quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O BRASIL, A COPA E AS OLIMPÍADAS



Evidentemente o Goldman Sachs não é um parceiro neutro do governo brasileiro. Este já é um “comercial” para captura de recursos, mas nem por isto deixa de ser um fato.


Esta pequena nota abaixo, em inglês, foi retirada do Blog The Pragmatic Capitalist. Com um título sugestivo: Ignore o Brasil por sua própria conta, termina com um comentário do blogista:
“É muito difícil encontrar falhas neste argumento. Se eu fosse um investidor de longo prazo provavelmente teria o Brasil no topo da minha lista de investimentos .”


Basicamente a matéria reporta duas coisas que nos interessam diretamente:
O Brasil está no núcleo da forte expansão da demanda por produtos primários (commodities) e haverá uma massiva injeção de recursos governamentais para a Copa e as Olimpíadas de Verão;
Os fundamentos brasileiros são sólidos e é um dos mercados de menor risco em todo o planeta.


Dito assim é a constatação do óbvio.
A questão é como o futuro governo, que sairá das urnas em 2010, pretenderá balancear a evidente necessidade de recursos estatais para investimento em infraestrutura adicional com responsabilidade fiscal e a inevitável apreciação do real.
Apenas esta resposta já nos informará o tamanho do problema ou o tamanho da solução.
O Tony Volpon na entrevista ao Bloomberg fala em R$1,60/USD.


Demetrio Carneiro


“Goldman Sachs believes Brazil is in the long-term sweet spot in terms of economic competitiveness. In addition to a young and rapidly expanding population, Brazil is at the heart of the commodity boom and is likely to see massive injections of government stimulus as they prepare for the 2014 World Cup and the 2016 Summer Olympics in Rio (see here for more on the implications of Brazil’s Olympic win). In addition to these strong fundamental growth drivers, Goldman also says valuations and risks in Brazil remain relatively low in comparison to other markets…”

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A MP MULTIFUNCIONAL


Em 15 de dezembro último o executivo lançou mais uma MP. A de número 472, a 19ª das 26 editadas em 2009.
Uma MP interessante, pois acumula mil e uma utilidades atualizando urgências de fim de ano.


Numa das utilidades altera parte da legislação do imposto de renda no sentido de agravar as penalidades ao contribuinte que se beneficiar de descontos mas não tiver meios de comprovar o pagamento à médico, escola etc. que tenha feito. Nada mais justo. O Estado brasileiro está se especializando em olhar de onde vem a grana. Pena que não dê tanta atenção quanto ao seu destino. Parece que a lógica de gastar é estruturada no gasto e não na eficiência do que se gasta. O PAC e suas desventuras, quando há capacidade técnica para o gasto, mostra maios ou menos isto.


O tema da punição do contribuinte desatento ou não foi o que mais chamou a atenção da mídia. Contudo....


Seguindo em frente a MP distribui bondades para a indústria aeronáutica:
“Fica instituído o Regime Especial de Incentivos Tributários para a Indústria Aeronáutica Brasileira - RETAERO, nos termos desta Medida Provisória”.


E para a indústria de informática:
“Fica criado o Programa Um Computador por Aluno - PROUCA e instituído o Regime Especial para Aquisição de Computadores para uso Educacional - RECOMPE, nos termos e condições estabelecidos nos arts. 7o a 14 desta Medida Provisória.”
E todo um elenco de isenções tributárias.
Este programa tem um corte extremamente ambicioso:
“O PROUCA tem o objetivo de promover a inclusão digital nas escolas das redes públicas de ensino federal, estadual, distrital ou municipal.”
Em 2009 eram cerca de 53 milhões de jovens em 198 mil estabelecimentos. Deste universo apenas cerca de 8 milhões estavam na rede privada. Segundo dados do INEP. Estamos falando, então, de 41 milhões de computadores? Em 2008, segundo a Computer Industry, eram 33 milhões de máquinas e estávamos em décimo lugar. Com 41 milhões a mais chegaremos perto da China – 98 milhões em 2008 – que é o segundo país em número de máquinas. Resta torcer para este programa não ficar nas mãos da Dilma e emPACar.


Bom considerar que, hoje, outra MP expande as bondades para empresas envolvidas na Copa de 2014. Pelo visto Lula legisla sobre o mandato de outro presidente e já prepara seu retorno triunfal nas eleições daquele ano.


