Mostrando postagens com marcador China e meio ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador China e meio ambiente. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de março de 2011

FATO CONSUMADO: CANTEIRO DE OBRAS DA BELO MONTE COMEÇA A SER INSTALADO

Ontem, segunda-feira, começaram as obras de instalação do canteiro de obras da Belo Monte, por conta da liberação dada pelo Tribunal Regional Federal que liberou a destruição de uma vasta região de floresta natural por conta de uma "possível" liberação das obras da mega-usina.

O empenho governamental na obra é máximo e vem da concepção de um tipo de matriz energética que não fica tão explicitado nesses debates sobre as mega-usinas. Do lado da sociedade civil a luta pelas árvores em pé, a defesa ambiental, não se formula em termos de querer discutir as opções de construção da matriz que, ela sim, é a origem e a razão desta e das próximas mega-usinas.

O dado concreto é que o país necessita de energia para crescer. A questão concreta é se é este o único modelo possível. Esta é a discussão que não existe. Mais uma. Não é?

Demetrio Carneiro

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ASSUNTOS POUCO RELEVANTES PARA AS ELEIÇÕES DE 2010

Na firme intenção de servir ao distindo público e antes que alguns desses Conselhos de Mídia que vão se instalando pelo país, de forma bem sorrateira, me mande uma lista de temas de interesse social que podem ser debatidos publicamente, resolvi escalar um dos temas irrelevantes, tendo em vista sua repercussão, nos fortíssimos e profundos debates eleitorais de 2010.

Demetrio Carneiro


Fonte: Pontes Bimestral/ International Centre for Trade and Sustentable Development

Vera Lucia Imperatriz Fonseca e Patricia Nunes Silva

Apesar da distância entre o quadro atual de preservação da biodiversidade e as metas estipuladas pela Rio 92, as convenções decorrentes dessa reunião resultaram em metas que, em alguns temas específicos, provocaram a mobilização de atores não-governamentais e governamentais em torno do tema. Este artigo debruça-se sobre um desses tópicos, o dos polinizadores, elementos-chave na conservação da biodiversidade e, mais precisamente, da produtividade agrícola, em um contexto sustentável.

As metas da Rio 92 eram claras: as agendas da Convenção do Clima e da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) deveriam convergir para 2010, quando era esperada a diminuição da perda de biodiversidade e a estabilização do aquecimento global, para a melhoria da vida na Terra. No entanto, apesar dos enormes esforços realizados, o quadro atual está longe do planejado.

Devemos considerar, entretanto, os avanços e sucessos das referidas convenções no sentido de inserir na pauta global os principais desafios para a sobrevivência do ser humano na Terra. Nunca uma única espécie animal provocou uma alteração tão grande, afetando não somente o uso da terra mas também o clima, e assim provocando a maior perda de biodiversidade já avaliada. Daí alguns autores alarmarem que estamos no início de uma nova era: o Antropoceno. As consequências e limites de atividades do ser humano nessa nova era têm sido discutidos: até que ponto podemos alterar os biomas, utilizar os recursos naturais e serviços ecossistêmicos? Como manter a capacidade de resiliência do planeta, ou seja, a possibilidade de que este se recupere dos impactos causados pelo Homem?[1] A luz vermelha está acesa para vários aspectos, com destaque para a perda de biodiversidade, as alterações climáticas e os ciclos biogeoquímicos.

O modelo adotado pelas convenções e o estabelecimento de metas concretas pelos governos signatários trouxeram avanços importantes para o conhecimento e a convergência de ações. Aqui, cabe ressaltar a Iniciativa Internacional para Conservação e Uso Sustentado dos Polinizadores (IPI, sigla em inglês), iniciativa brasileira aprovada na 5ª Conferência das Partes (COP, sigla em inglês), realizada em Nairóbi (Quênia), para a biodiversidade agrícola. Na ocasião, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, sigla em inglês) foi definida como facilitadora e implementadora de metas para 2010. É interessante observar que os serviços ecossistêmicos da polinização possuem valor incalculável, na medida em que atuam na base da cadeia alimentar, na produção de frutos e sementes, de forma que a fisionomia da paisagem é influenciada pelos polinizadores locais mais abundantes[2]. Mas, foi na produção agrícola que o tema se desenvolveu.

