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domingo, 18 de março de 2012

A DEFESA "ARCAICA" DA INDÚSTRIA NACIONAL

A constatação da matéria do Estadão sobre o diferencial de custos entre o Brasil e os Estados Unidos só faz reforçar o óbvio e coloca na berlinda a nossa queda histórica de produtividade: O estilo de crescimento brasileiro, consagrado nos dois governos petistas, consolidado por nosso peculiar capitalismo de laços,associado ao "como" se defende a indústria brasileira não nos levará a lugar algum que não seja o enriquecimento de determinados grupos que historicamente sempre se beneficiaram dos acessos de nacionalismo governamental. Com efeito é muito lucrativo ser nacionalista para os grandes empresários da coalizão de poder e é muito lucrativo ser nacionalista para os políticos que capturam os votos desavisados da nossa cultura nacional-desenvolvimentista.

Nesse esquema as coisas realmente importante como a geração de novos postos de trabalho com base em paradigmas ajustados ao futuro, imersão educacional de nossos jovens, reformas estruturantes, consolidação institucional, questões de produtividade e uma dezena de outros temas que deveriam ser o foco das políticas públicas e projetos de nossa sociedade acabam sendo relegadas ao segundo plano e nós todos submetidos ao crescimento medíocre.

Pena que o arcaico ainda conseguida se disfarçar de moderno entre nós. Mais triste ainda que o eleitor, o verdadeiro decisor, ainda cai na esparrela.

Demetrio Carneiro


18 de março de 2012 | 7h 33

AE - Agencia Estado

Está mais barato produzir bens industriais nos Estados Unidos do que no Brasil. A afirmação parece um contrassenso, mas se tornou realidade. A crise provocou uma reviravolta na estrutura de custos das empresas, encarecendo uma nação emergente como o Brasil e tornando os EUA um país de baixo custo.

"As empresas relatam que hoje existem condições mais favoráveis para a produção industrial nos Estados Unidos do que no Brasil", conta Gabriel Rico, CEO da Câmara Americana de Comércio (Amcham-Brasil), que reúne as multinacionais americanas instaladas no País. O câmbio é o principal vilão por causa do enfraquecimento do dólar, especialmente diante do real, mas não é o único. Levantamento da MB Associados, feito a pedido da reportagem, aponta que despesas importantes, como energia e mão de obra, subiram muito mais no Brasil do que nos Estados Unidos.

Nos últimos cinco anos, o custo do trabalho em dólar na indústria aumentou 46% no Brasil e apenas 3,6% nos Estados Unidos. Segundo Aluizio Byrro, presidente do conselho da Nokia Siemens na América Latina, a mão de obra no Brasil está entre as mais caras do mundo. "Um gerente de nível médio chega a ganhar 20% menos nos EUA do que aqui."

No Brasil, os encargos trabalhistas são pesados e a variação cambial encareceu os salários em reais. Além disso, o crescimento da economia e a baixa escolaridade da população provocou uma forte escassez de mão de obra qualificada. Nos Estados Unidos, trabalhadores não têm direitos como décimo terceiro salário ou licença-maternidade. Com a crise, as empresas ganharam poder de barganha e conseguiram até redução de salários. "No setor automotivo americano, por exemplo, tudo foi repensado para salvar empresas que estavam à beira da falência", diz Marcelo Cioffi, sócio da consultoria PwC. "Já o Brasil é um dos países mais onerosos do mundo para produzir carros. Não só pelo câmbio, mas também pela falta de escala, excesso de impostos, mão de obra e matéria-prima mais caras." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

sábado, 24 de setembro de 2011

DILEMAS DA INSDUSTRIALIZAÇÃO DEPENDENTE: QUEM ESTARÁ DISPOSTO A SAIR DE SUA ZONA DE CONFORTO?

      Quando o governo brasileiro decidiu tomar uma lado na disputa mundial entre montadoras do Centro desenvolvido e da Semi-periferia emergente, especificamente da China parecem ter esquecido a viagem de Dilma à China e as diversas declarações sobre a instalação de uma montadora chinesa no Brasil. A resposta não demorou muito e chineses já formalizam haver desistido de instalar aqui a sua montadora.

