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domingo, 19 de setembro de 2010

DAS MELHORES FORMAS DE SE CHEGAR AO MÉXICO...


O post do José, "Quando o 'Gênio' se afunda na burrice" - comentando que Dilma não chegaria ao fim do governo e que o PMDB assumiria a presidência - foi mais uma gozação, mas deveria ser encarado à sério numa análise de horizontes.

Não é impossível Dilma naufragar na presidência.
Os elementos que vão se acumulando são muito fortes. Como o 'ateste técnico' - vejam que é um documento público e sua assinatura impõe sanções legais graves ao agente público que o produziu, caso contenha informações que induzam ao erro e, certamente, foi o caso - pela PR para a empresa da qual o filho de Erenice é lobista. A produção deste 'ateste' é talvez mais grave até do que o fato de Erenice haver indicado um lobista e membro aparente da quadrilha para os Correios.
Mesmo que esse escândalo, como os outros, fique em banho maria, tem as extensões do problema da Receita, ainda. E essas vão dar no crime organizado. O nebuloso assassinato de Celso Daniel parece ter sido dado prematuro de um quadro bem mais amplo.
Mais cedo ou mais tarde o DNA de Dilma poderá acabar aparecendo, tanto nas questões da Casa Civil, como nas questões da devassa política feita na Receita.

O que está evidente é uma monumental máquina de financiamento e apropriação de recursos públicos que se monta e remonta todo o tempo ao sabor dos acontecimentos.
É orgânico neste processo de fazer política. Na realidade não é uma máquina fora do partido. A máquina parece ser o núcleo do partido.

Esta máquina que se monta e remonta permanecerá no governo Dilma. A fome e a pressa de seus articuladores acabarão gerando novos escândalos.

É uma competição interessante.
O PMDB é uma oligarquia de neo-coronéis que já vivem da máquina pública desde a época da ditadura. Na verdade a trajetória de muitos deles começou lá. Na ARENA. Fica até divertido ver a esquerdinha dando pau no DEM, mas abraçada com os mesmos caras que estavam na ARENA com parte dos caras que estão no DEM. Aliás, se olhar direitinho acho que tem mais político oriundo do esquemão da ARENA no PMDB do que no DEM.
Enfim, esta turminha no PMDB já acumulou riquezas. Na realidade digamos que estão num processo de manutenção e reprodução ampliada do que já têm.
A turminha do PT é de novos ricos, que têm a justificativa ideológica - ideologia é que nem bom-bril: tem mil e uma utilidades - de acumular para um projeto de poder que quer se perpetuar. Muito parecido com o de Collor, aliás.
O problema com o projetos como o de Collor ou do PT é a voracidade e a pressa. O imediatismo acaba gerando esquemas defeituosos e esses acabam vindo à luz do dia.

No caso a vantagem competitiva está com o PMDB.

O José já estava pensando no programa de TV que anunciará o afastamento de Dilma: Sarney, secundado pelos próceres do partido, tipo Renan Calheiros, tendo ao fundo a discreta presença de Collor, anunciará que "mais uma vez" na história do país o PMDB é chamado para garantir a continuidade do processo democrático...

Quando isso ocorrer já poderemos mudar nosso nome oficial de República Federativa do Brasil para República Fisiológica do Brasil. Prático, nem muda as siglas.

Finalmente teremos chegado ao México.

Demetrio Carneiro

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O ATRASO DEFINIDO POR SÍ PRÓPRIO

O texto abaixo, de M.I. Nassif, com direito a repercussão em toda a rede unida dos blogs petistas, é um belo discurso da matriz petista pensante e tem todas as meias verdades tradicionais.
Confirma o pensamento petista que se imagina o único que compreende o mundo das pessoas despossuídas em oposição ao pensamento elitista. Uma certeza que confunde muita gente nos outros partidos.
Esta certeza é a base ideológica que justifica a vontade hegemonizante. Se o PT é o único partido com esta visão de mundo, então compete a ele “liderar” o processo.

São os velhos temas:
- Dicotomia: A luta de classes não é mais entre operários e burgueses, mas entre pobres e ricos. Evidentemente aqueles ricos privilegiados pelos acordos de poder, aquelas coisas tipo BNDES etc., são os “companheiros de viagem”. Há uma vasta literatura sobre os companheiros de viagem dos processos revolucionários.
- Liderança: Compete ao partido da vanguarda a liderança absoluta do processo.

Dito isto, os “atrasados” são os outros que não compreendem esta maravilha que só é dada aos petistas alcançar. Este é o viés messiânico clássico, encontrado nos grupamentos de esquerda.

A articulista de forma proposital mistura as denuncias contra as tentativas de quebrar o Estado de Direito com a discussão sobre a hegemonização da política institucional brasileira.

Contudo a Nassif parece que “esquece” a base prática da ação petista é a cooptação para dentro do aparelho do Estado.

Claro, como Lula, petistas nunca viram nada, não sabem de nada, sequer sabem explicar os dólares nas cuecas. São exemplos de castidade e pureza.

O problema é que eu, por exemplo, falo em mexicanização não pelo PT, mas pela via da aliança entre PMDB/PT.
O PT sozinho não tem esta condição. O PT e os grupos de esquerda entorno dele não venceriam esta eleição sem o PMDB.

A mexicanização virá pela via da cooptação ou da auto-cooptação como forma de sobreviver politicamente num mundo fisiológico elevado ao seu extremo.
Muito longe, portanto, desta utopia delirante daqueles que se julgam “modernos” lutadores contra o atraso.

Vai ser sempre assim: Uma esquerda completamente atrasada tentando se fantasiar de moderna para justificar sua promiscuidade .

