quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ESTADÃO: BANCO MUNDIAL ELOGIA BRASIL PELO 126º LUGAR EM RANKING DE FACILIDADE PARA FAZER NEGÓCIOS

Ops!, eu já andavam desconfiando que o Banco Mundial tinha ipeado – Ipear: significa procurar explicar o inexplicável sempre que a realidade colidir com os fatos – mas agora ficou meio exagerado. Acho que nem o Pochmann ia colocar no Relatório das Belas Ações de Governo como vantagem ter caído seis posições, de 120º para 126º, num ranking de 183 países. Essa queda para cima está no relatório Doing Business 2012 (Fazendo Negócios 2012) lançado ontem, quarta, pelo Banco Mundial.

Tudo bem, quando vc se perguntar qual a razão para alguns países crescerem mais rápido do que outros a minha sugestão é que comece pelas transações, pelo grau de dificuldade que existe para realizar transações e pelo papel do governo em facilitá-las ou fazer o inverso.

Quando vc quiser discutir sobre desenvolvimento, antes se pergunte se dá para discutir desenvolvimento num país que consegue se colocar entre os piores do mundo no quesito facilidade de negócios. Leia o relatório mencionado acima é um bom começo para entender o que vem acontecendo.

Claro, se vc for nacional-desenvolvimentista não vai estar preocupado com isso, pois vai achar que desenvolvimento é problema resolvido pelo Estado. Até porque para vc as empresas que interessam são os monopólios e oligopólios. Essas empresas têm amigos-assessores no lugar certo e podem pagar exércitos de advogados e contadores para cuidar de assuntos desimportantes. 

Tem muito tempo lí um estudo sobre corrupção. O comentário do autor era de que o problema não é quanto ganha o servidor público, não esquecer que esse foi um dos argumentos que sustentou a forte correção do salários públicos depois de 1988, ou o valor da oferta de corrupção, ou a Ética do Serviço Público ou a moral do Agente Público, mas sim o fato de haver mais ou menos obstáculos para que a empresa privada ou o indivíduo pudesse obter o que necessitava do governo. Enfim, podemos ler assim: Ambientes de negócios confusos, com normas complicadas e de difícil execução sempre serão ambientes favoráveis à corrupção, independentemente de qualquer outro elemento.
A qualidade do ambiente de negócios, além claro das alianças de poder, pode ser uma boa pista para explicar o caráter endêmico da corrupção no aparelho de governo. 

A reparar que o item melhor avaliado é o que está ligado diretamente ao que interessa ao governo e trata da estratégia de expansão do mercado interno via crédito: "O Brasil melhorou o sistema de informação de crédito, permitindo que agências de crédito privadas possam coletar e compartilhar informações positivas"(citando a matéria do Estado).

Enfim, ficar discutindo sobre desenvolvimento e modelos possíveis. É muito simpático. Eu mesmo e muitos outros, gosto desse debate, mas antes talvez seja melhor discutir quais os obstáculos (leia esse texto),  que qualquer proposta terá para que possa dar certo. 

Obs.: Se não for demais pode incluir Infraestrutura, também...Só para entender as diferenças: A China investe três vezes mais que o Brasil em Infraestrutura. A índia duas vezes mais. Enquanto isto continuamos às voltas com uma Lei de Parcerias Público Privadas que ajuda a atrapalhar, num estilo de governo cuja vontade política é Estado e mais Estado. Lembrem:Ambiente de negócios.


Demetrio Carneiro

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ESSES CHINESES SÃO MUUUITO MALVADOS.....

Sintomático pega entre americanos e chineses: Painéis solares. 

Originalmente era para a China fornecer sua baratíssima mão de obra na manufatura de produtos usando tecnologia de propriedade do Centro. Porém, os malvados chineses resolveram desenvolver tecnologia própria e estão disputando com empresas americanas até mesmo dentro dos EUA. 
Pode uma coisa dessas? 

Já nós, os espertos brasileiros, preferimos agir de forma bem educada e compramos do Centro. E agora, quem sabe, dos chineses.


Legal.


Demetrio Carneiro


FALA NA COMISSÃO GERAL SOBRE A CRISE ECONÔMICA DO CONGRESSO NACIONAL

Abaixo o registro da minha fala na Audiência Pública promovida pela Comissão Geral sobre a crise econômica do Congresso Nacional. A AP foi realizada no Plenário da Câmara em 27.05.2009.

