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quarta-feira, 25 de maio de 2011

OS PONTOS NEVRÁLGICOS DE NOSSO CRESCIMENTO: FT FALA DA RELAÇÃO CHINA/BRASIL

O protecionismo e o dólar apreciado criaram um reinado de ineficiências em parte bancado por recursos públicos e em parte financiado pela anterior posição do Brasil na divisão internacional do trabalho.

Outros tempos e novas necessidades é o que fica evidente na matéria abaixo do FT 
( tradução livre do texto publicado em 20 de maio passado). Evidentemente trás inúmeras outras questões – como, por exemplo o problema do déficit em conta corrente - mas por agora o essencial é que fica extremamente evidente que são outros tempos e que os agora superados discursos já não alcançam a complexidade que está exposta de forma evidente.

Em uma interessante matéria publicada ontem no Correio Braziliense, Brasil S/A, o articulista Antonio Machado mostra de forma muito tranquíla que esse novo formato de participação brasileira na divisão internacional do trabalho, o termo é meu e não dele, tem uma elevadíssima dose de risco de naufragar frente a todas deficiências acumuladas por décadas de uma visão errada sobre o papel do Estado na economia e no desenvolvimento que resultou em numa logística deficiente, num institucionalismo eminentemente cartorial e nocivo aos negócios, fortíssimas deficiências na formação de poupança e investimentos de longo prazo etc. Esse pontos de fato nevrálgicos e que necessitam ser abordados de forma realista e objetiva.

Falta no mundo da política quem queira dizer isso de forma explícita e direta. Incapaz de se movimentar nessas questões o governo só sabe repetir ao infinito a questão da igualdade como um mantra eleitoral e a oposição não consegue dar um passo além do jogo parlamentar mais imediato.

Demetrio Carneiro

Fluxos financeiros: As commodities são centrais para definir a relação

Quando a Repsol vendeu uma participação de 40 por cento em seu braço brasileiro para a chinesa Sinopec, no ano passado, o produtor de azeite espanhol, disse que o negócio criaria uma das maiores empresas de energia da América Latina. O negócio era um sinal das coisas por vir, com o Brasil começando a exploração do petróleo descoberto recentemente e o gás nas bacias de sua costa sudeste.

No alto mar o Brasil tem uma das maiores reservas de petróleo e gás do mundo disse a Repsol naquela hora. "O acordo destaca a enorme interesse internacional neste momento histórico para o Brasil."

A Repsol poderia ter apenas trocado facilmente a expressão "interesse internacional" para “interesse chinês”
Todos os países do mundo querem investir nos recursos naturais do Brasil e na industria agrícola, poucos são mais necessitados do que a China, carente de energia e com fome de alimentos.

Este interesse levou a China a se tornar o maior do investidor direto estrangeiro do Brasil no ano passado, uma posição que só se espera que cresça. Mas, assim como outros aspectos da relação Brasil-China, os dois países terão de concordar sobre a forma que essa nova parceria terá- em especial, o quão longe o Brasil vai estar disposto a deixar a China investir em seus recursos estratégicos e terras agriculturáveis.

"Há um grande interesse entre os executivos chineses em investir mais no Brasil. Tem que haver um ambiente favorável ao investimento estrangeiro. Dessa forma, podemos criar mais empregos no Brasil ", disse Chen Deming, ministro do comércio chinês, durante uma visita à maior economia da América Latina em maio.

A China respondeu por cerca de U $ 17 bi de investimentos diretos estrangeiros no Brasil num total de U$ 48.46 bi em 2010, ante cerca de U$ 300 milhões em 2009, de acordo com a análise da Sobeet, um grupo de analistas brasileiros.

Fusões e aquisições contribuíram com U$ 12.53 bi desse total. Disse a Dealogic, a empresa de dados. Além das oferta à Repsol, estes incluíram um investimento de U$ 3.07 bi pela Sinochem, um grupo estatal chinês, em ativos de petróleo e gás no Campo de Peregrino, no Brasil.

Outro grupo chinês, a China Oriental Escritório de Exploração Mineral e Desenvolvimento, investiu U$ 1.22bi na Itaminas Comércio de Minerais, uma empresa de mineração, enquanto o State Grid Corp of China gastou U$ 1 bi em um acordo de rede de eletricidade.
Os investimentos de empresas chinesas nos anos anteriores incluem U$ 362 mi investimento- âncora da Wuhan Iron & Steel na MMX Mineração e Metálicos, a mineradora brasileira.