Interessante comentar que, lá trás, muitos economistas, inclusive o ministro Mantega, duvidavam deste instrumento que o governo passa a usar com tanta intensidade e intimidade. Política pró-cíclica. Não é isto?


Outro assunto que o governo está ficando íntimo, além de gestar o que tem e o que não tem, é dever.


No caso da Marinha Mercante:
“Fica a União autorizada a conceder crédito aos agentes financeiros do Fundo da Marinha Mercante - FMM, no montante de até R$ 15.000.000.000,00 (quinze bilhões de reais) para viabilizar o financiamento de projetos aprovados pelo Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante - CDFMM.“
“Para a cobertura do crédito de que trata o caput, a União poderá emitir, sob a forma de colocação direta, em favor do agente financeiro do FMM, títulos da Dívida Pública Mobiliária Federal, cujas características serão definidas pelo Ministro de Estado da Fazenda.”


No caso do BNDES:
“Fica a União autorizada a conceder crédito ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES, no montante de até R$ 180.000.000.000,00 (cento e oitenta bilhões de reais), em condições financeiras e contratuais a serem definidas pelo Ministro de Estado da Fazenda."
Na realidade a lei executiva 11.498/09, aprovada pelo Senado Federal, em julho passado já falava em R$ 100 bilhões e que estes recursos seriam realizados via a venda de títulos da dívida pública ou do superávit do Tesouro Nacional apurado em 2008. No caso desta MP e seis meses depois, são agregados mais R$80 bilhões.


Juntando o recurso para o FMM com o recurso para o BNDES estamos falando na contratação de uma dívida de perto de R$100 bilhões de reais. Isto é que é intimidade. E bom não esquecer aquele princípio que fala que a dívida pública de hoje é a arrecadação tributária de amanhã.


A MP generosamente ainda trata de mais três ou quatro assuntos diferentes, mas vamos poupar o leitor, pois o texto já está bem longo. É um texto interessante, pois num pequeno espaço sintetiza todo um conceito de gestão pública e política econõmica.


Demetrio Carneiro

FUNDO SOBERANO: ÚLTIMA TRINCHEIRA DA INDÚSTRIA NACIONAL?


Nosso Fundo de Riqueza Soberana, na intimidade Fundo Soberano, já cumpriu a finalidade de situar o governo brasileiro como portador de uma das maiores reservas do planeta e, com a Rússia, Índia e China, somos donos de cerca de 80% das reservas mundiais.
Agora, feita a mídia, o FS terá outra finalidade.
Já de algum tempo a questão cambial vem assustando economistas ligados à defesa da volta ao protecionismo da indústria nacional. Muita coisa já se disse e muita teoria já foi montada para justificar quando, como e por qual motivo a indústria local deve ser “defendida”, nos velhos moldes dos anos 70.
Mantega saiu na frente e resolver, seguindo os bons conselhos destes economistas, taxar o ingresso de capitais de curto prazo. Não rolou.
Hora de partir para o plano B e ai entra o FS. Vai rolar? Nossos colegas terão seus sonhos concretizados e o real apreciará, facilitando a vida de nossos amigos industriais? Poderemos finalmente esquecer este papo cansativo de concorrência no setor privado e volta à boa época das empresas nacionais à sombra protetora do Estado?
Abaixo uma matéria publicada pelo Bloomberg, no dia de ontem, 4, onde são feitas algumas considerações sobre o FS como plano B, em especial do Tony Volpon.
Demetrio Carneiro




Brasil usa Fundo Soberano para depreciar o Real


Por Tal Barak Harif


4 de janeiro (Bloomberg) – A decisão brasileira de usar o Fundo Soberano para comprar dólares no mercado de câmbio indica que irá utilizar este veículo de investimento para tentar segurar a atual onda de apreciação do Real, segundo a Nomura Holding Inc.


O funcionário do Tesouro brasileiro Cleber Oliveira comentou semana passada que o fundo, com um ano de existência, poderia comprar dólares no mercado como outro interveniente adicionalmente ao Banco Central.


A medida deverá falhar em deter a apreciação do Real na medida em que os investimentos continuem fluindo para os mercados financeiros do país, disse Tony Volpon, Estrategista-chefe do Nomura para a América Latina.