Até o momento que falei, acho que fui o oitavo orador, todos os oradores, inclusive o Delfim e o Gerdau, falavam abobrinhas sobre a crise e o desenvolvimento. Quando terminei de falar houve aplausos, mas o silêncio na mesa foi geral. Definitivamente acho que discursos críticos não faziam parte daquele protocolo.

Acho que tem uma constatável linha de coerência que venho mantendo esses anos. Ainda bem...

Demetrio Carneiro

O SR. PRESIDENTE (Deputado Albano Franco) - Dando prosseguimento aos trabalhos, convidamos o Dr. Demetrio Carneiro da Cunha Oliveira, economista, coordenador da Fundação Astrojildo Pereira e do Portal Alternativa Brasil.

O SR. DEMETRIO CARNEIRO DA CUNHA OLIVEIRA - Sr. Presidente, Deputados presentes à Mesa, Ministro Velloso, Sras. e Srs. Deputados presentes em plenário, demais convidados, muito bom dia.

Em nome da síntese e também para dar tempo aos outros oradores, vou ler um pequeno texto que preparei. Esse texto, acho, expressa um pouco aquilo que eu penso sobre essas questões e, talvez, aquilo que grande parte de brasileiros e brasileiras imaginam a esse respeit:o :

O debate sobre a origem da atual crise ou suas consequências em nosso País não terminará tão cedo. Muito provavelmente teremos material para os próximos anos ou décadas. É assim mesmo. É parte de nosso processo de conhecimento e é parte decorrente dos interesses que estão em jogo — e são muitos.

Globalmente falando, o que todos intuem, talvez até por conta da resultante da crise de 1929, é que mudanças deverão ocorrer. Nada deverá ser como antes. Parece haver aqui uma linha de corte. E é no campo das escolhas que se farão que o debate tenderá a se tomar mais consistente a cada dia que passar.

No centro dessa questão está o Estado, sua estrutura, seu papel e funções, e é à volta desse conceito nuclear que deverão se dar os maiores embates. Nacionalmente a questão da crise nos trará de volta a discussão sobre o desenvolvimentismo e, evidentemente, o papel do Estado brasileiro na condução desse processo.

Parece claro que, em algum momento, essa crise será superada e se tornará evidente a necessidade de pensar o "pós-crise". As indicações iniciais são de que, se mantido o atual modelo, nosso crescimento econômico tenderá a ser medíocre e por muito tempo. Não é difícil imaginar mais uma "década perdida".

Então, a questão é procurar estabelecer um outro modelo, que tenha em vista as experiências passadas e seja resultado dessa revisão crítica. Podemos e devemos recriar nosso futuro.

O jornal Estado de São Paulo, edição de ontem, 25 de maio, noticiou uma avaliação feita pela Organização das Nações Unidas no que se refere às políticas públicas sociais no Brasil. Em linhas gerais, a avaliação se refere à sua pouca efetividade. Para aqueles que, como eu, lidam com o movimento social — sou Presidente de uma OSCIP — não se constitui novidade.

A política pública social não é questão de vontade, algo do tipo "a sociedade não quer mais que os pobres permaneçam pobres", mas de efetividade. Efetividade, nesse caso, passa por políticas que de fato promovam e transformem. Não estamos falando em eventos de mídia, mas em mudar a qualidade de vida das pessoas de forma permanente e estável. As políticas públicas sociais precisam ser reavaliadas, revistas. É certo dizer que o Estado deve intervir na questão de distribuição de renda e promoção social, mas não é suficiente dizer; é preciso realizar.

O balanço do desenvolvimentismo brasileiro e das décadas de sua efetivação tem dados positivos e negativos. Positivamente falando, as políticas desenvolvimentistas nos trouxeram, sim, crescimento econômico, mas, por serem incapazes de mudar as premissas básicas, também foram incapazes de mudar o perfil de distribuição de renda de forma significativa, foram incapazes de trazer um crescimento contínuo e significativo.

É aqui que nos deparamos com o Estado. Existe uma visão de processo que dá ao Estado papel único e transcendental, como se ele pairasse por sobre a sociedade. Apenas não é o que ocorre. O Estado brasileiro tem-se mostrado historicamente vulnerável aos interesses de grupos econômicos e corporativos. O Estado brasileiro gasta muito e gasta mal. Entre nós o gasto é instrumento de poder e controle, tanto no sentido federativo, como no sentido republicano, como na relação com as entidades do movimento social e a sociedade civil.

