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sábado, 10 de julho de 2010

A POLÍTICA PRODUZIDA PELO CANAL DO OPORTUNISMO

Matéria publicada pelo Estadão e repercutida parcialmente pelo Blog do Noblat dá uma clara disposição do “fazer política” de nossa República de 1988.

Com base na proposta de Paulo Paim de retornar ao uso do salário-mínimo como referência para o pagamento de pensões e aposentadorias uma consultora da Câmara Federal, Sandra Cristina Filgueiras, produziu um estudo sobre o seu impacto nas contas da previdência. Chegou naquilo que obviamente todos já intuíamos: A Previdência acaba de quebrar. O déficit triplicaria imediatamente.
Obviamente o senador, como Dilma em sua proposta para a redução da carga tributária trabalhista, imagina que os recursos públicos caem do céu ou brotam no chão.

O argumento principal é corrigir uma injustiça com pessoas que toda a sua vida contribuíram para o sistema e agora são penalizadas por cortes em suas rendas produzidos especificamente para equilibrar as contas da previdência. Em algum momento retiraram a relação entre pensões e aposentadorias, em outro criaram o fator previdenciário etc.

O caráter de bomba-relógio das contas da previdência vem sendo exposto desde a criação do INSS em substituição aos antigos Institutos e tudo que se fez foi cortar de alguma forma direitos.

Divulgado o estudo o Estadão partiu para avaliar a repercussão. Evidentemente o senador e os aposentados imediatamente criticaram. Aposentados e suas entidades têm mais é que lutar por seus direitos, mas o senador e todos os seus apoiadores dentro das duas casas legislativas federais sabem perfeitamente que apenas uma profunda Reforma Previdenciária resolveria o assunto.

Como estamos em período eleitoral os políticos devem falar aquilo que o povo entenda, dizem seus marqueteiros. Entre a complexidade do debate da Reforma Previdenciária e a “oportunidade” de defender aumentos de pensão e aposentadorias é mais produtivo esquecer os fatos a adotar a fantasia. Até porque o custo só virá lá na frente, na forma de mais tributação.

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 5 de maio de 2010

FATOR PREVIDENCIÁRIO, REAJUSTE DE APOSENTADOS E FINANÇAS PÚBLICAS

Muito, bem no próximo concurso público em que houver questões envolvendo Finanças Públicas já haverá uma nova questão para apresentar:

Quem acha que recurso público cai do céu?

a) Os metereologistas;
b) Quem não entende nada de Finanças Públicas;
c) Quem entende até demais e é candidato;
d) Nenhum das respostas anteriores.

Se tiver sido um bom professor certamente meus alunos irão ticar a letra “c”.

Incrível o que uma eleição pode produzir em termos de conduta.
O tal do “fator previdenciário” foi introduzido tendo-se em vista a situação deficitária da Previdência. Havia no paralelo a questão de estabelecer um novo regime que pudesse viabilizar uma sustentabilidade mínima.
Na época já estava bastante claro que o sistema de pagar pensões e aposentadorias lançando mão da receita presente não tinha futuro possível.
Quer dizer, ao contrário de ser aplicado o recurso apropriado do trabalhador é utilizado para cobrir pensão ou aposentadoria devida ao trabalhador aposentado ou à sua viúva.

A Constuição de 88 só fez ampliar a crise ao admitir que brasileiros e brasileiras pudessem se beneficiar do sistema previdenciário mesmo sem contribuir para isso. Aquilo que estaria melhor como Assistência Social virou Previdência Social devido à falta de recursos.
Quer dizer, o Estado foi “equinânime” , mas com os recursos do trabalhadores. Como a Previdência é um sistema fechado os recursos utilizados para cobrir os custos das novas categorias ingressantes, rurais, donas de casa, empregadas domésticas, são os mesmos a serem utilizados para as categorias que já cumpriram seu ciclo de contribuições. Explicamos: Num primeiro momento, digamos nos próximos 20 anos, a contribuição das novas categorias “não bate” com as despesas. Essa diferença só pode sair do caixa e acaba afetando diretamente as categorias que já estão dentro do ciclo contribuição/benefício.
Como isso afeta as categorias que já estão dentro do ciclo? Os reajustes possíveis terão que “caber” dentro do caixa. Daí a “compressão” dos benefícios pagos aos trabalhadores da economia privada. Claro, falta alguém explicar que os benefícios pagos aos funcionários públicos, inclusive aos deputados que votaram agora, são estruturados com outra lógica e o défict da previdência pública do que o da previdência privada é infinitamente maior em termos de proporções.
Muito bem. O caixa não cobre e a obrigação é constitucional. O Estado faz a única coisa que pode fazer: Cria dívida pública para honrar seus compromissos.

