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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

CONTAS ABERTAS: MOVIMENTO POPULAR PEDE ECONOMIA NO LEGISLATIVO DO DF

Contas Abertas relata um belo exemplo de como o movimento social pode ser pró-ativo e exercer o controle que lhe compete por direito.

Demetrio Carneiro

Movimento popular pede economia de R$ 3,8 mi no Legislativo do DF

Milton Júnior

Um grupo de voluntários quer pressionar a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) a economizar pelo menos R$ 3,8 milhões nos próximos quatro anos. O grupo, conhecido como "Adote um Distrital", lança hoje campanha pela extinção dos 14º e 15º salários dos 24 deputados distritais. Iniciado em janeiro deste ano, o projeto ganha mais adeptos a cada dia e se fundamenta da escolha de um parlamentar e na imediata fiscalização dos trabalhos do político eleito.

A legislação estabelece que o valor dos “salários extras” seja equivalente à remuneração a que os deputados recebem mensalmente, hoje fixada em pouco mais de R$ 20 mil. A campanha, batizada de “Mais que 13 não”, pretende colher assinaturas nas ruas e na internet para cobrar dos deputados a extinção dos salários, hoje opcional na Casa. O mote será um projeto de lei apresentado pelo distrital Raad Massouh (DEM).

“Adotamos como metodologia no Adoteum um Distrital defender pelo menos um projeto por parlamentar. E a proposta escolhida do deputado Raad foi essa”, explica Diego Ramalho, um dos coordenadores do movimento. “A ideia é fazer patrulha pela cidade, divulgando a origem do ‘salário extra’ e colhendo assinaturas. Depois, iremos protocolar as assinaturas onde o projeto estiver engavetado. Para encerrar a campanha, faremos manifestação pacífica na CLDF, convocando todos os cidadãos do Distrito Federal”, explica Ramalho.

Para o autor do PL, a benesse não tem fundamento ético ou jurídico e representa injustiça para com os trabalhadores brasileiros. Além de Raad, pelo menos outros sete distritais já abriram mão da verba. São eles: Rejane Pitanga (PT), Chico Leite (PT), Cabo Patrício (PT), Cláudio Abrantes (PPS), Israel Batista (PDT), Joe Valle (PSB) e Alírio Neto (PPS).

Além da proposta de Raad, outro projeto que conquistou a simpatia do grupo foi o que impõe critérios da Ficha Limpa para nomeações no Governo do Distrito Federal, de autoria do deputado Olair Francisco (PTdoB), que deverá receber atenção especial entre abril e maio deste ano. Projeto semelhante também foi proposto recentemente pelo Executivo da capital. O movimento ainda promete ficar de olho nas atividades dos gabinetes (recursos e pessoal), nos projetos de leis apresentados e nas prioridades dos parlamentares.

O "Adote um Distrital" é coordenado pelo comitê Ficha Limpa-DF, uma das entidades ligadas ao Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). Em quase dois meses, cerca de 350 pessoas já se cadastraram para “apadrinhar” um distrital. O objetivo do projeto é fiscalizar e divulgar os atos da Câmara Legislativa e dos deputados, por meio da imprensa e das mídias sociais. A inspiração foi o Adote um Vereador, de São Paulo, iniciativa do jornalista Milton Jung para acompanhar os 55 membros da Câmara Municipal. Para saber mais sobre o projeto acesse www.adoteumdistrital.com.br.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

DETERMINAÇÃO DA ECONOMIA PELO CICLO ELEITORAL

Abaixo texto de Tony Volpon, publicado na Folha de São Paulo e citado pelo "Democracia Política e Novo Reformismo", tratando da relação, pouco observada no debate atual, né?, entre o processo eleitoral e o uso do aparelho de Estado na permanência das estruturas de poder. Ou seja o "ciclo econômico-eleitoral". Não é assunto novo. Novo é ser tratado por um analista de mercado que decide sair do espaço das "questões de mercado" para questões mais amplas e de determinação estratégica. 

Mais uma questão que não empolga nosso incipiente controle social. Aliás que controle social pode haver quando o controle do executivo sobre o legislativo é no mais eficiente estilo rolo compressor, como está se vendo na votação do SM? É assim que consolidaremos a democracia em nosso país?

