Mostrando postagens com marcador desenvolvimento ambientalmente sustentável. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desenvolvimento ambientalmente sustentável. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A QUEM INTERESSA NÃO TER METAS EM COPENHAGUE?


por Anivaldo Miranda


A Ministra Dilma Roussef, da Casa Civil do Governo Lula, deu a ordem unida para a delegação brasileira que deverá assistir à grande reunião que os países da comunidade internacional farão em dezembro, na capital da Dinamarca, Copenhague, para tratar dos esforços mundiais voltados para enfrentar os desafios do aumento da temperatura no planeta Terra: com seu habitual tom de caserna, a ministra anunciou que o Brasil não aceitará metas para redução das emissões de gases do efeito estufa no território brasileiro.

Segundo a ministra, países em desenvolvimento só devem aceitar compromissos voluntários no que diz respeito às reduções dos percentuais de emissão de dióxido de carbono, metano e outras substâncias poluentes que estão alterando o equilíbrio da atmosfera, potencializando a retenção de calor, na superfície do planeta, e com isso alterando o funcionamento do clima terrestre com crescentes e preocupantes efeitos sobre a vida das comunidades no mundo inteiro.

A fala da ministra sepulta praticamente os esforços do Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que gostaria de convencer o governo federal a levar para Copenhague uma posição mais propositiva do Brasil como contribuição para forçar o conjunto dos países, e principalmente os mais desenvolvidos, a aumentarem e acelerarem as medidas concretas para evitar o agravamento de catástrofes que já estão acontecendo na forma de furacões, enchentes, erupções vulcânicas, derretimento de geleiras, erosão marinha, secas, desertificação e outros fenômenos que poderão afetar gravemente o processo produtivo e a qualidade de vida em todo o mundo.

Não há dúvida que essa decisão do governo brasileiro de não aceitar metas só servirá para aprofundar ainda mais a sensação mundial de que a reunião de Copenhague tem tudo para terminar num grande fiasco em matéria de avanços concretos para diminuir o ritmo do aquecimento global. Em certo sentido é tudo que as grandes potenciais industriais querem para fortalecer as desculpas que redundam na inércia conservadora em relação às mudanças dramáticas do clima.

Diante de tais fatos, é de ser perguntar: a quem realmente interessa que o Brasil não fixe metas para diminuir suas emissões de gases do efeito estufa? Seguramente não é do interesse da maioria trabalhadora do país, muito embora a verborréia dos que resistem às metas procure sempre se apoiar na visão caolha que procura convencer a opinião pública com a falsa postulação segundo a qual aceitar metas pode comprometer o crescimento econômico e afetar a geração de empregos.

Em verdade, quem defende a não fixação de metas são os grandes poluidores, principalmente aqueles que estão queimando de forma criminosa a Floresta Amazônica, o Cerrado e o que resta da Caatinga e da Mata Atlântica, com práticas produtivas absolutamente predatórias e tecnologicamente atrasadas, além dos que resistem à modernização industrial e aqueles que, ligados aos interesses multinacionais da indústria dos veículos automotores, não querem mudar de forma alguma a esquizofrênica matriz de transportes brasileira, dominada por automóveis e caminhões caros e poluentes, a um custo astronômico para todos os brasileiros e brasileiras.

O Brasil das maiorias assalariadas e dos pequenos e médios produtores, ao contrário do que o governo federal e o poder econômico apregoam, só terá a ganhar se estabelecer metas justas para diminuição das suas emissões, porque ganhará moral e prestígio internacional para ser a potência verde do planeta – o que é sua vocação natural – além de estabelecer um conjunto de ações que forçarão o desenvolvimento tecnológico de sua vasta área produtiva e o aumento da sustentabilidade do seu crescimento econômico.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O PRÉ-SAL E A FUMAÇA


