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terça-feira, 27 de março de 2012

O QUE O PSEUDO-NACIONALISMO DO DEBATE SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO OCULTA

O sangue nacionalista ferve.

Desindustrialização é a palavra mágica que a todos une: A extremíssima esquerda até à direita mais fascista. Todos unidos entorno do dogma do Estado-Nação nacional-desenvolvimentista.

Estão destruindo a "nossa" indústria. Nossa aqui é um genérico bem adequado à nossa variedade de capitalismo. Vai desde o micro-empresário desassistido e hiper-explorado pelo amigável sistema bancário "brasileiro", e que vive custos transacionais absurdos, até as pontas da cadeia produtiva mundial cujo núcleo lucrativo e dinâmico está nos países do Centro do Sistema-Mundo. Aliás a indústria das cadeias produtivas "brasileira" luta contra suas concorrentes "estrangeiras" com intenções de aqui se instalar.

O texto abaixo, replicado pelo Instituto Millenium, ajuda a desvendar os mistérios desse tipicamente brasileiro nacionalismo de oportunidades.

Demetrio Carneiro


Desindustrialização ou lobby?

27 de março de 2012
Autor: João Luiz Mauad

Alguém já disse: torture os números e eles confessarão qualquer coisa. De fato, as estatísticas são, hoje em dia, as grandes aliadas dos mistificadores, que as utilizam de forma indiscriminada para dar aparência científica às falácias e mentiras em prol de suas causas. Você pode desenvolver rígida argumentação lógica a respeito de um assunto sem convencer muita gente, mas basta acrescentar alguns números, tabelas e gráficos para respaldá-la e as pessoas passam a olhar os seus argumentos com outros olhos.

Um exemplo gritante disso apareceu na “Folha de S.Paulo”, de 9 de março. Nesse dia, uma matéria naquele diário informava – sob o título “Participação da indústria no PIB recua aos anos JK” – que “a participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro recuou aos níveis de 1956, quando a indústria respondeu por 13,8% do PIB. De lá para cá, a indústria se diversificou, mas seu peso relativo diminuiu. O auge da contribuição da indústria para a geração de riquezas no país ocorreu em 1985: 27,2% do PIB. Desde então, tem caído.”

Malgrado o título bombástico, até aqui a matéria é meramente informativa e apenas noticia um fato que as estatísticas a respeito desvendam. Seu uso oportunista só fica claro a partir do ponto em que se começa a apontar eventuais causas para um suposto problema. Assim, depois da introdução, entra em cena o senhor Paulo Skaf, que vem a ser o presidente da Fiesp. Eis o que diz o valente: “Temos energia cara, spreads bancários dos maiores do mundo, câmbio valorizado, custo tributário enorme e uma importação maciça. A queda da indústria no PIB é a prova do processo de desindustrialização.”

Exceto pelo exagero de afirmar que há no Brasil – um dos países mais protecionistas do mundo – volumes de importação maciços, quase tudo o que ele diz, fora a conclusão, é a mais pura verdade. O problema é que temos ali várias verdades sendo ditas com o propósito de retirar delas conclusões absolutamente falsas.

Primeiro, a maioria dos entraves listados por Skaf, além de outros tantos integrantes daquilo que se convencionou chamar de Custo Brasil, não prejudicam somente a indústria, mas todos os setores da economia. Segundo, se a queda da participação relativa do setor manufatureiro no PIB é prova da famigerada desindustrialização, então o que temos hoje é uma desindustrialização mundial.

De acordo com dados compilados pelas Nações Unidas, a queda da participação do setor de manufaturas no PIB é um fenômeno global, a exemplo do que já ocorrera anteriormente com a agricultura. Assim, de 1970 a 2010 esta queda foi de 24,5% para 13,5% no Brasil, de 22% para 13% nos EUA, de 19% para 10,5% no Canadá, de 31,5% para 18,7% na Alemanha e de 27% para 16% no mundo inteiro. A causa dessa queda generalizada não está, evidentemente, numa suposta desindustrialização, mas no aumento da participação de outros setores, antes irrisórios, como serviços em geral, comércio, finanças, saúde, educação, ciência e tecnologia etc. A verdade é que a produção total da indústria no mundo, se não está no seu pico, está muito perto dele. Já a produção industrial brasileira é certamente muito maior hoje, em termos absolutos, do que era em 1985, ano em que, segundo a matéria, o setor manufatureiro alcançou a sua maior participação relativa no PIB.