Demetrio Carneiro




Fonte: Valor
Maria Inês Nassif

A "mexicanização" do quadro partidário brasileiro é um debate a ser colocado em devidos termos. A ameaça de que o PT, depois das eleições de outubro, se transforme num Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México de 1929 a 2000, é apresentada como "denúncia". Isso é, no mínimo, um equívoco. A questão merece ser tratada criticamente por todos os atores do cenário político, sob pena de a eleição consolidar, de fato, e por um bom tempo, um único partido com condições de acesso ao poder pelo voto.
Essa perspectiva está colocada não porque o PT trapaceou, mas porque a oposição acreditou demais no seu poder de influenciar massas via convencimento das elites. É uma estratégia medíocre de ação política, num mundo onde o acesso à informação tem aumentado e ao mesmo tempo saído da órbita exclusiva da influência dos grandes grupos, e num Brasil onde um grande número de cidadãos-eleitores deixou a pobreza absoluta, outro tanto ascendeu à classe média, a escolaridade aumentou, o acesso à internet é maior e a influência das elites sobre os mais pobres tornou-se muito, muito relativa.

Oposição não mobilizou militância nem formou quadros

Dos partidos na oposição, apenas o P-SOL, em passado recente, e o PPS, quando remotamente era PCB, conseguiram pelo menos formular idealmente um conceito de partido de massas. O P-SOL fracassou porque foi criado na contramão de um crescimento espantoso do PT, partido do qual se originou, e do recuo de setores que, durante o mensalão, ensaiaram abandonar o partido de Lula. Amedrontados com a retórica pré-64 da oposição, esses setores acabaram lentamente retornando à órbita do petismo. O PCB conseguiu a façanha de ser um partido de massas apenas quando tinha um líder carismático, Luiz Carlos Prestes. Como viveu boa parte de sua existência na clandestinidade, é difícil saber se teria vocação para sair da política de vanguarda e ganhar substância em setores mais amplos. O PPS, que o sucedeu, certamente não mostra essa capacidade.
O PT continua a exceção no quadro partidário. A estrutura montada pelo partido nacionalmente, quando começava a se perder na burocratização da máquina, foi salva pelo lado popular do governo Lula e pela ofensiva oposicionista. O partido não é mais o que era quando foi fundado, mas é certo que tem uma representação social.
As demais legendas, em especial as de oposição, não conseguiram sair da camisa de força dos partidos de quadros. O PSDB, que catalisou a oposição a Lula, e o DEM, com o qual é mais identificado, terceirizaram a ação partidária para uma mídia excessivamente simpática a um projeto que, mais do que de classes, é antipetista. Todo trabalho de organização partidária, de formulação ideológica e de articulação orgânica foi substituído por uma única estratégia de cooptação, a propaganda política assumida pelos meios de comunicação tradicionais. A vanguarda oposicionista tem sido a mídia. Esta, espelhando-se na velha estrutura social do país, tem praticado uma conversa exclusiva com os seus: assumiu um discurso para agradar a elite, que por sua vez perdeu quase totalmente seu poder de influência sobre os menos ricos e escolarizados. Os partidos de oposição e a mídia falam um para o outro. Pouco têm agregado em apoio popular, que significaria voto na urna e, portanto, vitória eleitoral.
A ideia de propaganda política via mídia, que para a esquerda pré-Muro de Berlim era uma parte da estratégia de tomada do poder, e para os social-democratas a estratégia de conquista do poder pelo voto, tornou-se a única ação efetiva da oposição brasileira, exercida, porém, de fora dos partidos. Teoricamente, a mídia tradicional brasileira não é partidária. Na prática, exerce essa função no hiato deixado pela deficiente organização dos partidos que hoje estão na oposição ao presidente Lula. E o produto final não é exatamente a agregação de adeptos, mas uma conversa entre iguais, que se autoalimenta de um discurso trazido do udenismo, pouco propenso a conduzir um debate propriamente ideológico.
Esse não é um fenômeno pós-Lula simplesmente, embora os dois governos do presidente petista tenham dado grande contribuição a esse descolamento entre a "opinião pública" e a "opinião dos pobres". Logo no início da redemocratização, foi instituído o voto do analfabeto. Ao longo dos dois últimos governos - portanto, nos últimos 15 anos - ocorreram ganhos de cidadania via aumento de escolaridade e renda que, por si só, incentivam a autonomia do voto. Nos últimos sete anos, os programas de transferência de renda reforçaram essa tendência.
Esse contingente de novos eleitores ganhou autonomia de voto e se descolou da mídia tradicional. Nesse universo, os formadores de opinião pública - por sua vez formados pela mídia - não têm o mesmo acesso que tinham antigamente. O ingresso dos antigos desletrados na era da informação tem se dado pela televisão - e aí o horário eleitoral gratuito é neutralizador - e um pouco pela internet, mas a decisão política ocorre por ganhos de cidadania. Como a mídia tradicional é a única a operar como "propagandista" dos partidos de centro e de direita que nunca acharam necessário incorporar militância, formar quadros ou mesmo publicizar ideário, é de se supor que a capacidade de formação de consensos da mídia tradicional seja pouco significativa numa parcela do eleitorado que ascendeu recentemente ao mercado consumidor.
O bloco oposicionista, que inclui não apenas os partidos, mas a mídia tradicional, não entendeu as mudanças que ocorreram no país. O modelo partidário que trazem na cabeça é um que pressupõe alinhamento automático de parcelas da população com líderes distantes ou donos de votos locais, ou a submissão da "ignorância" popular à opinião formada por iluminados. O novo Brasil não comporta mais isso. Esse modelo de política é elitista, porque não parte do princípio que as pessoas são iguais inclusive no direito de formar uma opinião própria.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras