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sábado, 15 de outubro de 2011

OCUPE O COPOM: WALL STREET É AQUI....

Frente a crise que vai se adensando a saída do governo Dilma é o populismo econômico.

Segundo o Blog, chapa-branca, do Nassif, para a próxima reunião do Copom está sendo organizada uma manifestação semelhante à realizada na última, com as mesmas entidades chapa-branca de antes UNE, UBES.

Como Dilma deverá ter com o presidente do BC a conversinha que teve antes da última reunião do Copom, a óbvia conclusão é que o esquemão se repetirá. O “povo” nas ruas apoiará a demanda presidencial.

A novidade agora será a atualização das pressões. Seguindo a mesma linha do ir para as ruas protestar contra o sistema financeiro que está nas manchetes dos jornais do Centro, ainda, segundo Nassif, será lançado no dia da próxima reunião do Copom, 18, "o manifesto ‘Ocupe o Copom: Wall Street é aqui’, uma iniciativa dos sindicatos dos Metalúrgicos do ABC e de São Paulo, com assinatura de economistas, lideranças populares e entidades da indústria."

Certo, economistas e lideranças populares nós já imaginamos quais serão. A notar que esqueceram os “artistas” e acrescentaram “entidades das indústrias”. Será muito produtivo verificar quais as “entidades” que assinaram a chamada para as ruas. Sendo real estaremos entrando numa nova fase do populismo brasileiro.

Seja lá como for é um caminho perigoso esse escolhido por Dilma. Nem está isento de riscos para ela, nem está isento de riscos para a democracia brasileira. Há muita diferença entre fazer política e leviandade.

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

INFLAÇÃO E AUTONOMIA DO BC: A LEITURA SIMPLIFICADORA DO POPULISMO ECONÔMICO E SUAS POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS

        Antes que possa parecer que se trava uma batalha indevida por conta  de meio ponto percentual a menos na Selic, e independentemente do debate sobre o fim da autonomia do BC,  é preciso esclarecer algumas coisas.
     
       A leitura populista da economia, por ser ideológica, gera necessariamente um pensamento simplificador da realidade. Num ambiente onde todas as partes se falam pode não ser uma boa solução pensando nos termos de políticas públicas que sejam eficientes e pensando que nesse caso ser eficiente significa entregar o prometido.
      Em termos desse momento é preciso ter em vista que o populismo econômico, com o pensamento focado na sobrevivência política, quando se trata de escolher entre crescimento e inflação, sempre tende a escolher a última opção. De fato meio ponto percentual é pouco e por si próprio e,talvez, não altere muito as coisas, como visivelmente é a esperança de alguns, além  de enviar poderosas imagens políticas, como é a esperança de outros. Mas provavelmente seja esse o problema, já que parte substancial da política monetária tem a haver com expectativas e a sinalização é de que houve uma clara escolha no dilema. Enfim, fora do espaço populista o que a escolha que foi feita ontem indica é uma postura política de tolerância com a inflação num quadro extremamente incerto. Normalmente a conseqüência é mais inflação.
      Há evidentes pontos de incerteza como a questão dos    reajustes salariais do funcionalismo público. Embora Dilma tenha sinalizado uma intolerância com novas demandas, nem sempre o gestor pode decidir pelo agente político, quando o gestor também é o agente político.
      Dito dessa forma cabe comentar a notícia publicada hoje na Folha de São Paulo: Revolta do Supremo deve forçar Dilma a refazer Orçamento.
      Ano passado o legislativo concedeu-se generosíssima e induscutida correção de vencimentos. De forma amiga deu uma carona ao executivo, que também não discutiu. De forma pirracenta deixou o legislativo de fora da bondade. Ao longo do ano houve embates entre legislativo e judiciário e foi uma forma de puxar a orelha dos senhores juízes. Que basicamente silenciaram. Mas não por muito tempo. Agora a fatura está sendo apresentada. Como o judiciário tecnicamente é outro poder nada aponta uma discussão fácil, principalmente após os auto-aumentos dos outros dois poderes.
       Seja como for a cultura brasileira ainda parece ter registrada a cultura da indexação salarial. E uma inflação na casa dos 7% pode representar perdas severas no poder de compra, principalmente na área mais sensível dos alimentos.
      As notícias de ontem informam que Dilma está particularmente atenta aos efeitos da inflação sobre as camadas de população mais pobre.
        É aguardar e observar.
       Quanto à questão da autonomia do BC, nós mesmos já havíamos defendido, bem antes das eleições, aqui mesmo no Blog e em textos escritos na Revista Política Democrática, que o governo devia mirar numa meta de crescimento e que deveria haver meios institucionais de coordenar a ação entre a Fazenda, na questão da política fiscal e o BC, na questão da política monetária. Infelizmente coordenação institucional tem nada a haver com subordinação e pressões laterais “espontâneas” ou diretas, como deve ter sido a reunião entre Dilma e o presidente do BC, Tombini, antes da decisão do corte. Muito provavelmente não foi um convite para o chá das cinco.
Escolher entre coordenar e subordinar marca a distancia entre politicas públicas responsáveis e sustentáveis e o populismo econômico.
Como, e de fato, a coordenação institucional não é um bicho de sete cabeças, a conclusão só pode ser a de que o ato de subordinar o BC ao Ministério da Fazenda e à Presidência é um ato pensado e intencional, correspondendo de fato a uma dada forma de perceber a economia, o papel do Estado e a questão do desenvolvimento.
Não se trata de improviso. Como dissemos em outro post não estamos lidando com amadores.
Demetrio Carneiro