“É apenas mais uma ferramenta para enfraquecer a moeda e ajudar os exportadores”, disse Tony em uma entrevista por telefone de Nova York, no dia 31 de dezembro passado. “Não terão êxito”.


O objetivo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é enfrequcer o Real para evitar uma bolha, com relação ao que o Goldman Sachs Group Inc. chama de a moeda mais “supervalorizada” do mundo em um relatório de novembro passado.


O Real apreciou 33 por cento no ano passado, o maior ganho anual desde sua criação em 1993 e mais que qualquer outra grande moeda, dado a maior economia da América Latina ter sido uma das primeira do mundo a sair da recessão global.


Em 19 de outubro último, para aliviar a pressão e buscar manter a margem de lucro dos exportadores, o Ministro da Fazenda Guido Mantega impôs uma taxa de 2 por cento na compra por estrangeiros de ações e títulos de renda fixa. O Real caiu 0,6 por cento desde então. Em novembro Mantega disse que o governo “não permitirá” que a taxa de câmbio prejudique a economia.
O Real valorizou hoje 0,9 por cento. Indo de 1,7445 por dólar para 1,7284, às 9:25, em Nova York, dia 31 de dezembro.


Reservas internacionais


Telefonemas dirigidos ao porta-voz do Ministério da Fazenda, na busca de comentários sobre o fundo de riqueza soberana não foram retornados.


O Brasil criou o fundo, que teve 16,3 bilhões de reais a partir de
24 de dezembro, como uma reserva para fazer o pagamento da dívida em caso
receita insuficiente do governo. O fundo pode também ser usado para
investir em empresas brasileiras no exterior. Ao contrário de outros
fundos soberanos, o do Brasil não é financiado com excedentes orçamentários
já que o país apresenta um elevado déficit.


As reservas externas do país subiram de 32,2 bilhões dólares, ano passado, para US $ 239 bilhões comprados pelo Banco Central.


As reservas alcançaram um recorde de 239,45 bilhões dólares em 2 de dezembro, muito acima dos 55 bilhões dólares de seis anos antes, segundo dados do banco central .


Uma montanha de dinheiro


A “montanha de dinheiro" que entra no país pode levar água abaixo os
esforços do governo para conter a movimentação do real, disse o economista da Goldman Sachs Thomas Sloper, em novembro. Os economistas estimam
o real vai mudar pouco em 2010, fechando o ano em 1,75 por dólar, de acordo com a mediana de 19 previsões numa Pesquisa da Bloomberg. A moeda apreciou 103 por cento desde que Lula assumiu o cargo em janeiro de 2003, impulsionado em parte por um aumento no preço das exportações do país das commodities.


Volpon prevê que ainda apreciará 8 por cento, para 1,60 no final do próximo ano
pois há um crescente déficit no orçamento e no Conta Corrente brasileiro e isto significa atrair o investimento estrangeiro necessário para financiá-los.
O déficit orçamentário aumentou de 1,5 por cento para o equivalente a 4,1 por cento do Produto Interno Bruto, nos 12 meses até novembro. O déficit anual em conta corrente aumentou de U$ 18,9 bilhões em outubro para US $ 21,1 bilhões em novembro e vai subir para US $ 40 bilhões no próximo ano, de acordo com o Banco Central.
Os projetos de desenvolvimento do governo para preparar a Copa do Mundo de 2014 e 2016 Jogos Olímpicos também exigirão financiamento internacional, disse Volpon.
"Eventualmente mais fluxos estrangeiros virão ao Brasil para ajudar financiar esses projetos”, disse ele. Esses "por sua vez, fortalecerão o real ".

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MERCADO INTERNO E DESENVOLVIMENTO: O FUTURO E O PASSADO


Falar de mercado interno e desenvolvimento não passa por soluções fáceis, mesmo que existam as oportunistas, no bom e no mal sentido, como as que o atual governo vem aplicando.


O investimento estrangeiro neste momento é fundamental para complementar a fraquíssima poupança interna, mas pensar um modelo de longo prazo apenas com base na poupança externa é extremamente arriscado. Excesso de liquidez da economia internacional à parte, o padrão de curva em W ainda continua assustando. A lenta retomada da economia mundial está levando muita gente a imaginar que a retirada dos estímulos pró-cíclicos possam levar a uma nova queda. Não é outro o sentido do comentário de Paul Krugman, “That 1937 feeling” onde lembra a precipitação do governo americano em considerar “encerrada” a crise, no NYT, no dia 3 último.
Certo ou errado, talvez mais errado que certo o “sentimento” de Krugman, o fato é que não há como olhar propositivamente a questão do desenvolvimento no Brasil sem que a poupança e o mercado, ambos internos, façam parte da equação, se pretendermos que sair das armadilhas do ciclo “commodities/capital externo” seja de fato um projeto nacional para quebrar uma escrita centenária.


