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sábado, 6 de março de 2010

MISTÉRIO SEMPRE HÁ DE PINTAR POR AI...

Não conheço os componentes dessa misteriosa entidade “economistas próximos ao Serra”, mas se tudo que eles têm a oferecer é uma retirada estratégica do debate monetário para não balançar essa outra entidade chamada “mercado” e colocam no lugar o tal do debate fiscal ou se isto é uma estratégia do PSDB, é melhor repensar as estratégias de campanha.

Algumas semanas atrás eu comentava que o debate por partes só interessa ao PT. Lula, Dilma, PT e toda a sua base aliada, nenhum deles tem sequer vislumbre de um projeto de desenvolvimento que não seja essa coisa arcaica que já está ai.
O congresso do PT mostrou exatamente qual é a cabeça deles. A nota sobre o “golpe da direita” consolida o que são as propostas petistas: Nada. Fora do feijão com arroz eles se perdem e não apreenderam nada com a crise, como também não saberão aproveitar as oportunidades que se abrem.

Ao contrário, essa seria justamente a hora de ir para cima.

Demetrio Carneiro


De olho no mercado, PSDB foca questão fiscal

Os tucanos pretendem tirar de pauta a discussão sobre eventuais alterações na condução da política monetária, deixando como foco o debate em torno da questão fiscal. A ideia é evitar que ruídos alimentem o temor em parte do mercado financeiro de que, em caso de vitória do governador de São Paulo, José Serra, haverá mudanças na política macroeconômica.

Nomes do PSDB ligados à área econômica defendem, de fato, alterações na política monetária, por meio de uma atuação mais forte do Banco Central. Os principais alvos são a alta taxa de juros e o câmbio valorizado, que já foram dezenas de vezes criticados pelo próprio governador. É praticamente consenso entre tucanos ligados a Serra de que deve haver ação mais incisiva do BC para brecar a valorização excessiva do real. Isso não significa, argumentam, diminuição da autonomia do órgão. Tampouco passa pela criação de mecanismos de controle de capital, o que causa arrepios no mercado.

A defesa do tripé macroeconômico (metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário) é explícita. Mas a avaliação de economistas próximos ao governador é de que o BC deve usar mecanismos de que dispõe de forma mais contundente. Um exemplo ouvido foi a atuação do BC no mercado para comprar dólar. Avalia-se que deveria ser feita de modo menos sistemático a fim de evitar "consensos absolutos sobre o câmbio".

É justamente a defesa de uma atuação mais voluntária que desperta incerteza. Para o mercado, isso pode significar algo mais, como diminuição dos juros por canetada ou restrição da autonomia do BC - já é lugar comum ouvir de operadores do mercado comentários de que Serra será "ministro da Fazenda e presidente do Banco Central dele mesmo".

A direção do partido tem orientado seus quadros a não fazer comentários sobre esses tópicos. Quer fixar o debate em torno da "herança maldita" do PT - leia-se o déficit em conta corrente. O objetivo é discutir a qualidade dos gastos, relacionando os "baixos investimentos do governo federal ao crescimento dos gastos correntes". Tucanos alegam que a questão juro-câmbio é demanda do empresariado. Na semana passada, Serra reuniu-se com executivos para ouvir e falar sobre a conjuntura econômica. A discussão é delicada. Parte do eleitorado vê o câmbio valorizado como sinônimo de preços baixos. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

DEMOGRAFIA, ECONOMIA E ELEIÇÕES


Já é fato sabido o envelhecimento da população brasileira. Também já é fato sabido o impacto que irá gerar na questão da Previdência e sua reforma que jamais acontece.
O que muitos ainda não tomaram conhecimento é de um outro problema demográfico que começa a virar assunto no debate econômico do desenvolvimento e deveria nos interessar de perto: A chamada “Onda Jovem”.


Por peculiaridade nossa e de outros países “emergentes”, provavelmente ligada à redução da mortalidade infantil, estamos vivendo um momento de crescimento relativo de nossa juventude. Claro, mais à frente, em talvez 20 anos, esse mesmo crescimento relativo acabará impactando a impactada previdência. Mas o fato é que esse crescimento especificamente está fora da linha.