Demetrio Carneiro


Período eleitoral seguido de aperto fiscal determina o ciclo econômico do país

por Tony Volpon

Existe um "ciclo eleitoral" no Brasil? O ciclo eleitoral é a tese segundo a qual governos tentam controlar o ciclo econômico para influenciar o resultado das eleições.
Essa tese encontrou pouco apoio nos Estados Unidos, onde, diante de uma economia complexa, seria difícil manipular o ciclo econômico para coincidir com o calendário eleitoral.
Mas, se não parece ter obtido sucesso nos EUA, no Brasil a historia é outra em relação a esse ciclo eleitoral.
O economista Marcelo Neri, da FGV, estudou a variação na renda, pobreza e gastos do governo nas eleições de 1982 a 2006 e encontrou forte evidência sobre a existência do ciclo eleitoral.
Por exemplo, Neri descobriu que o aumento da renda mediana foi de 12,5% no período pré-eleitoral, para cair a 11,9% nos anos pós-eleição.
Essa evidência empírica mostra que infelizmente nossa ainda jovem democracia, onde o Estado possui muitas políticas para influenciar o nível da atividade, parece estar sujeita ao ciclo eleitoral.
De fato isso parece ser a única maneira de explicar o último ano do governo Lula, que acelerou o impulso positivo da política econômica apesar da fortíssima recuperação pós-crise.
Por exemplo, os gastos do governo aumentaram em 10,1% entre 2009 e 2010.
Acelerações em 2010 em relação a 2009 foram também vistas nos aumentos de salários dos servidores, transferências para cidades e municípios e aumento de crédito dos bancos públicos.
Não surpreende que em 2010 a economia brasileira deva ter o maior crescimento anual em décadas.
Se 2010 for de fato um caso extremo, mas não atípico, do ciclo eleitoral no Brasil, o que esperar para 2011?
Como mostram os dados, o boom pré-eleitoral é seguido por forte ajuste. Afinal, não vale a pena deixar a economia perseguir um caminho insustentável no inicio de um novo mandato.
As recentes medidas de ajuste do governo devem ser entendidas dentro desse contexto.
TONY VOLPON é chefe de pesquisas de mercados emergentes da Nomura Securities International Inc

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CONTROLE SOCIAL: QUEM CONTROLA OS CONTROLADORES?

Abaixo uma instigante entrevista feita pelo advogado Apoema Machado com o promotor Ruszel, publicada na coluna Diário Cidadão, no Diário do Povo, Piauí.

Num país onde o déficit de cidadania tem proporções catastróficas, onde o conceito de accountability é virtualmente desconhecido, o tema do controle social é de extrema relevância. 

Conhecer o que se avança ou não, na área, buscar alternativas, cobrar eficiência e funcionalidade, são questões que têm papel relevante na construção do processo republicano. 

De fato jamais teremos a consolidação de nossas instituições democráticas sem não tivermos maior clareza nessas questões.

Demetrio Carneiro


ENTREVISTA COM O PROMOTOR, ESCRITOR E PROFESSOR
RUSZEL LIMA VERDE CAVALCANTE

A Coluna Diário Cidadão apresenta a entrevista realizada como o promotor, escritor e professor Ruszel Lima Verde Cavalcante, autor do livro Despesa Pública e Corrupção no Brasil, que a despeito dos recentes processos judiciais envolvendo gestores públicos municipais – dentre os quais foram noticiadas prisões de prefeitos e administradores no nosso estado – faz ponderações acerca das funções do Ministério Público e Tribunal de Contas, destacando a importante função das Controladorias Municipais para defesa do patrimônio público.

Honrada com a entrevista, a coluna parabeniza o Jornal Diário do Povo pela imparcialidade e o relevante exercício da liberdade de imprensa em publicá-la na íntegra.

Diário Cidadão - Promotor Ruszel Lima Verde Cavalcante, o Senhor teve uma atuação forte em prol da probidade na administração pública, coma a publicação de vários livros e a atuação marcante da campanha vitoriosa para implantação das controladorias internas nos municípios piauienses. Por que continuam a ocorrer escândalos como aqueles apontados na operação Geleira da Polícia Federal?