A sugestão de focar nos polinizadores foi do governo brasileiro, mas a discussão para implementação foi no âmbito acadêmico internacional, que estava atento ao declínio de polinizadores que já ocorria desde 1998. A Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores foi preparada com a participação de cientistas de muitos países, mobilizados em torno da causa. A partir de então, organizaram-se em iniciativas locais, cada uma delas com sua característica, abordando os temas propostos com propriedade.

A North American Pollinator Protection Campaign[3], por exemplo, congrega mais de 120 instituições de diversos setores da América do Norte. A Campanha festeja, em outubro deste ano, dez anos de atividade, com muito sucesso: os polinizadores já fazem parte da agenda de muitos estados dos Estados Unidos da América (EUA), e recursos humanos e financeiros foram destinados a eles, além de políticas públicas. É interessante destacar que talvez tal mobilização tenha sido impulsionada pela inesperada e significativa perda de colônias de abelhas Apis nesta região – cerca de 30% ao ano, desde 2007. Nos EUA e no Canadá, as abelhas são utilizadas cada vez mais no cultivo de frutas e verduras, e os impactos da perda do principal polinizador também levaram à pesquisa pioneira, juntamente com um grupo europeu, sobre a influência da paisagem agrícola na produtividade e a atuação de outros polinizadores de importância agrícola. Afinal, somente no caso das abelhas, são conhecidas pela Ciência cerca de 20.000 espécies.

Outras Iniciativas Polinizadores desenvolvidas por alguns países e centros de referência são: a Europeia (EPI, sigla em inglês), a Africana (API, sigla em inglês), a Brasileira (BPI, sigla em inglês), a da Oceania (IOP, sigla em inglês), a Rede Inter-americana de Informação sobre Biodiversidade (IABIN-PTN, sigla em inglês), o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado da Montanha (ICIMOD, sigla em inglês) e a Rede Canadense de Polinização (CANPOLIN, sigla em inglês). A Colômbia deve formar sua Iniciativa neste ano. Nesta esteira, a partir de metas convergentes, o conhecimento sobre o assunto tem evoluído bastante[4] - o que nos permite hoje responder a perguntas de interesse geral .

Como resultados destes esforços, alguns números exemplificam a importância dos polinizadores. Sabe-se que: (i) os serviços ecossistêmicos da polinização respondem por 9,5% do total da agricultura mundial, o que correspondia, em 2005, a €153 bilhões; (ii) 1/3 da alimentação humana se baseia em produtos polinizados por animais; e (iii) é essencial para a sustentabilidade da agricultura manutenção de uma paisagem favorável aos polinizadores. Algumas culturas florestais, tais como a do açaí, a da castanha do Brasil e a do cupuaçu dependem integralmente da polinização animal. A produção de biocombustíveis também é incrementada com a ação dos polinizadores: pesquisas recentes mostram que abelhas na cultura da mamona aumentam a produção de sementes em 5%, melhoram a qualidade do óleo produzido e ainda produzem mel atóxico de boa qualidade; na canola, embora esta cultura não dependa de polinização por animais, sua presença aumenta o peso dos frutos em valores de 50% a 70%. A paisagem agrícola e o rendimento de culturas por meio da presença e atuação de polinizadores também têm sido investigados para o cultivo do café, em que se registra um aumento da produção de 13,5% a cerca de 50%, na presença de maior biodiversidade de polinizadores. O valor comercial do café plantado à sombra da floresta passa a ser maior, porque pode ter o selo da preservação ambiental.

A manutenção dos biomas naturais também depende das síndromes de polinização, e novos estudos demonstram essa interdependência. Esta ligação entre conservação e agricultura passa a ser o foco de organizações não-governamentais (ONGs) atuantes a nível global, tal como a Conservation International. Nessa interface está o futuro das Unidades de Conservação, e mapas de prioridades de áreas de conservação que contemplam análises dos serviços ecossistêmicos já estão disponíveis. Em alguns países, o pagamento pelo uso desses serviços da polinização já foi proposto.

