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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

COMO SERÁ 2011?

É verdade que a crise trouxe novas oportunidades e, comparativamente com as nações desenvolvidas (o que quer que realmente seja isso) poderemos ter, ainda, crescimento onde elas não crescerão. Estaremos de fato melhores ou estaremos melhores por q eu elas estarão piores? Num mundo de economias integradas qual será o significado do baixo crescimento das nações cujo consumo vinha alavancando o resto da economia mundial?

Ao contrário do mundo convergente, que seria a solução da crise, podemos estar caminhando para um o reforço das vontades nacionais e para o que pode ser o retorno do autoritarismo de caráter nacionalista e não é apenas um movimento sentido na América Latina. Na Europa Central já aparecem os primeiros sinais. Não há ai nenhum catastrofismo. O processo de consolidação do ideal democrático não será tão facilmente abatido como foi entre as duas grandes guerras do século passado. Mas nada autoriza a tranqüilidade. É bom ir acendendo a luz amarela.

Muito bem, essa esplêndida janela de oportunidades, onde cresceremos mais em relação aos outros que crescerão menos, tem exatamente qual significado?
É simplesmente crescer e tudo bem?
Poderemos crescer com bases nos mesmos paradigmas que são os responsáveis pela crise em toda sua realidade?

De fato a leitura simplificante do da ideologia mais tradicional de esquerda que concede ao “neo-liberalismo” as honras da crise está muito longe que traduzir os fatos.
A raiz da crise está no padrão de desenvolvimento fundado no consumo a qualquer custo, no estímulo ao hiper-consumo.
Está na simplificação esterilizante do modelo de exportação da indústria suja para a periferia e depois da industria de transformação. As primeiras atrás da inexistência de regulações ambientais nesses países. A segunda atrás da farta e barata mão de obra. Daí que a produção do conhecimento, a nova economia, não foi suficiente para sustentar o consumo vertiginoso e monumental.
Talvez modelo econômico algum seja capaz disso e talvez por isso o sistema, visto como um todo, precisa gerar bolhas que são os pontos de multiplicação máxima do capital e geração de excedentes para o hiper-consumo.
O que difere nosso modelo atual de desenvolvimento do modelo do centro nas suas linhas gerais de dependência completa da alavancagem do consumo das famílias, mesmo sem base material, do paradigma central do carro individual movido à combustível fóssil, objeto de desejo de 99 entre 100, da crescimento de alto risco ambiental? Isto para ficarmos apenas nas questões mais badaladas.
Difere pouco, pouquíssimo ou nada?

Esta é que questão para 2011 e os próximos anos: A crise não abriu apenas uma janela de oportunidades. Ela também acelerou o fim de toda uma era e será preciso muito mais que copiar os modelos atuais dos países desenvolvidos, porque na verdade desenvolvimento hoje é outra coisa bem diferente.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

2011

Em julho de 2010 a Revista Política Democrática publicou um pequeno texto que escrevi sobre a situação na Europa: “Para onde caminha a Europa”. O texto eu escrevi por volta de maio e era mais uma reflexão sobre a crise e o projeto socialista. Naquela altura a maior parte dos prognósticos e avaliações apontavam a recuperação da economia continental. Na contramão dessas leituras eu percebia uma dificílima recuperação, principalmente por conta da política. Publicado o texto muitos o consideraram vencido, contudo os fatos recentes, talvez por isto seja bom escrever e datar, mostram que a avaliação que fiz não estava errada.

Mas por qual motivo lembrar agora desse texto? É por considerar que os limites de nosso 2011 estão na crise européia, embora também estejam na americana.
Não é preciso um estudo muito profundo para perceber o quanto a situação externa impulsionou o crescimento brasileiro nos últimos anos. Também é mais ou menos evidente o formato do trenzinho da mundialização com a China fornecendo, às custas do processo de desindustrialização primeiro na Europa e Estados Unidos é bom registrar, produtos industriais e o Brasil fornecendo para a China commodities para a elaboração desses produtos.

A crise na Europa e nos Estados Unidos coloca em cheque esse modelo e aponta para a necessidade de maior investimento no mercado interno. Certamente isso explica a concentração de recursos no BNDES e também o forte interesse na redução da taxa básica de juros. Acredito que viveremos em 2011 o início de um processo bastante focado nas oportunidades do mercado interno brasileiro e suas três “alavancas”: Pré-Sal, Copa e Olimpíadas.
Para quem considerar que o processo se basta por aqui a leitura do nacional-desenvolvimentismo estará um seu ápice.
Para quem, como eu, acha que o processo nacional-desenvolvimentista vai se esgotando a conclusão é que até poderemos crescer, mas estaremos condenados a outra década de mediocridade.

