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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

BRASIL: POLÍTICA INDUSTRIAL DE PROTEÇÃO, AOS OUTROS

      Tudo bem. Janelas de oportunidade que gerem emprego interno são importantes. Mesmo que signifique sermos receptores de cadeias produtivas alheias. Remetidas para cá por conta da vantagem de produzir aqui o que aqui se vende. Mesmo que se trate de revalorizar esse projeto sem futuro do carro individual, concentrando energias nele e relegando a segunda mão o transporte coletivo. Mesmo que acabemos no meio de uma briga entre tecnologias automotivas estabelecidas – americana, italiana, alemã, francesa e japonesa – e tecnologias automotivas emergentes – coreana, chinesa, hindu . Vamos proteger “nossa” indústria “regional”, isto é Brasil +Argentina. Enfim, o importante é gerar emprego. Agora. O futuro o futuro resolve.

      Nessas coisas de resolver o hoje, sem se preocupar com o amanhã o poderoso do dia, Mantega, é especialista. A queda de Palocci foi um ato de sorte? Então ficamos assim: Veículos com um mínimo de nacionalização, isto é: com fabricação das peças no Brasil ou na Argentina estão “protegidos” pelo governo contra veículos com menos que esse mínimo. Esses incômodos invasores serão taxados com +IPI e, provavelmente recorrerão à Organização Mundial do Comércio.

       Lula querendo vender nossas commodities para a China e assim obter parte do financiamento do nosso crescimento recente, deu garantias de lá haver um “regime de mercado” e patrocinou o ingresso dos chineses na OMC. Agora os chineses deverão usar a OMC para quebrar as barreiras protecionistas. Numa só relação o melhor, quando compra, e o pior dos mundos, quando nos vende. Nada que já não tenhamos vivido nos últimos 500 anos.

      Pois é, esse ai é o Brasil “Maior”, projeto, 100% midiático e para brasileiro ver, voltado para a nossa política industrial. Como se diz, acredita quem quiser e tem fé...Na dúvida sempre poderemos e rezar e torcer para a Dilma estar certa, embora ela demonstre diariamente que não é muito boa de previsões. O PAC que o diga.



Demetrio Carneiro

sexta-feira, 4 de março de 2011

GOVERNO NÃO CONSEGUE DETER APRECIAÇÃO DO REAL: O INFERNO NO PARAÍSO

Com a câmbio fechando hoje a R$1,64/U$ começam a surgir sinalizações de novas medidas.
A apreciação tanto se dá pela desvalorização do dólar no plano geral, como pelo contínuo e alto ingresso de recursos do exterior, motivo pelo qual as sucessivas compras de divisas não são capazes de conter a apreciação, apesar de um custo extremamente alto para o contribuinte.
Usando outras medidas mais clássicas como taxação do IOF ou controle de capitais vai para a saída de cortar o fluxo de investimentos, o que deixa de resolver os ambiciosas planos governamentais envolvendo Copa, Olimpíadas e Pré-Sal.

A inexistência de políticas substanciais voltadas para a geração de condições de competitividade, todas de longo prazo e a geração única de políticas de curto prazo caracterizam a gestão pontual de vulnerabilidades que jamais chega às soluções sustentáveis e criam um contexto onde o inferno pode ser no paraíso. Num momento onde poderíamos e deveríamos estar aproveitamento ao máximo a boa maré dos recursos de investimentos estrangeiros acabamos lidando com um autentico pau-de-dois-bicos.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

JAPÃO SE DEFENDE DA CHINA

A continuada agressividade da política de exportação chinesa, em meio a uma crise que se mostra mais longa do que as expectativas anteriores anunciavam, começa a gerar reações.

Notável que a reação mais forte venha do Japão, tradicional parceiro chinês e mostra que o quadro do comércio internacional tende a se deteriorar, ou não, na direção de políticas de defesa de fronteiras, seja por questão da Balança ou por questões do parque industrial local. O atual movimento parece mais um "recado" no sentido de forçar a China a apreciar com mais vontade o Yuan, contudo terá seus desdobramentos.

De uma forma ou de outra as porteiras do protecionismo começam a ser articuladas. A se ver como a China manterá seu necessário, internamente, ritmo de crescimento num ambiente onde sua competitividade extrema poderá começar a encontrar barreiras.

