sábado, 3 de dezembro de 2011

BNDES: INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA

Segundo o presidente do BNDES, Coutinho, serão investidos pelo banco em infraestrutura R$51 bi este ano e mais 10% sobre isto no próximo ano.

Até ai tudo bem, não tem quem desconheça que um dos maiores obstáculos ao crescimento brasileiro é a nossa discutível infraestrutura.

O problema é que no Plano Plurianual - PPA para 2012-2015 foi adicionada como infraestrutura a habitação. Ou melhor o "Minha Casa Minha Vida". Este programa sozinho responde pode mais de 30% do valor total de investimentos em infraestrutura.

Sabedores que somos que 2012 é um ano eleitoral, sabedores que somos da completa prioridade dada pelo governo à habitação, a pergunta que fica é: Quanto desses R$ 51 bi irão para a infraestrutura propriamente dita, como transportes por exemplo, onde investimos cerca de 4 a 8 vezes menos que os nossos parceiros de emergência?

Votos ou desenvolvimento?

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

UM ESTADO SECULAR OU RELIGIOSO NOS PAÍSES MUÇULMANOS ?

A vitória dos partidos pró-religiosos e pró-fundamentalistas no primeiro turno das eleições parlamentares do Egito, trás para o cenário político um importante debate sobre escolhas entre um Estado religioso ou um Estado laico. Os grupos vencedores, Irmandada Muçulmana, partido Nour e outros, são defensores do Estado religioso islâmico num país relativamente diverso, com uma minoria religiosa não-islâmica bem significativa. Os coptas somam um quarto da população egípcia.

Não era o que se antevia no ar durante as revoltas que derrubaram o Mubarak. Naquele momento falava-se em democracia e Estado laico. O que ocorre agora vem numa direção inversa e deve ser sim motivos de preocupação.

Não se trata apenas de uma discussão sobre modelos ocidentais ou não-ocidentais ou sobre a autonomia do povo de cada país. Aqui há implicações geo-estratégicas. Aquela não é exatamente a região mais tranquila do planeta. Aqui também há implicações sobre democracia e autoritarismo que nos interessam diretamente. Estados religiosos são necessariamente autoritários por sua necessidade de hegemonia absoluta.

Nem todos os islamitas pensam na imposição de sua religião. Num artigo escrito para o site Religion and Ethics, WHY MUSLIMS NEED THE SECULAR STATE, o professor Abdullahi Ahmed An-Na'im, professor da Emori School of Law, defende que o islamismo pode perfeitamente conviver com o Estado laico e que a adoção das regras da Shari'a, enquanto política pública, ou não, deveriam ser derivadas de um trabalho de convencimento e não de imposição. É uma visão extremamente diferente da adotada pelos vitoriosos no Egito.

Seja como for essa discussão sobre escolhas rebate em nosso país frente à crescente força política dos segmentos religiosos fundamentalistas e essa força já foi capaz de mudar tendência de voto no Congresso e até mesmo postura de candidatos eleitoralmente competitivos. 
É de se observar o Egito com um olho no Brasil. 
No fim do dia a discussão é a mesma: Estado laico ou Estado religioso?

Demetrio Carneiro

A LENIÊNCIA E A COMPLACÊNCIA DE DILMA FRENTE A LUPI

Segundo se comenta Dilma não teria gostado do que a Comissão de Ética decidiu sobre Lupi. Principalmente teria ficado muito irritada com a notícia sobre a postura da comissão, considerando que Lupi teria que renunciar, publicada na mídia. A presidente não gosta de ser pressionada. 
Mas precisava mesmo ter chegado ai? 
O que a presidente precisa explicar é quais são as forças que ainda mantém Lupi no cargo.

Afirmar como afirmam alguns comentaristas na mídia que se trata de um jogo para "esperar" o recesso ou que a denúncia contra ministros seria uma prática exaurida e que a presidente não precisava se preocupar com isto, é muito pouco.

As denúncias estão postas e a única atitude admissível é a demissão de Lupi. 
O cargo até pode ser dela, mas a satisfação ela tem que prestar é ao povo brasileiro que está vendo o resultado de seu trabalho diário apropriado em tributos e transformado em fortuna pessoal de uns poucos privilegiados.

Jogar para segunda, para terça, para quarta, só mostra leniência, complacência e uma perigosa proximidade de interesses.