Em texto publicado no Portal Ecodebate, Carol Salsa discute a preferência pelo pré-sal e a possibilidade dessa preferência interferir no balanço da matriz energética brasileira de forma negativa. Atualmente nossa matriz é uma das mais “limpas” do planeta.
Em post recente, aqui no Alternativa, eu comentava a pressa em “gastar” esses recursos não renováveis e a falta de percepção quanto a esse fato no momento em que não se vislumbra a importância de, ao menos, utilizar esses recursos para investir em outras fontes de energia renovável. Algo do tipo: Se tivermos que exaurir, ao contrário de gastar, por mais justo que seja o gasto, vamos investir em alternativas, pois um dia, além de poluir como fumaça, essa riqueza toda virará fumaça no sentido simbólico, também. Seria, pelo menos, a coisa da compensação pelo custo ambiental assunto que parece interessar ao governo quando se trata de taxar o minério de ferro explorado pela Vale, mas que parece não empolgar tanto quando se trata de colocar a mão no próprio bolso.
Demetrio Carneiro

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

SE NÃO TE PEGO PELA CABEÇA, TE PEGO PELO CORAÇÃO.


O vídeo acima foi postado no Youtube em abril de 2008- está com cerca de quase um milhão e meio de exibições, recebi num outro sistema, que está com quase meio milhão - , mas é bem mais antigo: Rio Eco 92, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento.
Estive lá na Eco e confesso não lembrar dessa fala. Não sei se é mesmo autêntica, mas mesmo que não seja o que lá está representa a leitura de muitos jovens que pude conhecer no Canadá e de muitos que conheço aqui no Brasil.
Para nós adultos irá ficar uma sensação de desconforto. Essa é uma fala com 27 anos. É o caso de perguntar: O que você fez nos últimos 27 anos da tua vida?
Saudações
Demetrio Carneiro

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dia internacional da camada de ozônio

No dia 16 de setembro de 1987 o chamado Protocolo de Montreal começou a ser ratificado pelos países que consideram importante lutar pela preservação e recuperação da camada de ozônio, aquela que protege o planeta dos famosos raios UV, prejudiciais a todas as formas de vida. Desde então a data vem sendo lembrada como forma ressaltar a importância da adesão ao Protocolo. Não apenas a adesão via assinatura, mas a adesão real.
É no plano da adesão real que as coisas se complicam.
Em nosso próprio país parte significativa do crescimento econômico veio de aplicações industriais, ocupação territorial, degradação ambiental, enfim de ações nocivas ao meio ambiente em geral e à camada de ozônio em particular.
Hoje há todo um debate sobre o custo do produto gerado contra o custo da destruição ambiental que foi necessária para criar o mesmo produto. Em muitos casos fica evidente que um benefício pode não ser suficiente para cobrir o custo ambiental. Também é evidente que não dá simplesmente para mandar a civilização industrial para a lixeira, mas que teremos que nos aplicar muito na busca de novas alternativas que se traduzam na permanência de condições, vamos dizer, ambientalmente sustentáveis.
Agora mesmo o debate do pré-sal jogou para escanteio a questão dos combustíveis e fontes alternativas para motores. Pró-álcool, bio-diesel, motor elétrico são temas do passado. A ordem é torrar o mais rápido possível essas reservas e faturar muito, muito dinheiro. Nessa lógica não há a mínima preocupação de estarmos lidando com recursos finitos. É a irresponsabilidade da farra do petróleo. Ainda não apareceu no cenário proposta que relacione custo de destruição de reservas não renováveis e o benefício resultante. Evidentemente só mudando o eixo do desenvolvimento atual numa outra direção e deveria ser nessa lógica a aplicação dos benefícios. Ai poderia haver equilíbrio nos termos da relação.
Demetrio Carneiro

Sobre o dia internacional

Sobre o Protocolo de Montreal


domingo, 13 de setembro de 2009

PIB trimestral retoma crescimento positivo: tudo resolvido?