Promotor Ruszel Lima Verde Cavalcante“O assunto é crítico, quando observamos que a revista Veja de duas semanas atrás noticiou que o Controlador Geral da União escolhe os processos de investigação que devem andar, engavetando aqueles que interessam ao Executivo Federal. Isso é prevaricação e é improbidade administrativa, colocando-o como responsável solidário aos gestores, como informa o art. 74 da Constituição Federal.”

Diário CidadãoPor que então não é tomada qualquer iniciativa punitiva?

Promotor Ruszel Lima Verde Cavalcante “Por que o Ministério Público brasileiro ainda não acordou para o fato de que os controladores são responsáveis solidários, bem como ainda não há a consciência no Ministério Público Nacional de que os gestores devem submeter seus atos administrativos ao controlador, assim existindo uma lacuna na atuação do Ministério Público.”

Diário Cidadão - O Senhor poderia ser mais claro, o senhor está dizendo que há deficiência do Ministério Público?

Promotor Ruszel Lima Verde Cavalcante“Sim, essa é minha opinião como escritor, professor e como mestre em Direito, pois, se a Lei comanda que o controlador deve avaliar o cumprimento das metas previstas no plano plurianual, a execução dos programas de governo e dos orçamentos da União; comprovar a legalidade e avaliar os resultados, quanto à eficácia e eficiência, da gestão orçamentária, financeira e patrimonial nos órgãos e entidades da administração federal, bem como da aplicação de recursos públicos por entidades de direito privado; exercer o controle das operações de crédito, avais e garantias, bem como dos direitos e haveres da União; apoiar o controle externo no exercício de sua missão institucional; dar ciência ao Tribunal de Contas das irregularidades sob pena de responsabilidade solidária e isso não ocorre, deve o Ministério Público forçar o cumprimento disso aí.”

Diário Cidadão - Quais os benefícios que a sociedade teria se isso realmente fosse uma realidade, ou seja, se o controle interno atuasse como comanda a Lei.

Promotor Ruszel Lima Verde Cavalcante“Nós todos teríamos em tempo real o conhecimento das irregularidades, das ilegalidades, dos desperdícios e das tentativas de corrupção, com possibilidade de prevenção antes da ocorrência, justamente porque o Tribunal de Contas, que deve receber as comunicações do controle interno, não estando em todos os municípios, iria usar o controle interno como ferramenta de sua atuação preventiva.”

Diário Cidadão - Qual o risco que a sociedade corre em não ter o controle interno eficiente?

Promotor Ruszel Lima Verde Cavalcante “O risco do faz de conta, pois, tomemos o caso dos atos secretos no Senado Federal, a Folha de São Paulo logo depois fez uma matéria falando que os atos secretos não foram submetidos ao Controle Interno. Então, para que existe o cargo e é ocupado no Senado Federal com alto salário? A crise reflete na própria estrutura do Estado, que fica manco quando a Constituição cria órgão que existem de fachada e a sociedade, acredita que vive uma democracia porque elege pessoas, na verdade vive uma democracia mentirosa, pois os eleitos podem atuar como se fossem reais, sem dividir suas competências e atribuições na hora do gasto público, escondendo da própria Instituição que comanda atos e do povo, o grande lesado.”

A coluna destaca que o livro Despesa Pública e Corrupção no Brasil foi editado pela Fundação Astrojildo Pereira e Editorial Abaré, com sede em Brasília e lançado em novembro de 2009 nas Bibliotecas do Senado Federal, com o patrocínio logístico do Senador Critovam Buarque e na do TCU com o patrocínio logístico do Ministro Ubiratan Aguiar que prefaciou o livro.

Segue o ementário da obra :

“A sociedade brasileira tem sido vítima de um choque ético constante, oriundo dos comportamentos ímprobos e criminosos de agentes públicos, revelados através de escândalos que se prorrogam no tempo, ante a acomodação a um inconsciente coletivo que aceita o processo da despesa pública ilegal.
Os casos em que a mídia tem apresentado aos brasileiros estão ligados por um liame fático que é o processo da despesa pública deformado pela gestão de autoridades que menoscabam seus compromissos com a legalidade, com a economicidade, com a eficiência e, fundamentalmente, com a transparência dos gastos públicos.”