Do lado da poupança interna os recentes debates sobre a taxação da poupança e o emprego dos recursos do FGTS – que pode ser visto como um fundo de poupança compulsório de todo trabalhador registrado legalmente – mostraram claramente que não uma clara linha de política pública voltada para o estímulo às famílias para a poupança.
A carta do IBRE- Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, de dezembro de 2009, com base em dados de um estudo do Banco Mundial, realizado em 150 países, entre 1965 e 1994, “What drives savings across the world”, comenta a questão da poupança interna. Depois de identificar correlações positiva entre poupança e crescimento econômico e entre poupança e desoneração tributária, comenta a queda na poupança interna entre 2004 e 2008. Inversa, portanto, à tendência mundial. A explicação seria uma outra correlação, esta entre trabalhadores na ativa e aposentados. Dentro desta lógica, nos países onde houvesse uma defasagem entre a renda obtida no trabalho e a renda obtida na aposentadoria, haveria um forte estímulo a que houvesse a prática de poupança, vista realmente ai como a garantia do futuro. O exemplo é a China. Contudo, no caso brasileiro as políticas públicas de garantia de igualdade ou mesmo rendas maiores, no caso do setor público, ou no caso do setor privado, onde 68% das pensões são equivalentes ao salário-mínimo e vêem acompanhando sua correção “faz com que o piso previ¬denciário do INSS englobe uma proporção crescente dos benefícios, engrossando, por¬tanto, a massa das aposentadorias e pensões que acompanham, ou mesmo superam, os aumentos dos trabalhadores ativos”. Haveria então um desestímulo formal à prática de poupança.
Isto indicaria, na leitura do Tony Volpon, por exemplo, a necessidade de retomada do debate sobre uma ampla reforma previdenciária que trouxesse para a cena um sistema não de previdência complementar como o proposto e jamais regulado para os funcionários públicos, mas de formação de fundos de pensão para o setor privado da economia, criando assim fontes “seguras” de formação de poupança interna, potentes o suficiente para intervir no financiamento do crescimento nacional. Claro que toda uma elite sindical “em defesa dos interesses dos trabalhadores” irá criticar a “privatização” da previdência pública etc...
Evidentemente há obstáculos políticos concretos como o que fazer para financiar as atuais pensões e benefícios ou como explicar que itens tipicamente de atenção social tipo a previdência rural, aposentadorias compulsórias sem a devida contribuição, estejam sangrando a regime previdenciário, ou seja onerando o sistema como um todo e, em particular os que realmente pagam por ele, os assalariados, ocultando as verdadeiras contradições desta proposta, mesmo que humanitária.
Ao desestímulo pode ser somada a visão de ampliação de mercado interno a partir da ótica do atual governo: Estímulo ao consumo com base na expansão de crédito direto ao consumidor.
Muitas coisas conspiram, então, para a formação de uma poupança interna trazendo para esta equação a poupança externa, se pensarmos em fontes para financiar o crescimento.


A lógica, inversa à poupança, de apelo ao consumo imediato, olhada ainda hoje como elemento anti-cíclico, tem funda vinculação com os instrumentos que alavancam este conceito de mercado interno: Garantias sociais mínimas, como o bolsa-família, que atinge hoje cerca de 25 milhões de brasileiros, correção do salário-mínimo com valores reais que praticamente dobraram seu valor nominal nos últimos anos.


Nossa questão está em estabelecer se este modelo de mercado interno, fundado basicamente no consumo de massa da maior classe social brasileira, a classe C, cuja faixa de renda domiciliar estava na casa dos R$1.100,00 em 2008 e representava um mercado potencial de R$410 bilhões, tem viabilidade no longo prazo. Os três princípios que lhe dão fundamento: renúncia à poupança, políticas de proteção social e aumento real do salário-mínimo são, digamos, eternizáveis ou estamos falando de uma política de construção de mercado interno que prefere fugir dos grandes problemas nacionais?