Como já está fartamente noticiado o PIB do segundo trimestre de 2009 foi positivo.
O que deu a Joelmir Beting (citado por Economia e Capitalismo, com a advertência: Caro JOELMIR, o ano ainda não terminou e seu OTIMISMO político econômico não encontra razões técnicas o suficiente para tornar-se realidade. Pelo menos por enquanto...o direito de criticar os pessimistas com uma claríssima declaração de humildade explícita:
Alguém berrou contra o excesso de pessimismo, na virada do ano?: Sim, o presidente Lula e eu.”
Não tenho certeza se houve intencionalidade no fato do Joelmir ter desconsiderado tanto o Mantega – ministro reserva do Palocci - quanto o Pochman – defensor, na academia, do lulo-desenvolvimentismo científico - no campo dos otimistas, mas imagino que deve ter sido esquecimento.
Revoada de pombos e salva de foguetes à parte, resta a nós simples mortais procurar os sinais do aproveitamento do das oportunidades que a crise prometia, na leitura do governo.
Se estiverem se referindo aos aumentos de gastos ou ampliação da área de influência do Estado, como fica evidente no desenho do projeto do Pré-sal, então realmente as oportunidades foram aproveitadas. Se estivermos falando em aumento de eficiência governamental, questionamento do modelo atual de desenvolvimento por conta da questão do meio ambiente, rediscussão da carga tributária, nem tanto.
Da forma como vamos a pós-crise terá o mesmo modelo da pré-crise e os próximos anos talvez venham a mostrar um pouco do que já tivemos: crescimento sim, mas muito abaixo de nosso potencial.
Demetrio Carneiro

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Oposição no Brasil: questão de prudência e caldo de galinha




Por falar em povo tem um ditado popular que diz que prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Talvez a oposição devesse levar à sério.
Duas coisas podem tirar do eixo um projeto de oposição vencedor para as eleições em 2010:
- A vitória antecipada.
Houve na oposição uma aposta na crise internacional como elemento de precipitação de diversas fragilidades deste modelo de governo. Políticas e econômicas.
No final do dia a crise foi menos profunda ou dramática que as vontades esperavam, não garantiu a vitória antecipada, mas irá garantir o discurso do “nosso governo venceu a crise”, conforme ficou bem claro ontem no discurso de Lula, em comício eleitoral na cidade de  São Bernardo do Campo, São Paulo.
Num primeiro momento houve uma intensa atenção à economia, mas a inexistência de dramaticidade deslocou a atenção para outras áreas. O falecido Paulo Francis dizia que o que move as pessoas são os dramas. Talvez as fragilidades reais deste modelo ainda venham a se apresentar mais à frente e se configurem numa taxa de crescimento bem abaixo das esperanças da equipe econômica, mas isto, agora, não dá IBOPE;
- A inexistência de um programa de governo claramente alternativo às propostas atuais. Também no mesmo comício eleitoral em São Bernardo ficou clara a intenção plebiscitária. As falas do presidente não são para o futuro, mas para o presente e o passado.
Lula está ciente de que o eleitor médio dificilmente troca o presente, se for confortável,  pelo futuro. O dilema da intertemporalidade está presente ai.
E daí que esta política de guarda-chuva social foi tornada obrigatório pela Constituição Federal que o PT se recusou a votar? E daí se os recursos para as políticas sociais são viáveis por conta de uma aplicação das políticas de responsabilidade fiscal fundadas na Lei de Responsabilidade Fiscal que o PT também foi contra e ainda é? O eleitor médio não acompanha estas coisas. Tem memória curta e focada no presente e no futuro de curto prazo.
Evidentemente a entrada de Marina Silva no páreo dificulta as coisas, mas ela estará movida e talvez envolvida em suas próprias contradições, como esteve Heloísa Helena nas últimas eleições.
Mas não é apenas isto. Tem mais.
Citações como a feita por um dos oradores que antecipou Lula, em relação ao BNDES e aos bancos públicos, têm alvo certo e dão retorno em votos.
Em recente evento realizado no IPEA, 18 de agosto, o economista Paul Singer – Secretaria Nacional de Economia Solidária, Ministério do Trabalho - festejava o “renascimento” do keynesianismo. Singer é velho militante da esquerda brasileira. Em outras épocas via em Keynes uma figura conservadora com um projeto cuja única finalidade era a permanência do status quo, o modo capitalista de produção. Na medida em que o keynesianismo brasileiro criou uma nova leitura concentrada no estimulo do crescimento do Estado via maiores despesas e que o Estado é visto como um instrumento real de transformação da sociedade, Keynes passa a ser consumível e vira um rótulo palatável do que podemos chamar de ressurgência do “desenvolvimentismo keynesiano”. Segundo Singer a agenda anterior, dos “homens de negócios”, tinha o controle inflacionário e o equilíbrio fiscal como metas. Ainda, segundo ele, ganham relevância a agenda ecológica e as diferenças econômicas e sociais. Não é também coincidência um militante petista tão antigo quando Singer estar falando no desenvolvimento ambientalmente sustentável às vésperas da saída de Marina, justamente por ela não ver no governo atual a aplicação desta lógica que ele defende.
Vamos admitir que Singer falava para o futuro e que os quase dois mandatos de Lula não foram dentro da agenda dos “homens de negócio”, mas um período de transição onde pelo menos as “preocupações com as diferenças econômicas e socias” tenham sido relevantes e os problemas de responsabilidade fiscal tenham ficado num segundo plano, sendo tocados de forma displicente. As contingências orçamentárias para garantir o superávit primário foram apenas para zerar a dívida externa e utilizar o argumento como propagando de governo. Deve ter sido isto.  De qualquer forma aquele fórum no IPEA respondia a demanda da direção de PT por uma acessória para a candidata e ali estão estabelecidas as linhas do que pode ser o discurso do futuro.
Para trás o governo é o governo que venceu a crise na qual a maioria dos grandes países ainda está atolada. Para frente a aposta está no desenvolvimento economicamente sustentável fundado na sustentabilidade ambiental e na redução das disparidades econômicas e sociais, mesmo ao custo da quebra do equilíbrio fiscal.
Há uma grande diferença entre o discurso de Singer e o de Pedro Malan.
Assumindo que o discurso de Malan não é o discurso da oposição, então qual seria este discurso frente ao da situação?
Esta soma de passado vitorioso, a questão plebiscitária, com o futuro verde, a questão programática, é uma proposta de campanha que só poderá ser superada se a oposição for capaz de mostrar ao eleitor médio de qual futuro ela está falando e se ele, eleitor, for capaz de perceber que tem um lugar melhor neste futuro.
Quem cai de maduro é fruta e, até nossos dias, apenas Newton se deu bem com isto.
Demetrio Carneiro