Desindustrialização e Doença Holandesa são duas expressões caras aos lobbistas da indústria local. 
Uma rápida pesquisa com essas palavras no Google mostra diversos estudos e trabalhos “científicos” a respeito, repletos de gráficos e tabelas, a maioria deles patrocinada por entidades como Fiesp, CNI e congêneres. Esse é também um importante nicho do pensamento nacionalista e intervencionista, utilizado amiúde para defender interesses, vantagens e privilégios diversos junto ao governo. Os pleitos desse pessoal não costumam variar muito. Seus alvos prioritários são as ditas políticas industriais (geralmente baseadas em subsídios e isenções fiscais) e protecionistas, leia-se: controles cambiais e barreiras alfandegárias/tarifárias.
O argumento aparente é quase sempre a criação e manutenção de empregos domésticos, mas a real intenção é a transferência de renda de consumidores para produtores ineficientes. Para que a estratégia seja 100% eficaz, a manipulação da opinião pública e o consequente respaldo político são essenciais, é claro.
Fonte: O Globo, 26/03/2012

quarta-feira, 1 de junho de 2011

EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS DA DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Por coincidência enquanto postava sobre a desindustrialização e cobrava evidências materiais recebi o mailling do César Maia:
PRODUÇÃO INDUSTRIAL NO PRIMEIRO QUADRIMESTRE CRESCE PÍFIOS 1,6 %!



O IBGE divulgou a produção industrial de abril de 2011. Em relação a março de 2011, a queda foi de (-2,1%). Esse número é agravado pelo fato de março ter sido um mês atípico com carnaval. Comparando abril de 2011 com abril de 2010 a queda foi de (-1,3%). No acumulado de 2011, ou seja, janeiro-abril comparado com 2010, o crescimento foi pífio: 1,6%. Lembre-se que em outubro do ano passado o crescimento industrial em 12 meses era de 11,8%, em março de 2011, já havia caído para 6,9% e em abril para 5,4%, em 12 meses. O setor com maior queda foi o de bens duráveis que no mês caiu (-10,1%) e (-5,6%) na comparação abril de 2011-abril de 2010. O fator mais destacado é a taxa de câmbio que está desintegrando a indústria brasileira.



Como se vê lá no finalzinho ele desanca com a questão cambial. Obviamente relacionando o baixo crescimento industrial no Q1 com o câmbio apreciado.

Algumas ponderações:

1 – O produto industrial perde valor relativo em escala planetária. Não é por acaso que os termos de troca brasileiros se inverteram depois de 500 anos;

2 – O problema brasileiro não tem nada a haver com o dólar e muito a haver com a concorrência chinesa que afeta a produção industrial na concorrência interna, solúvel sem a necessidade de intervenção cambial. Aliás “resolvida” com a discussão sobre a reorientação dos investimentos chineses no Brasil. Mesmo país que é fortíssimo concorrente brasileiro no mercado externo. Sendo a China nosso maior “cliente” como é que os ilustres colegas pretendem resolver o assunto?;

3- Já num prazo nem tão longo há uma possibilidade de apreciação do dólar por conta da retomada da economia mricano;

4 – Seja como for também há uma forte tendência de substituição do dólar por uma sesta de moedas que inclui o Real. Neste acaso vamos realmente “querer” um real fraco?;

5- Para encerrar não fica nada claro nos número apresentados por CM, até pelo tamanho da série e o período considerado, se estamos vendo uma soma resultante de questões colocadas acima mais um ajuste de estoques decorrente da mudança do eixo da política econômica de forte estímulo governamental para uma posição mais neutra. Ainda falta a comprovação dessa correlação entre câmbio e crescimento industrial.

Enquanto isso continuo achando que há debates mais importantes como todas as nossas deficiências na área de financiamento de longo prazo, problemas de infraestrutura etc. Lembro um estudo da CNI sobre o custo-Brasil em que afirmam lá pelas tantas que todos os itens desse custos, uma vez vencido representariam uma queda de 15 a 30% no preço final dos produtos. Supondo que o estado não resolva avançar sobre esse ganho, será que esse debate não seria bem mais importante. Ao menos agora?

Demetrio Carneiro

A DESINDUSTRIALIZAÇÃO É UM FATO OU UMA PREMISSA IDEOLÓGICA?

Nossos nacional-desenvolvimentistas são ardorosos defensores do controle da capitais. Da mesma forma são defensores da proteção da industrial nacional. Semana passada quando na reunião do Rio do representante oficial do FMI se posicionou de forma “compreensiva” quanto ao controle cambial devem ter isso ao orgasmo, lá no privado é claro, pois o FMI representa o mal e o mal só pensa e faz coisas más. No dia seguinte quando o titio Mantega disse que o governo não pensa em adotar o controle cambial teve ter sido um banho de água fria.

De qualquer forma a questão é saber se a desendustrialização é um argumento para justificar o avanço do Estado em direção a mais poder e mais controle, agora na área cambial, o que na realidade é uma premissa ideológica, ou se ela existe de fato. Desse ponto de vista nossos ilustres acadêmicos ficam devendo fatos, já que o firme e consistente crescimento do produto industrial ao longo desses últimos anos, no mesmo período em que os termos de troca passaram de desfavoráveis e favoráveis, mostra justamente o contrário.

Então senhores...menos cascata e mais dados...