Menos mau para Lula, que precisa ter em Dilma um governo medíocre, garantindo assim sua volta redentora em 2014.

Demetrio Carneiro

terça-feira, 14 de setembro de 2010

2011 BATE À PORTA


O Boletim Focus sinaliza não as intenções, mas os fatos e, usando a previsão da Selic como referência, dá para ver que o “ajuste fiscal” prometido por Dilma pode não ser tão efetivo.

Em tese o grande trabalho seria uma forte pancada na taxa via um pesado ajuste. Seria o que colocaria Dilma no topo da cadeia alimentar da base de governo. É o que Tony Volpon comentou no “100 primeiros dias...”.

Fatos que depõem contra, são as liberalidades orçamentárias como as cometidas na LDO à favor das prefeituras que cidades-sede da Copa, autorizadas a ignorar a Lei de Responsabilidade Fiscal, que é uma Lei Complementar ou no liberalismo para os governos estaduais “amigos, conforme matéria de hoje no Congresso em Foco. Ou os outros R$60 bi para o BNDES no próximo ano. Essa “vontade” permanecerá?

Em tese, também, o problema é que o gasto neste tipo de gestão é “poder”- papel real do aparelho de Estado, muito mais que “transformação”-papel idealizado para o aparelho do Estado, bom para discursos.
Seria muito interessante o poder com a transformação, mas o problema é que o perfil externo de esquerda radical esconde um perfil interno fortemente conservador – ai a convergência com os neo-coronéis, de apostas assistencialistas e construção do mais clássicos dos Capitalismos de Estado.

O que fica é esta coisa esquizofrênica. Geralmente a competição alimentar é que costuma mover as coisas.

A se ver o que Dilma realmente fará.
 
#Primeira prévia do IGP-M de setembro sobe 0,99%, bem acima da leitura anterior de 0,42% e das expectativas de mercado de 0,75%.

#The Wall Street Journal afirma que o maior risco que a Petrobras enfrenta não envolve a exploração de petróleo em águas profundas, mas sim a sua politização.

# O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já negocia um novo aporte de recursos do Tesouro para 2011( mais R$60 bi) , confirmaram ao 'Estado' fontes do governo federal. O valor ainda não está definido e a tendência é de que o empréstimo seja menor que o feito neste ano.

#Do Boletim Focus: inflação esperada para os próximos 12 meses (suavizada) sobe de 5,03% para 5,06%; inflação esperada para 2010 cai de 5,07% para 4,97%; inflação esperada para 2011 sobe de 4,85% para 4,90%; Selic para o final de 2010 fica estável em 10,75% mas sobe de 11,50% para 11,75% em 2011; e PIB 2010 sobe de 7,34% para 7,42%.

#(Valor Econômico)Se for eleita, a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, anunciará o compromisso de reduzir a dívida pública líquida para 30% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014, último ano de seu possível mandato. Em 2009, a relação dívida/PIB fechou o ano em 42,80%. Este ano deve cair para 40,80%, segundo expectativa do mercado financeiro.

A agenda econômica da candidata prevê a adoção de medidas para estimular o financiamento privado da infraestrutura; a realização de uma reforma tributária focada no ICMS e na desoneração das exportações e dos investimentos produtivos; a regulamentação da reforma da previdência dos funcionários públicos; o aumento do tempo de contribuição para as aposentarias pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS); a separação das aposentadorias rural e urbana; a criação de limites para a expansão das despesas com pessoal do setor público.

Demetrio Carneiro

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

POR FALAR EM HORIZONTES...


O texto veio por uma dica do Tony Volpon, publicado pela Folha e repercutido pelo blog Democracia Política e Novo reformismo.

Já que a gente andou falando em horizontes ai vai mais um.
A entrevista, a qualidade do entrevistado diz tudo, é um amplo olhar sobre o que pode vir pela frente em decorrência do que não foi feita lá trás. O crescimento econômico na no Brasil em particular, mas também na América Latina em geral tem, historicamente, apresentado uma face medíocre. Lendo a entrevista passamos pelas origens do problema e vamos até seus reflexos no futuro próximo.