A notícia boa é que teremos um incremento na mão-de-obra disponível, o que viabilizará um processo de crescimento mais acelerado. Digamos que faltará menos mão-de-obra. Isso já foi notado pelo estrategistas ligados ao mercado financeiro e aparece como ponto positivo na definição de destinos de investimento.
A má notícia é que teremos um incremento na mão-de-obra disponível. Evidentemente serão necessárias políticas públicas que acolham esse “a mais” num contexto em que elas mal conseguem acolher o que existe. Estamos falando de políticas públicas para “antes”, que tratem da qualificação(educação/capacitação/realocação) dessa mão de obra e políticas públicas para o “depois”, a Previdência feita de forma correta, não esta “coisa” que está ai. Mas também estamos falando de políticas públicas para o “durante” que é o emprego qualificado que forneça renda e estabilidade. Não a estabilidade que a lei forçou, mas a estabilidade que vem do crescimento sustentado da economia.


Não esquecer que foi um fenômeno semelhante, o “baby boom”, no pós guerra americano que sustentou o crescimento acelerado dos fundos de pensão, que acabaram se tornando um dos principais pontos de alavancagem da economia americana.


Qual programa de governo se habilita?


Demetrio Carneiro

sábado, 9 de janeiro de 2010

UM CHEIRINHO DE PASSADO


O período de 2003/2004 foi de intensas decepções com o governo eleito em 2002. O discurso eleitoral de Lula foi-se alterando e, uma vez no poder, os temas centrais da estabilidade econômica e princípios da boa macroeconomia, os chamados fundamentos, trazidos pelo famoso tripé “câmbio flutuante, metas de inflação e responsabilidade fiscal” acabaram prevalecendo.


Aqueles que viam ali a oportunidade de mudanças profundas e questionavam a estabilidade e seus instrumentos considerando-os como resultado de um projeto neo-liberal que atentava contra a imensa desigualdade social e os milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza desdobraram-se em críticas. Primeiro um manifesto de 300 economistas, ainda em 2003 e, em seguida, outro manifesto em 2004.


Já no ano seguinte, 2005, a economia internacional, estimulada pela crescente demanda nos países centrais, iniciava sua fase mais longa de crescimento acelerado desde a segunda grande guerra mundial. A intensificação das relações econômicas em escala mundial trouxe para o cenário os países emergentes. E o Brasil estava entre eles. Dali para frente entraríamos num novo ciclo de commodities, como outros que já vínhamos tendo desde a colônia.


O crescimento, relativamente acelerado, embora bem inferior aos outros emergentes, mas muito superior à média dos anos passados, gerou renda suficiente para os constantes recordes de tributação que viriam no ano seguinte. Os recursos capazes de sustentar as políticas sociais fluíram. Sem mudanças no modelo de desenvolvimento e no modelo macroeconômico a vida seguiu e temas antes postos na ordem do dia como o controle cambial, questionamento da dívida pública, questionamento do regime de formação de superávit foram sendo abandonados. Já a questão da taxa Selic e do spread bancário, o papel do Estado na sustenção dos rentistas, esta permaneceu. O projeto anti-capitalista existente por trás das propostas de controle estatal da Selic e dos juros bancários permaneceu e aparece ao longo do período em diversos momentos.


Neste período a questionada estabilidade “neo-liberal” se mostrou elemento de extrema importância nas políticas públicas sociais. Foi à custa da baixa inflação do período que se tornou possível uma linha de continuidade nos ganhos reais, principalmente das classes mais pobres que são sempre às vítimas preferenciais dos processos inflacionários. Foi a mesma baixa inflação que viabilizou o segundo elemento de expansão da economia a par das commodities: O alongamento do perfil do crédito pessoal. O aumento da quantidade de prestações acabou alavancando ao aumento do consumo. Poder de compra mantido, dilatado o prazo abriu-se um segmento, a classe C, antes insipiente e o mercado interno entra no jogo econômico. No caso do mercado interno uma lógica que aparece no período de alta inflação estabelece a estratégia vencedora: O que importa não é o valor final do produto, mas o valor da prestação mensal.


