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quarta-feira, 4 de abril de 2012

COMO USAR O NACIONALISMO PARA ALAVANCAR O NEOPATRIMONIALISMO

O Plano de Dilma e Mantega não poderia ser muito mais do que foi: Nacionalismo de oportunidades. O pensamento econômico governista não é estratégico, não tem propostas reais de longo prazo, ainda que alguns setores especializados dentro do governo as tenham. O pensamento governista é tático. Orienta-se para o dia a dia e para o uso do Estado no sentido de reforçar o projeto de poder.

Evidente que qualquer plano econômico tem reclamações, pois jamais plano algum alcança o conjunto dos interesses existentes e é possível afirmar que aqueles que reclamam estão reclamando por não terem sido beneficiados. Pode até ser verdade em muitos casos. Mas também é verdade que este plano tem endereço e se destina a reforçar os condôminos do consórcio de poder.

Neopatrimonialismo no Brasil ainda é um conceito em construção, mas pode ser simplificado pelo uso da noção da privatização do público. A transformação dos bens e serviços púbicos, o uso do Estado, em favor de grupos que atuam na busca de benefícios privados. No caso do neopatrimonialismo o que vale é a rede de relações que tudo permeia ligando agentes públicos, agentes políticos e agentes privados.

Talvez, e para este plano, o melhor exemplo sejam os Conselhos, setoriais, de Competividade. Sob um nome tão sugestivo não passam de conselhos de amigos da rainha, unidos em nome de uma suposta moderna proposta de governança, cuja finalidade evidente é usar o termo da moda, competição, para garantir interesses corporativos. A lembrança do consultor Pimentel, 100% a melhor imagem do comprometimento do agente público com o neopatrimonialismo, de que aqueles que podem reclamar destes conselhos são saudosistas do passado da ditadura, apenas serve para mostra uma deliberada intenção de misturar as cartas e confundir o jogo midiático transvestindo uma proposta arcaica em moderna ou até revolucionária.

Outro bom exemplo é a defesa da indústria automobilística “nacional” de si própria. Desde sempre as cadeias produtivas da indústria de automóveis, cujo segmento mais importante está nos países do Centro, são protegidas do Estado-Nação brasileiro. As elites dirigentes do Estado-Nação inventam o discurso de defesa nacional por interesses de sobrevivência política e a indústria ligada as cadeias produtivas é a beneficiária desses discursos. Contudo e desta vez chegamos ao paroxismo do Estado-Nação que pretende defender a cadeia produtiva dela mesma, já que os maiores importadores de carro são justamente as cadeias aqui instaladas...

Para finalizar vale registrar a ridícula afirmação de Dilma ao ser questionada por um dirigente da central sindical UGT quanto ao spread bancário: “Precisamos estudar mais o assunto...”. Difícil imaginar o que a presidente podia estar pensando quando deu essa resposta, mas certamente não tinha a haver com assuntos econômicos. Fazer de conta que não sabe que o altíssimo spread bancário tem tudo a haver com a fortíssima rede bancária de formato oligopolista e que a única solução é democratizar o crédito aumentando a concorrência bancária é uma reação primária e só mostra o nível de compromisso dentro da rede neopatrimonialista.

Claro que a desculpa do alto spread privado também é uma porta aberta para reforçar o crédito público e aumentar a estatal-dependência das empresas, reforçando a rede neopatrimonialista. Não há melhor formato para garantir contribuições de campanha...

Demetrio Carneiro

terça-feira, 27 de março de 2012

O QUE O PSEUDO-NACIONALISMO DO DEBATE SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO OCULTA

O sangue nacionalista ferve.

Desindustrialização é a palavra mágica que a todos une: A extremíssima esquerda até à direita mais fascista. Todos unidos entorno do dogma do Estado-Nação nacional-desenvolvimentista.

Estão destruindo a "nossa" indústria. Nossa aqui é um genérico bem adequado à nossa variedade de capitalismo. Vai desde o micro-empresário desassistido e hiper-explorado pelo amigável sistema bancário "brasileiro", e que vive custos transacionais absurdos, até as pontas da cadeia produtiva mundial cujo núcleo lucrativo e dinâmico está nos países do Centro do Sistema-Mundo. Aliás a indústria das cadeias produtivas "brasileira" luta contra suas concorrentes "estrangeiras" com intenções de aqui se instalar.

O texto abaixo, replicado pelo Instituto Millenium, ajuda a desvendar os mistérios desse tipicamente brasileiro nacionalismo de oportunidades.