Demetrio Carneiro

LIVRO DE GUSTAVO FRANCO: DINHEIRO E MAGIA

Do Portal do Instituto do Millenium:

A versão de Goethe para a história de Fausto, o homem que fez um pacto com o demônio para obter poder e prazeres, é das mais famosas, citadas e comentadas. Mas poucos leram o texto na íntegra ou sabem da existência de uma segunda parte, mais extensa que a primeira, e repleta de discussões sobre economia e política. Fora do idioma original de Goethe, também havia pouco material acadêmico sobre as questões econômicas presentes na obra. A lacuna foi preenchida por um dos mais renomados economistas europeus, Hans Christoph Binswanger, que analisa o texto não apenas como um documento sobre a cultura do Ocidente, mas ressalta o seu poder de profecia e sua atualidade.

Na época em que ”Fausto” foi escrito, os soberanos ainda buscavam a ajuda de astrólogos e alquimistas para resolver problemas do Estado. A história se localiza justamente no momento, em que, em vez de recorrer a alquimistas para transformar chumbo em ouro, percebe-se que o melhor é buscar economistas com conhecimento em bancos que emitem papel-moeda dotados de algum lastro de natureza imaginária. O resultado acaba sendo o mesmo: criar valor a partir do nada. E esse é apenas alguns dos temas analisados pelo autor de “Dinheiro e magia”.

O economista e membro do Instituto Millenium, Gustavo Franco, ainda atualiza reflexões de Binswanger na perspectiva dos desdobramentos brasileiros e, inspirado pelas ideias do suíço, levanta hipóteses como a de que o verdadeiro patrono do crescimento brasileiro não seria Juscelino ou algum economista desenvolvimentista, mas ninguém menos do que o Fausto de Goethe. “Dinheiro e magia” (Zahar, 2011) conta com uma cuidadosa apresentação da lenda, da obra do escritor alemão e de detalhes de sua trajetória como autor.

CÓDIGO FLORESTAL: NÚMEROS OU INTERPRETAÇÕES?

A discussão do novo Código Florestal tem dado margem a todo o tipo de posicionamento.
Alguns bem radicais defendendo um fundamentalismo florestal do "nada se toca!", na ótica do crescimento zero.
Outros, mais politizados, diretamente contra aqueles que supostamente teriam por algum motivo apoiado  mudanças por conta de sua convergência de pensamento com os "fazendeiros" etc.

O mundo parece que mundo ficou dividido entre latifundiários, ligados à Confederação Nacional de Agricultura, apenas interessados em degradar as florestas e defensores dos interesses da natureza, ligados a uma miríade de entidades do movimento social, tudo numa oposição tipo mal capitalista contra o bem e o patrimônio da humanidade.

No texto, publicado hoje, sexta, no Jornal da Ciência "Novo Código Florestal: uma guerra de números e de interpretações" de Osvaldo Ferreira Valente, engenheiro florestal e professor aposentado de Viçosa,uma avaliação bem serena a partir de um levantamento do Serviço Florestal Brasileiro. Esse texto foi apresentado originalmente no Portal do Ecodebate. Como diz o autor : Quem tiver outros dados científicos deve apresentá-los.
Acho que vale dar uma conferida.

Demetrio Carneiro

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

SARNEY FAZ SEU JOGO: O NEOPATRIMONIALISMO COMO BASE DE PODER E SEUS CUSTOS

  Sarney colocou o govervo Dilma na parede segurando a DRU e colocando para andar a Emenda 29. Não falta a ele malícia e noção de tempo. Agora Dilma terá que negociar e entregar o que Sarney e seu grupo querem. Às vésperas de uma reforma ministerial e das eleições municipais, base de todo o poder da rede, dá para imaginar o que será.

   O amplo arco de alianças e principalmente a aliança com a rede neopatrimonialista tem um custo e a cobrança sempre vem.

   Por mais que Dilma possa fingir ter escolhas ela não tem. Mas o pior é que o custo do apoio da rede neopatrimonialista não é pago por Dilma e sim por todos. A apropriação privada de bens e serviços públicos tem um custo insidioso e eventualmente pode ser muito difícil de ser detectado, mas existe e envolve fatalmente algum tipo de manipulação do tributo que se paga, seja em qual formato for.

Demetrio Carneiro

NOVAS MEDIDAS PARA ESTIMULAR A DEMANDA

Fazendo um bate-pronto com as medidas que acabaram de ser divulgadas pelo Ministério da Fazenda...