Às vésperas da eleição de 2010 muitos dos temas são retomados e nossos queridos nacional-desenvolvimentistas voltam à cena na esperança de retomar seus projetos originais. Aparentemente o tempo não os levou a uma reavaliação de suas propostas e o embate se dará maios ou menos à volta dos mesmos temas.


Abaixo o segundo manifesto, o de 2004. É bastante instrutivo comparar as posições da época com as atuais. Não trás qualquer leitura ambientalista, não era tema da época. Falando assim parece que estamos remetendo a dezenas de anos e não a seis. Também não apresenta uma visão sistêmica do que seria então o projeto de desenvolvimento. A leitura, embora parta de economia, é fortemente política e pesadamente ideológica. Daí um conjunto de proposições pontuais e “opostas” ao projeto neo-liberal, no entendimento do grupo. Na lista das assinaturas está a Via Campesina. Imagino que hoje chamariam este manifesto de direitista.


Demetrio Carneiro




Manifesto dos Economistas


"E nada mudou"


Por uma política econômica voltada para um projeto nacional de desenvolvimento, com prioridade para a geração de empregos e a redução das desigualdades sociais.


Em junho de 2003 um grupo de mais de 300 economistas brasileiros divulgou um manifesto no qual advertia para o agravamento da crise social em face do aprofundamento, pelo Governo Lula, da política macroeconômica herdada do Governo anterior. Apontamos como alternativa,fruto de um consenso mínimo, um programa de sete pontos que configurava um compromisso com a adoção de uma política de promoção do pleno emprego, num contexto de retomada do desenvolvimento e de realização da democracia social.


Passado mais de um ano, um grupo inicial de cerca de trinta economistas, signatários ou aderentes daquele Manifesto, reuniu-se novamente para fazer uma avaliação da conjuntura econômica à vista de nossas proposições anteriores e das perspectivas que se apresentam à sociedade brasileira. Nossa conclusão, enriquecida por sugestões de outros economistas que assinam o presente documento, é que a situação social se agravou de uma forma inequívoca, e que o ligeiro suspiro de crescimento que se tem verificado este ano não muda o caráter excludente e pauperizador da política econômica. Ou seja, continuamos no rumo errado, mas há alternativa.


A adoção pelo governo Lula da mesma política econômica adotada no segundo mandato do governo FHC – e com o objetivo de manter o modelo de economia inaugurado por Collor -, demonstra que o desejo de mudança, expresso claramente pelo povo nas eleições de 2002, foi usurpado pelo mesmo poder econômico, que quer manter a todo custo seus privilégios.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MERCADO INTERNO E DESENVOLVIMENTO: O FUTURO E O PASSADO


Falar de mercado interno e desenvolvimento não passa por soluções fáceis, mesmo que existam as oportunistas, no bom e no mal sentido, como as que o atual governo vem aplicando.


O investimento estrangeiro neste momento é fundamental para complementar a fraquíssima poupança interna, mas pensar um modelo de longo prazo apenas com base na poupança externa é extremamente arriscado. Excesso de liquidez da economia internacional à parte, o padrão de curva em W ainda continua assustando. A lenta retomada da economia mundial está levando muita gente a imaginar que a retirada dos estímulos pró-cíclicos possam levar a uma nova queda. Não é outro o sentido do comentário de Paul Krugman, “That 1937 feeling” onde lembra a precipitação do governo americano em considerar “encerrada” a crise, no NYT, no dia 3 último.
Certo ou errado, talvez mais errado que certo o “sentimento” de Krugman, o fato é que não há como olhar propositivamente a questão do desenvolvimento no Brasil sem que a poupança e o mercado, ambos internos, façam parte da equação, se pretendermos que sair das armadilhas do ciclo “commodities/capital externo” seja de fato um projeto nacional para quebrar uma escrita centenária.