     Dilema complexo entre garantir empregos para perder empregos., já que todo o argumento para proteger as “nacionais” eram os empregos.

     No final são dilemas e discursos de um modelo de industrialização dependente e, pior, decadente. As autoridades brasileiras ainda insistem em fazer de conta que esses processos são sustentáveis no longo prazo e benéficos para o país.

      De qualquer forma perder tempo e esforços para tomar um lado na disputa das montadoras pode ser transvestido de legítima defesa de interesses nacionais e dar argumentos para tranqüilizar Centrais Sindicais, aliados na FIESP e CNI, e parlamentares cujas bases estão ou nos sindicatos ou nas corporações patronais. Vamos admitir que essa busca de resultados imediatos e palpáveis por parte do governo e seus apoiadores faz parte de um jogo de sobrevivência política. O problema é que esse olhar oportunista, abaixo da linha do horizonte, desvia o foco da questão principal que é como produzir um processo de industrialização sustentável no longo prazo, mas que ao mesmo tempo seja elemento de indução de desenvolvimento e não apenas crescimento.

      É disso que se trata. Estamos, no final do dia, trocando crescimento econômico por desenvolvimento. Talvez não apenas por que processos de desenvolvimento sejam muito mais complexos e demorados do que processos de indução de crescimento, já que exigem transformações institucionais profundas ao ponto de gerar mudanças estruturais e organizacionais. Talvez também seja por que intuitivamente a Elite, seus associados e cooptados, é bom colocar no pacote as Centrais Sindicais, saibam que processos de desenvolvimento podem terminar em novas configurações de poder, nem sempre favoráveis aos atuais detentores.

      Com efeito inovações que gerem conhecimento capaz de transformações de qualidade – nota: não estamos falando desse “empreendedorismo” no estilo Sebrae, mas no conceito schumpeteriano - , agregação de qualidade ao capital social via transformações no próprio conceito e estrutura do ensino e oferta de outras oportunidades, estruturas de financiamento de longo prazo num mercado livre do controle oligopolístico , projetos que encarem de frente os dilemas gerados pela necessidade de novos paradigmas sobre o que é a industrialização e como ela pode se dar num mundo onde a questão ambiental não pode mais ser ignorada, são todos elementos de um processo que só é viável com mudanças de fundo no próprio Estado e nas suas relações com o mercado e a sociedade civil, no sentido de uma completa democratização de todo o aparelho.

      Não é sempre que detentores do poder estão dispostos a correr riscos que vão muito além do discurso formal do populismo, colocando em risco suas hegemonias, complicando suas zonas de conforto.

      Enfim essa última questão acaba sendo a chave de todo o debate atual: Quem realmente estará disposto a sair de sua zona de conforto e correr riscos? As Elites dominantes dificilmente farão esse movimento a não ser que sintam, como sentiram na transição entre a ditadura e a redemocratização, que é melhor perder anéis que dedos. Então elas são demandadas e não realizam movimentos que não são estritamente necessários. Os amplos setores da política e do sindicalismo que acabaram cooptados e compõem esse novíssimo, historicamente falando e nos termos do Brasil, desenho de Elite dominante, dificilmente colocarão em risco suas situações atuais. Até porque são incapazes de olhar além do horizonte. A não ser claro, quando se trata de justificar a quebra das políticas de Estabilidade. As “oposições” em parte assumem uma concordância discreta e envergonhada com o que vem ocorrendo, devido ao fundo ideológico comum e parecem bem satisfeitas com seu “naco” de poder, não estando muito dispostas a buscar o realmente novo e correr riscos que possam mudar as relações de poder nas estruturas partidárias.

