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terça-feira, 6 de setembro de 2011

A VARIAÇÃO DO IPCA E OS PLANOS DE GOVERNO

      O IPCA acumulado de agosto, ano sobre ano, chegou a 7,23%. Agosto sobre julho chegou a 0,37%. Para quanto o IPCA terá que ir nos próximos meses de forma a encostar na andar de cima da meta? O governo quererá essa forte desaceleração num momento onde o mercado dá números de PIB abaixo de 4%?

       As montadoras estão ajustando estoques. Mas ajustando por conta da demanda super-estimulada ou por conta da “crise”?

       Dúvidas. Muitas dúvidas num ambiente de incertezas. Não costuma ser a melhor hora para experiências heterodoxas...Talvez alguns afirmem justamente o contrário. Vamos ver onde isso tudo vai chegar.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O TESTE DE RELATIVIZAÇÃO DAS POLÍTICAS DE ESTABILIDADE ECONÔMICA

Aquilo que veio se consagrando como um conceito de Estabilidade Econômica ao longo dos últimos anos - controle da inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuando – foi sendo precarizado numa espécie de “teste de limites”, tendo-se em vista a priorização política de manter um certo ritmo de crescimento do produto a partir de um piso situado em 4%.

Não é preciso ser muito conhecedor de economia ou de história pra saber que há de fato um dilema entre inflação e produto, quando falamos do papel do Estado. Apostas muito fortes no produto, isto é crescimento, como as que foram feitas em 2010 ou agora com o piso, são apostas inflacionárias e a única saída é afrouxar as políticas anti-inflacionárias. Correr riscos. Neste quesito o governo vem andando no fio da navalha ao usar o conceito de teto e não de centro da meta. Encosta no teto em 2011, provavelmente encostará ou até passará em 2012, anos eleitoral, já que o ciclo econômico-eleitoral está ancorado no “fazer política”.

São posturas que parte da oposição assistem em silêncio já que lá no fundo “baixinho quase calado” bate um coração desenvolvimentista que olha com muita desconfiança estas coisas de Estabilidade e vê nelas uma herança neoliberal instalada pelo demônio imperialista.

Numa situação como a atual, nesse mundo meia boca, onde vivemos um processo de stop-and-go de crescimento, que hora trava e hora parece seguir, pode haver espaço para correr riscos a partir de um país como o Brasil. De alguma forma fomos privilegiados na inversão dos termos de troca e acabamos nos favorecendo pela inversão, decorrente, do fluxo de renda entre o país e o resto do mundo. Ele hoje se dá a nosso favor. Da mesma forma a crise nos países desenvolvidos acabou colocando o foco sobre nossa economia, transformada em confiável justamente pelas políticas de Estabilidade, propiciando um fortíssimo fluxo de capital a nosso favor.

No problema é que há fortes sinais de um aprofundamento da crise na Europa, mesmo que a economia americana possa se apresentar um pouco menos vulnerável. Nessa altura do campeonato dois riscos são muito claros. O primeiro é uma queda dos preços das commodities, via redução da demanda, principalmente chinesa, que leve a uma mudança dos preços relativos importação x exportação e reverta o fluxo de renda na direção do resto do mundo. Outra possibilidade será uma queda no nível de ingresso dos investimentos direitos estrangeiros. Isoladamente cada fenômeno desse talvez possa ser enfrentado, mas se ocorrerem no mesmo espaço de tempo a atual política de afrouxamento do conceito de estabilidade será posta à prova e, dependendo da demora de respostas, poderemos ingressar numa faixa de forte instabilidade.

São problemas de vulnerabilidade da economia brasileira que ficam pouco visíveis pelo culto do mercado-que-tudo-resolve.

A se ver...

Demetrio Carneiro

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Locomotivas do desenvolvimento

Ontem pela manhã, 31, a Rádio CBN apresentou uma entrevista com Paulo Fernando Fleury, CEO do ILOS, uma instituição voltada para as questões de logística e cadeia de suprimento. Na intenção de promover um Seminário sobre logística de sua instituição Paulo Fernando comentava sobre a matriz de transporte brasileira fundada no transporte rodoviário. No dia anterior, 30, Miriam Leitão em sua coluna n’O Globo já havia comentado o Seminário e foi mais além criticou o “rodoviarismo” do PAC. Nas palavras da jornalista, comentando estudo do ILOS, “o prazo de retorno do investimento em rodovia na Amazônia é de 14 anos; em ferrovia, de nove anos; e em hidrovia, de três anos. A emissão de carbono em rodovia é oito vezes maior do que em hidrovia. É preciso 200 carretas para transportar a carga de seis barcaças”.


Que o transporte ferroviário e aquaviário são mais eficientes para distancias médias e grandes, é fato sabido. Que o transporte rodoviário deveria ser concentrado no transporte de curta distância, apenas para ligação entre ferrovia/aquavia e destinatário final também é sabido. A questão é como chegar lá.

Como, por exemplo, romper um poderoso lobby que começa na indústria automobilística, tem interesses em toda a rede de fornecedores desta indústria, passa pela mega-empreiteiras que asfaltam e reasfaltam infinitamente as estradas, envolve toda a rede de transporte rodoviário de cargas e pessoas. Estamos falando de quantos milhares de pessoas e quantos bilhões – isto mesmo, bilhões – ano?

Falar em um modelo ambientalmente melhor é uma coisa. Implantá-lo é outra bem diferente e passa pelo mundo da política, anéis de poder que vão dos sindicatos patronais aos sindicados de trabalhadores. Votos, muitos votos. É contra esta parede que batem as boas intenções nas últimas décadas. Quando se cruza esta matriz rodoviária com petróleo as coisas só ficam piores. Em termos ambientais e em termos de grupo de pressão.

A cultura desenvolvimentista instalada em nosso passado foi a do lema de Juscelino na década de 40/50: Industrialização e eletrificação. Não por acaso parecida com o projeto stalinista para a União Soviética. Industrializar e eletrificar a qualquer custo. Nosso problema é que o lema era, mesmo, indústria de automóvel e eletrificação. De lá para cá o resto se conformou ao marco inicial.

Bem na moda a China tem dois interessantes exemplos a dar na questão das ferrovias. Aonde a energia elétrica não chegou, usam as “Maria-fumaça”. Um sistema de transporte que desprezamos como superado movimenta uma largíssima parcela do interior chinês. Apenas estas atuais não são as nossas antigas. As locomotivas chinesas foram modernizadas, apresentam rendimento muito superior às antigas e não queimam mais carvão de madeira, mas óleo diesel. A pesquisa foi feita na China e é lá que as máquinas foram fabricadas. A locomotivas elétricas se beneficiaram das pesquisas para carros elétricos e a China já possui servomotores muito mais potentes e econômicos depois de um grande investimento na produção de imãs a partir de terras raras. Pesquisa feita na China e produção feita na China.

O que se vê ai é que não houve apenas uma escolha por um meio de transporte ou um tipo de via, mas também pela pesquisa e produção local de equipamento. Houve uma escolha por um modelo de desenvolvimento.

A vontade de mudar a matriz não é suficiente. É preciso que se perceba o que está envolvido nisto e quais podem ser as escolhas e alternativas. Mas, mais que tudo, propostas como estas devem estar ligadas a modelos de desenvolvimento mais ambiciosos. Muito mais ambiciosos.

Demetrio Carneiro

sábado, 22 de agosto de 2009

Necessariamente não falamos das mesmas coisas.


O texto abaixo postei alguns meses atrás no Portal Alternativa Brasil. Decidi por reeditá-lo, com algumas pequenas alterações, pois acho que está bastante atual.

Demetrio Carneiro

Um programa para a oposição terá que ser um programa que vá além da proposta conservadora. Porque é isso o que, na essência, boa parte da oposição é: um agrupamento com forte tendência conservadora. Não que não haja um desenvolvimentismo conservador ou que o novo conservadorismo não perceba a importância de reformas estruturais ou do desenvolvimento social. Ao contrário da manifestada visão chiita de parte da esquerda o novo conservadorismo percebe todas essas coisas. A esquerda tem a mania de confundir o conservadorismo clássico e determinado apenas pela visão tradicional dadivisão internacional do trabalho, a coisa mais feudal, com um conservadorismo que vem do crescimento endógeno de uma burguesia brasileira. Não consegue perceber as nuances desse processo e suas complexidades.
Foi a ditadura, chamada de entreguista, mas ferrenhamente protecionista para a burguesia nacional, que ao mesmo tempo em que aprofundava os vínculos, até hoje mantidos, com a divisão clássica do trabalho, através de investimentos em C&T para produtos agrícolas de exportação, estímulo à expansão das fronteiras agrícolas ( as fronteiras agrícolas brasileiras praticamente se esgotaram ainda durante a ditadura, é bom lembrar ), uso de tecnologia intensiva de mão-de-obra, estimulava a criação de grandes grupos econômicos, verdadeiros consórcios econômico-financeiros, que vão desde a agricultura, pecuária, indústria, mercado de capitais até bancos. Consórcios de capital nacional, basicamente.
Enfim, sempre sendo a mesma coisa o país foi se transformando em outra coisa e existe sim uma burguesia brasileira gerada nas entranhas do favoritismo estatal.
O projeto liberal de FHC foi para essa burguesia o grito do parto concluso. Finalmente havia meios para caminhar sozinha e o Estado de gestador passava a ser um parceiro incômodo. O capitalismo brasileiro já podia caminhar sobre suas próprias pernas.
O sonho liberal não durou tanto. Havia um novo ator em cena.
O amadurecimento capitalista deu-se em paralelo ao amadurecimento democrático e esse último acabou trazendo à luz do dia uma classe média urbana de baixo perfil, e mais, deu voz a um segmento do proletariado brasileiro sempre tratado, pelas agora decadente elite tradicional, como curral eleitoral. As elites tradicionais não jogaram com a burguesia urbana e seus currais simplesmente mudaram de bandeira, junto com parte importante da própria elite. Sarney que o diga. Tanto essa baixa classe média, como os setores do proletariado precisavam do Estado como agente acelerador de seu desenvolvimento social. Olhando por essa perspectiva: a necessidade de intervenção redistributiva do Estado, o projeto liberal passou a ser um empecilho. O desenvolvimento social sugeria mais e mais Estado. Nisso a situação econômica mundial foi facilitadora, pois viabilizou o financiamento de um crescimento sem precedentes da máquina estatal. O estado foi capaz de crescer não só em seu tamanho, como na remuneração de seus agentes, como e principalmente, no tamanho do guarda-chuva social. Mais que uma vontade foi uma necessidade histórica, expressão da luta de classes e de diferentes projetos de poder. Se a burguesia nacional, no seu pólo mais dinâmico, podia caminhar pelas próprias pernas, o mesmo não acontecia à baixa classe média urbana e o proletariado.
Na crise o que pode estar se esgotando é o modelo mais básico de desenvolvimento social dessas classes vitoriosas politicamente. Independentemente dela, que pode ser vista ai como um acelerador de contradições, os projetos de governo, de FHC e Lula, trouxeram uma parcela significativa da sociedade brasileira para um novo patamar de qualidade de vida e consumo. O problema está no "e agora?".
O atual Plano Plurianual, 2007-2011, deveria trazer um seu bojo parte da solução ao priorizar a questão da educação básica. Contudo havia uma crise no caminho e o modelo desenvolvimentista fundado nas categorias clássicas da exportação de meio-ambiente e da expansão do crédito pessoal acabou por se impor. No lugar da priorização do ensino tivemos a priorização do PAC.
Incapaz de poder fazer um pouco mais do mesmo (usar a extrema apropriação do produto nacional e o tamanho do Estado para manter o ritmo de desenvolvimento social), mas dizendo que está fazendo outra coisa, só resta ao governo o recurso do PAC e suas variantes. O guarda-chuva de 2009 está garantido, orçamentariamente falando. Desde que a queda de arrecadação não seja muito menor do que o previsto, já que ele depende de recursos que ainda irão entrar. Manobras estão sendo feitas, como, por exemplo, o aumento da margem de contribuição para a previdência, tentando reduzir o déficit de hoje, num evidente casuísmo de jogar o abacaxi para frente, para o próximo governo. A recentíssima manipulação dos números da Previdência mostra isto.
Então ficamos assim: De um lado o modelo liberal-conservador da burguesia nacional, incapaz de ir em frente pela identificação, fruto da cultura política, feita entre esses segmentos e todo o processo brasileiro que gerou o que Lula chamou de “dívida histórica”. De outro o modelo estatizante-desenvolvimentista de sustentação das baixas classes médias e do proletariado urbanos, esgotado em sua capacidade de sustentação.
O espaço que haverá para um programa novo será exatamente esse: um programa que viabilize de um lado o contínuo desenvolvimento social da baixa classe média urbana e do proletariado, mas que olhe para o Estado do lado da eficiência e da produtividade, viabilizando espaços para o mercado agir e consiga articular parcerias com a iniciativa privada, não para privilegiar grupos, mas porque ela pode ser mais eficiente.
Durante décadas o Estado foi visto apenas como agente indutor do crescimento. A partir da derrota da ditadura o preceito liberal de crescer o bolo para depois dividir foi abandonado, enquanto proposta, e o Estado passou a ter um segundo eixo de atuação: a questão social. O desenvolvimento social. Essa é uma escolha que não tem mais volta.

A premência da questão ambiental acaba por inserir um terceiro eixo e questões complexas serão geradas na tentativa de compatibilizar os três e acomodá-los no interior de um mesmo programa. São questões muito mais amplas que não são resolvidas apenas na utilização de palavras-chave como “desenvolvimento sustentável” ou “sustentabilidade”, tão em moda. Programa algum de governo poderá ser construído se não tiver isso em vista.

Não se trata tanto de uma plataforma de governo, daquelas cheias de generalidades óbvias, mas de uma proposta que possa se transformar em política de Estado, que deva ser levado à frente em qualquer governo, como foi o projeto desenvolvimentista estatizante, exportador de meio ambiente. Trata-se, então, de construir políticas públicas que respeitem e expressem esses três eixos e exponham suas interrrelações.
Por isso um programa de oposição terá que ir além, mais fundo.

Rodrik e Chumpeter. Dá certo?