A Coluna Diário Cidadão, face à polêmica do tema, exercita, desde já, a abertura do presente espaço para o oferecimento de Direito de Resposta e/ou complementações que venham a ser eventualmente de interesse do Ministério Público, do Tribunal de Contas ou da APPM, assim respeitando opinião diversa dos personagens e das instituições aqui citados.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ACCOUNTABILITY: CHAMADA DE TRABALHOS

Volta e meia falo sobre essa questões de Controle Social / da sociedade & Responsabilização. Falo também de sua quase inexistência aqui entre nós.
Abaixo uma chamada para apresentação de trabalhos na área.

Demetrio Carneiro


In this era of social media, rapidly expanding access to a variety of information outlets, greater activism by civil society groups, and a greater demand for results, public sector accountability has grown beyond the traditional institutions that exercised oversight of public expenditure. While auditors and legislative oversight continue to play a key role, anyone with the ability to create or read a blog can be part of the growing intertwined mechanisms to hold government accountable for how it spends public funds and what outcomes result.

The International Consortium on Governmental Financial Management (ICGFM) has issued a call for speakers, panel members, and presentations to be made at its 25th Annual International Conference which will be held in Miami from May 15-20. The theme of the conference will be: Achieving Real Accountability: A Balancing Act Among Stakeholders.

Examples of themes that might be the subject of proposals include:

How citizens can effectively communicate with government on spending priorities
How governments are employing new mechanisms to create both transparency and feedback
How a responsible media plays a vital role in accountability
How donors are using greater transparency to allow for greater freedom in the use of their resources
An expert panel will review all proposals and select the most pertinent and thought-provoking of them for inclusion in the conference program. A stipend will be provided toward travel expenses of the selected presenters. PFM professionals wishing to submit proposals can seek more information at icgfm.proposals@icgfm.org . The deadline for submission is February 24, 2011.

It is intended that the participants in the conference and those who follow the published proceedings will gain tools and insights that can be used as they consider the adoption of international standards in their PFM regime. The conference organizers are seeking both examples of a successful adoption of standards as well as lessons learned and examples of unintended consequences and challenges encountered in adopting international standards.

The ICGFM is a non-profit group established in the 1960s by the IMF, World Bank, the US General Accounting Office and others to serve as forum for those interested in public financial management around the world, and to serve as an umbrella for government, academia, practitioners, individuals, and other associations interested in public financial management. The organization has a number of activities including a monthly lunch speaker series in Washington, DC, an annual conference in Miami and a somewhat smaller winter conference in Washington, DC. It also publishes the International Journal on Public Financial Management.

domingo, 23 de janeiro de 2011

OSCIPS E A ESTATAL-DEPENDÊNCIA: O COLAPSO DO CONTROLE DA SOCIEDADE

A matéria abaixo, publicada no site do Instituto Millenium, reflete uma preocupação justa.

De fato as Oscips aparecem no primeiro governo FHC a partir de uma ação do Comunidade Solidária, na altura sob Ruth Cardoso e Betinho.

O princípio era atual e lógico:

a) O Estado é incapaz de atender a todas as demandas da sociedade. Vamos dizer assim: A soma de todos os recursos possíveis de o Estado obter não são jamais suficientes para atender a soma de todas as demandas;

b) A Sociedade Civil tem o Capital Social Potencial – tem toda uma teorização sobre uso possível que não discutiremos agora - disponível e pode usá-lo em favor de si própria a partir de uma articulação com o Estado.

Enfim as Oscips seria entidades privadas agindo no espaço público em coordenação com o Estado, ocupando áreas onde este deveria estar, mas não teria condições de estar ou por falta de recursos ou por falta de estrutura. Este é lado ideal/teórico e belo da história.

O lado real é que a bela idéia de Ruth Cardoso, Betinho e outros (bom não esquecer o Augusto de Franco) de imediato virou um formato para burlar a Lei de Responsabilidade Social na questão da contração de pessoal na área de saúde. Nos municípios. A partir da interpretação de que a LRF não impedia e nem obrigava que a terceirização sob norma que limitava a folha de pagamento das prefeituras as Oscips rapidamente passaram de “solução” para a Saúde para “solução’ geral e generalizada.