     Gostaríamos muito que esse romper com zonas de conforto pudesse ser algo que viesse das redes, como a Primavera Árabe, mas infelizmente quando falamos de desenvolvimento a primeira questão é como romper com 70 anos de cultura desenvolvimentista. São diversas gerações de pensamento que foram se entrelaçando e se seqüenciando sem se darem conta de que o século mudou e acabam buscando glórias, “plena” autonomia nacional, por exemplo, que jamais obterão por não saberem distinguir o mero discurso da prática transformadora concreta ou até mesmo se existe essa “plena” autonomia nacional, não devido à globalização, mas devido ao fato de que o Sistema-Mundo desse capitalismo dominante é antes de tudo um sistema onde as peças se integram perfeitamente, gostemos ou não.



Demetrio Carneiro

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O POPULISMO COMO PONTO DE INFLEXÃO

      Ontem a política econômica sofreu um ponto de inflexão. A texa Selic recuou. Certamente haverá todo tipo de apoiamento, pois o circo já estava montado.

     Sintomática dessa inflexão não foi apenas a manifestação "espontânea" frente ao BC, mas a passeata pelo centro de Brasília e a recepção dos manifestantes pela presidente, com direito a entrega de manifesto contra a taxa de juros e mais gastos sociais, promessas de amor mútuo e tudo mais. Dilma se aproxima dos movimentos sociais. Pelo menos dos que são financiados e suportados pelo Estado.

     Após quatro mandatos presidenciais onde, por tentativas envolvendo erros e acertos, a Política de Estabilidade foi posta à prova, nesse quinto mandato o novo norte será o populismo desenvolvimentista que, por sua natureza, não tem compromisso com a Estabilidade, mas com os resultados eleitorais.

     Não é preciso esperar pela Ata do BC para saber o que houve, principalmente num dia onde o Orçamento de 2012, ano eleitoral num governo nitidamente envolvido em lógicas de ciclo econômico-político, confirma a entrega do salário mínimo em´um nível de correção, despesa a mais de R$ 21 bi,que certamente terá forte impacto fiscal, mas impacto maior ainda nas expectativas dos agentes econômicos, inclusive trabalhadores. De outro lado os sinais desse momento econômico são bem claros e não dão tanta margem a interpretações otimistas sob o controle do processo inflacionário. O BC, pressionado politicamente, atravessou o estreito limite entre a aventura e a prudência, já que o governo não parece muito interessado em entregar de fato o controle fiscal que prometeu, embora faça juras diárias.

    A questão da inflação tem forte componente nas expectativas e o recado passado já foi suficientemente claro: Vamos continuar flexibilizando tudo, desde que não comprometa um piso mínimo de crescimento. Se houver um ganho político a se realizar, por que não?

     Presa nos mesmos compromissos ideológicos do nacional-desenvolvimentismo a oposição certamente ficará neutralizada e não se dará conta do mais óbvio que foi a criação do fato político, da mudança de foco, do tirar da cena a questão da corrupção e do patrimonialismo e trazer para ela o debate do desenvolvimento. A agenda política foi alterada pelos três fatos em paralelo: Redução da taxa Selic, confirmando a promessa de campanha de Dilma. Apresentação do Orçamento de 2012, entregando o salário mínimo fortemente reajustado e um pacote de programas socias reforçados pelo Brasil Sem Miséria, novo carro-chefe midiático e pelo programa Minha Casa, somando ambos algo por volta de R$ 30 bi. O novo PPA tem mais Brasil sem Miséria e mais 2 milhões de residências, sendo 1,2 milhões para rendas familiares menores de R$ 1,6 mil.

      O pacote desenvolvimentista, e nele bom bom incluir a noção de piso de crescimento que deu origem à inflexão e à pressão política à qual o BC respodeu favoravelmente, está posto na mesa e aparentemente o populismo econômico será o novo personagem convidado para a festa. Mantega está com tudo e, talvez, já possa alimentar ambições mais elevadas.

      Incapaz de qualquer proposta mais consistente para o desenvolvimento e amarrada na mesma raíz populista é provável que a oposição assista não no camarote, mas lá da ribalta, bem no segundo plano, os desfiles dos próximos anos.

