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domingo, 7 de março de 2010

FHC: A HORA É AGORA!

Coincidentemente ontem eu comentava a estratégia de campanha do PSDB e de Serra. Questionava pela  oportunidade e qualidade do debate.

Agora, e abaixo, a íntegra de um texto de FHC, publicado hoje no Blog do Noblat. Lúcido, como sempre, o ex-presidente vai alinhavando as lógicas e mostra o nexo.

Entre diversos temas:

Esclarece que o Estado deve ser resultado de um projeto e não uma definição à priori. Fala em governança coerente e democrática, criticando o aparelhamento do Estado pelos grupos de poder dominante.

Cita elementos que vamos sempre mencionando como o fato de que as políticas sociais datam da decisão do povo brasileiro via sua Constituição, que, sempre insisto, o PT não quis assinar.

Situa como prioritária a reforma política.

Mantendo o bom senso encerra:
“Tudo isso e muito mais está à espera de um debate político maduro, que à falta de ser conduzido por quem devia fazê-lo, por ter responsabilidades de mando nacional, deve ser feito pela sociedade e pelos partidos.”

Demetrio Carneiro


FHC: A HORA É AGORA

É hora de avançar a partir do que conseguimos nestes 25 anos de democracia e de buscar um futuro melhor para todos. As bases para o Brasil preservar seus interesses sem temer o mercado internacional estão dadas. Convém mantê-las.
Controle da inflação, pelo sistema de metas, câmbio flutuante, Lei de Responsabilidade Fiscal, autonomia das agências regulatórias são pilares que podem se ajustar às conjunturas, mas não devem ser renegados, e não podem estar sujeitos a intervenções político-partidárias e interesses de facção.
Há, contudo, desafios: o novo governo terá de cuidar de controlar os gastos correntes e de conter a deterioração da balança de pagamentos (sem fechar a economia ou inventar mágicas para aumentar artificialmente a competitividade de nossos produtos).
Perdemos tempo com uma discussão bizantina sobre o tamanho do Estado ou sobre a superioridade das empresas estatais em relação às empresas privadas ou vice-versa.
Ninguém propõe um "Estado mínimo", nem muito menos o PSDB. Outra coisa é inchar o Estado, com nomeações a granel, e utilizar as empresas públicas para servir a interesses privados ou partidários. A verdadeira ameaça ao desenvolvimento sadio não é privatizar mais, tampouco o PSDB defende isto.
Empresas estatais se justificam em áreas para as quais haja desinteresse do capital privado ou necessidade de contrapeso público. Não devem acobertar ganhos políticos escusos nem aumentar o controle partidário sobre a economia.
Precisam dispor de sistemas de governança claros e transparentes. A ameaça é continuar a escolher, como o governo atual, quais empresas serão apoiadas com dinheiro do contribuinte (sem que este perceba), criando monopólios, ou quase monopólios, que concentrarão mais ainda a renda nacional.
Os avanços sociais obtidos pelos últimos governos se deram nos marcos da Constituição de 1988.
Incluem-se aí a "universalização" do acesso aos serviços de saúde (via SUS) e à escola fundamental (via Fundef), a cobertura assistencial a idosos e deficientes (via Loas), bem como o maior acesso à terra (via programa de reforma agrária).
Além disso, a política continuada de aumento real do salário mínimo a partir de 1994, a extensão de programas sociais a camadas excluídas e a difusão de mecanismos de transferência direta de renda (as bolsas) melhoraram as condições de vida e ampliaram o mercado interno.
Tudo isso precisa ser mantido. Caberá ao novo governo reduzir os desperdícios e oferecer serviços de melhor qualidade, mais bem avaliados e com menor clientelismo.
Não se pode elidir uma questão difícil: a expansão dos impostos sustentou os programas sociais. Atingiu-se um limite que, se ultrapassado, prejudicará o crescimento econômico.
É ilusão pensar que um país possa crescer indefinidamente puxado pelo gasto público financiado por uma carga tributária cada vez maior e pelo consumo privado.
Falta investimento, sobretudo em infraestrutura, e falta poupança doméstica, principalmente pública, para financiá-lo. Maior poupança pública não virá de maior tributação.
Ao contrário, é preciso começar a reduzir a carga tributária, sobretudo os impostos que recaem sobre a folha de pagamentos, para gerar mais empregos.
Para investir mais, tributar menos e dispor de melhor oferta de serviços sociais, não há alternativa senão conter o mau crescimento do gasto. Isso permitirá a redução das taxas de juros e o aumento da poupança pública, como condição para aumentar a taxa de investimento na economia.
Sem isso, cedo ou tarde, se recolocarão os impasses no balanço de pagamentos, com a deterioração já perceptível das contas em transações correntes, e na dívida pública, que em termos brutos já ultrapassa 70% do PIB.
Nem só de economia e políticas sociais vive uma nação. Os escândalos de corrupção continuam desde o mensalão do PT. Há responsabilidades pessoais e políticas a serem cobradas e condenadas.
Mas há também desvios institucionais: o sistema eleitoral e partidário está visivelmente desmoralizado. Uma reforma nesta área se impõe. Ela se dará mais facilmente no início do próximo governo e se houver um mínimo de convergência entre as grandes correntes políticas. O PSDB deve liderar esse debate na busca de consenso.
O mesmo se diga da segurança pública. Há avanços no plano federal e em vários estados. A expansão da criminalidade advém do crime organizado e do uso das drogas.
O dia a dia das pessoas é de medo. As famílias e as pessoas precisam de nossa coragem para propor modos mais eficientes de enfrentar o tema. A despeito da melhoria do sistema jurisdicional e prisional, estamos longe de oferecer segurança jurídica às empresas e, o que mais conta, às pessoas.
Olhando o futuro, falta estratégia e sobram dúvidas: o que faremos no campo da energia? Onde foi parar o programa do biodiesel? Que faremos com os êxitos que nossos agricultores e técnicos conseguiram com o etanol? Que políticas adotar para torná-lo comercializável globalmente?
A discussão sobre as jazidas de petróleo se restringirá à partilha de lucros futuros ou cuidaremos do essencial: a base institucional para lidar com o pré-sal, a busca de tecnologias adequadas e de uma política equilibrada de exploração? E a "revolução educacional", que, com as honrosas exceções em um ou outro estado, é apenas objeto de reverência, mas não de ação concreta?
Finalmente: que papel desempenharemos no mundo, o de uma sub-potência bélica ou a de um país portador de uma cultura de convivência entre as diferentes raças e culturas, com tolerância e paz, embora cioso de sua segurança?
Tudo isso e muito mais está à espera de um debate político maduro, que à falta de ser conduzido por quem devia fazê-lo, por ter responsabilidades de mando nacional, deve ser feito pela sociedade e pelos partidos.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