Do lado da poupança interna os recentes debates sobre a taxação da poupança e o emprego dos recursos do FGTS – que pode ser visto como um fundo de poupança compulsório de todo trabalhador registrado legalmente – mostraram claramente que não uma clara linha de política pública voltada para o estímulo às famílias para a poupança.
A carta do IBRE- Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, de dezembro de 2009, com base em dados de um estudo do Banco Mundial, realizado em 150 países, entre 1965 e 1994, “What drives savings across the world”, comenta a questão da poupança interna. Depois de identificar correlações positiva entre poupança e crescimento econômico e entre poupança e desoneração tributária, comenta a queda na poupança interna entre 2004 e 2008. Inversa, portanto, à tendência mundial. A explicação seria uma outra correlação, esta entre trabalhadores na ativa e aposentados. Dentro desta lógica, nos países onde houvesse uma defasagem entre a renda obtida no trabalho e a renda obtida na aposentadoria, haveria um forte estímulo a que houvesse a prática de poupança, vista realmente ai como a garantia do futuro. O exemplo é a China. Contudo, no caso brasileiro as políticas públicas de garantia de igualdade ou mesmo rendas maiores, no caso do setor público, ou no caso do setor privado, onde 68% das pensões são equivalentes ao salário-mínimo e vêem acompanhando sua correção “faz com que o piso previ¬denciário do INSS englobe uma proporção crescente dos benefícios, engrossando, por¬tanto, a massa das aposentadorias e pensões que acompanham, ou mesmo superam, os aumentos dos trabalhadores ativos”. Haveria então um desestímulo formal à prática de poupança.
Isto indicaria, na leitura do Tony Volpon, por exemplo, a necessidade de retomada do debate sobre uma ampla reforma previdenciária que trouxesse para a cena um sistema não de previdência complementar como o proposto e jamais regulado para os funcionários públicos, mas de formação de fundos de pensão para o setor privado da economia, criando assim fontes “seguras” de formação de poupança interna, potentes o suficiente para intervir no financiamento do crescimento nacional. Claro que toda uma elite sindical “em defesa dos interesses dos trabalhadores” irá criticar a “privatização” da previdência pública etc...
Evidentemente há obstáculos políticos concretos como o que fazer para financiar as atuais pensões e benefícios ou como explicar que itens tipicamente de atenção social tipo a previdência rural, aposentadorias compulsórias sem a devida contribuição, estejam sangrando a regime previdenciário, ou seja onerando o sistema como um todo e, em particular os que realmente pagam por ele, os assalariados, ocultando as verdadeiras contradições desta proposta, mesmo que humanitária.
Ao desestímulo pode ser somada a visão de ampliação de mercado interno a partir da ótica do atual governo: Estímulo ao consumo com base na expansão de crédito direto ao consumidor.
Muitas coisas conspiram, então, para a formação de uma poupança interna trazendo para esta equação a poupança externa, se pensarmos em fontes para financiar o crescimento.


A lógica, inversa à poupança, de apelo ao consumo imediato, olhada ainda hoje como elemento anti-cíclico, tem funda vinculação com os instrumentos que alavancam este conceito de mercado interno: Garantias sociais mínimas, como o bolsa-família, que atinge hoje cerca de 25 milhões de brasileiros, correção do salário-mínimo com valores reais que praticamente dobraram seu valor nominal nos últimos anos.


Nossa questão está em estabelecer se este modelo de mercado interno, fundado basicamente no consumo de massa da maior classe social brasileira, a classe C, cuja faixa de renda domiciliar estava na casa dos R$1.100,00 em 2008 e representava um mercado potencial de R$410 bilhões, tem viabilidade no longo prazo. Os três princípios que lhe dão fundamento: renúncia à poupança, políticas de proteção social e aumento real do salário-mínimo são, digamos, eternizáveis ou estamos falando de uma política de construção de mercado interno que prefere fugir dos grandes problemas nacionais?