As análises ecológicas e os modelos efetuados demonstram que a agricultura praticada em países tropicais depende cada vez mais de polinizadores, e que há necessidade de investir na criação de novos polinizadores. Até mesmo uma nova apicultura, atraindo jovens e tecnologia de ponta é sugerida, uma vez que atualmente a apicultura cresce menos do que o necessário para atender ao mercado. O mesmo vale para a criação de outras abelhas em escala, e para investimentos em pesquisas da área.

O sucesso da CDB, neste caso dos polinizadores, consistiu na mobilização de governos, pesquisadores e demais atores. Ainda há muito o que fazer, mas o modelo funcionou, e a conscientização popular aumentou: a polinização aparece mencionada na mídia, inclusive nos pronunciamentos mais importantes desta COP 10, e esta abordagem tende a crescer.

* Professora titular de Ecologia no Instituto de Biologia da Universidade de São Paulo (USP), aposentada. Atualmente, é professora visitante nacional sênior da CAPES na Universidade Federal Rural do Semiárido, Rio Grande do Norte.
** Bióloga, Mestre em Ecologia e doutoranda da USP.
[1] Uma avaliação muito importante neste sentido foi feita por Rockström et al. em 2009, discutida na revista Nature, 461(24).
[2] Ver: Biesmeijer et. al., Science, vol. 313, 2006, pp. 351-4.
[3] Ver: .
[4] Atualmente, os trabalhos de construção de cenários futuros aborda a distribuição dos principais polinizadores nativos sob diferentes projeções climáticas.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

CHINA: O CUSTO DO PLANEJAMENTO CENTRAL

Essa demanda chinesa “fora do radar”, como está na matéria do WSJ repercutida pelo Valor Online, abaixo, tem explicações interessantes, mas sinalizam questões que podem ser bem complexas.

O aproveitamento de resíduos é atividade onerosa e normalmente não é lucrativa. Depende ou do desenvolvimento de novas tecnologias ou da vontade de usar as antigas soluções.

As antigas são: Custo reduzido de mão de obra, descompromisso com as questões de saúde pública e ambientais. A China é farta provedora das três.

Se o uso dos resíduos não está no radar dos analistas o que não está no radar do governo chinês são preocupações com a saúde de sua população ou com seu meio ambiente. 
É o crescimento econômico a qualquer preço típico dos projetos de economia centralizada.

Demetrio Carneiro


Fonte: Valor Online


Um navio carregado de terra cinzenta, arenosa, partiu do Alasca uma semana atrás rumo à China. Perdidas dentro dos detritos estavam pequenas lascas de ouro que a Corporação do Grupo Nacional de Ouro da China planeja extrair.
O embarque é um de muitos de material rico em minérios que viajam rumo aos portos chineses e formam uma parte importante, mas pouco notada, dos esforços para saciar a demanda do país por matérias-primas.
O ouro do Alasca não vai aparecer no relatório oficial das importações chinesas ou em dados comerciais das principais bolsas de commodities ou mercados de metais. As compras chinesas de sucata de cobre e seus investimentos em projetos de areias betuminosas no Canadá também estão fora do radar, revelados publicamente mas não amplamente observados.
Observadores dizem que o minério de baixo grau que chega à China reforça as evidências de que a demanda do país por matérias-primas é maior do que os indicadores comuns mostram, e maior do que muitos investidores imaginam.
Os investidores em vez disso acompanham de perto o consumo chinês de commodities bastante negociadas, como barras de ouro, cobre refinado e petróleo bruto. Sinais de que seu apetite está aumentando ou caindo podem mover esses mercados, e ajudam a definir seu crescimento econômico de maneira mais genérica.
Durante o primeiro semestre, as importações chinesas de cobre refinado caíram mais de 13%, um declínio de 239.000 toneladas em relação ao mesmo período do ano passado - um sinal aparente de demanda mais fraca. Mas o país aumentou as importações de sucata e concentrado de cobre, que precisam de mais processamento. As 362.000 toneladas de cobre adicional foram o suficiente para fazer com que as importações chinesas tivessem um crescimento líquido, segundo o Barclays Capital.
No caso do cobre, as compras chinesas de fontes alternativas pode mudar a percepção de que a demanda está fraca ou forte, diz Kevin Norrish, diretor de análise de commodities do Barclays.
Os investidores que só olham para os números de importação de cobre refinado "perdem o quadro todo", diz Norrish.