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O POPULISMO COMO PONTO DE INFLEXÃO

      Ontem a política econômica sofreu um ponto de inflexão. A texa Selic recuou. Certamente haverá todo tipo de apoiamento, pois o circo já estava montado.

     Sintomática dessa inflexão não foi apenas a manifestação "espontânea" frente ao BC, mas a passeata pelo centro de Brasília e a recepção dos manifestantes pela presidente, com direito a entrega de manifesto contra a taxa de juros e mais gastos sociais, promessas de amor mútuo e tudo mais. Dilma se aproxima dos movimentos sociais. Pelo menos dos que são financiados e suportados pelo Estado.

     Após quatro mandatos presidenciais onde, por tentativas envolvendo erros e acertos, a Política de Estabilidade foi posta à prova, nesse quinto mandato o novo norte será o populismo desenvolvimentista que, por sua natureza, não tem compromisso com a Estabilidade, mas com os resultados eleitorais.

     Não é preciso esperar pela Ata do BC para saber o que houve, principalmente num dia onde o Orçamento de 2012, ano eleitoral num governo nitidamente envolvido em lógicas de ciclo econômico-político, confirma a entrega do salário mínimo em´um nível de correção, despesa a mais de R$ 21 bi,que certamente terá forte impacto fiscal, mas impacto maior ainda nas expectativas dos agentes econômicos, inclusive trabalhadores. De outro lado os sinais desse momento econômico são bem claros e não dão tanta margem a interpretações otimistas sob o controle do processo inflacionário. O BC, pressionado politicamente, atravessou o estreito limite entre a aventura e a prudência, já que o governo não parece muito interessado em entregar de fato o controle fiscal que prometeu, embora faça juras diárias.

    A questão da inflação tem forte componente nas expectativas e o recado passado já foi suficientemente claro: Vamos continuar flexibilizando tudo, desde que não comprometa um piso mínimo de crescimento. Se houver um ganho político a se realizar, por que não?

     Presa nos mesmos compromissos ideológicos do nacional-desenvolvimentismo a oposição certamente ficará neutralizada e não se dará conta do mais óbvio que foi a criação do fato político, da mudança de foco, do tirar da cena a questão da corrupção e do patrimonialismo e trazer para ela o debate do desenvolvimento. A agenda política foi alterada pelos três fatos em paralelo: Redução da taxa Selic, confirmando a promessa de campanha de Dilma. Apresentação do Orçamento de 2012, entregando o salário mínimo fortemente reajustado e um pacote de programas socias reforçados pelo Brasil Sem Miséria, novo carro-chefe midiático e pelo programa Minha Casa, somando ambos algo por volta de R$ 30 bi. O novo PPA tem mais Brasil sem Miséria e mais 2 milhões de residências, sendo 1,2 milhões para rendas familiares menores de R$ 1,6 mil.

      O pacote desenvolvimentista, e nele bom bom incluir a noção de piso de crescimento que deu origem à inflexão e à pressão política à qual o BC respodeu favoravelmente, está posto na mesa e aparentemente o populismo econômico será o novo personagem convidado para a festa. Mantega está com tudo e, talvez, já possa alimentar ambições mais elevadas.

      Incapaz de qualquer proposta mais consistente para o desenvolvimento e amarrada na mesma raíz populista é provável que a oposição assista não no camarote, mas lá da ribalta, bem no segundo plano, os desfiles dos próximos anos.

Demetrio Carneiro