A questão afeta diretamente nosso posição de primeiro vagão da locomotiva chinesa. 
O protecionismo, se ampliado, haverá de gerar reflexos diretos em nossas exportações com implicações para o desempenho da economia brasileira. 
Esse fator de risco aponta, mais uma vez, para a consolidação do mercado interno. O que envolve as promessas eleitorais de Dilma e lhe asseguram a possibilidade de um difícil caminho a ser percorrido. Sem os anos dourados.


“Segundo o jornal Yomiuri Shimbun, o governo japonês decidiu ontem (28) aumentar os impostos de importação para mais de 400 produtos chineses.
Conforme a notícia, o Japão tem mantido um sistema tarifário preferencial à China com o objetivo de auxiliar o desenvolvimento econômico de países em desenvolvimento. No entanto, como a China ultrapassou o Japão e se tornou a segunda maior economia mundial, o governo japonês decidiu abandonar a política por acreditar que a China não precisa mais de ajuda nessa área.
De acordo com o projeto, no futuro serão quase 450 itens importados da China, em contrapartida com apenas 13 no passado, que não gozarão do sistema tarifário preferencial. Os produtos incluem artigos de uso diário, vestuário e produtos agrícolas. O governo japonês planeja propor o projeto à Dieta do Japão, parlamento nacional, no início de 2011 e executá-lo a partir de 1º de abril.”

Demetrio Carneiro

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

FUNDO SOBERANO: ÚLTIMA TRINCHEIRA DA INDÚSTRIA NACIONAL?


Nosso Fundo de Riqueza Soberana, na intimidade Fundo Soberano, já cumpriu a finalidade de situar o governo brasileiro como portador de uma das maiores reservas do planeta e, com a Rússia, Índia e China, somos donos de cerca de 80% das reservas mundiais.
Agora, feita a mídia, o FS terá outra finalidade.
Já de algum tempo a questão cambial vem assustando economistas ligados à defesa da volta ao protecionismo da indústria nacional. Muita coisa já se disse e muita teoria já foi montada para justificar quando, como e por qual motivo a indústria local deve ser “defendida”, nos velhos moldes dos anos 70.
Mantega saiu na frente e resolver, seguindo os bons conselhos destes economistas, taxar o ingresso de capitais de curto prazo. Não rolou.
Hora de partir para o plano B e ai entra o FS. Vai rolar? Nossos colegas terão seus sonhos concretizados e o real apreciará, facilitando a vida de nossos amigos industriais? Poderemos finalmente esquecer este papo cansativo de concorrência no setor privado e volta à boa época das empresas nacionais à sombra protetora do Estado?
Abaixo uma matéria publicada pelo Bloomberg, no dia de ontem, 4, onde são feitas algumas considerações sobre o FS como plano B, em especial do Tony Volpon.
Demetrio Carneiro




Brasil usa Fundo Soberano para depreciar o Real


Por Tal Barak Harif


4 de janeiro (Bloomberg) – A decisão brasileira de usar o Fundo Soberano para comprar dólares no mercado de câmbio indica que irá utilizar este veículo de investimento para tentar segurar a atual onda de apreciação do Real, segundo a Nomura Holding Inc.


O funcionário do Tesouro brasileiro Cleber Oliveira comentou semana passada que o fundo, com um ano de existência, poderia comprar dólares no mercado como outro interveniente adicionalmente ao Banco Central.


A medida deverá falhar em deter a apreciação do Real na medida em que os investimentos continuem fluindo para os mercados financeiros do país, disse Tony Volpon, Estrategista-chefe do Nomura para a América Latina.


“É apenas mais uma ferramenta para enfraquecer a moeda e ajudar os exportadores”, disse Tony em uma entrevista por telefone de Nova York, no dia 31 de dezembro passado. “Não terão êxito”.


O objetivo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é enfrequcer o Real para evitar uma bolha, com relação ao que o Goldman Sachs Group Inc. chama de a moeda mais “supervalorizada” do mundo em um relatório de novembro passado.


O Real apreciou 33 por cento no ano passado, o maior ganho anual desde sua criação em 1993 e mais que qualquer outra grande moeda, dado a maior economia da América Latina ter sido uma das primeira do mundo a sair da recessão global.


Em 19 de outubro último, para aliviar a pressão e buscar manter a margem de lucro dos exportadores, o Ministro da Fazenda Guido Mantega impôs uma taxa de 2 por cento na compra por estrangeiros de ações e títulos de renda fixa. O Real caiu 0,6 por cento desde então. Em novembro Mantega disse que o governo “não permitirá” que a taxa de câmbio prejudique a economia.
O Real valorizou hoje 0,9 por cento. Indo de 1,7445 por dólar para 1,7284, às 9:25, em Nova York, dia 31 de dezembro.