Este mercado que hoje existe gera crescimento econômico? Sim gera, mas a questão está no tipo de crescimento.
Por exemplo, a fusão ou aquisição das Casas Bahia pelo Pão de Açúcar mostra um pouco do processo atual. Mesmo com significativa baixa o custo de financiamento ao consumidor oferecido no Brasil ainda é um dos mais altos do mundo. Os grandes grupos comerciais apreenderam o caminho aberto durante o período de alta inflação. O jogo é vincular o valor da prestação à capacidade de pagamento do consumidor. Ele não vai olhar para o preço final. A atual estabilidade inflacionária, que incomoda tantos economistas, facilitou a vida do comércio varejista brasileiro. Em épocas de estabilidade prestações de dois ou três anos são viáveis e muito lucrativas às atuais taxas de juros. A taxa de inadimplência é justificativa dos altos custos e acaba sendo absorvida por eles. As grandes cadeias comerciais terceirizam, normalmente para suas próprias factorings, os financiamentos e as factorings terceirizam as cobranças duvidosas, normalmente mais uma vez para empresas do próprio grupo, para as empresas de cobrança. É legal e todos, que são um só, ganham. Na outra ponta a formação de grupos quase oligololistas acaba dando ao varejo um poder de fogo muito grande frente aos fornecedores nacionais ou não. Não que o jogo seja ruim, os coreanos, por exemplo, já se deram conta do potencial deste jogo e investem nele pesadamente.
Toda esta cadeia interligada existe graças ao altíssimo custo repassado ao consumidor. Será que toda esta estrutura sobreviveria a uma real abertura da economia brasileira?


Enfim, dá para imaginar um mercado interno firme e estável sem formação de emprego qualificado? Dá para imaginar emprego qualificado sem estrutura educacional sistemática e ampla, algo como o ensino em horário integral universal? Dá para imaginar indústrias que possam empregar pessoas qualificadas sem o desmonte desta arapuca que o é o custo-Brasil, sem haja um conjunto de reformas que dê estabilidade institucional? Da para imaginar tudo isto sem uma política pública de promoção de investimentos massivos em micro-inovações e áreas estratégicas voltadas para as novas demandas que se formam, decorrentes dos paradigmas da nova economia?


Todo um conjunto de questões está em aberto e deve ser “resolvido” propositivamente Ser apresentado à população de forma clara e direta.
O eleitor deve ser chamado a comparar não o passado com o passado – a tal eleição plebiscitária dos sonhos de Lula, mas o passado com o futuro. Este presente que vivemos é na verdade, ele sim, o passado que devemos criticar e superar se quisermos construir um outro futuro possível.


Demetrio Carneiro

domingo, 1 de novembro de 2009

PROVOCAÇÃO SOBRE PROPOSTAS PARA 2010


Para quem achar que o governo que sair das urnas de 2010 deveria partir para uma funda revisão não apenas de olho no pós-crise, mas e também no pós-ditadura, o texto, abaixo, que o prof. Simon apresenta como prólogo ao livro de José Joaquín Brunner, que trata da questão mercado/univesidade no Chile, pode servir de excelente provocação, já que trás implícitos debates que são essenciais também aqui no Brasil. Existe ai uma pauta de debates que deveria ser nossa, também.


Demetrio Carneiro



EDUCACIÓN SUPERIOR EN CHILE: INSTITUCIONES, MERCADOS Y POLÍTICAS GUBERNAMENTALES, 1967-2007

José Joaquín Brunner

PRÓLOGO

Quien no conoce a José Joaquín Brunner solo verá en este libro su lado académico y podrá sacar provecho de la organización brillante que hace del emergente campo de estudios sobre los mercados académicos y su aplicación para la reconstitución y el análisis minucioso de la historia de la educación superior en Chile durante los últimos 40 años.

Chile tiene de especial el hecho de haber sido, a partir de 1980, el país que avanzó más rápidamente en la tentativa de situar a sus instituciones de educación superior en un régimen pleno de mercado; sin embargo esta dirección no es excepcional. Por el contrario, en todo el mundo la educación privada crece; las instituciones públicas y privadas se disputan recursos, alumnos y prestigio en diferentes ámbitos, y los desafíos que enfrentan la sociedad y el gobierno chileno --acerca de cómo hacer para que la educación superior se vuelva más pertinente para la economía y la cultura, cree mayor igualdad de oportunidades y use eficientemente los recursos-- son los mismos en todas partes.

Pero Brunner no es tan solo un observador y estudioso de este proceso. También lo ha protagonizado: como dirigente estudiantil a mediados de los años 60, exonerado de su universidad por el régimen de Pinochet en 1973, activo participante en la movilización por el plebiscito que pone fin al régimen militar en 1990, coordinador del proyecto de modernización de la educación superior en los años siguientes y, a partir de ahí, personalidad activa y presente en todos los aspectos de la vida política e intelectual de su país, ya sea en el gobierno como ministro de Estado y coordinador de comisiones nacionales de licenciamiento y acreditación de instituciones educacionales, entre otras, ya sea --y ante todo-- como intelectual, investigando, escribiendo y discutiendo ideas.

