexistente equilíbrio territorial.

(1) Ver pronunciamento do senador Tião Viana no Senado, de 3/09/2007

* pcab21@hotmail.com

Doutor em Sociologia pela UNB.
Professor Adjunto da Universidade Federal de Goiás nas disciplinas de Teoria Sociológica, Sociologia Política e Política Brasileira. Desenvolve pesquisas e orienta alunos nas linhas de Cultura Política, Políticas Públicas, Participação Política e Democracia. Atualmente é diretor, em segundo mandato, da Associação Brasileira de Sociologia.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

CONTROLE DO SENADO: VERDADE NUA E CRUA

As previsões são de que a base aliada produza maioria absoluta no Senado Federal.
É o risco que corremos, nós que pensamos no fortalecimento da democracia e não no seu enfrequecimento.
Se num Senado onde a base aliada não retinha necessariamente a maioria fez-se tudo que se fez, desde a violação da LRF, via ampliação, por decisão executiva, dos limites de endividamento dos municípios até a total mudança de eixo de nossa política externa, imagine-se um futuro governo Dilma com maioria absoluta.

É algo para se pensar.

Demetrio Carneiro

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A SELIC E AS ELEIÇÕES

As eleições acabam jogando, mesmo que não se queira, a economia para o centro do debate.

O atual governo, com o foco no processo eleitoral, mas também por ter os conceitos que tem, força a mão na economia. As projeções anualizadas do PIB são altas e indicam que poderemos chegar ao teto de produção. As proximidades desse limite são potencialmente geradoras de inflação.

O papel do BC, o seu mandato institucional, é agir para que a inflação fique dentro das metas que o Conselho Monetário Nacional estabelece. 
Note-se que neste conselho sentam-se representantes do setor econômico do governo. Até o ministro Mantega, por acaso o presidente, ferrenho defensor das taxas baixas, tem assento lá. As metas de inflação que disparam a ação do BC são decididas no CMN.

Caberia ao CMN a coordenação entre as políticas fiscal e monetária. Mas não é o que ele faz no mundo real. O mundo real, desde que o BC é BC no Brasil, é o mundo dos choques e entrechoques dentro da área econômica de todos os governos. Entreveros entre o Planejamento e a Fazenda, entre a Fazenda e do BC são rotineiros e estão nas primeiras páginas dos jornais desde sempre.

O choque real, e não o eleitoral, é entre diferentes concepções da relação entre inflação, taxas de juros e desenvolvimento. Ou seja, em que exatamente a inflação e as taxas de juros adiantam ou prejudicam o nosso desenvolvimento enquanto nação e como dar a essa questão uma solução eficiente.

Uma das soluções para um desenvolvimento brasileiro  coerente e suficiente seria uma coordenação real entre as políticas fiscal e monetária, feita dentro de um CMN que agregasse representantes do setor de produtivo e de serviços e que falasse de forma efetiva e não apenas formal com o Senado, que deveria ser o seu controlador social. 
Mas isso é o que não se quer para não se tocar em áreas muito definidas de interesse dos grupos que apoiam qualquer governo desde que estejam nele.

O fato. Sempre há um fato. é que é mais fácil, mais digerível com nossa vocação nacional para a esquerda e mais eleitoral, reclamar da SELIC, acusar banqueiros e rentistas. Este é o discurso comum que une oposição e situação. 
A culpa é do Outro.

É bem mais simples acusar a taxa do que procurar na estrutura de relações, nas propostas de gestão ou no próprio projeto de desenvolvimento superado e anacrônico as raízes para a inflação que força o BC a fazer o que ele tem que fazer porque é para isto que ele existe.

Se banqueiros e rentistas se beneficiam dos juros mais altos do mundo é porque há uma estrutura e uma relação de poderes entre a gestão pública e a economia real que tem que ser alterada. O mais divertido é ver entrevistas de representantes desses setores estigmatizados declarando com todas as letras que preferem investir na economia e não no governo e que os entraves estão nas questões regulatórias e estruturais que cabem ao governo resolver.

O programa da redução da taxa de juros é simples. O que é preciso é coragem política:

- Coordenação institucional entre política fiscal e política monetária;
- Controle do gasto público;
- Estabelecimento de metas de crescimento econômico e sua compatibilidade com as políticas fiscal e monetária.

Se quisermos ir mais longe:

- Fim do oligopólio bancária e das políticas que o sustentam;
- Criação de uma Política Nacional de Estímulo à Poupança;
- Criação de uma Política Nacional de Investimentos coerente com um novo modelo de desenvolvimento que adote os paradigmas ligados à sustentabilidade econômica e ambiental, portanto às inovações como elemento de transformação da economia.