Reservas internacionais


Telefonemas dirigidos ao porta-voz do Ministério da Fazenda, na busca de comentários sobre o fundo de riqueza soberana não foram retornados.


O Brasil criou o fundo, que teve 16,3 bilhões de reais a partir de
24 de dezembro, como uma reserva para fazer o pagamento da dívida em caso
receita insuficiente do governo. O fundo pode também ser usado para
investir em empresas brasileiras no exterior. Ao contrário de outros
fundos soberanos, o do Brasil não é financiado com excedentes orçamentários
já que o país apresenta um elevado déficit.


As reservas externas do país subiram de 32,2 bilhões dólares, ano passado, para US $ 239 bilhões comprados pelo Banco Central.


As reservas alcançaram um recorde de 239,45 bilhões dólares em 2 de dezembro, muito acima dos 55 bilhões dólares de seis anos antes, segundo dados do banco central .


Uma montanha de dinheiro


A “montanha de dinheiro" que entra no país pode levar água abaixo os
esforços do governo para conter a movimentação do real, disse o economista da Goldman Sachs Thomas Sloper, em novembro. Os economistas estimam
o real vai mudar pouco em 2010, fechando o ano em 1,75 por dólar, de acordo com a mediana de 19 previsões numa Pesquisa da Bloomberg. A moeda apreciou 103 por cento desde que Lula assumiu o cargo em janeiro de 2003, impulsionado em parte por um aumento no preço das exportações do país das commodities.


Volpon prevê que ainda apreciará 8 por cento, para 1,60 no final do próximo ano
pois há um crescente déficit no orçamento e no Conta Corrente brasileiro e isto significa atrair o investimento estrangeiro necessário para financiá-los.
O déficit orçamentário aumentou de 1,5 por cento para o equivalente a 4,1 por cento do Produto Interno Bruto, nos 12 meses até novembro. O déficit anual em conta corrente aumentou de U$ 18,9 bilhões em outubro para US $ 21,1 bilhões em novembro e vai subir para US $ 40 bilhões no próximo ano, de acordo com o Banco Central.
Os projetos de desenvolvimento do governo para preparar a Copa do Mundo de 2014 e 2016 Jogos Olímpicos também exigirão financiamento internacional, disse Volpon.
"Eventualmente mais fluxos estrangeiros virão ao Brasil para ajudar financiar esses projetos”, disse ele. Esses "por sua vez, fortalecerão o real ".

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A DEFESA IDEOLÓGICA DO REAL FRACO



Véspera de eleição presidencial, indefinição de programas de governo e, portanto, de equipes que farão a gestão da política econômica.
Na tentativa de transformar em realidade a profecia: “2010 será um debate entre as subcorrentes keynesianas”, o nosso querido desenvolvimentismo nacional/keynesiano vai à luta.
Insistem na questão do controle cambial e partem do argumento de que o real apreciado gera um processo de desindustrialização no Brasil.


De fato, números recentes mostram, para o período posterior a 2006/2007, uma acentuada queda nas exportações líquidas com agregação tecnológica, ao passo que as mesmas exportações líquidas que agregam baixa tecnologia permanecem em alta constante. Agora, o problema é pontual e já se manifestou em outras épocas. Claro que o fato dos Investimentos Diretos Estrangeiros se concentrarem em commodities ou a concentração dos investimentos privados disponíveis no pré-sal são fatores que deveriam estar preocupando os atuais gestores e deverão preocupar os que se propuserem a sê-lo no futuro.
Claro que a estratégia chinesa tem sido manter a moeda nacional sob controle, numa permanente e historicamente estável desvalorização perante o dólar americano. Tivéssemos uma ditadura e nenhum respeito aos direitos trabalhistas, que completam o tripé chinês, quem sabe não seria interessante repetir a China? É bom acrescentar que reter a posse de boa parte dos papeis americanos dá aos chineses um fortíssimo estímulo a tomar muito cuidado com a situação do dólar americano.


Voltando ao início, também é claro, que estamos muito longe da dramática situação desenhada por nossos desenvolvimentistas nacional/keynesianos.
Evidentemente o debate sobre a desindustrialização enquanto possibilidade futura é interessante, mas vamos dar uma olhada a solução proposta.