Demetrio Carneiro


Desindustrialização ou lobby?

27 de março de 2012
Autor: João Luiz Mauad

Alguém já disse: torture os números e eles confessarão qualquer coisa. De fato, as estatísticas são, hoje em dia, as grandes aliadas dos mistificadores, que as utilizam de forma indiscriminada para dar aparência científica às falácias e mentiras em prol de suas causas. Você pode desenvolver rígida argumentação lógica a respeito de um assunto sem convencer muita gente, mas basta acrescentar alguns números, tabelas e gráficos para respaldá-la e as pessoas passam a olhar os seus argumentos com outros olhos.

Um exemplo gritante disso apareceu na “Folha de S.Paulo”, de 9 de março. Nesse dia, uma matéria naquele diário informava – sob o título “Participação da indústria no PIB recua aos anos JK” – que “a participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro recuou aos níveis de 1956, quando a indústria respondeu por 13,8% do PIB. De lá para cá, a indústria se diversificou, mas seu peso relativo diminuiu. O auge da contribuição da indústria para a geração de riquezas no país ocorreu em 1985: 27,2% do PIB. Desde então, tem caído.”

Malgrado o título bombástico, até aqui a matéria é meramente informativa e apenas noticia um fato que as estatísticas a respeito desvendam. Seu uso oportunista só fica claro a partir do ponto em que se começa a apontar eventuais causas para um suposto problema. Assim, depois da introdução, entra em cena o senhor Paulo Skaf, que vem a ser o presidente da Fiesp. Eis o que diz o valente: “Temos energia cara, spreads bancários dos maiores do mundo, câmbio valorizado, custo tributário enorme e uma importação maciça. A queda da indústria no PIB é a prova do processo de desindustrialização.”

Exceto pelo exagero de afirmar que há no Brasil – um dos países mais protecionistas do mundo – volumes de importação maciços, quase tudo o que ele diz, fora a conclusão, é a mais pura verdade. O problema é que temos ali várias verdades sendo ditas com o propósito de retirar delas conclusões absolutamente falsas.

Primeiro, a maioria dos entraves listados por Skaf, além de outros tantos integrantes daquilo que se convencionou chamar de Custo Brasil, não prejudicam somente a indústria, mas todos os setores da economia. Segundo, se a queda da participação relativa do setor manufatureiro no PIB é prova da famigerada desindustrialização, então o que temos hoje é uma desindustrialização mundial.

De acordo com dados compilados pelas Nações Unidas, a queda da participação do setor de manufaturas no PIB é um fenômeno global, a exemplo do que já ocorrera anteriormente com a agricultura. Assim, de 1970 a 2010 esta queda foi de 24,5% para 13,5% no Brasil, de 22% para 13% nos EUA, de 19% para 10,5% no Canadá, de 31,5% para 18,7% na Alemanha e de 27% para 16% no mundo inteiro. A causa dessa queda generalizada não está, evidentemente, numa suposta desindustrialização, mas no aumento da participação de outros setores, antes irrisórios, como serviços em geral, comércio, finanças, saúde, educação, ciência e tecnologia etc. A verdade é que a produção total da indústria no mundo, se não está no seu pico, está muito perto dele. Já a produção industrial brasileira é certamente muito maior hoje, em termos absolutos, do que era em 1985, ano em que, segundo a matéria, o setor manufatureiro alcançou a sua maior participação relativa no PIB.

Desindustrialização e Doença Holandesa são duas expressões caras aos lobbistas da indústria local. 
Uma rápida pesquisa com essas palavras no Google mostra diversos estudos e trabalhos “científicos” a respeito, repletos de gráficos e tabelas, a maioria deles patrocinada por entidades como Fiesp, CNI e congêneres. Esse é também um importante nicho do pensamento nacionalista e intervencionista, utilizado amiúde para defender interesses, vantagens e privilégios diversos junto ao governo. Os pleitos desse pessoal não costumam variar muito. Seus alvos prioritários são as ditas políticas industriais (geralmente baseadas em subsídios e isenções fiscais) e protecionistas, leia-se: controles cambiais e barreiras alfandegárias/tarifárias.
O argumento aparente é quase sempre a criação e manutenção de empregos domésticos, mas a real intenção é a transferência de renda de consumidores para produtores ineficientes. Para que a estratégia seja 100% eficaz, a manipulação da opinião pública e o consequente respaldo político são essenciais, é claro.
Fonte: O Globo, 26/03/2012