Demetrio Carneiro

sábado, 10 de abril de 2010

SÃO DEMAIS OS PERIGOS DESTA VIDA

Matéria do Estadão, abaixo, alerta para texto de lei em andamento no Senado. Tem sido uma tarefa complexa a construção desta República pós 88. Ela deveria ter na prática certos predicados que só existiam na teoria desde o século 19. Pelo menos dois envolvem debates muito atuais:

A questão da igualdade, envolvendo ai o papel do Estado, da sociedade civil organizada e da iniciativa privada;

E a questão do uso privado dos recursos públicos. Há diversas reclamações contra brechas legais, falta de transparência, ineficiência nas investigações, morosidade nas punições.

O Projeto de Lei parece pretender ser um facilitador do processo investigatório já que prega que toda a cadeia de investigados derivada de uma dada investigação pode ter seu sigilo quebrado de forma automática. Estamos perante uma claríssima questão de limites ao poder do Estado. Com o nosso histórico de autoritarismo estatal muitos tenderão a não dar importância ao assunto. Mas esta é outra questão que deveria diferenciar esta república das anteriores: Aqui e agora podemos e devemos ser capazes de marcar um limite para a ação do Estado.

Demetrio Carneiro

Devassa em cascata


Numa decisão para a qual poucos parecem ter atentado, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou no começo da semana passada o Projeto 418/03, que contém uma ameaça como de há muito não se via aos direitos e garantias civis da população, consagrados na Constituição brasileira. O projeto, que agora será examinado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, institui o que os juristas consideram quebra de sigilo por ricochete ou, na linguagem corrente, em cascata a partir de uma única autorização judicial.
De autoria do senador Antonio Carlos Valadares, do PSB sergipano, e apresentado em 2003, o texto pretende tornar mais ágeis e efetivas as ações contra acusados de crimes contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Medidas com esse objetivo decerto vão ao encontro do interesse público. Mas nos seus 15 artigos e 129 itens, a proposta faz tábula rasa do indispensável equilíbrio, que deve prevalecer nas sociedades democráticas, entre dois imperativos: o de defender o bem comum, nesse caso representado pelo erário, e o de preservar as franquias individuais da intrusão desabrida do Estado.
Na esfera da coibição e punição de presumíveis delitos contra as finanças públicas, como, de resto, em relação a toda forma de atropelo das leis, o Judiciário encarna os proverbiais freios e contrapesos à ação dos organismos incumbidos de investigar procedimentos eventualmente ilegais e, uma vez comprovada a ilegalidade, propor sanções contra os seus autores. A Polícia e o Ministério Público não podem, como é sabido, abrir os sigilos fiscal, bancário ou das comunicações do acusado. A quebra do sigilo por prazo determinado e a sua possível prorrogação dependem do ato de um juiz que responderá por ele.
Esse salutar princípio é revogado pelo absurdo projeto, que tem o potencial de transformar o País numa imensa delegacia, ao atribuir a policiais e promotores poderes descomunais. O cheque em branco que eles e seus colegas de uma penca de agências federais passariam a receber tem o seguinte formato: sempre que, num inquérito, "surgirem novos suspeitos ou novos bens, direitos ou valores que mereçam investigação própria", fica dispensado o pedido de ampliação da devassa originalmente concedida por um magistrado. Este deixa de decidir, sendo apenas informado da iniciativa. O rito se torna automático.
São nada menos de uma dezena as repartições estatais às quais o projeto concede a prerrogativa de perscrutar a intimidade de pessoas que tenham, ou tiveram, vínculos com os suspeitos cujo sigilo havia sido rompido por decisão judicial: Receita Federal, Banco Central, Tribunal de Contas da União, Polícia Federal, Agência Brasileira de Inteligência, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Comissão de Valores Mobiliários, Ministério Público, Comissões Parlamentares de Inquérito, Secretaria de Previdência e Seguros Privados.
"Tem de escancarar", diz o senador Gérson Camata, do PMDB do Espírito Santo, relator do projeto na comissão do Senado que o aprovou, desdenhando das garantias civis dos brasileiros. Ele alega que, se a medida já estivesse em vigor, "o Brasil não teria mensalão do PT nem mensalão do DEM"  o que não passa de uma frase de efeito, impossível de cotejar com a realidade. O projeto, reage a criminalista Flávia Rahal, do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, "regride na proteção à intimidade". O seu colega Tales Castelo Branco lembra que a Constituição "é taxativa" com relação a isso. Ele entende ser uma "licenciosidade perigosa" deixar a quebra de sigilo "ao arbítrio de uma autoridade administrativa".
O projeto ainda autoriza as instituições financeiras a comunicar ao Ministério Público movimentações "consideradas suspeitas" o equivalente a dar-lhes poderes investigatórios, advertem os advogados Eduardo Antonio da Silva e Celso Meira Junior em artigo publicado ontem neste jornal. "Não se pode, sob o fundamento de combater um mal, criar outro de igual ou maior magnitude", argumentam, aludindo à violação da intimidade. "Da mesma forma que não existe um direito absoluto, não pode haver uma regra tão abrangente e genérica de devassa."