O Estado real está muito longe do Estado idílico que muitos imaginam como real.Se pretendemos superar essa crise econômica de forma permanente e sustentável, se pretendemos buscar de fato o desenvolvimento econômico, nosso primeiro passo terá que ser a crítica ao Estado brasileiro. O segundo passo deverá ser a sua real democratização, de forma a que atenda às demandas da sociedade.

A Constituição Federal de 1988 foi um importante passo nessa direção, mas não se realizou. Continuamos com questões federativas, nosso pacto federativo tem que ser revisto. Continuamos com questões republicanas, a prevalência do Executivo sobre os outros Poderes tem que ser reavaliada. Todos os mecanismos de gestão participativa sociedade civil/gestão pública devem ser reavaliados criticamente. Os mecanismos de controle social e popular precisam ter efetividade institucional.

Da mesma forma o conceito de desenvolvimento deve ser revisto. Devemos e temos obrigação de incorporar as questões da relação entre industrialização e meio ambiente. Não é possível mais pensar em desenvolvimento sem questionar a nossa matriz de transportes fundada no consumo de combustível fóssil. Ou a matriz de transportes fundada no transporte individual. Não podemos mais aceitar a premissa do desenvolvimento a "qualquer custo". Esse debate tem que ser trazido para a sociedade e ela deve poder escolher.

Esse deverá ser um dos pontos de debate para 2010: a industrialização clássica, aplicada nos últimos anos, é o que nos interessa para o futuro? É o legado que transmitiremos para as próximas gerações? Precisamos nos inserir no novo tipo de economia que se está criando. Fugir do mero papel de fornecedores mundiais de commodities, exportadores de meio ambiente.Devemos questionar nossas escolhas de investimento. Os investimentos públicos devem ser voltados para a redução do Custo Brasil e nas áreas de inovação que atendam à questão de ciência e tecnologia, assim como da sustentabilidade. Para que isso ocorra é necessária a revisão desse conceito de gasto estatal nas atividades meio, é necessário que se rediscuta a relação entre gasto e investimento e se busque mecanismos que nos levem ao investimento e não ao gasto.

Precisamos rever a questão do investimento, trazê-lo para o conceito de microrregião concentradora, agregando os níveis federal, estadual e municipal de forma coordenada e planejada.

Não há como falar em mercado interno sem falar na questão das pequenas, médias e microempresas. Todo um conjunto de programas federais, estaduais e municipais está em andamento, mas precisamos avançar mais nessa área, na direção do cooperativismo, do microcrédito e da integração horizontal e vertical das cadeias de produção e comercialização. Nesse capítulo do mercado devemos buscar relações de cooperação entre Estado e mercado, não apenas relações predatórias, quando o Estado visa apenas a apropriação dos tributos.

No âmbito institucional, precisamos tirar da "prateleira" a Lei de Responsabilidade Social e pensar numa responsabilidade ambiental, mas não como forma de intervenção estatal, e sim como estrutura cooperativa entre Estado, mercado e sociedade civil.

A Lei de Responsabilidade Fiscal precisa ser reavaliada. Temos uma reforma política pela frente que, esperamos, dará mais efetividade à participação do eleitor no processo político institucional.Há outras reformas a considerar: reforma tributária, previdenciária, etc.

Estamos nos especializando em "empurrar com a barriga" a questão institucional, como se esse dado não fosse fundamental para a consolidação da democracia em nosso País e para o nosso desenvolvimento.

Existe, sim, um outro modelo possível de desenvolvimento que devemos debater, não como abstração, mas como fato concreto. Não estamos frente a propostas "belas e sinceras", mas utópicas.

O mundo real estábem a nossa frente. Fala-se muito em aproveitar essa janela de oportunidades. Não aproveitaremos se estivermos dispostos apenas a fazer um pouco mais do mesmo de sempre.
A realidade ambiental, as profundas transformações econômicas estão exigindo respostas que ou seremos capazes de produzir — enquanto sociedade e o Estado têm de expressar isso — , ou estaremos condenados e permanecer sempre "potenciais", "futuros", "simpáticos", mas apenas isso.

Obrigado e bom dia. (Palmas.)

O SR. PRESIDENTE (Deputado Albano Franco) - Muito obrigado, Dr. Demétrio Carneiro da Cunha Oliveira.