Embora tudo isto dê a impressão de terem utilizado o método de sempre, a engenharia reversa, ou seja, partiram da proposta para buscar argumentos que a justificasse, a questão é que a proposta é basicamente desistir da política de câmbio flexível. Nada mais natural, já que vem do mesmo grupo que defende a irresponsabilidade fiscal, a inflação como estratégia de crescimento etc.


Tudo que o desenvolvimentismo nacional/keynesiano tem feito é recuperar as velhas fórmulas desenvolvimentistas já superadas historicamente, sem que se dêem conta que não apenas mudou o país, mas que o mundo, olhando para o futuro, é outro.
O que está por trás da proposta de controle cambial é o velho nacionalismo das décadas de 40, 50,60 e 70 que via no Estado a salvação da lavoura (salve o café!), perdão da indústria nacional.
O resultado e os custos para a nação deste protecionismo estão presentes em toda a nossa história econômica recente.


A visão atrasada do protecionismo encaixa perfeitamente num projeto ideológico que vê o Estado como único agente confiável para tocar o desenvolvimento. A sociedade é controlável via as bondades paternalistas e a iniciativa privada deve ser olhada com desconfiança, mas é muito boa para gerar os tributos que vão sustentar toda a rede tecno-burocrática, suas periferias e aliados.


É este projeto de poder que está tentando se firmar nos futuros programas de governo. É bom que se perceba que para eles tanto faz o lado, já que Dilma e Serra são “iguais”.
Para os segmentos industriais que desde sempre se beneficiaram da proteção e tutela estatais e buscaram nela a vantagem comparativa frente aos produtos do resto do mundo, controlar o câmbio é uma excelente forma de aumentar lucros que deveriam estar sendo empregados em investimentos que aumentassem a capacidade competitiva e, ai sim, gerando empregos qualificados e renda para as famílias. Para o Estado é a “boa” solução, pois cria aliados de primeira hora, sempre dispostos à generosa compreensão.
Demetrio Carneiro

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

NÓS A COP 15


O texto abaixo é de autoria de Martin Wolf, editor e comentarista do jornal Financial Times. Em português foi publicado originalmente no Valor Econômico e, hoje, 03, no portal Ecodebate .


São inúmeras apreciações. As mais importantes:

a) Não se trata de não acreditar nas previsões, pois o risco maior para as gerações futuras é não fazer nada;

b) As previsões indicam que os países emergentes, inclusive o Brasil serão os maiores responsáveis pela expansão futura da emissão da gás carbono, com a China e Índia sozinhas responsáveis por mais de 70%. Quer dizer, os emergentes fazem parte da solução;

c) Se for verdadeiro afirmar “b”, também é verdadeiro assumir que a produção dos emergentes não só tem como destino os países desenvolvidos, como é o estilo de consumo deles e o próprio passado que nos trouxeram até o presente ponto. As indústrias que lá estavam e lá principiaram e que foram transferidas dos países desenvolvidos para a periferia e que gerarem o fenômeno dos emergentes são parte do problema também;

d) Então emergentes e desenvolvidos ou trabalham na mesma direção – uns pelos problemas futuros e outros pelos atuais e presentes – buscando um consenso ou teremos que torcer para que as previsões estejam erradas...

e) Fazem parte desta busca de soluções tentar um consenso, mas também fazem parte uma mudança radical no perfil de produção e consumo. Diversos paradigmas deverão ser quebrados e uma nova base tecnológica deverá ser implementada.

Muito bem, há um desenho claro sobre o papel do Estado e do mercado, tanto num olhar para o passado, como num olhar para o futuro. Tem uma interessante discussão sobre a eficiência da tributação versus a eficiência de um sistema de trocas etc...

Há uma forte leitura sobre o papel do Estado no processo e ela sustenta um lado do debate que aponta a necessidade de reforçar a presença do Estado na economia e na sociedade em geral. Dentro do panorama latino-americano tudo muito sincronizado com a crescente onda não apenas de Estados fortes, mas de executivos fortes, que se encaixam em projetos de democracia direta e direito de maiorias que acabam na, no seu limite conceitual, em projetos populistas de corte fascista.