quarta-feira, 31 de março de 2010

ÉTICA E FRAUDE NO SENADO

Não sei o que incomoda mais. A fraude explícita contra o recém instalado e "moralizante" sistema de controle de ponto do Senado por um funcionário ou a fala do chefe de gabinete, responsável pelo controle do ponto do funcionário/candidato. Gabinete da senadora Fátima Cleide, do PT, que "abriga" o candidato/funcionário.

Segundo o chefe de gabinete, Antonio Soares da Silva: “Ele está burlando o sistema de ponto eletrônico, e isso ninguém tem autorização para fazer”.
É de se imaginar que haja algum "ato secreto" que autorize  alguém a fazê-lo, pelo visto. 

Já a senadora do PT é um poço de inocência política: “Foi um lapso de nossa administração de pessoal, que é responsabilidade do chefe de gabinete”, declarou Fátima, acrescentando ter ciência de que o servidor foi ao Mato Grosso tratar do “fruto do trabalho do pai dele”. “Esse caráter de campanha eu não tenho conhecimento.”

Fatos como este acima são tudo que o nosso sistema legislativo precisa para se firmar na imagem popular como um local sério, de gente trabalhadora e honesta.
Parabéns Senado Federal.

Demetrio Carneiro


CONGRESSO EM FOCO

Quarta-Feira, 31 de Março de 2010

Reportagens Especiais

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31/03/2010 - 06h00

Em tempo de eleição, Senado cria o 'candidato fantasma'

Vicente Vuolo Filho frauda ponto e consegue garantir presença diária no Congresso mesmo estando em campanha para deputado no Mato Grosso

Fábio Góis

A criatividade do Senado parece não ter limites. Depois de tornar secretos atos que obrigatoriamente deveriam ser públicos, a Casa acaba de criar, em tempos de eleição, o candidato a deputado "fantasma". Filho do ex-senador mato-grossense da antiga Arena Vicente Vuolo (1979-1983), morto em maio de 2001, o servidor homônimo lotado no gabinete da senadora Fátima Cleide (PT-RO) decidiu disputar uma vaga de deputado federal nas eleições de outubro. Em campanha intensa, nas últimas semanas “Vuolinho” tem se dedicado a anunciar por Mato Grosso, curral eleitoral do pai, sua intenção de ingressar na vida política: deu entrevista a um jornal do estado, distribuiu panfletos ao lado de Lula em que se coloca à disposição do PT, partido ao qual é filiado.

A não ser que a onipresença esteja entre as raras qualidades de homem público que Vicente Vuolo Filho pretende vender ao eleitorado matogrossense, há um detalhe em sua campanha que incomoda. Ao mesmo tempo em que esteve no estado nas atividades descritas acima, Vuolinho oficialmente estava em Brasília trabalhando no gabinete de Fátima Cleide. Sua folha de ponto não tem uma falta sequer.

Além do panfleto de “distribuição interna no PT”, os sinais de que Vuolo está em campanha ficam mais explícitos em uma reportagem publicada na versão on-line do jornal A Tribuna, de Mato Grosso, no último dia 19. Intitulada “Vuolo Filho pede empenho da cidade”, a matéria registra a participação do “economista e servidor público federal” em reunião do diretório regional do PT, ocasião em que apresentou a proposta de sua candidatura.

A reportagem mostra o empenho do servidor em ver concluídas as obras da ferrovia São Paulo-Cuiabá, idealizada pelo pai e “popularmente conhecida como Ferronorte”, mas nos dias atuais “denominada Senador Vicente Vuolo”. “[Vuolo Filho] cobrou uma maior mobilização e luta da classe política da região sul do Estado em torno da continuidade das obras da referida ferrovia. (...) ‘A ferrovia já era para estar em Rondonópolis!’, afirmou”, registra o material jornalístico, com direito a foto do servidor e legenda informando sobre a visita ao município e à redação, em 18 de março – um dos dias em que seu ponto foi batido no Senado.