PARA CONHECER O LEGISLATIVO BRASILEIRO: OS POLÍTICOS POR ELES MESMOS

Nossas instituições republicanas vivem um momento bastante complexo. No bojo de inúmeras denúncias de corrupção e até mesmo de supervalorização de salários o legislativo vem sofrendo um fortíssimo desgaste. De casa representativa que nos deu Constituição de 1988 e normas como a Lei de Responsabilidades Fiscal, ou casa que soube expurgar o poder executivo, a antro de ladrões, há um longo, mas historicamente rápido, caminho.

As práticas de aliança fundadas na necessidade de maiorias absolutas acabaram cobrando seu preço. As necessidades de sobrevivência da atual coalizão colocaram no centro das relações entre o poder executivo e o legislativo uma forte estrutura patrimonialista e a blindagem da todo poderosa presidência da república, certamente a experiência com Collor pesou, deixou a descoberto as práticas parlamentares de enriquecimento ilícito como práticas exclusivas do poder legislativo e não parte de um projeto de poder que tem como centro da presidência da república brasileira.

Não há república democrática que sobreviva às suas principais instituições: Executivo, legislativo e judiciário. De uma certa forma esse regime presidencialista centralizador, e verticalista no sentido federativo, sob o qual vivemos, tem fortes ganhos com a desmoralização do legislativo e, nesse contexto, as agressivas críticas em bloco que viraram lugar comum na mídia merecem cuidadosa reflexão e o real papel do poder legislativo precisa de avaliações mais objetivas se pretendermos nos manter num processo de democratização e aperfeiçoamento institucional.

Nesse sentido de melhor compreender a casa o livro O Congresso Por Ele Mesmo, uma coletânea de textos organizada por Timothy J. Power e Cesar Zucco Jr.     é bastante oportuno.

O lançamento ontem na biblioteca do Senado Federal não deixou de ter seu lado simbólico, já que no mesmo momento ainda se desenrolava a Audiência Pública na Câmara Federal, com a presença do Ministro dos Esportes, cujo depoimento tentava desmontar o grande número de acusações de envolvimento em atos ilícitos. Era o momento do Congresso assumindo seu papel de controlador social, numa imagem inversa do usual, embora os ministérios estejam sendo postos para a população como uma arena de ambiciosos parlamentares e seus aliados, sendo o executivo uma vítima.

De fato não poderia haver lugar ou momento mais propício para lançar uma obra que trata da auto-percepção dos parlamentares. O que o livro parece apontar é um interessante linha de investigação sobre o comportamento dos parlamentares e da própria casa, a instituição, em seu conjunto. Mas ele também aponta inúmeros campos de pesquisas sobre esse comportamento que podem e merecem maior desenvolvimento. Nesse sentido é uma obra que nos estimula a novas perguntas, que necessariamente deveriam se desdobrar em novas linhas de investigação. Essa é uma curiosidade acadêmica que merece ser sempre estimulada, principalmente em se tratando desse objeto de estudo e da delicada conjuntura da história republicana que atravessamos.

Podemos ficar por aqui, mas garantimos que nessa obra há material para estimular um bom e oportuno debate. Acreditamos que uma olhada no sumário, abaixo, detalhando os temas abordados, já mostrará isso.

Demetrio Carneiro

O CONGRESSO POR ELE MESMO - Autopercepção da classe política brasileira

Organizadores: Timothy J. Power e Cesar Zucco Jr.
Humanitas, Editora UFMG, 2011

Sumário

Apresentação
A pesquisa legislativa Brasileira

Introdução
Ouvindo os próprios parlamentares
Timothy Power e Cesar Zucco Jr.

Esquerda, direita e governo – A ideologia dos partidos políticos brasileiros
Cesar Zucco Jr.

A “coerência” ideológica do sistema partidário brasileiro, 1990-2009
Kevin Lucas e David Samuela

Coligações e ideologias nas eleições para vereador no Brasil – Uma análise econométrica
Eduardo L. Leoni

O presidencialismo de coalizão na visão dos parlamentares brasileiros
Timothy J. Power

Engajamento parlamentar no Brasil
Magma Inácio

Individualismo e partidarismo na lógica parlamentar – O antes e o depois das eleições
Leany Lemos e Paolo Ricci

Famintos por pork – Uma análise da demanda e da oferta por políticas localistas e suas implicações para a representação política.
Barry Ames, Carlos Pereira e Lúcio Rennó

O bolsa família – Visões de cima e de baixo
Natasha Borges Sugiyama

Conclusão
Avaliando o Congresso Nacional Brasileiro
Timothy J. Power e Cesar Zucco Jr.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A PASSEATA DOS PAULOS CONTRA OS JUROS ALTOS EMOCIONA SÃO PAULO

A cidade de São Paulo viveu momentos históricos que certamente marcarão as próximas décadas. De forma original e inusitada as estruturas para-estatais dos sindicatos de trabalhadores e patrões se uniram numa única e estrondosa emoção. 