Demetrio Carneiro





Países como o Brasil creem em um mundo de fantasia



"A sorte do Lula foi ter tido ótimo antecessor", diz Ricardo Hausmann, de Harvard, crítico das políticas externa e econômica atuais.



Houve avanços desde que o sr. escreveu sobre as barreiras ao crescimento do país?



A crise foi bem administrada. Mas o principal problema com países como o Brasil é que, quando as coisas começam a parecer bem, passam a crer em um mundo de fantasia.



Sucessor não terá a mesma sorte de Lula, diz economista



ENTREVISTA RICARDO HAUSMANN



PROFESSOR DE HARVARD DIZ QUE, APESAR DO CAPITAL POLÍTICO, LULA NÃO FOI CAPAZ DE FAZER REFORMAS SIGNIFICATIVAS COMO AS DE FHC



Érica Fraga



DE SÃO PAULO - "A grande sorte do presidente Lula foi ter tido um ótimo antecessor. Mas o próximo presidente do Brasil não terá a mesma sorte."



Com esse comentário, em entrevista à Folha, o economista Ricardo Hausmann, diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard e um dos mais respeitados especialistas em teoria do desenvolvimento econômico, encerrou uma série de críticas ao governo Lula.



Em 2008, ele escreveu o estudo "In search of the chains that hold Brazil back" ("Em busca das correntes que freiam o Brasil"), afirmando que a política de expansão fiscal dos anos recentes, alavancada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), é insustentável.



E, segundo ele, pode ter o mesmo efeito "desastroso" para a economia que a política externa de Lula teve para a diplomacia.



FOLHA - Houve avanços desde que o sr. escreveu sobre as barreiras ao crescimento no Brasil em 2008?



RICARDO HAUSMANN - Talvez você se lembre que [no estudo] eu era otimista sobre muitos aspectos estruturais do Brasil. O Brasil tem um setor privado muito forte, tem muito potencial de crescimento do investimento em muitas áreas promissoras.Mas, nos anos de boom antes da crise de 2008, o Brasil era um dos países que cresciam às menores taxas na América Latina.



Minha avaliação era a de que isso se devia a uma taxa baixa de poupança doméstica, que exigia taxas de juros ridiculamente altas para evitar que a economia tivesse um aquecimento excessivo.
Aí veio a crise e o governo respondeu com políticas anticíclicas. Aumentou significativamente a oferta de crédito via BNDES e Banco do Brasil em um momento em que havia uma parada cardíaca financeira.
Diria que, de forma geral, a crise foi bem administrada. Mas o principal problema com muitos países, e o Brasil é um exemplo, é que, quando as coisas começam a parecer bem, eles se tornam arrogantes. Passam a acreditar num mundo de fantasia.



O que o sr. quer dizer com mundo de fantasia?



Só porque o Brasil teve por um trimestre uma taxa de crescimento acima de 7%, o Brasil agora é a nova China e o Lula é um gênio das finanças, e todos os problemas anteriores não existem mais porque o Brasil é um país diferente.



Há toda uma narrativa que tem sido criada por conta de alguns bons trimestres no Brasil que pode levar a políticas macroeconômicas muito inconvenientes. Essa narrativa é particularmente conveniente na época de eleições.



A primeira coisa que já está acontecendo é que a Selic [taxa de juros básica da economia] está subindo. Se você quisesse que a Selic aumentasse menos, a ideia seria compensar com políticas fiscais e de empréstimo pelo setor público mais estritas.
Porque, de certa forma, o Brasil é um país esquizofrênico. Você tem uma política fiscal em que o BNDES tem o pé no acelerador e o Banco Central tem o pé no freio.Essas combinações são particularmente perigosas porque deixam a Selic muito alta em um período em que as taxas de juros globais estão muito baixas.
Isso leva os investidores a pegar dinheiro emprestado em dólares, em ienes ou em euros para colocar dinheiro no Brasil, o que gera uma forte apreciação da taxa de juros e a possibilidade de desindustrialização.



Alguns defensores da atuação recente do BNDES citam países da Ásia que atingiram altas taxas de crescimento sustentado por meio de políticas industriais. O que o sr. acha desse paralelo?