Orçamento Público é uma peça muito técnica. Geralmente o que sai nos jornais ou na web é o orçamento do governo federal e não a peça completa. É ela que demonstra o quanto a Previdência onera a Dívida Pública. De modo geral o orçamento do governo é equilbrando. O que desequilibra a conta é o “buraco” entre receita e despesa da previdência. A privada. O “buraco” da previdência pública fica ocultado nas contas “equilibradas” dos governos nos três níveis federativos.

Claro, o que os olhos não vêem o coração não sente.
O fator previdenciário e mesmos as limitações ao aumento dos benefícios foram mecanismos para evitar o aumento do déficit previdenciário e, portanto, da dívida pública.
O argumento central para derrubar o fator previdenciário e aumentar os benefícios são dois:
a) “Justiça social”;
b) Se gastamos tanto com tantas coisas porque não gastar também em justiça social?

O problema dos argumentos anteriores é que não se elva em conta a injustiça das soluções parciais ou paliativas.
Na realidade o que os parlamentares fizeram foi jogar para o futuro um abacaxi do presente, de formas que obtivessem um “lucro” eleitoral.
Evidentemente haverá a necessidade de formar mais Dívida Pública para cobrir este novo déficit. Também é evidente que isso não vai afetar os benefícios do funcionalismo público, inclusive os deputados, que estão em outra conta. Agora, se a Dívida Pública de hoje é a tributação de amanhã é claro que o prejuízo atual será pago por mais tributo depois. Na realidade é o trabalho de brasileiros e brasileiras que irá financiar essa decisão.

Existe um dilema clássico entre eficiência e equidade. Quer dizer, as famílias, em geral, aceitam perder parte de sua renda em prol do benefício de famílias mais pobres. Isto é justiça social. Equidade.
Está em nossa Constituição Federal e é uma conquista de nosso povo.

A questão que os senhores parlamentares se recusaram a encarar é que a Previdência Privada é o que é por falta de uma profunda reforma que nunca se realiza. Todas as recentes “reformas”, inclusive essa do Fator Previdenciário foram paliativos. O Executivo central e o Congresso Nacional empurram com a reforma com a barriga, cientes de ser assunto que mais que dar pode tirar votos por interferir em questões fortemente corporativas.

É o mesmo com a contribuição sindical, por medo de envolver as poderosas centrais sindicais ou com a regulamentação do direito de greve dos funcionários públicos.

O que a Câmara Federal fez foi uma “bondade” claramente eleitoral. Metendo a mão no nosso bolso e não fazendo o que deveria fazer de fato: Reforma das duas Previdências, a privada e a pública.
Não há qualquer razão para comemorar esse tipo de "vitória".

Demetrio Carneiro

sexta-feira, 30 de abril de 2010

PARA QUÊ SERVE UMA CPI?

Segundo o Jornal da Câmara, edição de 28 de abril passado, o relator da CPI da Dívida Pública concluiu que os juros altos são responsáveis pela escalada da dívida.

Segundo teria adiantado o relator o governo ao ter “trocado” uma dívida externa atrelada ao dólar por uma dívida interna atrelada à Selic e essa não teria sido uma boa escolha. Já para o deputado Ivan Valente o texto reconhece tacitamente que o aumento da dívida não se deu pelos gastos com a Previdência ou com o funcionalismo, como suporiam Poe “alguns setores da área econômica do governo ou da oposição”.

Não sei bem qual é o custo de uma CPI. Imagino, pelas extensas mordomias da Câmara Federal que uma planilha realista – custo do tempo dos parlamentares, custo total de pessoal, espaço, material, viagens etc...- indicaria que não deve ser nada baixo. 
Se não é tão baixo uma CPI deveria produzir mais que firulas e obviedades ou servir de palco da pirotecnias. É simples: Respeitar o contribuinte.

Fica como sugestão aos nossos valentes(!) parlamentares que estudem o quando os mais de 200 bilhões destinados ao BNDES interferem na Dívida. Também poderiam estudar o custo da política da Receita Federal para a compra de dólares com a intenção de “segurar o câmbio”. Quem sabe o custo do aparelhamento político do Estado? Ou os custos diretos e indiretos da corrupção. Ou os custos adicionais da “contribuição estatal” para acelerar a Belomonte, que certamente virarão dívida pública.

Mais complicado é o discurso de Ivan Valente. Supondo-se “de esquerda” o deputado fica satisfeito de livrar a cara de Previdência ou do funcionalismo. Pode ser que já seja uma propostas de plataforma de governo. Nada de reforma previdenciária. Nada de crítica ao conceito de que inchar a máquina pública significa automaticamente melhorar a qualidade do serviço prestado. Mas principalmente nada da percepção de que dinheiro não tem marca e, portanto, um déficit numa área qualquer da gestão pública soma para a diferença geral entre receita real e despesa real e vira sim dívida pública.

Talvez os deputados devessem mesmo é gastar os recursos públicos estudando um pouco de Finanças Públicas.

Demetrio Carneiro