MERCADO INTERNO E FORMAÇÃO DE DÍVIDA


Deveria ser um princípio básico para economias saudáveis depender basicamente de seu mercado interno, exportando apenas excedentes e buscando no resto do mundo complementos para consumo ou investimento.
Seria assim num mundo idílico.
No mundo real, quando o mercado de trabalho não foi capaz de prover ganhos que sustentassem o crescimento do consumo, a classe média dos Estados Unidos e do Canadá foi se endividar tendo por base o seu local de moradia.
No Brasil, quando começou a ficar claro que o ciclo de commodities dos anos dourados estava chegando ao fim e a demanda externa poderia recuar, as políticas de governo foram na direção de estimular o que se podia controlar, a demanda interna. O atalho seria o aumento do consumo via crédito.
Ainda não se escuta falar em políticas substanciais de geração de emprego qualificado e com sustentação, se é que se escutará, mas todos acompanham atentamente o comportamento do crédito ao consumidor, conscientes de que há limites.
O debate sobre se e quando chegaremos aos limites físicos da capacidade potencial de produção interna tem fortes vínculos com a questão da retomada do processo inflacionário e, por via de consequência, com a promessa de “lutar” contra altas taxas de juros, nessa altura promessa do governo, mas também da oposição.
Então monitorar o processo de uma possível retomada inflacionária passou a ser questão relevante. Talvez, já que também deveria ser relevante para o debate político, fosse interessante trazer também para o debate os efeitos da estratégia de atalho para fortalecer a demanda interna. Certamente, expandir consumo via formação de dívida das famílias não é exatamente uma trilha que vai rumo ao infinito.


Dívidas no cartão de crédito explodem
Segundo dados do Banco Central, o total de dívidas no cartão de crédito cresceu quase 20% em 2009 e chegou ao valor inédito de R$ 26,3 bilhões em dezembro do ano passado, o dobro do visto há três anos.
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