Se houver espaço para mais Estado esta expansão tem que se dar primeiramente pela discussão da qualidade das políticas públicas aplicadas hoje, tendo em vista o peso da carga tributária. Enfim, as escolhas feitas e as estratégias que as constroem precisarão ser rediscutidas. Mas não será o suficiente. Sem uma presença efetiva da cidadania, seja na co-gestão da organização de proposições, planejamento ou controle e avaliação de execução, não há qualquer garantia de que a gestão pública por si só seja capaz e eficiente para romper os antigos paradigmas frente à frente as demandas dos grupos de poder real.

Forte exemplo da questão é a pressão feita por setores da indústria nacional buscando um novo estilo de protecionismo estatal via controle do câmbio, quando deveriam estar buscando fontes e elementos de financiamento que criassem novas capacidades competitivas. Claro, é mais simples e mais lucrativo, buscar o guarda-chuva governamental e o apoio dos segmentos de sempre: Os nossos queridos e eternos defensores do +Estado/+gastos. Na teoria da física quântica num subnível bem elementar é possível que partículas ocupando espaço diferentes “se falem”. Existe um nível ótimo de comunicação entre estes segmentos da economia privada nacional que desde sempre acumularam seus ganhos protegidos pela ação pública e um grupo muito específico de pensadores econômicos nacionais radicalmente anti-capitalistas, aparentemente tão distantes no mundo real.

Demetrio Carneiro

Cop 15: Copennhague será o fim do começo
Não podemos depender de um armagedon econômico para reduzir emissões. Combater a ameaça das mudanças climáticas é o desafio coletivo mais complexo que a humanidade já enfrentou

O encontro em Copenhague sobre as mudanças climáticas ficará aquém das expectativas. Isso importa? Sim e não: sim, porque os argumentos a favor de agir de forma decisiva são fortes; não, porque o acordo provável será inadequado. Combater as mudanças climáticas será complicado. É crucial que atinjamos o objetivo de forma efetiva e eficiente. Os prováveis novos atrasos deveriam ser aproveitados para atingir exatamente isso.

Minha visão de que ações decisivas são justificadas é contenciosa. Os céticos oferecem dois contra-argumentos: primeiro, o de que a ciência fundamentando as mudanças climáticas é duvidosa; segundo, o de que os custos superam os benefícios.

Não é suficiente, porém, argumentar que a base científica é duvidosa. Tendo em vista os riscos, temos de estar muito seguros de que a ciência está errada antes de seguir os céticos. Se esperarmos até ter certeza de que não está, será tarde demais para agir efetivamente. Com apenas um planeta, não há como repetir experimentos.

Felizmente, as evidências sugerem que os custos para agir não devem ser proibitivos. O mais recente Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, do Banco Mundial, argumenta que o custo de aplicar restrições mais duras sobre as emissões seria modesto. Entre os incentivos, eu ressaltaria a importância de evitar o perigo de uma catástrofe climática. Não temos o direito de assumir tais riscos.

Mesmo assim, os céticos desempenham um serviço inestimável. Eles nos lembram de continuar monitorando os desenvolvimentos climáticos. Eles nos mostram, também, que agir tem seus custos e alguns custos – deixar bilhões de pessoas na pobreza – seriam intoleráveis. Por sorte, como o Banco Mundial destaca, as pessoas pobres pouco emitem. As reduções nas emissões que seriam asseguradas por trocar a frota dos EUA de utilitários-esportivos por carros com os padrões de economia de combustível da União Europeia cobririam as emissões equivalentes ao fornecimento de eletricidade para 1,6 bilhão de pessoas atualmente sem acesso.

Embora a ação seja justificada e provavelmente não proibitivamente cara, o desafio será imenso. Como a Agência Internacional de Energia (AIE) mencionou em seu Panorama da Energia Mundial, precisaríamos “descarbonizar” o crescimento para limitar as concentrações atmosféricas de “equivalentes de CO2″ a 450 partes por milhão, o nível considerado consistente com um aumento médio de temperatura mundial em torno a 2° C. Precisaríamos fazer tudo – reduzir a demanda, expandir fontes renováveis, investir em energia nuclear, desenvolver a captura e armazenagem de carbono, trocar o carvão pelo gás e proteger as florestas – para atingir isso.