Dali para o aparelhamento foi um passo rápido e o aprofundamento da prática no governo Lula, frente à perpectiva hegemonizante petista consolidou o processo.

Do aparelhamento para o uso das entidades na formação de caixa dois ou mesmo para “popularização’ da imagem de parlamentares e dirigentes do executivo foi outro passo.

Atualmente já dá para afirmar que a proposta de uso do “Capital Social Potencial” foi substituída pela “estatal-dependência”. Sem os recurso do Estado é bem provável que mais de 80% das Oscips, que realmente estejam em operação, fechem suas portas.

O “controle estatal” entre nós já é falho por natureza. Deveria ser o “controle social” republicano feito pelo Tribunais de Contas, poderia ser o “auto-controle” feito pela CGU. É falho, como é falho no resto do planeta. O aparelho do Estado tem dimensões e alcances inimaginados a meio século atrás. Ou até 20 anos atrás, se quiserem. Seu “controle” é complexo, é preciso reconhecer. Aqui também a Sociedade Civil organizada teria um papel. Seria a questão do “accountability”, controle e responsabilização dos agentes públicos, a ser feito por meio de entidades privadas de controle do público. Atualmente talvez a única realmente operante, cadê a Transparência Brasil?, ainda seja o Contas Abertas. De resto, como operar uma entidade voltada para o accountability num ambiente estatal-dependente?

Enfim, o “controle” das Oscips deveria também ser feito, não apenas pelo governo, incluindo ai o MP, mas também pelas próprias Oscips, que deveriam ser as primeiras interessadas em preservar, antes que desmorone, seu espaço de ação.

A Sociedade Civil tem, historicamente, se apartado do debate. O destino desastrado de suas representações de vontade mais imediatas só faz aumentar o afastamento. O desencanto com a política institucional dos partidos em algum momento lá trás levou muita gente a se deslocar para o movimento social organizado. Agora muitos se desiludiram, vis-à-vis o aparelhamento e hegemonização, e buscam na rede virtual algum grau de protagonismo. Difícil ainda imaginar até onde realmente vai este processo e se ele recuperará a cidadania potencializada naqueles movimentos que geraram a Constituição transformadora, é bom frizar, de 88. A única coisa certa é que a instrumentalidade das Oscips passou das mãos da sociedade Civil para as mãos do Estado. O discurso de coesão social, lá da origem, no Comunidade Solidária, que previa a ação conjunta entre Estado, Sociedade Civil e Mercado em prol do desenvolvimento vai ficando desbotado pelas práticas de sobrevivência, e todo o seu rol de auto-justificativas, no Mundo-Cão.