Foi a Passeata dos Paulos. Paulo Skaf, dinâmico líder dos industriais paulistas e Paulinho da Força Sindical, braço sindicalista do PDT, dinâmico líder de trabalhadores brasileiros. Finalmente a alta burguesia paulista vai às ruas, mas não como na Marcha da Família por Deus, pela Pátria etc. dos dias prévios ao golpe de 1964. Desta vez a elite paulista vai à rua de mãos dadas com o operariado, ambos protestando contra a política do Banco Central de manter a taxa de juros lá na estratosfera. As bandeiras vermelhas deram um colorido todo especial ao evento proleto-burguês.

Para ficar mais marcado o simbolismo e o apelo popular a passeata saiu de um hotel de cinco estrelas nas proximidades da Paulista...

Como recomendação o que poderíamos sugerir é que na próxima passeata procurem lembrar que é o sistema oligopolista de bancos e as financeiras ligadas ao comércio que mantêm altos os juros de financiamentos e do crédito ao consumidor, do qual corajosamente reclamaram na porta do BC. 

Que tal terminar a próxima passeata na porta da FEBRABAN e da CNC? Ou quem sabe não podem ser mais ousados e ocupar a Wall Street brasileira, a BOVESPA?

Demetrio Carneiro


EXISTE DESENVOLVIMENTO COM DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA?

Nos últimos anos têm sido frequentes fortes declarações de presidentes brasileiros naquilo que se refira às relações internacionais. Tanto Lula como Dilma assumiram posturas de dura crítica com relação aos países do Centro, principalmente após a crise de 2008.

Na leitura de ambos a responsabilidade é dos países do Centro e cabe àqueles achar as soluções. Aqui pela Semi-periferia maravilha. As commodities fluem, o mercado interno bomba. Se algo der errado não será por nossa culpa. Será por culpa deles, os banqueiros de olhos azúis.

Claro, são declarações dadas de olho nessa aparente caminhada para o centro de países emergentes do grupo BRIC + África do Sul. Partindo dessa lógica o Brasil teria o que falar nos fóruns internacionais e muito a ensinar, pelo visto. Somos uma nação independente, falamos o que queremos e quando queremos. Podemos criticar americanos, europeus, a ONU ou o FMI.

Mas o Brasil realmente caminha da Semi-periferia para o Centro? Ou apenas surfa na onda, encaixado que está na rede de fornecedores de matéria-prima e alimentos para a China. Quer dizer, quem está crescendo mesmo é a China e o Brasil cresce por que a China cresce.

O que exatamente corrobora essa tese sobre a crescente importância do Brasil no cenário mundial? Crescer em algum valor enquanto o centro não cresce ou cresce muito pouco? Mas dá para comparar nossos 3,5%, com tendência de queda, com os 9,1% do soft-landing chinês? Ou dá para comparar nosso crescimento nos últimos 8 anos, que seja, com o crescimento da China, da Índia, da Rússia?

Ou será que nosso espetacular novo mercado interno constituído por essa massa de ingressantes no consumo dos últimos anos, que se formou a partir dos ganhos reais de salário ou das políticas de transferência pública é suficiente para garantir o ingresso no seleto clube do Centro do sistema capitalista mundial?

Na realidade a pergunta precisa ser bem outra: Dá para ser sócio do Centro sem a produção da fatia mais saborosa do capitalismo, produção de conhecimento?

Diz a boa teoria que, olhando para um dado país, não há capitalismo em geral, mas sim variedade de capitalismo. Da mesma forma não há desenvolvimento, mas variedade de desenvolvimento.

A nossa é bem peculiar, pois é o desenvolvimento dependente de conhecimento. As indústrias automobilísticas instaladas no nosso país e que tanto animam os projetos de industrialização do governo Dilma são industriais nacionais,mas o conhecimento que viabiliza a produção desses veículos é propriedade das matrizes que ficam instaladas não aqui, mas lá no Centro. A parte do leão de todo carro vendido no Brasil é dividida entre o Estado e os proprietários estrangeiros das patentes de marcas, modelos e peças. É assim que a coisa funciona. A desculpa é a geração de empregos.