Demetrio Carneiro

sábado, 19 de março de 2011

ECOS DO PASSADO E AFIRMAÇÃO DO PRESENTE.

Dilma falou...

E, para quem pouco fala, falou bastante. Ai abaixo, no final do post, vão as avaliações de Tony Volpon.

De meu ponto de vista registro basicamente a confirmação de que a política econômica será tocada pelo conceito de gatilho a ser disparado por um piso de crescimento previsto para 4,5%/ 5%.
Sendo assim há limites para tudo que crie obstáculo ao piso, o que explica o corte com contra-corte destinado a mudar a operação contábil, mas não a proposta do gatilho. Da mesma forma explica a mudança da política de atacar o centro da meta inflacionária pela política de tolerar variações dentro da banda sem que o núcleo seja o gatilho da Selic. Segundo Dilma variações para baixo (magnanimidade?) ou para cima.

Como diz o Tony, abaixo, é o trade-off, clássico, entre crescimento e inflação. Dilma parte da lógica desenvolvimentista presente em amplos segmentos do PT e de outras forças de esquerda: Só o crescimento e o forte papel do Estado, pela via do gasto, implementação do investimento e do estímulo ao gasto das famílias, são capazes de garantir uma política distributivista, direta ou indireta, contínua. É dentro da lógica do distributivismo que encara com tranqüilidade o aumento do salário mínimo previsto para 2012. Na realidade a gestão Dilma assume claramente um lado na questão do Estado e da partição da renda.
Na lógica desenvolvimentista mais clássica, como a atual, cabe ao mercado interno o pólo dinâmico e sustentável de crescimento, tendo o consumo das famílias papel preponderante. É realmente a escolha pelo consumo como pólo dinâmico, o que sustenta todas as políticas de expansão de crédito. A trava dada agora foi uma trava macro-prudencial ou seja pontual. Em notícia de hoje avalia-se que a decisão de aumentar a margem de compulsório, por exemplo, retirou da economia R$75 bi o que não é exatamente um valor desprezível.

Na realidade é um mix de política econômica onde se aceita o princípio da estabilidade fundado na lógica do tripé, desde que não afete o piso de crescimento projetado. É uma relativização condicional do conceito de Estabilidade.

Para cima a conversa é bem outra. Quando Dilma questiona o “teto” de crescimento, dentro da lógica de que há um limite estrutural a partir do qual o crescimento perde impacto e vira inflação o faz repetindo um discurso já existente de que ninguém é capaz de determinar com precisão onde está o teto: 5%, 5,5% etc. e assume, portanto, que nos período de forte expansão o governo buscará o teto experimentalmente, que é meio o que veio sendo feito agora. Enfim, há um gatilho para baixo, mas não há um gatilho para cima. Evidentemente esta lógica de tolerância para cima afetará o conjunto de desempenho do pensamento econômico do governo, inclusive o BC.

A questão distributivista no seu sentido mais amplo merece uma observação a mais. Sendo o eixo central da política do gatilho do piso mínimo pode levar a questões complicadas :

Uma é a admissão de que a inflação é tolerável desde que se mantenha a proposta básica e enveredarmos pelo caminho do inverso do que se pretende com um crescimento comprometido. Convém alertar que a perda da memória inflacionária de nosso passado é relativa, já que as pesquisas de percepção indicam um grau de preocupação com a questão disseminado entre a população;

Outra é a que se refere ao resultado concreto. A estratégia de governo para executar esta proposta distributivista no seu sentido mais amplo de partição de renda a partir do Estado é firmada na promoção apenas na faixa de população de risco. Acima do risco cessam os efeitos das políticas de promoção. Quer dizer o aumento da renda via salário mínimo, importante para os segmentos não qualificados da população, com um bom exemplo no setor de trabalhadores que atendem a classe média, tipo empregadas, faxineiros etc., ou o pagamento dos benefícios de previdência ou o pagamento da Bolsa-Família, pode ter forte impacto num mercado interno sempre capenga da participação de amplos segmentos da população brasileira, pode ter impacto na PNAD promovendo a incrível e recente mudança na base social. Lembrando que essa mudança só se viabilizou pela via da promulgação da Constituição de 1988.