Quem sabe ao contrário de desendustrialização não estamos lidando é com necessidades de reformulação do projeto industrial clássico fundado no “sonho americano” do consumo sem limites e do carro próprio? Claro que nossos eminentes nacional-desenvolvimentistas não se imaginam como imitadores do modelo americano. Pelo contrário, são super originais.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 30 de março de 2011

O QUE A TAXAÇÃO RESOLVE OU NÃO

Em entrevista dada ao Financial Times  ontem, 29, o Tony coloca pontos a serem considerados:

"O mercado de câmbio não tem dado muita atenção a essas medidas. O que impulsiona o real são, essencialmente, os fundamentos brasileiros e preços das commodities.", nas palavras dele.
É um processo de aprendizado: Adotar medidas e ver o que funciona.

Na base da questão cambial a capacidade concorrencial da indústria brasileira.
Quero, então, agregar outro ponto:
Ontem a mídia registrava uma mudança de posição de Dilma, portanto do governo brasileiro, quanto à China. Aparentemente a inicialmente firme defesa feita por Lula de que naquele país haveria um “regime de mercado” definitivamente será posta em cheque. O contra-ataque chinês não tardou e tocou num ponto sensível de nossa política externa ligado à visão geoestratégica brasileira.
Para além de todas essas ações experimentais na política cambial, que poderão ser mais paliativas do que eficientes, parece que a relação China/Brasil receberá uma outra abordagem com o governo brasileiro retirando a luva de pelica. Na base justamente a fortíssima concorrência dos manufaturados chineses dentro do próprio mercado brasileiro. Se com relação à concorrência no exterior obviamente não há muito para fazer.
Em última análise a China protege seus pintinhos. Cabe ao Brasil sair da neutralidade e tentar fazer com que pelo menos internamente os reflexos não sejam tão potentes. Ou seja, quem tem que cuidar de seus pintinhos é o Brasil.
Neste sentido tirar da China a qualidade de regime de mercado abre a porta para ações mais efetivas.
Não por acaso a Polícia Federal tem produzidos ações pesadas contra a máfia de importação irregular de manufaturados. Poucos dias atrás fizeram quase que um showmício num shopping paulista, aliás de propriedade de um conhecidíssimo contrabandista chinês.

Enfim o futuro mostrará os limites desta ação direta. No fundo também não deixa de haver um experimentalismo e algum grau de incerteza na medida em que um recado mais forte poderá retrair os preciosos investimentos diretos estrangeiros, dos quais uma parte bem significativa é de origem chinesa. O que, alias, recoloca outra nova questão quanto à uma estratégia de reorientação de IDEs do setor de commodidities para o de manufaturados, por exemplo. Sendo o primeiro o foco principal dos investimentos diretos chineses.

Possam ou não ser saudadas estas medidas protecionistas voltadas para a questão cambial ou para a relação comercial Brasil/China são pontuais quando em realidade deveriam ser medidas inseridas numa lógica de desenvolvimento economicamente sustentável que só se realizará com efetivas ações quanto ao custo-Brasil ou aos empréstimos de longo prazo fora da estrita órbita do BNDES ou à inexistente cultura interna de poupança, apenas para apontar alguns temas.

Não há nada a comemorar. Falta do governo Dilma sair do tradicional imediatismo das políticas de defesa da indústria brasileira. Olhando para a história não é difícil perceber ao lado do dado positivo um enorme passivo negativo nos custos do estímulo à permanência da baixa capacidade competitiva. Precisamos não de discursos, mas de políticas de longo prazo que permitam à nossa indústria uma real capacidade de competição interna e externa.
Como diz o ditado: De boa vontade o inferno está lotado.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 4 de março de 2011

GOVERNO NÃO CONSEGUE DETER APRECIAÇÃO DO REAL: O INFERNO NO PARAÍSO

Com a câmbio fechando hoje a R$1,64/U$ começam a surgir sinalizações de novas medidas.
A apreciação tanto se dá pela desvalorização do dólar no plano geral, como pelo contínuo e alto ingresso de recursos do exterior, motivo pelo qual as sucessivas compras de divisas não são capazes de conter a apreciação, apesar de um custo extremamente alto para o contribuinte.
Usando outras medidas mais clássicas como taxação do IOF ou controle de capitais vai para a saída de cortar o fluxo de investimentos, o que deixa de resolver os ambiciosas planos governamentais envolvendo Copa, Olimpíadas e Pré-Sal.

A inexistência de políticas substanciais voltadas para a geração de condições de competitividade, todas de longo prazo e a geração única de políticas de curto prazo caracterizam a gestão pontual de vulnerabilidades que jamais chega às soluções sustentáveis e criam um contexto onde o inferno pode ser no paraíso. Num momento onde poderíamos e deveríamos estar aproveitamento ao máximo a boa maré dos recursos de investimentos estrangeiros acabamos lidando com um autentico pau-de-dois-bicos.

Demetrio Carneiro