É justamente nossa variedade de desenvolvimento tecnológico-dependente que nos coloca à reboque hora de Portugal, ora da Holanda, ora da França, ora da Inglaterra, ora dos EUA e agora da China. Não tendo conhecimento para dar e vender o que a gente tem que dar e vender é commodities. Exportação de meio ambiente.

Voltando ao nosso pujante mercado interno que tanto emociona o Mantega. Vamos esquecer a sustentabilidade, que dá outra bela discussão, desses contingentes que ingressaram recentemente no mercado de consumo e nos concentrar apenas numa questão: Qual proveito podemos tirar desse ciclo de crescimento da economia pela via do mercado interno se não soubermos de alguma forma introduzir uma indústria de bens e serviços fundada no conhecimento e não no pagamento de patentes? Ou dá para desconhecer a obviedade de que é o ciclo de inovações reais que alavanca o desenvolvimento.

Nesse quadro que está desenhado não teremos nenhuma caminhada para o Centro, mas apenas uma associação a países que ele, talvez eles, estão caminhando para o Centro. Nossa posição de subalternidade permanecerá enquanto o estilo de desenvolvimento brasileiro não for alterado. Não parece que o governo Dilma tenha se dado conta disso...

Demetrio Carneiro


O ESTADO BRASILEIRO COMO ELE É: NEOPATRIMONIALISMO E CORRUPÇÃO NO BRASIL

Em um post anterior comentávamos sobre a persona que Dilma Roussef vem construindo para si como inimiga da corrupção.  Na realidade a corrupção é normalmente vista como uma forma de enriquecimento ilícito. Lula insiste que isso que chamamos de corrupção não passa de um inocente desvio de recursos públicos em favor de grupos políticos ou caixa dois, como é mais conhecido. Numa versão ou noutra tratam-se de recursos públicos ou interesses associados aos recursos públicos quando o agente corruptor é uma empresa, por exemplo. E, claro, é crime.

Contudo e infelizmente este lado da corrupção, em qualquer de sua versões, é apenas o lado mais visível fenômeno neopatrimonialista, que inclui diversas outras facetas como troca de favores, oferta de emprego cruzada, manipulação de licitações, desvio de recursos públicos por meio de emendas parlamentares, manipulação das políticas públicas para vantagens de indivíduos ou de grupos. A lista é bem grande, mas o fundamental é que o recurso público na sua forma concreta ou potencial sempre está presente. Da mesma forma sempre está presente a manipulação que transforma o público em privado e seu uso em vantagem das redes de relações patrão/cliente, com estrutura regional e nacional, mas fortemente ancoradas nas localidades.

Nessa leitura a estrutura e relações de poder se constroem debaixo para cima. São redes de relacionamento patrão-cliente simbióticas com prefeituras, organizadas em outras redes regionais, simbióticas com os governos estaduais, que se articulam em redes nacionais. No topo das redes nacionais está o início da correia de transmissão que faz chegar, sob o controle das redes, recursos sob o formato de políticas públicas ou mesmo despesas de custeio, à base do sistema. Bom notar que as redes patrão/cliente, na base do, são independentes ao passo que toda a estrutura dali para cima é dependente dessas redes de base.

É o topo da rede quem está incluso na Coalizão Vencedora, em seu núcleo de comando e é quem negocia as vantagens. Esse é o segredo da força de Sarney, por exemplo. Não se trata do indivíduo. Ele não é forte. Quem é forte é toda a rede que está abaixo dele e da qual ele é o elemento de conecção com a estrutura que libera os recursos nos poderes Executivo e Legislativo – nesse último caso não esquecer a capacidade legislativa de intervir no orçamento e a capacidade de gerar emendas. Por isto é fundamental ter aliados no comando dos ministérios.

Outro detalhe é que embora pareça estar paralela ao Estado a rede está dentro do Estado, mesmo que tenha extensões externas. Daí a importância de uma estrutura de leis eleitorais que viabilizem seu controle sobre as máquinas partidárias locais, da situação à oposição, viabilizando o controle dos votos pela via da oferta dos candidatos orientados pela rede.