Muito bem, o problema da atual lógica é que a renda não resolve a promoção social sozinha.
Há, por exemplo, uma forte, midiaticamente falando, política de promoção de direitos. Mas é mais midiática que concreta e a prova está na execução orçamentária. Hoje, também, o Portal Contas Abertas divulga que a Secretaria da Igualdade Racial desembolsou menos da metade de sua verba. Certamente não será por falta de objeto, mas de objetivo.

Infelizmente agregado ao conceito desenvolvimentista clássico, que é o dominante, a visão de Delfim Netto, de distribuir por conta do crescimento do bolo, é a prevalente. Fala-se em crescimento como “receita mágica”.
Não o crescimento não é receita mágica. Se fosse todas as nossas décadas de crescimento econômico, acima do crescimento vegetativo teriam gerado necessariamente outro perfil de distribuição de rendas, que é tão absurdo hoje quanto era 20, 30, 40 ou 50 anos atrás, quando começou o atual ciclo de crescimento mais acelerado, com relação ao passado anterior entre o início do século e a década de 60.
Nenhuma coincidência no fato de 30% dos mais ricos do mundo, na relação da Forbes, serem brasileiros.

Acima da faixa de pobreza o que garante promoção social é ensino qualificado que gera o emprego qualificado. É bom não esquecer que a máquina que elegeu Dilma foi montada pela retirada da qualidade do Ensino Básico como prioridade e sua substituição pelo PAC.
A construção de uma sólida estrutura capaz de fornecer um ensino básico de qualidade é uma questão de tempo e vontade política, mas é a partir desta base concreta que se constrói um processo de autentica promoção social.

De outra forma não adianta ter pessoal qualificado se não em áreas voltadas para a economia sustentável, o que representa a necessidade de repensar todo o nosso modelo de desenvolvimento.
A exportação de commodities pode ser um bem ou um mal. Anotem, para não esquecer, que uma das pautas mais importantes da visita de Obama é assinar um acorde de fornecimento de petróleo bruto para os EUA.
Poderemos, como nos últimos 500 anos, exportar material bruto e dar ao país praticamente nada e, quando se esgotarem as commodities finitas, apenas lamentarmos o azar ou podemos usar o processo para financiar outras escolhas, que sejam sustentáveis.

Isto, por sua vez, vai nos remeter ao Custo-Brasil e aos gargalos de investimento que a política de transformar o BNDES num banco de investimento três maior que o Banco Mundial absolutamente não resolve.

Enfim, todo este debate sobre gatilho para baixo, inexistência de gatilho para cima ou relativização do conceito de Equilíbrio é apenas uma ponta de outro debate. Quer dizer, pensar assim não retira a essencialidade e importância da discussão da política econômica de Dilma, mas é importante que se perceba onde um debate fica inserido em relação ao outro.
Quem muda, taticamente é bom esclarecer, é o projeto nacional-desenvolvimentista que agora confirma a aceitação da Estabilidade, mas relativizada, para alívio de muitos.
Menos mal, pois foi este mesmo projeto que navegou, sem medos ou receios, pelo menos inicialmente, tanto pela irresponsabilidade fiscal, quanto pelo regime de alta inflação.

Entretanto é bom frisar que a aceitação tática anda muito longe de representar uma mudança do pensamento central, que permanece o mesmo dos últimos 50 anos.
Demetrio Carneiro



Abaixo a nota do Tony:

Em sua primeira entrevista como presidente ao jornal financeiro Valor, publicada hoje, a presidente Dilma Rousseff fez uma série de observações importantes sobre a economia brasileira, que resumimos abaixo:

1. Ela julga a que a atual crise japonesa "atrasará um pouco" a recuperação mundial, mas que conduzirá a uma maior demanda por petróleo e gás natural em substituição a energia nuclear.