Este lado militante y participativo ayuda a comprender que Brunner decidiera escribir este libro desde la perspectiva de los mercados universitarios para polemizar con el pensamiento más tradicional sobre este asunto, pensamiento que mira a la educación superior solamente desde la perspectiva de las universidades estatales a pesar de que, cada vez más, ella está dominada por instituciones privadas y autónomas, universitarias y no universitarias.

En este sentido, Chile, con cerca del 73 por ciento de sus estudiantes matriculado en instituciones privadas, no es diferente de Brasil, con el 75 por ciento; Japón, con el 75 por ciento; o Corea, con el 78 por ciento; y tiene una semejanza importante con Estados Unidos o México, países en los que el sector privado absorbe a cerca del 35 por ciento de los alumnos. Sin embargo, lo que Brunner llama ‘mercadización’ va más allá de la dicotomía entre lo público y lo privado. En todo el mundo, las universidades públicas también necesitan competir por proyectos, estudiantes, prestigio y recursos para docencia e investigación y, por esto, se organizan de forma cada vez más similar a las empresas, definiendo prioridades, estableciendo estrategias y buscando hacer más explícitas sus misiones.

Los gobiernos continúan financiando a las universidades y sus estudiantes, pero, si antes este financiamiento era total y automático, hoy tiende a ser parcial y condicionado a los resultados y a costos que puedan ser expresados en indicadores.

La tesis central del libro no es que la mercadización sea el mejor de los mundos posibles, en contraposición a quienes todavía creen que el mejor era el de las antiguas universidades financiadas totalmente con dinero público y que no necesitaban molestarse con demostrar que éste fuese bien utilizado.

Lo que Brunner prueba es que hoy no es posible comprender lo que sucede en la educación superior sin prestar atención a esta dimensión de mercado, que se combina, en diferentes grados, con los mecanismos de la autoridad y la regulación pública y con el poder de las oligarquías y las corporaciones universitarias para marcar, dentro del famoso “triángulo de Clark”, el lugar de los distintos países e instituciones en el ámbito de múltiples alternativas de gobernabilidad.

Detrás de este agnosticismo prudente es posible apreciar, sin embargo, que Brunner ve con buenos ojos el crecimiento de los mercados de educación superior, en claro contraste con aquellos que aún lo miran con recelo. Para comprender mejor, vale la pena recordar la tradición sociológica que, comenzando con Marx, ve en los mercados el mecanismo central de los procesos de desarrollo y modernización. Son famosos los pasajes de El Manifiesto Comunista de 1848 en los que Marx habla, con admiración, de la fuerza liberadora de la burguesía y la industrialización que destruye formas arcaicas de relaciones sociales, basadas en posiciones de status y prestigio, sustituyéndolas por posiciones de mercado:

La burguesía ha revelado que la brutal manifestación de fuerza en la Edad Media, tan admirada por la reacción, tenía su complemento natural en la más relajada holgazanería. Ha sido ella la primera en demostrar lo que puede realizar la actividad humana; ha creado maravillas muy distintas a las pirámides de Egipto, a los acueductos romanos y a las catedrales góticas, y ha realizado campañas muy distintas a las migraciones de los pueblos y a las Cruzadas1.

1 Karl Marx y Friedrich Engels, El Manifiesto Comunista (Traducción de Jesús Izquierdo Martín). México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 2007, pp. 158-159.
 
Es con esta misma combinación de horror y admiración que Brunner debe haber observado las tentativas de los “Chicago Boys” del gobierno de Pinochet por destruir las bases tradicionales de funcionamiento de las universidades chilenas y situarlas de lleno en el mundo de la competencia y el mercado.

Por supuesto, para Marx este nuevo orden basado en el mercado y la explotación del trabajo traía consigo sus propios problemas y estaba condenado a ser superado por una sociedad nueva, más allá de los mercados y las mistificaciones del poder tradicional; una sociedad que entre tanto quedó relegada al reino de las utopías.