    A rede neopatrimonialista vem se confirmando como força política de porte nacional desde o IIº PND de Geisel. Foi aquele plano, voltado para a descentralização da economia, que, ao se apoiar no grupo político de Antônio Carlos Magalhães inverteu a equação do crescimento. Em condições digamos “normais” o crescimento econômico acaba sendo instrumento dos desafiantes do poder local estabelecido. A mecânica do plano de Geisel ao se apoiar na rede local neopatrimonialista inverteu a equação e forneceu à rede elementos para usar a seu favor o crescimento econômico. Este é o modelo de interação entre o poder executivo central e as redes neopatrimonialistas que acabaria por se reproduzir no resto do país consolidando as oligarquias locais: No plano federal políticas públicas e recursos de custeio que, chegando ao plano local são absorvidas pelas redes neopatrimonialistas e se transformam em benefícios das redes patrão/cliente  - prestígio político, ganhos materiais, controle para direcionar o uso gerando poder – provendo um benefício controlado e fora da capacidade de intervenção dos desafiantes.

É nesse leitura que podemos incluir todo o debate sobre o desenvolvimento desigual, as desigualdades regionais e os mecanismos institucionais de combate à desigualdade. São essas características que impedem que mecanismos como o FPE e o FPM não funcionem como seria de se esperar. A “revolta” promovida por Sarney, que se recusa a acatar a decisão do tribunal superior exigindo a rediscussão do FPE em 2012 é a expressão da rede. É nos locais onde a democracia é mais insuficiente e pode ser mais facilmente manipulada, onde as coalizões podem ter tamanho reduzido, geralmente resumidas a poucas famílias, que o neopatrimonialismo consegue se instalar com mais eficiência.

     Ai está o cerne de nossa dúvida com relação à postura de Dilma: É se a extensa rede neopatrimonialista é passível de ser desmontada sem desmontar junto as alianças de poder que sustentam o atual projeto de governo, independentemente da estratégia que possa estar na cabeça de cada um? Inclusive na de Dilma.

Demetrio Carneiro

Folha:Ao cortar juros, Brasil destoa de demais países com inflação alta


17 de outubro de 2011

Para evitar baixo crescimento, analistas preveem que BC voltará a reduzir taxa na quarta-feira

Levantamento indica que apenas quatro países optaram por reduzir juros diante de incerteza internacional

MARIANA SCHREIBER DE SÃO PAULO


A decisão do Banco Central brasileiro de reduzir a taxa de juros em um momento de inflação ainda elevada não foi acompanhada pela maioria dos bancos centrais que trabalha com o sistema de metas de inflação.
Levantamento feito pela Folha revela que, de 27 países que seguem o mesmo regime de controle da inflação, apenas quatro -incluindo o Brasil- reduziram os juros.
Diante da incerteza global, mas ainda com inflação alta, a maioria (20 países) vem mantendo os juros inalterados nos últimos meses. "A mudança na política monetária brasileira, agora mais focada em crescimento do que em inflação, não foi acompanhada por outros países", afirma Tony Volpon, diretor de pesquisa econômica da corretora Nomura.
Ele observa que Peru, Chile, Colômbia, Uruguai e México também estão em desaceleração econômica, mas mantiveram os juros inalterados nas últimas reuniões.
No Brasil, mesmo com a inflação alta, a expectativa dos economistas é que o BC corte novamente a taxa de juros nesta quarta-feira, para evitar uma desaceleração muito forte da economia.
Com a indústria fraca e o varejo perdendo fôlego, analistas projetam uma possível retração no 3º trimestre. "O corte dos juros vai impedir que a economia esfrie demais", defende o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges.
Para o economista da USP Carlos Eduardo Gonçalves, é importante que a economia cresça menos para que a inflação caia. A inflação acumulada em 12 meses está em 7,3%, acima da meta de 4,5%, com tolerância até 6,5%.
Gonçalves ressalta que é mais difícil reduzir a inflação do que reaquecer a economia mais à frente: "Como o desemprego continua baixo, não se justifica tanta preocupação com o crescimento".
As projeções dos economistas são de que o BC deve continuar cortando os juros dos atuais 12% ao ano para algo entre 9% e 10,5%. Mas, para André Perfeito, economista da corretora Gradual, o ritmo de redução dos juros será mantido, com três cortes de 0,5 ponto percentual até o fim do ano.
O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas, pondera que o sucesso do BC depende do corte de gastos do governo e de uma piora no exterior: "Senão, o BC terá que voltar a subir a taxa de juros em 2012".