Demetrio Carneiro


por Eduardo Szazi

O gasto de todo recurso arrecadado com o propósito de servir ao interesse público deve ser controlado pela Sociedade Civil. Esta afirmação é válida tanto para os recursos gerenciados pelo governo como para aqueles captados e mantidos por organizações da sociedade civil. Há um entendimento crescente que o setor público, as ONGs e até mesmo as empresas precisam de melhor controle de gastos e resultados, pois estes afetam diretamente a vida dos cidadãos e o desenvolvimento do país.
Se há consenso sobre a importância do controle, o mesmo não ocorre quanto aos agentes e instrumentos e, aqui, entendemos que cabe uma diferenciação quanto à origem – privada ou governamental – dos recursos despendidos por uma organização privada.
Começando com os recursos privados, perguntemos: qual a expectativa dos financiadores de uma ONG? Gestão eficiente dos recursos em prol do objetivo social; ética e profissionalismo na tomada de decisão; transparência de gestão; prestação de contas e punição dos responsáveis em caso de mau uso do dinheiro amealhado.
E na prática, como funciona? Aquelas qualificadas como OSCIP (Lei 9790/99) – e, infelizmente, apenas elas – atendem tais requisitos, pois devem tornar públicas suas contas e relatório de atividades, devem adotar regras internas que impeçam o conflito de interesses e o favoritismo na tomada de decisão e sua gestão é controlada por um Conselho Fiscal, sendo as contas auditadas, porém, por razões de custos, apenas se houver o recebimento de recursos governamentais em montante superior a 600 mil reais. As ONGs, todavia, não tem um órgão governamental próprio que as controle. E isso é bom?
Sim, na medida em que não cabe ao governo fiscalizar “a priori” o dispêndio de recursos privados captados por organizações privadas sem fins lucrativos, enredando-as nas teias da burocracia de cadastros, muito papel e pouco controle real. Isso não funciona. Os desvios nas compras governamentais o evidenciam. Que eficiência pode existir no controle burocrático de 350 mil entidades por todo o país? Nenhuma. O controle deve existir, mas deve ser feito “a posteriori”, em caso de denúncia, pelo órgão encarregado constitucionalmente da defesa dos interesses da sociedade: o Ministério Público. Assim se dá o controle das fundações e das OSCIPs e – o que pouca gente sabe – das entidades que captam recursos da população em geral, seja por meio de mensalidades, deduções em contas de água, luz e telefone ou outras modalidades (DL 41/66).
Em outras palavras, sendo as organizações da Sociedade Civil, são, em última análise, de cidadãos, os quais, por sua vez, têm na vida social contemporânea a liberdade de agir de acordo com o seu livre arbítrio, respeitados os direitos dos demais, sendo sujeitos a sanções em caso de violação desses direitos.
O melhor regime de controle é assegurar que os justos vivam tranqüilos e os injustos sejam punidos com rigor.
Cabe às entidades da sociedade civil prestar contas da aplicação dos recursos que detêm e dos atos de sua administração e cabe à Sociedade Civil, de maneira difusa, controlá-los. Se há algo errado, que se acione o Ministério Público. Em tempos em que tanto se fala em cidadania, este controle pelos próprios cidadãos ainda está engatinhando.
Bem, e com relação aos recursos governamentais repassados às entidades? Nesse caso, já existem instrumentos institucionais de controle: as licitações, os Tribunais de Contas e a Secretaria Federal de Controle Interno, exclusivamente governamentais, e os conselhos com participação popular, normalmente criados com competências territoriais ou temáticas (criança, assistência social, etc). Também é prevista a publicação de todos os atos no Diário Oficial.
É suficiente? Não. É necessária uma revolução no controle do gasto público, pois, do lado do Estado, há baixo nível de preocupação com o desempenho na medida em que é preponderante a orientação para os meios e procedimentos – em detrimento dos fins – e uma tendência exagerada para regras e normas excessivamente formais e pouco efetivas. O controle formal deve ser substituído pelo controle de resultados.
A lei das OSCIPs, ao criar o termo de parceria, caminhou nesse sentido, ao prever, além da prestação de contas dos dispêndios – os meios – a análise de desempenho, comparando metas e resultados com o uso de indicadores objetivos – os fins perseguidos. É nos resultados que devem ser centrados o controle do Estado e da Sociedade Civil, pois ao privilegiar-se a forma e a burocracia, criam-se as condições para que a corrupção floresça, na medida em que o agente público desonesto se vale das dificuldades das normas para vender a sua facilitação. A mudança de foco é a chave. E a Sociedade Civil a tem no bolso. Apenas não se deu conta disso.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

CONTROLANDO O CONTROLE SOCIAL

A ansiedade de controlar tudo, todas e todos é tão grande que o governo agora resolveu controlar o controle social.
O governo vem promovendo mais de uma dezena de “conferências” supostamente montadas “de baixo para cima” com a finalidade de explorar ao máximo as estruturas participativas.
Quem participou de qualquer uma delas conhece o caráter manipulatório desse tipo de processo e onde termina essa “democracia estatal” que vai desestruturando e desautonomizando o movimento social.
A cidadania, construída como termo de mediação entre o indivíduo e o Estado vai sendo usada e abusada justamente na direção de um projeto hegemonizante e autoritário.

A democratização do aparelho do Estado deveria ter sido um dos principais temas da oposição na campanha passada. Infelizmente não foi e essa doce alienação tem um custo. 
Agora vamos consolidar a "democratização do Estado" por meio dos decretos presidenciais.

Demetrio Carneiro


DECRETO DE 8 DE DEZEMBRO DE 2010

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea “a”, da Constituição,
DECRETA:

Art. 1o Fica convocada a 1a Conferência Nacional sobre Transparência e Participação Social - Consocial, a ser realizada no período de 13 a 15 de outubro de 2011, na cidade de Brasília, Distrito Federal, com o tema: “A sociedade no acompanhamento da gestão pública”.
Parágrafo único. A 1a Consocial terá como objetivos:
I - debater e propor ações de promoção da participação da sociedade civil na gestão pública e de fortalecimento da interação entre sociedade e governo;
II - promover, incentivar e divulgar o debate e o desenvolvimento de novas idéias e conceitos sobre a participação social no acompanhamento da gestão pública;
III - estimular os órgãos públicos a implementar mecanismos de transparência e acesso da sociedade à informação pública;
IV - debater e propor mecanismos de sensibilização e mobilização da sociedade em prol da participação e acompanhamento da gestão pública;
V - discutir e propor ações de capacitação e qualificação da sociedade para o acompanhamento da gestão pública, que utilizem inclusive ferramentas e tecnologias de informação; e
VI - desenvolver e fortalecer redes de interação dos diversos atores da sociedade para o acompanhamento da gestão pública.

Art. 2o A realização da 1a Consocial será precedida de conferências municipais, regionais, estaduais e distrital.

Art. 3o A 1a Consocial será presidida pelo Ministro de Estado Chefe da Controladoria-Geral da União ou, em sua ausência, por seu Secretário-Executivo.
Art. 4o A coordenação da 1a Consocial será de responsabilidade do Ministro de Estado Chefe da Controladoria-Geral da União, com a colaboração direta dos Ministros de Estado Chefes da Secretaria-Geral e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Art 5o O regimento interno da 1a Consocial será elaborado por comissão a ser constituída pelo Ministro de Estado Chefe da Controladoria-Geral da União, e disporá sobre:
I - a organização e o funcionamento da 1a Consocial e das conferências municipais, regionais, estaduais e distrital, que a precederão; e
II - o processo democrático de escolha de seus delegados, representantes da sociedade civil e do poder público.
Parágrafo único. O regimento interno a que se refere o caput será aprovado pelo Ministro de Estado Chefe da Controladoria-Geral da União.

Art. 6o As despesas com a organização e realização da 1a Consocial correrão por conta dos recursos orçamentários anualmente consignados à Controladoria-Geral da União.

Art. 7o Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 8 de dezembro de 2010; 189o da Independência e 122o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA 
Luiz Soares Dulci
Jorge Hage Sobrinho

sexta-feira, 16 de abril de 2010

SIM, NÓS PODEMOS... MENOS

Uma parte importante do debate sobre governança está justamente em aprofundar ainda mais os mecanismos de controle social, como é o caso das ações do TCU. Enquanto o governo considera o tribunal como um intrometido, nós consideramos que ainda há muito por se fazer.

A suspensão do repasse de verbas é importante medida cautelar, pois estamos falando de recursos públicos. Parece que há certo trauma nestas questões de garantias. São garantias para a sociedade e não para os agentes públicos e fornecedores de serviços ou produtos.

De forma bastante coerente com a linha de criar a agenda do próximo governo a intenção é clara e visa “facilitar” estas coisas eleitoreiras tipo PAC. Apenas resta saber se o problema do próximo governo é este. O da sociedade certamente não é.

Demetrio Carneiro

De novo, menos poder ao TCU


Governo envia ao Congresso texto da LDO, que dificulta a paralisação de obras irregulares

Depois do embate com o Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a suspensão de contratos de quatro obras da Petrobras, na votação do Orçamento da União de 2010, o governo decidiu mudar as regras, para dificultar a paralisação de projetos com irregularidades.

Pela proposta, "a paralisação de obras deverá ser adotada somente depois de esgotadas as medidas administrativas cabíveis". Hoje, as irregularidades são identificadas pelo TCU e encaminhadas ao Congresso, para que seja providenciada a suspensão do repasse de recursos.

O governo pretende que, antes da paralisação, sejam levados em consideração os eventuais aspectos sociais, econômicos e ambientais decorrentes do atraso na execução da obra, além dos riscos à população local e da depreciação (estrago) da obra.

A ideia, na prática, é evitar, ao máximo, a suspensão de obras consideradas fundamentais pelo governo.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A OPOSIÇÃO PERDEU O DISCURSO DA ÉTICA?