Nós e a China

O texto abaixo é uma tradução livre de um post do Blog americano Naked Capitalism (leia o original em inglês), publicado no último 23 de agosto.
Recentemente, em artigo publicado no “O Estado de São Paulo” e que comentei aqui no Alternativa Brasil, Pedro Malan afirma que uma das metas importantes para um novo governo seria uma abertura para o exterior não apenas comercial, mas também em muitas outras dimensões. O texto do Naked Capitalism é, de certa forma, uma demonstração forte deste argumento no que se refira a um debate que não temos: como este mundo está se configurando. Outra meta que ele apontou, mais como um alerta, foi sobre o papel dos países no jogo internacional. Neste caso ele aponta o fato de que o papel das nações no plano internacional está intrinsecamente ligado à sua condição objetiva, suas escolhas e opções e não apenas à sua vontade ou seu destino manifesto.
Houve todo um debate recente sobre este novo mundo e a importância das parcerias entre nações etc...Em diversas ocasiões vínhamos comentando que este jogo só daria certo se os maiores players, China e EUA, realmente estivessem interessados nele. Aqui temos um pedaço da resposta que mostra como esta questão pode ser muito mais complexa que as intenções ou sonhos. Aqui se confirma a velha máxima de geo-estratégia internacional ainda não bem assimilada pela política externa brasileira: Países não têm amigos, têm interesses.
Outra questão fica por conta da entrada da China no mercado de tecnologia verde. A primeira conclusão é que o Estado quando quer realmente faz. A segunda é que tudo são negócios, mesmo que internamente a questão ambiental não seja tão relevante assim. A terceira é que a China vem reorientando seus investimentos na direção da produção de tecnologia nova e vai abrindo uma alternativa à produção dedicada ao manufaturado de baixo preçoxbaixa qualidade. A quarta é que a mesma mão de obra barata pode servir para as duas coisas. A quinta e última fica por conta de uma complexa reorientação estratégica com vistas a substituir a parceria principal com americanos. Como se vê tem muito pano para manga neste debate, que promete ser complicado.
Apenas uma observação quanto ao termo “Euro-bashing”: É um termo utilizado em similaridade ao termo “Japan-bashing” criado pelos americanos quando japoneses pareciam intransigentes nas relações comerciais entre os dois países. Alguma coisa do tipo jogo duro da zona do euro.
Aproveitem.
Demetrio Carneiro
China lidera o mundo na energia verde
A idéia de que a China esteja à frente de qualquer coisa relacionada ao jogo de proteção ao meio ambiente provavelmente parecerá aos leitores uma ironia. Tendo em vista os relatórios da extensa poluição industrial, poluição atmosférica, numa escala que está mudando padrões climáticos, envenenamento por chumbo em larga escala, cádmio no solo. Como a Forbes comentou recentemente, “China: Onde o envenenamento das pessoas é quase gratuito”.
Havíamos comentado, em abril, que a China havia, já a algum tempo, decidido assumir a liderança em carros elétricos. Não só os EUA ficaram para trás na tecnologia de baterias como também acumulou-se know-how para trens elétricos:
Servomotores de alto torque são condição imprescindível para veículos elétricos.
A alta performance do torque é obtida através de ligas que utilizam “terras raras”. Em primeiro lugar ligas de Samário-Cobalto e Neodímio-Ferro-Boro. A GM chegou a ter uma participação majoritária na Magnaquench, empresa da Índia com experiência em materiais específicos e fabricação de imã. Decidiu, entretanto, que motores elétricos não se encaixam em suas competências essenciais.