2. Ela considera que o desenvolvimento do petróleo do "pré-sal" como estratégica para o desenvolvimento econômico nacional; que ela o chama de "passaporte para o futuro" do Brasil.

3. Ela diz que vai "não permitir que a inflação volte ao Brasil." Mas ela também diz que acredita que o Brasil vai crescer 4,5-5% este ano, e que "não há incoerência entre o corte de R$50 bilhões em gastos e entregar R$55 bilhões para o (banco estatal de desenvolvimento do Brasil) BNDES, para sustentar os investimentos ".

4. Continuando na frente macroeconômica, ela afirma que "a velha discussão sobre o potencial de crescimento tem de ser revisitada" e que ela não acredita que a inflação no Brasil é devida ao excesso de demanda. Relativamente ao último ponto, ela afirma: "[este é o lugar onde] nós divergimos com determinados segmentos. Nós não pensamos é um problema de demanda ... é óbvio que temos tido ultimamente uma alta no preço dos alimentos ... e pressão sazonal. Quando perguntada sobre a inflação de serviços, que bateu o nível de 8%, ela respondeu:" nós temos que acompanhar isso. Mas não é possível dizer que o Brasil está crescendo além de sua capacidade e assim que o crescimento está causando a inflação. "

5. Dilma Rousseff também diz que não irá "derrubar o crescimento", mesmo que ela prometa reduzir os gastos correntes. Ela descreve sua política fiscal como "consolidação fiscal" e não uma política de contenção orçamentária.

6. Ela diz que sua política quanto a inflação é manter a inflação na meta, mas "nós temos a parte ascendendo ou descendendo na banda". Quando perguntado sobre as dúvidas do mercado sobre o Banco Central do compromisso do Brasil (BCB) de combate à inflação, ela disse que o mercado às vezes acerta, às vezes erra, e que ela acredita em um "Banco Central profissional e autônomas".

7. Quando perguntado sobre os riscos da inflação decorrente do aumento, esperado, de 14% do salário mínimo em 2012, Dilma Rousseff justificou a regra atual (correção da inflação anual, mais o crescimento do PIB de dois anos) como sendo justa para dar aos trabalhadores parte do crescimento e da produtividade ganhos vistos no passado. Ela diz que a regra atual "não é a indexação, e quem diz isso não se preocupa com o trabalhador brasileiro".


8. A entrevista deixa claro que há áreas de divergência entre o governo e o mercado, mas também apresenta nuances de ponto de vista sobre as principais questões macroeconômicas. A recusa em admitir qualquer tipo de trade-off entre inflação e crescimento podem ser em parte uma estratégia para manter elevado o "espírito animal" e da necessidade, que é política, de não admitir ajustes fiscais como consequência da política induzida de sobreaquecimento da economia. A ênfase na explicação do choque pelo lado da oferta para a inflação atual é, também, acreditamos, uma defesa do uso excessivo do “escorvar a bomba”*, feito por seu antecessor em ano eleitoral. No entanto, mesmo com os ajustes que estão sendo feitos há uma clara escolha de investimentos “direcionados” que irão adicionar capacidade de produção futura independentemente de qualquer esforço para controlar a inflação, o que é consistente com a visão do governo de que foram os pesados investimentos do BNDES, que "salvaram" a economia brasileira, de uma grande recessão durante a crise financeira. Sua defesa da política de salário mínimo atual é na mesma linha, com o seu governo acreditando que o forte crescimento do consumo é a chave para o desenvolvimento social e econômico em curso.

Apesar da insistência de Dilma Rousseff de que ela não vai "negociar" com a inflação há outras "metas" importantes em sua política macroeconômica: Da sustentação dos altos investimentos até a utilização da política salarial como um instrumento de redistribuição de renda.
O como ela equilibrará as escolhas, no sentido do trade-off econômico básico “crescimentos versus inflação”, é que determinará em grande parte o sucesso de seu governo.