Desde entonces, sociólogos y economistas han tratado de explicar y resaltar las virtudes y el potencial de la racionalidad competitiva de los mercados. No han faltado quienes, sin embargo, como Shumpeter y Karl Polanyi, advierten también acerca de su potencial destructivo. Del mismo modo, Brunner nos señala la necesidad de entender y valorar lo positivo que puede haber en esta transición, de conocer sus problemas y de encontrar los mejores caminos, sin por ello volver atrás intentando reconstruir un orden institucional que nunca fue satisfactorio.

Fue Max Weber, sin embargo, quien transformó la narrativa histórica de la transición de lo tradicional a lo moderno en una herramienta analítica para comprender las tensiones, las contradicciones y la dinámica de las sociedades contemporáneas. Aprendemos de él que hay dos principios básicos de estratificación de la sociedad: uno basado en el prestigio, en el sistema de "status", y otro basado en el dinero, en el sistema de clases.

En una sociedad de status, la tierra, por ejemplo, no puede ser comercializada, puesto que ella es parte del status de la nobleza. En el sistema de mercado todo es una cuestión de precio. A quienes tienen dinero nuevo, adquirido en la industria o el comercio, les interesa destruir los privilegios del status; en cambio para aquellos que tienen posiciones de poder y dinero antiguos, nada hay peor y más amenazante que los mercados y los nuevos ricos.

Es fácil ver cómo estos conceptos se aplican a las universidades tradicionales, cerradas, organizadas en torno al status y prestigio de viejos profesores y antiguas profesiones, y los movimientos para crear un nuevo orden basado en la competencia en el mercado por estudiantes, proyectos, calidad de la investigación, financiamiento público y privado.

Es posible comparar los diferentes sistemas de autoridad y poder, como hace Brunner, en términos de los beneficios o perjuicios que traen a la sociedad --la calidad y cantidad de estudiantes bien preparados, la pertinencia de su formación y sus implicancias en términos de equidad social. También es posible realizar un análisis de las disputas entre los actores que luchan por mantener sus viejos privilegios de status y aquellos que intentan sustituirlos por nuevos sistemas de poder y autoridad basados en la libre competencia. Este análisis nos ayudará a comprender cómo es posible que mecanismos institucionales claramente disfuncionales, ineficaces y socialmente perversos, como los que prevalecen en muchas de nuestras instituciones de educación superior, se perpetúen.

Vivimos hoy una gran crisis de los mercados internacionales, y muchos, especialmente en América Latina, pensarán que se trata de una prueba de que la agenda de modernización de las instituciones públicas en la región, acusada de “neoliberal" y orientada a hacer más clara la relación entre el sector público y el privado, maximizar los beneficios de los mercados y delimitar su alcance, ha fracasado, justificando por lo tanto el retorno a las prácticas del pasado.

Amartya Sen, escribiendo sobre la crisis, acude a Adam Smith, al igual que Brunner, para mostrar cómo la economía de mercado no es ni puede ser absoluta, debe existir y funcionar dentro de marcos institucionales claros y estar asociada a políticas públicas que preserven los derechos humanos fundamentales de las personas como el acceso a los servicios de salud y educación. La conclusión de Amartya Sen para la economía en su conjunto, se aplica también a nuestros sistemas de educación superior y coincide precisamente con el espíritu de este libro:

No argumentaría yo que las crisis económicas contemporáneas hacen necesario un ‘nuevo capitalismo’ sino que demandan una comprensión nueva de ideas pretéritas como aquellas de Smith y, más próximas a nosotros, las de Pigou, muchas de las cuales han sido lamentablemente desatendidas. Lo que se necesita además es una lúcida comprensión de la manera real en que funcionan diferentes instituciones y cómo varias de ellas --desde el mercado hasta el Estado-- pueden ir más allá de las soluciones de corto plazo y contribuir a producir un mundo económico más decente2.

2 Amartya Sen, “Capitalism Beyond the Crisis”, New York Review of Books, Volume 56, Number 5, March 26, 2009.

Simón Schwartzman

Río de Janeiro, octubre 2009