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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2011: O BRASIL EM NÚMEROS

Esses dias andaram falando que o Brasil será, brevemente, a 5ª economia do mundo. 

Se tivermos em vista que qualidade de vida não é apenas a medida do crescimento de uma economia, feita usualmente pelo PIB, talvez a comemoração precisasse ser mediada por um pouco de humildade e, principalmente, deveria haver uma pergunta sobre  como mudar em profundidade a escrita mais que centenária da concentração  de renda, dos baixos níveis de educação etc.

Com efeito duas questões são relevantes quanto a indicadores que possam apontar para processos mais consistentes de crescimento com qualidade de vida: Competividade e produtividade. 

Ambos os indicadores acabam envolvendo temas como qualidade da educação que interferem diretamente na qualidade de vida pela via da qualificação da mão de obra. Neste caso nossas estatísticas mais recente mostram o crescimento mais forte do emprego está justamente na área menos qualificada. A linha de argumento de que o crescimento do número de trabalhadores ganhando salário mínimo, comparando 2000 com 2010, é um sucesso faz de conta que não está havendo sim uma queda do salário médio na direção do salário mínimo. Não há absolutamente nada para comemorar quando uma economia cresce na direção dos empregos menos qualificados. A não ser que que é melhor do que não dar emprego algum.

Boa parte da economia brasileira é informal, os dados de mão de obra empregada sem carteira assinada são bastante claros apontando que quase metade dos trabalhadores brasileiros está nesta situação, com forte concentração na área de serviços, o que talvez explique a mão de obra desqualificada. 
Nesse caso os indicadores comparativos de competividade assinalam um alto grau de dificuldade na formalização de empresas. A se observar que empresas informais não possuem acesso às fontes de crédito mais barato e, da mesma forma não costumam optar por trabalhar apostando na produtividade. até por que não são capitalizadas o suficiente. Empresas formais resolvem a competividade pela produtividade. Empresas informais resolvem pela sonegação.

Por mais que o governo procure afirmar o contrário estamos muito longe de políticas públicas que nos levem na direção de sermos mais produtivos ou mais competitivos. 

Não se trata apenas de nossa imensa economia informal ou do uso manipulatório do Sebrae como cabide de empregos da base aliada, mas também da própria lógica nacionaldesenvlvimentista do protecionismo anticompetitivo e de um arco de poder no qual um dos componentes mais importantes é a aliança com e a proteção de grupos de monopólio e oligopólio numa variedade de Capitalismo, de Estado, que já vem da década de 50.

Neste sentido não se trata se estamos no quinto ou no sexto lugar, mas sim de como lidamos com os benefícios e a riqueza gerada por esse crescimento.  Há uma tradicional confusão entre desigualdade e modo capitalista, nela navegam o governo e boa parte da esquerda brasileira, mas sim do questionamento de um estilo de desenvolvimento que vem se mantendo basicamente o mesmo ao longo de décadas e é produzido sob medida para satisfazer as demandas de poucos grupos privilegiados. 

O que fica para a maioria da população, os 80% ou 90% restantes, são os ganhos marginais do processo e esses ganhos são apresentados na mídia como vitórias fantásticas quando sua intensidade e qualidade são justamente o demonstrativo do fracasso do modelo, seja como democracia, seja como capitalismo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

“ESQUERDA” E ‘DIREITA” NA OPOSIÇÃO E NO DEBATE DO DESENVOLVIMENTO

Da matéria no Valor Econômico, 05.11.2010, “Um país em transição” e sem nenhum demérito ao autor da frase que estou usando mais como gancho de outro debate:

“Vladimir Safatle: O governo Dilma tem um conjunto de condições favoráveis, como a maioria na Câmara e no Senado. Além disso, Dilma terá um país que cresce a 7% e não tem oposição à esquerda. As possibilidades que tem de governar bem são reais.”


Esta leitura do Safatle, de que não temos oposição à esquerda é interessante:

a) Então toda oposição é “à direita”?;
b) Significa necessariamente que o governo está “à esquerda” da oposição?

É uma dicotomia falsa, que reflete o tipo de debate que o governo tentou travar na campanha eleitoral.
Nota: Falo em “governo”, pois foi o governo quem fez realmente a campanha contra a oposição e não Dilma Roussef.
Se ela foi eleita foi eleita não por mérito de Lula, o Pequeno, mas por mérito de toda a máquina de governo que se empenhou, com esmero & e$perança, na campanha.

Nossa questão é que esses conceitos de “direita” e “esquerda” não cabem mais no debate, principalmente no debate do Desenvolvimento.

Dentro deste debate o que existe é um prisma “conservador” que alista no nacional-desenvolvimentismo desde a autodenominada (nesse caso atual vale mais o conceito do IBGE de autodenominação, é mais honesto) extrema-esquerda até o conservadorismo da direita da literatura clássica dos coronéis, no melhor estilo famiglia Sarney.
Nota: Não confundir com famiglia Erenice. São outros quinhentos. Ou mais...

Na proposta de outro desenvolvimento, que é a que defendemos aqui desde sempre, as coisas começam pelo “outro”.
Não falamos em continuidade, mas em descontinuidade.
O atual modelo de desenvolvimento, visto como totalidade, está esgotado.
Vamos definir o termo esgotado não como falido, como gostariam muitos. O modelo não está falido e ainda pode rodar muitos quilômetros. Com certeza. O problema é que serão quilômetros medíocres. A mesma mediocridade dos que batem palmas para o menor PIB entre os emergentes. Como se este resultado fosse a quinta-essência planetária.
Então, esgotado porque o modelo conservador, no mundo atual, só pode operar no limite entre o medíocre e o médio.
Se quiserem anotar para cobrar depois é isso que eu acho que tenderá a ser o governo Dilma, se ela for realmente incapaz de se autonomizar ou não quiser se: Um caminho entre o medíocre e o médio.
Evidentemente haverá progresso econômico. As pessoas terão melhor qualidade de vida e o governo terá votos.
Apenas, por estar esgotado, este modelo continuará concentrador, continuará sem resolver a questão da educação, continuará sem gerar empregos que só poderão ser qualificados por um processo de gestão da educação totalmente diferente do atual, continuará sem saber se preserva ou consome/destrói seu mio ambiente, continuará sem saber alinhar consumo/produção/sustentação.
No outro modelo que chamarei de estruturante transformador (porque transforma o presente)/ estruturante (porque estrutura o futuro) também estão os autodenominados “esquerdistas” e “direitistas” envergonhados.

Demetrio Carneiro