Ambrose Evans-Pritchard do Telegraph diz que a China está tomando a dianteira em outras frentes da energia “verde”, ou seja, painéis solares e turbinas eólicas:
“A China está correndo atrás dos benefícios da tecnologia verde. Já conquistou um terço do mercado mundial de células solares e está num curso vertiginoso para prover 100 gigawatts de turbinas eólicas, até 2020, em vastas regiões do interior da Mongólia e Xinjiang, dobrando a capacidade mundial desta energia.”
Contudo e potencialmente mais importante, a China está na vanguarda da competitividade em preços:
“A Suntech Power, em Wuxi, acaba de quebrar o recorde mundial na captura de energia solar fotovoltaica, atingindo uma taxa de conversão de 15.6% com um módulo tipo comercial.
A Trina Solar está corpo-a-corpo com a America’s First Solar, a estrela do baixo custo, quebrando já a barreira do custo de  um dólar por watt com um fino filme feito de Telureto de Cádmio.
A trinca chinesa Suntech, Trina e Yingling espera ter custos inferiores a 70 centavos de dólar por watt em 2010, alcançando a meta mágica da paridade com a grade do combustível fóssil.
O conceito de “grade de paridade” está sujeito a intenso debate, basicamente entorno de qual combustível – energia nuclear, petróleo, carvão ou energia renovável – conta com maior subsídio implícito e qual será o futuro preço do petróleo cru. A paridade já foi alcançada em lugares quentes. A planta de 10 megawatts da Fisrt Solar em Nevada pode produzir eletricidade, sem subsídios, a 7,5 centavos de dólar por kilowatt/hora, contra 9 centavos da energia fóssil.”
Entretanto estes avanços são verdadeiros ou são, também, resultado da moeda barata? Estes ganhos estão se dando em detrimento dos rivais europeus e, muitas vezes o Euro-bashing ( mais precisamente EU-bashing, mas esta diferença se perde às vezes ) Evans-Pritchard tem alguma simpatia  declarar:
“Os pioneiros alemães Solarworld e Conergy alegam jogo sujo e clamaram por sanções da EU, acusando os rivais chineses de praticar um tipo de política de preços quase no limite do dumping. O Ministro das Finanças da China informou que pretende cobrir metade dos custos de investimento em energia solar. É um momento de vida-ou-morte para a indústria alemã voltada para a energia solar, pioneiros que geraram 75 mil empregos. “Um grande número de produtores de células solares e módulos solares não sobreviverá”, disse Patrick Hummed, da UBS.”
“A grosso modo as empresas chinesas podem estar 30% mais baratas que as alemãs. No fundo é um problema monetário. A China abriu uma enorme diferença em relação a Europa nos últimos anos ao conectar um Yuan desvalorizado a um dólar fraco. Enquanto Pequim derrama lágrimas de crocodilo sobre o dólar em queda, a situação é deliberadamente utilizada para proteger sua própria exportação. O qie está ocorrendo com as empresas de energia solar alemãs é um caso eu evidencia o poder corrosivo do desalinhamento de moedas.”
Se a economia global continuar com baixo desempenho as economias mais avançadas serão menos tolerantes à continuidade deste tipo de mercantilismo chinês. Todos conhecem os perigos do protecionismo, mas se a China  continuar a agir “no limite” supondo que seus parceiros não farão muito para preservar o sistema, ela poderá apreender, no caso com um prejuízo coletivo, o custo de forçar a mão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Malan: proposições para um novo governo