Como estamos nos saindo? Em uma palavra, horrivelmente. Apesar de todas as conversas, não apenas o estoque de emissões, mas também o fluxo, vem subindo. A recessão ajudou. Mas não podemos – e, é autoevidente, não devemos – depender de um armagedon econômico. Como ressalta a AIE, as emissões de CO2 relacionadas a fontes de energia aumentaram de 20,9 gigatoneladas (Gt), em 1990, para 28,8 Gt, em 2007. A AIE, em seu “cenário de referência”, prevê que as emissões de CO2 chegarão a 34,5 Gt, em 2020, e a 40,2 Gt, em 2030 – uma taxa média de expansão de 1,5% por ano no período. De forma crucial, os países emergentes e em desenvolvimento “representam todo o crescimento projetado nas emissões relacionadas a fontes de energia até 2030″, com 55% do aumento vindo da China e 18% da Índia.

Os argumentos para agir rapidamente para mudar essas tendências é que, de outra forma, os custos para limitar grandes aumentos de temperatura se tornariam extremamente altos ou, na pior hipótese, proibitivos. A AIE argumenta que se o objetivo é limitar as concentrações de gases causadores do efeito estufa a 450 partes por milhão, cada ano de atraso em conseguir avançar na trajetória necessária traz custos adicionais de US$ 500 bilhões a um custo mundial estimado em US$ 10,5 trilhões. Esses custos resultam da vida extraordinariamente longa dos bens de capital usados na geração de energia e na vida ainda maior do CO2 na atmosfera.

O cenário alternativo é bastante diferente: em vez de 40,2 Gt de emissões relacionadas a fontes de energia em 2030, deveríamos ter apenas 26,4 Gt. A diferença é imensa. Um estudo da European Climate Foundation mostra que os compromissos feitos antecipadamente a Copenhague não cobrirão essa diferença*. Mesmo na visão mais otimista, as propostas atuais ficam aquém em mais de 30% das reduções necessárias até 2020 na trilha para se chegar à meta de 450 partes por milhão de equivalentes de CO2.

Copenhague, então, será apenas o começo. Provavelmente, nem isso, já que o governo dos EUA não tem capacidade para fazer compromissos obrigatórios e os países em desenvolvimento não estão dispostos a fazê-los. Copenhague parece ser o fim do começo. Há algo próximo a um consenso de que o mundo deve agir. Há, igualmente, consenso de que, apesar da retórica, pouco de útil foi alcançado até agora. O momento para agir é agora – se não em Copenhague, então, pouco tempo depois.

Infelizmente, isso não significa que teremos o tipo adequado de acordo. As políticas que empregamos precisam ser tão efetivas e eficientes quanto possível. O que isso significa? Eu enfatizaria três critérios.

Primeiro, precisamos de preços para o carbono que se apliquem sobre horizontes de planejamento relevantes. Esse preço não pode ser fixado para sempre, precisa mudar de acordo com os acontecimentos. Mas precisa ser bem mais estável do que o mercado da União Europeia permite. Por esse motivo, para mim, um imposto parece ser mais atraente do que sistema de comércio de créditos.

Segundo, o local onde ocorram as reduções precisa ser descolado de quem vai pagar por isso. As reduções precisam ocorrer onde são mais eficientes. É por isso que as emissões nos países em desenvolvimento precisam ser incluídas. Mas o custo deve recair sobre os mais afluentes. Isso tanto porque eles podem arcar, como porque eles produziram a maior parte das emissões passadas.

Por fim, precisamos desenvolver e aplicar inovações em todas as tecnologias relevantes. Um relatório do instituto de estudos Bruegel sustenta, de forma persuasiva, que simplesmente elevar os preços sobre as emissões de carbono reforçaria a posição das tecnologias estabelecidas. Precisamos, da mesma forma, de subsídios em grande escala para a inovação**.

Combater a ameaça das mudanças climáticas é o desafio coletivo mais complexo que a humanidade já enfrentou. O êxito requer ações custosas e coordenadas entre vários países para lidar com uma ameaça distante, em nome das pessoas que ainda não nasceram, sob um manto de inevitáveis incertezas sobre os custos de não agir. Chegamos ao ponto, entretanto, em que há um consenso geral da natureza da ameaça e dos tipos de políticas que precisamos seguir para lidar com isso. Pode ser que não cheguemos a um acordo em Copenhague. Mas o momento de tomar uma decisão chegou. Ou agimos logo ou descobriremos se os céticos estavam certos. Se deixarmos de agir, espero que estejam. Mas tenho grandes dúvidas quanto a isso.

“Taking stock” ( “Contando estoques, em inglês) 17 de novembro de 2009, www.project-catalyst.info
“No green growth without innovation” (”Sem inovação, não há crescimento verde”), www.bruegel.org