Não tenho problemas com políticas que complementam o setor financeiro, viabilizando a disponibilidade de crédito para investimentos em áreas difíceis da economia.Não sou, de forma alguma, crítico em relação à contribuição potencial do BNDES para o desenvolvimento do país. Mas é uma organização que foi desenvolvida na época da inflação alta para proteger a economia das taxas de juros reais muito altas.
A inflação não é mais um problema no Brasil.
Seria possível que o BNDES mantivesse o foco de sua política em empréstimos para investimentos municipais, investimentos de longo prazo, apoiando pequenas e médias empresas, mas a uma taxa de juros que refletisse a Selic e não a uma taxa de juros que é muito inferior à Selic, que cria a distorção de gerar demanda excessiva pelos fundos que o BNDES tem de gerenciar.





O sr. vê o crescente deficit em conta-corrente do Brasil, em tempos recentes, como um problema?



A deterioração do deficit em conta-corrente indica que a expansão do gasto no Brasil é mais rápida do que a expansão da produção.
O efeito disso é apreciar a taxa de câmbio, desestimulando as atividades exportadoras, para liberar recursos produtivos para atender a esse boom temporário do consumo. Todas as indicações são de que as condições fiscais e a política financeira do setor público são excessivamente expansionistas. Isso vai causar prejuízo para as perspectivas de crescimento de longo prazo do Brasil.



A economia brasileira ainda é bastante fechada ao comércio exterior. Isso limita o crescimento de longo prazo?



Acho que o Brasil tem os produtos com os quais poderia ter uma presença muito maior no comércio internacional. Vocês são gigantes em agricultura, em mineração. Têm uma presença marcante na produção de aeronaves. Há uma atividade industrial vasta que poderia gerar uma presença muito maior. Mas a administração macro no Brasil tem sempre conspirado contra o potencial de longo prazo.



E isso continua acontecendo?



Na minha opinião, está piorando. Quando o Lula foi eleito, em 2002, houve uma crise econômica e ele foi muito cuidadoso ao dar confiança ao setor privado.
Agora, eles começaram a pensar que sabem mais e estão menos dispostos a serem cuidadosos. Estão se tornando mais ideológicos.
Do ponto de vista econômico, as políticas são insustentáveis como as adotadas na diplomacia.
Agora que o Brasil é grande, pode ir para a cama com o Ahmadinejad [Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã] no Irã ou hospedar o Zelaya [Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras deposto em junho de 2009] na sua embaixada em Honduras etc.
É uma atitude de que agora o país é independente, um poder diferente, e, portanto, pode confrontar o senso comum. Esse tipo de arrogância na política externa tem sido desastrosa.E esse tipo de arrogância tem o perigo de ser igualmente desastrosa para a administração macroeconômica.



As pesquisas de intenção de voto mostram grandes chances de vitória da candidata do presidente Lula. O sr. acha que isso levará a uma continuação dessas políticas que o sr. critica?



Todo mundo sabe que o presidente Lula tem sido superpopular e ele construiu um capital político enorme. Mas esse capital político enorme não se traduziu em nenhuma reforma significativa durante seu segundo mandato [2007-2010].
Ele não tem nada a mostrar em termos de ter resolvido problemas antigos relacionados à baixa taxa de poupança, ao sistema de previdência, à infraestrutura, a ter uma estrutura tributária mais normal e funcional.
Apesar do seu enorme capital político, ele não foi capaz de fazer nenhuma reforma significativa como as feitas pelo antecessor dele.
E, recentemente, ele tem se movido na direção contrária. A grande sorte do presidente Lula foi ter tido um ótimo antecessor [FHC]. Mas o próximo presidente do Brasil não terá a mesma sorte.



Frases
"De certa forma, o Brasil é um país esquizofrênico. Você tem uma política fiscal em que o BNDES tem o pé no acelerador e o Banco Central tem o pé no freio"



"A deterioração do deficit em conta-corrente indica que a expansão do gasto no Brasil é mais rápida do que a expansão da produção"



"O Lula tem sido superpopular e ele construiu um capital político enorme. Mas esse capital não se traduziu em nenhuma reforma significativa durante seu segundo mandato [2007-10]"





PERFIL



Venezuelano, Hausmann foi pioneiro no BID



Ricardo Hausmann nasceu na Venezuela em 1956.



Com doutorado em economia pela Universidade Cornell, nos EUA, Hausmann ocupou importantes cargos públicos em seu país natal, como ministro de Planejamento e diretor do Banco Central.



Foi o primeiro economista-chefe do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Desde 2005, é diretor do Centro para Desenvolvimento Internacional da John F. Kennedy School of Government, da Universidade Harvard.



Especialista em teoria do desenvolvimento econômico, ele defende a ideia de que um mesmo receituário de políticas não funciona necessariamente para todos os países.