O debate sobre a crise colocou a questão das oportunidades. Supondo que a crise fosse também o lugar de escolhas possíveis, novas escolhas puderam ser pensadas. O debate eleitoral prematuro, precipitado por interesse do governo, acabou trazendo essas proposições para uma plataforma de governo. Demandas foram geradas e acabaram mesclando crise, pós-crise e eleições.
De um ambiente onde não tínhamos nada a não ser uma fala governamental restrita a nos garantir que teremos sempre mais do mesmo, Lula=pós Lula, passamos para um novo ambiente onde, ainda que de forma meio cuidadosa, alguns personagens mais centrais vão soltando a fala. Serra falou, Aécio falou. Agora nos fala Malan.
Na edição de 9 de agosto do “O Estado de São Paulo”, sob o título “Respostas à crise: mais além de 2010” o ex-ministro, de olho na questão ética, tece algumas considerações sobre este olhar mais longe. Diz explicitamente esperar que o debate sobre o próximo governo “leve em conta seis temas inter-relacionados”. A saber:
1- Abertura pra o resto do mundo nas dimensões comercial, financeira, investimento direto, ciência, tecnologia, cultura e inovação. Enfim, a abertura que nunca se fez completa;
2- O custo-Brasil é o próximo item: Infraestrutura e logística em energia, transporte, telecomunicações, portos rodovias. Aqui ele toca na questão regulatória e na importância dos investimentos privados nesta área. Provavelmente falamos de PPP’s.
3- A questão da educação recebe o terceiro destaque e o ministro assinala que aqui estão as deficiências que comprometem o futuro;
4- Estabilidade macroeconômica e manutenção do tripé – câmbio flutuante, metas de inflação e responsabilidade fiscal. Assinala que o projeto de estabilidade não é um fim em si próprio, mas a condição para o crescimento sustentado de longo prazo;
5- Estímulo ao investimento privado, mas olhando para o ambiente institucional – “estabilidade e previsibilidade das regras do jogo”;
6- Esta não é exatamente uma meta, mas uma crítica à atual política externa brasileira, construída sobre o conceito de destino manifesto e não sobre a eficiência da economia e a efetividade das instituições.
Em realidade a questão ética pode ser vista ai como uma sétima meta. Citando um relatório do Banco Mundial que menciona o comportamento das autoridades como um poderoso “sinalizador” do que é ou não aceitável em uma dada sociedade, Malan comenta: “Vivemos tempos de excessiva complacência, relativismo moral...”.
Na lógica do texto as sete metas representam, em verdade, a solução do “desafio do desenvolvimento sustentado para além de 2010”.
Embora todas devam merecer atenção e sejam partes a se considerar de um projeto de desenvolvimento sustentável de longo prazo, a inexistência de citação concreta da conexão entre a sustenção do desenvolvimento econômico de longo prazo e políticas de sustentabilidade ambiental colocam uma diferença importante que pode ser percebida em Serra e Aécio que, em discursos recentes, fizeram clara menção ao assunto. Se falarmos em desafios do desenvolvimento não é uma nuance a ser desconhecida e sua presença ou omissão tem desdobramentos que devem ser considerados.
Demetrio Carneiro