Para o Brasil, esses investimentos primeiro foram bem-vindos. Mas crescentemente, eles se tornaram uma fonte de preocupação para os dirigentes políticos. Quando surgiram rumores no ano passado que empresas chinesas apoiadas por seu governo estavam se voltando para compra de glebas de terras agriculturáveis brasileiras, o governo saiu da linha.Reinterpretando a uma lei existente que introduziu restrições aos investimentos diretos estrangeiros nas explorações agrícolas.Essa lei não era ostensivamente dirigida a China. O Brasil já estava preocupado antes com a compra de terras por parte de fundos soberanos e empresas levou em consideração que fundos soberanos e empresas apoiadas por seus governos. De qualquer forma o alvo acabou sendo a China.

“Não sou o ministro das Relações Exteriores. Eu não quero criar um incidente ", disse o ministro da Agricultura, Wagner Rossi ao FT, em entrevista no início deste ano. "Alguns desses países são grandes parceiros em outras áreas, mas tê-los comprando terras no Brasil cria algum tipo de risco soberano para nós. Isso não faz parte do nossos planos e nós não vamos permitir isso. "

Nos últimos meses, a China indicou que está disposta a diversificar seus investimentos no Brasil em outras áreas além dos recursos naturais e da agricultura. Durante uma visita à China da presidente Dilma Rousseff, em abril, a Foxconn, uma empresa de Taiwan, com amplas operações na China continental, prometeu investir U$ 12 bi no Brasil na produção de artigos da Apple.

Delegação de Chen procurou reforçar essa impressão com promessas de que a Geely, uma fabricante chinês de automóveis pequenos, poderia construir uma fábrica no Brasil. Mas ele ressaltou que o Brasil deve manter a sua parte do negócio, tanto reduzindo o custo de fazer negócios para o país, como pela racionalização dos seus portos notoriamente lentos e pela melhoria de sua logística.(grifo nosso DC)

Embora o Brasil possa suspeitar dos investimentos chineses, ele precisa de fluxos adicionais de financiamento de longo prazo para ajudar a financiar seu crescente déficit em conta corrente. Com cerca de 2,3 por cento do produto interno bruto, este ainda não é alarmante. Mas se os preços das commodities caírem o déficit em conta corrente poderia deteriorar-se rapidamente, deixando o Brasil à beira de uma crise da dívida.(grifo nosso)

Muitos acreditam que por esse motivo, as relações financeiras entre o Brasil e a China só podem se reforçar.
Uma parte essencial dessa aproximação poderia ser conseguida através do aumento do uso da moeda da china continental no comércio com economias latino-americanas. Poderia ser feito através da substituição do dólar por uma cesta de moedas que a incluiria.
Fernando Pimentel, o Ministro da Indústria e Comércio do Brasil, afirmou, após reunião, o Sr. Chen: "Nós mencionado ao ministro a importância de começar uma discussão nos fóruns internacionais sobre a necessidade de mudar o padrão monetário internacional."

Muitos analistas acreditam que cedo o Brasil concluirá que seu melhor destino financeiro está ligado a China. Quando o Brasil começar a produzir petróleo a partir do seu "pré-sal" nos campos de alto mar, sua moeda se tornará ainda mais ligada às commodities e aos preços da energia.

China será um dos principais compradores desses produtos, o que significa que vai fazer sentido para as empresas brasileiras e chinesas transacionarem em renminbi e, eventualmente, poupar em renminbi.

Brasil vai se tornar parte de um "bloco renminbi" de países que utilizam a moeda chinesa para o comércio.

Tony Volpon, chefe de pesquisa da América Latina da Nomura, diz: "o petróleo do pré-sal é a grande coisa que vai acontecer no Brasil nos próximos anos e vai dobrar a aposta na China:
"Se você acha que o real é uma moeda de commodities, hoje, espere um par de anos - isso vai ser muito mais evidente."((grifo nosso)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A ECONOMIA TEM MUITOS LADOS

Talvez não caiba a todas as pessoas, mas certamente cabe aos economistas perceber, e alertar, que a economia tem muitos lados.

No caso do câmbio apreciado do real, o que é desespero para a indústria nacional é uma forma indireta de "segurar" a alta de preços internos via a importação de produtos mais baratos.

Agora mesmo parte importante do discurso de governo, Mantega na fala sobre o corte, tem sido sobre os efeitos de curto prazo da alta especulativa em algumas commodities importantes, como as de proteína. Bom anotar que a especulação é nas proteínas e não apenas na carne de vaca, conforme o ministro deu a entender.