*Mecanicamente significa uma sangria que retira as bolhas de ar que impedem que a água seja sugada por uma bomba hidráulica. Em economia trata-se de um conceito keynesiano que envolve estímulo pela via da despesa pública para manter ou elevar níveis de demanda.NT(DC)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

POCHMANN SAI DO IPEA

Ai está uma notícia que merece ser considerada, quando realmente ocorrer e se, de fato, houver uma inflexão significativa.
O IPEA teria uma evidente missão de dar suporte acadêmico ao planejamento de governo. 
Não foi o que se viu ao longo da dessa gestão onde o que se praticava era um engenharia reversa, que expusemos diversas vezes aqui, cuja proposta era "adequar" a realidade ao pensamento 
nacional-desenvolvimentista domimante no PT, e não apenas lá, é bom frisar. 
Pochamann foi um entusiasta apoiador da candidatura de Dilma. Acaso deixe o IPEA vamos ver se lhe sobra algum regalo
Acredito que, independentemente do debate que mantemos contra o nacional-desenvolvimentismo dominante, pelo menos poderemos, talvez, manter o bom debate e não o monólogo estéril dos últimos anos.


Demetrio Carneiro

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

AVALIANDO O GOVERNO DILMA 1

Primeiro mês, diversas avaliações estão em curso.

Vou arriscar a minha:
O grande vencedor do debate econômico foi Serra. Afinal foi ele, durante a campanha, quem de fato ressaltou a importância de coordenar as políticas econômicas a partir da lógica nacional-desenvolvimentista.

Quer dizer, não se trata bem de subordinar a política monetária à política fiscal pura e simplesmente, como gostaria Mantega. É um ponto acima, algo mais sofisticado, onde ambas as políticas devem se adequar convenientemente ao projeto final. O “alargamento”, não da capacidade de variação da banda, mas o de fato, cobrando tolerância maior com a inflação ou o faz-desfaz das promessas de superávit são consequências da necessidade principal de manter o projeto. Assim, a economia é meio que moldada a essas necessidades. Não é outra a lógica que fechou as contas do superávit do ano passado incorporando as latas de óleo enterradas a alguns quilômetros de profundidade no leito do oceano. Haja esperança!

Pior para o Banco Central, nomeado único guardião possível da Política de Estabilidade, que todos detestam, mas, não tendo como dela se livrar, acabam burlando.
Tombini em Davos dá ao banco uma dupla responsabilidade, inflação e câmbio, como se manter apenas a primeira, sem qualquer condição de coordenação real com o lado do gasto pelo gasto, fosse moleza. Tudo bem, a palavra da vez é coordenação mesmo. Caberá ao BC que já paga os pecados da política fiscal, pagar agora os pecados da política cambial. Vamos lá. O santo deles é forte.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

TEORIA E PRÁTICA

A crise que avança pela Europa já tem nome: PIG. Os BRICs, por conta da Rússia, podem virar CRIB. E economia americana já está levando Obama a buscar inspiração no Chávez e acusar a oposição pelos problemas.
Aguardamos alguma formulação dos nossos nacional-desenvolvimentistas ou novo-desenvolvimentistas, se preferirem, que explique por que afinal todas as cantatas, óperas e versos que saudaram a retomada do projeto estatizante (não corro o risco de chamar isso de keynesianismo para não ofender Keynes) e do gasto público não estão funcionando.
A leitura era de que essa etapa da humanidade culminava com a derrota final do “neo-liberalismo” (que seria o rentismo explorador da burguesia capitalista aliado a um conceito nocivo ao progresso e ao bem-estar dos povos do planeta: a estabilidade econômica).
Enfim, depois de gastar tudo o que tinham direito, os governos não conseguiram muito mais que segurar a onda de segmentos do setor financeiro, garantindo, para horror de Obama, que só agora se deu conta, que o prejuízo vai para o contribuinte. Pelo visto terão que continuar gastando. O tal modelo em “W” está cada vez mais famoso.
Enquanto isso aquele conceito ultrapassado, o tal de “confiança dos agentes econômicos” parece que resiste a ser mudado por decreto. Que coisa!

Demetrio Carneiro