O recente escândalo envolvendo os democratas e a decisão da justiça de abrir processo contra dirigente do PSDB parecem estar sinalizando que a oposição perdeu o discurso da ética.
Não podemos mais falar da situação, pois agregamos as mesmas práticas.
Seria, então, a hora de assumir o discurso de Lula no qual todos os gatos são pardos. Algum tipo de concordância de que não se faz política sem se quebrar os ovos? Estes ovos?

Não acho.
Olhando para a gestão pública a luta pela ética não é apenas uma coisa abstrata, conceitual, moral. Tem uma razão muito objetiva no como a corrupção se reflete na carga tributária e por via dela chega ao bolso dos contribuintes.
E não se trata apenas do custo direto, resultado da aplicação no preço do bem ou serviço do que se paga aos corrompidos ou do que se gasta em estadias, viagens, presentes, festas e sexo para as atividades de lobby.
Existe um outro custo, nem sempre tão fácil de visualizar: A empresa que compra seu direito ao serviço ou à venda do produto realiza seu lucro não pela via da eficiência, mas sim pela negociação. Ou seja, não é necessário ou obrigatório, que o serviço, mais que o produto, seja eficiente. A compra pressupõe a falta de controle.
Enfim, a corrupção gera uma dupla perda. Perde-se pelo valor agregado, mas também perde-se pela ineficiência embutida no processo.

Muitos defendem que gastamos relativamente pouco, ainda, com o combate à desigualdade. Sabemos todos que nossa carga tributária é extremamente alta. Em quanto será que ela cairia se a luta contra a corrupção fôsse, ela própria, mais eficiente?

Assumindo que a famosa desculpa do “caixa dois” de campanha oculta é a formação de riqueza pessoal de indivíduos, simples apropriação privada de recursos públicos, na realidade a corrupção é mais um mecanismo de concentração de renda. Desta vez patrocinado pelo próprio Estado.
Tem outra perversão curiosa. Boa parte do caixa dois de campanha destina-se à contratação das miríades de cabos eleitorais em comunidades mais pobres. A contrapartida do ingresso de amplos segmentos na democracia política via voto foi resolvida pelo populismo pela contratação de batalhões de cabos eleitorais profissionais que atuam nos meses anteriores às eleições. Os corruptos e corrompidos conhecem bem a teoria das redes sociais. Os cabos eleitorais recebem algo perto de um salário. Como mais da metade da renda de pessoas mais pobres é apropriada pela tributação o recurso desviado volta em sua maior parte para o Estado...para ser novamente desviado.

A luta contra a corrupção não acabou. Uma Reforma Política em profundidade deveria ser nossa bandeira principal, mas talvez esteja na hora de olhar para outro lado, também. Sair do discurso meramente moral e moralista, aprofundar a ação militante de cidadania. Entidades como a Transparência Brasil, as chamadas Entidades Privadas de Controle Social, devem ser multiplicadas. Esta é a luta. Esta sempre foi a luta.

No fundo nem mesmo se trata de ser oposição ou situação, mas de ser cidadão numa questão que deveria transcender a estrutura dos partidos.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

AGORA É DILMA QUEM DÁ AULA DE EFICIÊNCIA AO TCU


Dilma Roussef decidiu, 29, Globo, ensinar ao Tribunal de Contas da União- TCU como se faz o controle social das obras do Programa- eleitoral - de Aceleração de Cascatas, mais conhecido como PAC: Não se faz.
Pela leitura da superministra o TCU deveria ter em vista que obra parada é mais cara que obra em andamento. Portanto o tribunal deveria ignorar todos os indícios de irregularidades, abdicar de suas funções institucionais e deixar a vida seguir. Talvez o próximo passo seja, se eleita presidente, extinguir essa coisa incômoda, anacrônica e ineficiente. Deve estar imaginando por qual motivo o tribunal não se deu conta ainda que pessoas como as que estão nesse governo estão além dos temas comuns aos outros mortais, como a corrupção ou a ineficiência na gestão. O passo lógico seguinte seria acabar com o IBAMA, outra instituição chata, que só faz atrapalhar as obras e o progresso do país. Depois, quem sabe o Congresso Nacional, substituído pelo projeto de democracia direta através dos plebiscitos, o Terceiro, o Quarto Mandato etc...
Demetrio Carneiro