O outro lado da história, digamos o lado bom, é a geração de riqueza no campo por conta da alta. Como fica todo mundo de olho apenas na alta se esquecem os planejadores profissionais pagos, que são os funcionários públicos, da necessidade de aproveitar o bom momento para consolidar e ampliar este segmento da economia.

Infelizmente ainda perciste entre nós a cultura de que o produtor rural, se não for da agricultura familiar, do lado dos pobres do mundo, é um elemento nocivo. Muito próximo à imagem do coronel latifundiário clássico, senhor de todas as vidas. Poucos de dão conta que se trata do empresário rural, tão empresário quanto os industriais e comerciantes das cidades.


Demetrio Carneiro

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

INFLAÇÃO E CORTE: O CHOQUE DE REALIDADE

Segundo o Boletim Focus, que nada mais é do que o resultado das expectativas dos especialistas de mercado, a expectativa é de alta da inflação. Agora, 2011, e em 2012.

Ao contrário do que muitos imaginam não se trata de profecia auto-realizável no sentido de que o “mercado prefere” juros mais altos proporcionados por uma inflação mais alta e, então, prefere ver a inflação em alta. Parece uma lógica bem primária, mas tem quem pensa assim.

O que realizará a inflação em alta envolve a alta de alimentos, mas também envolve uma política pública de gastos focada no uso político como estratégia de poder dos recursos públicos.

Atualmente a avaliação é de que, no governo central, um corte eficiente o suficiente para “desaquecer” a economia o suficiente e manter a inflação em patamares razoáveis envolve algo por volta de R$70 bi. Se tivermos em conta que, no Orçamento de 2011, as chamadas Despesas Discricionárias autorizadas, um dos poucos lugares onde “dá para cortar”, estão na casa de R$ 80 bi, dá para entender o tamanho do abacaxi que terá que ser descascado.

As escolhas são:

a) Cortar fundo e correr o risco de ter problemas sérios na base de governo, essencialmente fisiológica e já bastante insatisfeita com a partilha do botim, desculpe dos cargos;

b) Não cortar tão fundo, empurrar com a barriga, e conviver com um patamar de inflação mais alto, tendo que compensar com altas na taxa de juros. Lembrando que as altas nas taxas de juros andam extremamente impopulares entre nós e sua redução foi uma das promessas mais fortes de Dilma.

Seja como for o atual governo segue tutelado pela, essa sim, “herança maldita” do governo anterior, que jogou todas as suas cartas na recuperação fulminante do PIB com intenções nitidamente eleitorais.
Na prática Dilma é herdeira e cúmplice deste projeto.
Resta saber se ela tem um plano B. Até aqui não está anunciado. O lado mais visível são as falas de orientação nacional-desenvolvimentista de Mantega e sua obsessão cambial.

Ainda na questão de se ter um projeto, em artigo publicado hoje no Estado de São Paulo Fernando Henrique Cardoso chama a atenção para o fato de que os altos preços nas commodities, que têm ajudado e muito, não são eternos. De fato, seguindo a lógica já conhecida das bolhas especulativas em algum momento esta também vai estourar. Se olharmos para os investimentos diretos estrangeiros e seu papel central no financiamento de nosso crescimento é bom que também percebamos ai outra fragilidade desse modelo.

FCH fala em ausência de estratégias. É verdade. Em meio aos aspectos vantajosos dos eventos do resto do mundo, commodities & e recursos de investimento, deveríamos estar sabendo o quê e como usa-los em prol de um modelo mais sustentável. Aqui, também, parece não haver um plano B.

Demetrio Carneiro

domingo, 29 de novembro de 2009

O MUNDO COMO ELE É.


A China não terá como manter seu frenético ritmo de crescimento se for depender apenas do consumo americano ou europeu. Daí a pressão anunciada pelo Vice-Ministro do Comércio chinês, conforme o Estadão, hoje, 29.


Basicamente o Vice-Ministro solicita o fim das barreiras e salvaguardas. O argumento é muito eficiente: Se querem exportar para a China, devem importar dela.

Quando este tipo de conselho vem do nosso mais pesado parceiro comercial é conveniente começar a pensar no assunto.

Nosso problema é o mesmo das últimas décadas. Enquanto exportamos commodities para lá, importamos manufaturados. Mostrando a face generosa dos chineses o Vice-Ministro informa que poderemos importar também produtos agrícolas.

Normalmente faríamos uma passeata. Será que dá para aproveitar os velhos slogans?

Go home China. Abaixo o imperialismo chinês.

Que tal queimar a bandeira da China em praça pública?

Pois é. Parece que não é o imperialismo. É a gente.

Demetrio Carneiro