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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ESTADÃO: BANCO MUNDIAL ELOGIA BRASIL PELO 126º LUGAR EM RANKING DE FACILIDADE PARA FAZER NEGÓCIOS

Ops!, eu já andavam desconfiando que o Banco Mundial tinha ipeado – Ipear: significa procurar explicar o inexplicável sempre que a realidade colidir com os fatos – mas agora ficou meio exagerado. Acho que nem o Pochmann ia colocar no Relatório das Belas Ações de Governo como vantagem ter caído seis posições, de 120º para 126º, num ranking de 183 países. Essa queda para cima está no relatório Doing Business 2012 (Fazendo Negócios 2012) lançado ontem, quarta, pelo Banco Mundial.

Tudo bem, quando vc se perguntar qual a razão para alguns países crescerem mais rápido do que outros a minha sugestão é que comece pelas transações, pelo grau de dificuldade que existe para realizar transações e pelo papel do governo em facilitá-las ou fazer o inverso.

Quando vc quiser discutir sobre desenvolvimento, antes se pergunte se dá para discutir desenvolvimento num país que consegue se colocar entre os piores do mundo no quesito facilidade de negócios. Leia o relatório mencionado acima é um bom começo para entender o que vem acontecendo.

Claro, se vc for nacional-desenvolvimentista não vai estar preocupado com isso, pois vai achar que desenvolvimento é problema resolvido pelo Estado. Até porque para vc as empresas que interessam são os monopólios e oligopólios. Essas empresas têm amigos-assessores no lugar certo e podem pagar exércitos de advogados e contadores para cuidar de assuntos desimportantes. 

Tem muito tempo lí um estudo sobre corrupção. O comentário do autor era de que o problema não é quanto ganha o servidor público, não esquecer que esse foi um dos argumentos que sustentou a forte correção do salários públicos depois de 1988, ou o valor da oferta de corrupção, ou a Ética do Serviço Público ou a moral do Agente Público, mas sim o fato de haver mais ou menos obstáculos para que a empresa privada ou o indivíduo pudesse obter o que necessitava do governo. Enfim, podemos ler assim: Ambientes de negócios confusos, com normas complicadas e de difícil execução sempre serão ambientes favoráveis à corrupção, independentemente de qualquer outro elemento.
A qualidade do ambiente de negócios, além claro das alianças de poder, pode ser uma boa pista para explicar o caráter endêmico da corrupção no aparelho de governo. 

A reparar que o item melhor avaliado é o que está ligado diretamente ao que interessa ao governo e trata da estratégia de expansão do mercado interno via crédito: "O Brasil melhorou o sistema de informação de crédito, permitindo que agências de crédito privadas possam coletar e compartilhar informações positivas"(citando a matéria do Estado).

Enfim, ficar discutindo sobre desenvolvimento e modelos possíveis. É muito simpático. Eu mesmo e muitos outros, gosto desse debate, mas antes talvez seja melhor discutir quais os obstáculos (leia esse texto),  que qualquer proposta terá para que possa dar certo. 

Obs.: Se não for demais pode incluir Infraestrutura, também...Só para entender as diferenças: A China investe três vezes mais que o Brasil em Infraestrutura. A índia duas vezes mais. Enquanto isto continuamos às voltas com uma Lei de Parcerias Público Privadas que ajuda a atrapalhar, num estilo de governo cuja vontade política é Estado e mais Estado. Lembrem:Ambiente de negócios.


Demetrio Carneiro

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O MUNDO MULTIPOLAR COMO ELE VAI SE FIRMANDO, MESMO QUE A COTOVELADAS...

Estamos realmente caminhando para um mundo multipolar, com todas as consequências, inclusive quanto a “sesta de moedas” como referência de troca? Em particular esse termo da sesta de trocas tira do cenário a moeda única que acaba capturando a economia mundial para a hegemonia de um país, como ainda vem ocorrendo hoje. Esse estudo sobre hegemonia e moeda única é bem interessante.

Seja como for a quebra histórica da hegemonia monopolar parece cada vez mais evidente ao ponto do Banco Mundial lançar, por meio de um novo relatório que planeja captar essas mudanças, o GDH, em português Horizontes do Desenvolvimento Global. Este primeiro relatoria trata exatamente da Multipolaridade e merece uma leitura bem atenta para quem se interessa pelo que vai se confirmando como desenho na arena internacional.

Inúmeras teorias falam sobre o fato de que democracias são regimes mais estáveis nos termos de guerra enquanto política. Quer dizer, guerra entre democracias são mais improváveis do que guerra entre democracias e regimes autoritários ou guerras entre regimes autoritários. A explicação estaria na diferença de “custo político” para os agentes políticos nos regimes democráticos e nos regimes autoritários. Portanto é de se imaginar que o desenho da multipolaridade não vá se produzir por meio das guerras, mas certamente as cotoveladas, tipo usar cotovelos para abrir caminho, serão inevitáveis num momento onde países anteriormente periféricos e agora semi-periféricos, nos termos da leitura de Walerstein e Arrighi, buscam o centro do sistema-mundo.