Semana passada Dilma já havia comentado que tinha na manga um pacote de novas medidas. Realmente o foco de manter níveis mínimos de crescimento continua ativo e é uma clara respostas às novas predições de redução do ritmo de crescimento do PIB brasileiro para os próximos anos.

Na realidade se tivermos em vista a leitura de Delfim Neto sobre o piso mínimo, que seria por volta de 3%, ainda estaríamos numa zona de relativo conforto, mas aparentemente a equipe econômica e Dilma preferem imaginar que sua zona de conforto está em valores mais altos, como os tais 5% que insistem em ser viável para o próximo ano.

O alcance exato ainda não dá para avaliar, mas seja como for o governo dessa vez se volta para mecanismos de redução da tributação ao contrário de mecanismos de estímulo pela via do gasto público, seja pelo gasto direto ou pelo gasto de investimento via dívida pública. Menos mal já que pressiona menos a inflação.

Já está evidente que, diferentemente de Lula, Dilma não irá surfar na maré de progresso internacional. Aqui e agora o estilo de desenvolvimento implementado pelo nacional-desenvolvimentismo será posto à prova. 

Iremos verificar na prática a decantada capacidade gerencial desse governo e o quanto as nossas fortes limitações dadas pelo modelo escolhido e todo um conjunto de questões institucionais podem afetar os resultados de estratégias que buscam responder ao baixo crescimento. 
Este teste será para valer.

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Demetrio Carneiro

ANO NOVO, INFLAÇÃO NOVA

   Num momento onde o governo joga todas as suas fichas no "crescimento a qualquer custo", pressionando a inflação o IBGE resolve alterar a forma de cálculo do IPCA, dando mais peso aos bens duráveis, que historicamente flutuam menos, e menos peso aos serviços, mais sensíveis às flutuações de preço ou sejam respondem mais rapidamente.

   Isto posto, provavelmente a medida da inflação em 2012 será menos reativa às mudanças de preços. Tudo bem, são "olhares" que a gestão pública pode se considerar autorizada a mudar. Um bom exemplo é quando o BC decidiu "olhar além do horizonte", abandonou a inflação de 2011 e passou a mirar na de 2012. Foi uma mudança substancial de postura e criou o meio para justificar a permanência do estímulo à atividade econômica em 2011, mesmo que isso levasse a inflação para além da meta. Enfim, o recado da área econômica era: "Temos que estimular a economia para que não caia abaixo de 4%, na época era 4%. Dai teremos maior inflação em 2011, mas em 2012 a inflação será menor". Como resultado daqui a pouco o BC vai ter que olhar para 2198 para ver a inflação encostar na meta. Mas tudo bem, é para isso que eles foram eleitos. Alguém votou e deu a eles este mandato.

   O raciocínio do "ganhou, levou", contudo é correto em termos. Temos a considerar a confiança. Muito da economia se movimenta pelo mecanismo das expectativas. Se um dado governo, mesmo que legítimo, vai mudando as regras do jogo e se essa mudança mostra direcionamentos completamente diferentes dos declarados originalmente, o agente econômico pode ou não confiar que essas mudanças sejam as melhores para o conjunto da economia e para a sociedade. Eu diria que é exatamente o caso da estratégia de crescimento a qualquer custo e pode ser o caso dessa mudança no IPCA.

   Até o momento, qualquer que seja a explicação "técnica" do IBGE, o que é perceptível é que a mudança é uma forma se suavizar, relativizar, se for um termo melhor, os números da inflação. Como qualquer outro indicador os do IBGE só fazem sentido se a série histórica for coerente ao longo da escala de tempo. Mudanças na qualidade dos dados acabam dificultando as avaliações em retrospectiva. Por tanto devem sr muito bem fundamentadas. O IBGE, com base certamente nas apurações do Censo 2010, afirma que o perfil de consumo mudou e que o consumo de bens duráveis afeta o perfil de consumo dos estamentos de renda ao ponto de ser necessário mudar seu peso. Em tese, com maior renda as famílias tenderiam a abrir ou aumentar gastos em bens duráveis.

   Como comenta hoje César Maia é uma questão de aguardar e ver o que vai realmente rolar. Ainda dentro do comentário dele, de qualquer forma é de preocupar a proximidade com uma Argentina cujo governo desmoralizou o seu instituto encarregado de monitorar a inflação.

Demetrio Carneiro