Este mercado que hoje existe gera crescimento econômico? Sim gera, mas a questão está no tipo de crescimento.
Por exemplo, a fusão ou aquisição das Casas Bahia pelo Pão de Açúcar mostra um pouco do processo atual. Mesmo com significativa baixa o custo de financiamento ao consumidor oferecido no Brasil ainda é um dos mais altos do mundo. Os grandes grupos comerciais apreenderam o caminho aberto durante o período de alta inflação. O jogo é vincular o valor da prestação à capacidade de pagamento do consumidor. Ele não vai olhar para o preço final. A atual estabilidade inflacionária, que incomoda tantos economistas, facilitou a vida do comércio varejista brasileiro. Em épocas de estabilidade prestações de dois ou três anos são viáveis e muito lucrativas às atuais taxas de juros. A taxa de inadimplência é justificativa dos altos custos e acaba sendo absorvida por eles. As grandes cadeias comerciais terceirizam, normalmente para suas próprias factorings, os financiamentos e as factorings terceirizam as cobranças duvidosas, normalmente mais uma vez para empresas do próprio grupo, para as empresas de cobrança. É legal e todos, que são um só, ganham. Na outra ponta a formação de grupos quase oligololistas acaba dando ao varejo um poder de fogo muito grande frente aos fornecedores nacionais ou não. Não que o jogo seja ruim, os coreanos, por exemplo, já se deram conta do potencial deste jogo e investem nele pesadamente.
Toda esta cadeia interligada existe graças ao altíssimo custo repassado ao consumidor. Será que toda esta estrutura sobreviveria a uma real abertura da economia brasileira?


Enfim, dá para imaginar um mercado interno firme e estável sem formação de emprego qualificado? Dá para imaginar emprego qualificado sem estrutura educacional sistemática e ampla, algo como o ensino em horário integral universal? Dá para imaginar indústrias que possam empregar pessoas qualificadas sem o desmonte desta arapuca que o é o custo-Brasil, sem haja um conjunto de reformas que dê estabilidade institucional? Da para imaginar tudo isto sem uma política pública de promoção de investimentos massivos em micro-inovações e áreas estratégicas voltadas para as novas demandas que se formam, decorrentes dos paradigmas da nova economia?


Todo um conjunto de questões está em aberto e deve ser “resolvido” propositivamente Ser apresentado à população de forma clara e direta.
O eleitor deve ser chamado a comparar não o passado com o passado – a tal eleição plebiscitária dos sonhos de Lula, mas o passado com o futuro. Este presente que vivemos é na verdade, ele sim, o passado que devemos criticar e superar se quisermos construir um outro futuro possível.


Demetrio Carneiro

domingo, 3 de janeiro de 2010

Inflacao na Argentina e nossos keynesianos

Na materia abaixo do Estadao vemos o que esta acontecendo na Argentina. Eh bom pensar sobre isso porque muita das politicas aplicadas na Argentina sao defendidas por academicos membros do governo que adotam a suposta linha keynesiana (que na verdade tem pouco a ver com Keynes). De fato, convido o letior a ler o que esta escrito na pagina 301 do recente livro do Bresser-Pereira "Macroeconomia da Estagnacao".

Tony Volpon

Inflação 'real' argentina é a terceira maior do mundo

Índice teria oscilado entre 15% e 18% em 2009, atrás apenas da República Democrática do Congo e da Venezuela

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo

BUENOS AIRES - Estimativas de consultorias privadas indicam que a inflação da Argentina seria a terceira maior do mundo, atrás dos índices inflacionários dos dois primeiros colocados, a República Democrática do Congo e a Venezuela. Segundo o governo da presidente Cristina Kirchner, a inflação de 2009 não teria passado da faixa de 8%, já que até final de novembro acumulava apenas 6,7% nos primeiros onze meses do ano passado. Mas economistas independentes, associações empresariais, sindicatos e organizações de defesa dos consumidores indicam que a inflação "real" do país em 2009 teria oscilado entre 15% e 18%.

Desta forma, de acordo com os cálculos extraoficiais das consultorias, o país fica em terceiro posto no pódio de uma lista cuja liderança, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), é da inflação congolesa, de 31,2%, seguido da venezuelana, com 28%. Mariano Lamothe, economista da consultoria Abeceb, estima que a inflação de 2009 teria ficado entre 14% e 15%. A consultoria Joaquín Ledesma & Associados sustenta que a inflação "real" acumulada entre janeiro e novembro foi de 14,3%. A consultoria Ecolatina, fundada pelo ex-ministro da Economia do governo do ex-presidente Néstor Kirchner, Roberto Lavagna, considera que a inflação real anual em média entre 2005 e 2009 foi de 17,8%.

Problema crônico
A Ecolatina considera que a recuperação da atividade econômica em 2010 na Argentina "acelerará mais ainda inflação". Segundo a consultoria, "sem um plano oficial, será muito difícil conter a alta de preços". A Ecolatina sustenta que após vários anos de fortes altas, "a dinâmica inflacionária possui inércia própria, fato que a torna um problema crônico".

Para 2010, as estimativas do governo indicam que a inflação será de apenas 6,1%. Mas a Ecolatina calcula que será de 17%. O economista Carlos Melconián sustenta que estará entre 18% e 20%. O banco Crédit Suisse, em um recente relatório, indicou que a inflação "real" argentina em 2010 estará entre 12% e 14%. O Barclays Capital sustenta que a inflação no país neste ano estaria ao redor de 16,5%.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O BNDES, O PRESIDENTE E SEUS AMIGOS


O Brasil é sim o país do futuro...dos amigos do presidente. Isto que 2010 é que será “o ano do investimento”.
Demetrio Carneiro


BNDES vendeu ações a Eike Batista por valor menor que o de mercado
Em um ano em que teve fraco desempenho com ações, o BNDES conseguiu arrumar espaço para uma operação com Eike Batista que representou ganho de cerca de R$ 67 milhões para o empresário.
Em 28 de agosto, o BNDES sacou de sua carteira 41,6 milhões de ações da empresa de logística LLX para vendê-las ao empresário (fundador e controlador da companhia) e a um fundo de pensão canadense, também acionista da empresa.
A venda das ações foi concluída a preço cerca de 48% abaixo da média de mercado.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A DEFESA IDEOLÓGICA DO REAL FRACO



Véspera de eleição presidencial, indefinição de programas de governo e, portanto, de equipes que farão a gestão da política econômica.
Na tentativa de transformar em realidade a profecia: “2010 será um debate entre as subcorrentes keynesianas”, o nosso querido desenvolvimentismo nacional/keynesiano vai à luta.
Insistem na questão do controle cambial e partem do argumento de que o real apreciado gera um processo de desindustrialização no Brasil.


De fato, números recentes mostram, para o período posterior a 2006/2007, uma acentuada queda nas exportações líquidas com agregação tecnológica, ao passo que as mesmas exportações líquidas que agregam baixa tecnologia permanecem em alta constante. Agora, o problema é pontual e já se manifestou em outras épocas. Claro que o fato dos Investimentos Diretos Estrangeiros se concentrarem em commodities ou a concentração dos investimentos privados disponíveis no pré-sal são fatores que deveriam estar preocupando os atuais gestores e deverão preocupar os que se propuserem a sê-lo no futuro.
Claro que a estratégia chinesa tem sido manter a moeda nacional sob controle, numa permanente e historicamente estável desvalorização perante o dólar americano. Tivéssemos uma ditadura e nenhum respeito aos direitos trabalhistas, que completam o tripé chinês, quem sabe não seria interessante repetir a China? É bom acrescentar que reter a posse de boa parte dos papeis americanos dá aos chineses um fortíssimo estímulo a tomar muito cuidado com a situação do dólar americano.


Voltando ao início, também é claro, que estamos muito longe da dramática situação desenhada por nossos desenvolvimentistas nacional/keynesianos.
Evidentemente o debate sobre a desindustrialização enquanto possibilidade futura é interessante, mas vamos dar uma olhada a solução proposta.


Embora tudo isto dê a impressão de terem utilizado o método de sempre, a engenharia reversa, ou seja, partiram da proposta para buscar argumentos que a justificasse, a questão é que a proposta é basicamente desistir da política de câmbio flexível. Nada mais natural, já que vem do mesmo grupo que defende a irresponsabilidade fiscal, a inflação como estratégia de crescimento etc.


Tudo que o desenvolvimentismo nacional/keynesiano tem feito é recuperar as velhas fórmulas desenvolvimentistas já superadas historicamente, sem que se dêem conta que não apenas mudou o país, mas que o mundo, olhando para o futuro, é outro.
O que está por trás da proposta de controle cambial é o velho nacionalismo das décadas de 40, 50,60 e 70 que via no Estado a salvação da lavoura (salve o café!), perdão da indústria nacional.
O resultado e os custos para a nação deste protecionismo estão presentes em toda a nossa história econômica recente.


A visão atrasada do protecionismo encaixa perfeitamente num projeto ideológico que vê o Estado como único agente confiável para tocar o desenvolvimento. A sociedade é controlável via as bondades paternalistas e a iniciativa privada deve ser olhada com desconfiança, mas é muito boa para gerar os tributos que vão sustentar toda a rede tecno-burocrática, suas periferias e aliados.


É este projeto de poder que está tentando se firmar nos futuros programas de governo. É bom que se perceba que para eles tanto faz o lado, já que Dilma e Serra são “iguais”.
Para os segmentos industriais que desde sempre se beneficiaram da proteção e tutela estatais e buscaram nela a vantagem comparativa frente aos produtos do resto do mundo, controlar o câmbio é uma excelente forma de aumentar lucros que deveriam estar sendo empregados em investimentos que aumentassem a capacidade competitiva e, ai sim, gerando empregos qualificados e renda para as famílias. Para o Estado é a “boa” solução, pois cria aliados de primeira hora, sempre dispostos à generosa compreensão.
Demetrio Carneiro

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE REDES SOCIAIS



Augusto de Franco tem desenvolvido um importante trabalho no debate e compreensão da questão das redes sociais, depois de ter contribuido, evidentemente continua contribuindo, de forma significativa para a construção do que podemos chamar de pensamento atual da esquerda democrática brasileira. Temas como partido político, ação política, poder local foram desenvolvidos e maturados com sua inestimável contribuição.
Abaixo a íntegra de sua chamada para a participação na Conferência Internacional de Redes Sociais.
Demetrio Carneiro

PRECISAMOS DA SUA AJUDA AGORA

Já conseguimos o mais difícil: fechar a programação, confirmar os palestrantes internacionais e nacionais (veja programação abaixo), a infra-estrutura (incluindo tradução simultânea), a logística... enfim, quase tudo que dependia de financiamento. Agora precisamos de sua ajuda para divulgar a CIRS.

Não temos folhetos, cartazes, quase nenhum tipo de mídia (além deste Ning da E=R), nem mesmo assessoria de imprensa. Realizar, nestas condições, uma conferência internacional é uma aposta prá lá de corajosa. Até agora o número de pré-inscritos é insuficiente para ocupar os espaços disponíveis. Gente que vem de longe, como Pierre Lévy, Steven Johnson e Clay Shirky podem acabar em auditórios vazios, falando para poucas dezenas de pessoas. E agora?

Estamos contando com a colaboração dos conectados à Escola-de-Redes para divulgar o evento e conseguir inscrições.

Para informações sobre a inscrição: Aqui

PROGRAMAÇÃO DA CIRS - CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE REDES SOCIAIS

CIETEP, Curitiba, 11-13 março de 2010

Primeiro dia 11/03/10

08-11 | Minicurso 1: Introdução ao Netweaving
Augusto de Franco
Auditório I Unindus (60 pessoas)

13-15 | The power of organizing without organization
Clay Shirky
Auditório Principal (1.000 pessoas)

15-17 | Sistemas Sócio-Educativos: Comunidades de Aprendizagem em Rede (Arranjos Educativos Locais)
Augusto de Franco, José Pacheco, Projeto AEL SESI-SENAI, Instituto VIVO
Auditório Caio Amaral (252 pessoas)

17-19 | Simpósio da Escola-de-Redes (Primeira Parte)
Salão do Conselho (130 pessoas)


Segundo dia 12/03/10

08-11 | Minicurso 2 | Introdução à Análise de Redes Sociais
Clara Pelaez Alvarez
Auditório I Unindus (60 pessoas)

13-15 | Redes sociais e emergência
Steven Johnson
Auditório Principal (1.000 pessoas)

17-19 | Simpósio da Escola-de-Redes (Segunda Parte)
Salão do Conselho (130 pessoas)


Terceiro dia 13/03/10

13-15 | O futuro da investigação sobre redes sociais
Pierre Levy
Auditório Principal (1.000 pessoas)