O sistema de se impor por cotoveladas no cenário mundial é muito bem expresso pela nota abaixo¹, divulgada ontem. A nota é assinada pelos representantes - sequência dada pelos autores da nota - do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. É a assinatura brasileira que fecha a nota. Em diplomacia são detalhes importantes². Em termos bem simples e diretos a diplomacia das cotoveladas se expõe: Os países emergentes não aceitam que a indicação do novo diretor do FMI seja feita com base em critérios de nacionalidade, referindo-se no caso ao fato da origem européia do demitido presidente. Enfim, os emergentes não irão aceitar que a escolha do novo presidente do FMI seja feita dentro do “antigo” centro do sistema-mundo.

Se a política de cotoveladas vai dar certo ou não, isto é, se os emergentes vão de fato para o centro do poder e a partir daí poderemos ter outros desdobramentos ainda veremos nos próximos capítulos. O fato é que a crise de 2008, como todas as grandes crises, gerou novos contextos e aparentemente estamos frente a um novo ciclo da história política e econômica mundial. O real significado desse novo mundo multipolar ainda é difícil de precisar, pois estamos em um processo de consolidação, mas o fato é que já dá para pensar que “nada será como antes” como diz a música.

Para nós brasileiros, normalmente desligados do ambiente internacional, estar entrando no centro do sistema-mundo tem implicações complexas que vão desde a mudança do regime cambial, uma sesta com o Real tem fortes implicações no regime cambial, até as relações internas de poder. 
Outra questão : Até aqui estar no centro implicava em ser uma economia “desenvolvida”. De uma forma ou de outra até mesmo o conceito do que significa “ser desenvolvido” precisa ser mediado pela pergunta mais básica: Este é o desenvolvimento que queremos? Este é um debate eminentemente político e eminentemente ignorado ao mesmo tempo. 
A cultura desenvolvimentista instalada em mentes e corações brasileiros parece não querer passar jamais por ai, talvez antevendo o quanto que seu "núcleo" de pensamento industrializante, fundado nos paradigmas que vão sendo superados, será fortemente questionado quanto a sua legitimidade.

Demetrio Carneiro

1 - Íntegra da nota citada

Statement by the IMF Executive Directors Representing Brazil, Russia, India, China and South Africa on the Selection Process for Appointing an IMF Managing Director
Press Release No. 11/195
May 24, 2011
We, as Executive Directors representing Brazil, Russia, India, China and South Africa in the International Monetary Fund (IMF), have the following common understanding concerning the selection of the next Managing Director of the International Monetary Fund:
1) The convention that the selection of the Managing Director is made, in practice, on the basis of nationality undermines the legitimacy of the Fund.
2) The recent financial crisis which erupted in developed countries, underscored the urgency of reforming international financial institutions so as to reflect the growing role of developing countries in the world economy.
3) Accordingly, several international agreements have called for a truly transparent, merit-based and competitive process for the selection of the Managing Director of the IMF and other senior positions in the Bretton Woods institutions. This requires abandoning the obsolete unwritten convention that requires that the head of the IMF be necessarily from Europe. We are concerned with public statements made recently by high-level European officials to the effect that the position of Managing Director should continue to be occupied by a European.
4) These statements contradict public announcements made in 2007, at the time of the selection of Mr. Strauss-Kahn, when Mr. Jean-Claude Junker, president of the Euro group, declared that “the next managing director will certainly not be a European” and that “in the Euro group and among EU finance ministers, everyone is aware that Strauss-Kahn will probably be the last European to become director of the IMF in the foreseeable future”.
5) We believe that, if the Fund is to have credibility and legitimacy, its Managing Director should be selected after broad consultation with the membership. It should result in the most competent person being appointed as Managing Director, regardless of his or her nationality. We also believe that adequate representation of emerging market and developing members in the Fund’s management is critical to its legitimacy and effectiveness.
6) The next Managing Director of the Fund should not only be a strongly qualified person, with solid technical background and political acumen, but also a person that is committed to continuing the process of change and reform of the institution so as to adapt it to the new realities of the world economy.

Aleksei Mozhin, Executive Director (Russia)
Arvind Virmani, Executive Director (India)
Jianxiong He, Executive Director (China)
Moeketsi Majoro, Executive Director representing South Africa
Paulo Nogueira Batista Jr., Executive Director (Brazil)


2 - A liderança brasileira, mesmo o Brasil sendo economicamente menos expressivo no grupo, é uma questão interessante para debate. Quer dizer, tudo bem que a China tenha a atitude discreta de sempre, mas por qual razão a Índia, por exemplo, abre mão desse direito? São questões de diplomacia internacional que não deveriam ser ignoradas.