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domingo, 13 de setembro de 2009

0013, licença para gastar: Qual tamanho deve ter o governo?

As eleições de 2010 se aproximam e logo chegará a hora do eleitor exprimir em votos suas expectativas. A troca de figuras na presidência da república sempre trás à baila o debate sobre modelos de governo e o que se espera deles. Não que esse debate acabe dando frutos na hora da gestão real. Tanto FHC como Lula não se preocuparam em mostrar qualquer coerência entre seus programas de governo e sua forma de gerir o corpo principal da máquina pública, o poder executivo. Leituras rápidas do tipo FHC reduziu o Estado e Lula ampliou o Estado podem não trazer todas as respostas e, talvez, a questão deva nos motivos de cada um.
Desde o início da crise não são poucas as personagens que falam da retomada do processo de crescimento com base nos conceitos supostamente keynesianos de estímulo à demanda agregada por via do aumento das despesas públicas. Alguns economistas sistematicamente viram na crise uma enorme chance de responder à altura ao conservadorismo liberal e declararam um redivivo desenvolvimentismo keynesiano que seria mais conveniente chamar de lulo-desenvolvimentismo já que, na prática mais a haver com os projetos presidenciais do que com as teorias do mestre.
Político extremamente oportunista – no bom e no mau sentido – Lula criou seu próprio conceito de crescimento possível e trabalha nele da mesma forma que trabalha por sua volta em 2014 usando a copa e o pré-sal como alavancas. Com ousadia e persistência.
O Lulo-desenvolvimentismo é basicamente fundado no gasto e em seu uso como instrumento de manutenção de poder. De fato, olhando para o crescimento do PIB no segundo trimestre de 2009 é possível identificar os componentes de despesa pública e de despesa das famílias, essa estimulada pelas ações de governo. Se esse estilo de crescimento é sustentável no longo prazo, quer dizer, se o Estado pode seguir tributando infinitamente ou se as famílias podem seguir consumindo permanentemente sem que haja crescimento efetivo da renda, o futuro mostrará. 
Já é linguagem corrente o discurso contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, não esquecer que o PT votou contra a lei, e contra o conceito de equilíbrio. A necessidade de continuar gastando contra uma situação de queda de ingresso de tributos primeiro construiu a teoria de que o superávit poderia ser menor, agora sustenta a afirmação de que o superávit é um conceito que impede que o Estado cumpra seu papel de resgatar a dívida social. No conceito pesadamente estatizante a formação da dívida pública e sua ampliação é um custo que deve ser pago por todos e todas. Não se discute se há ou não eficiência na aplicação do tributos. Importa é poder gastar. O comportamento da base de governo frente à CSS deixa isso muito claro.
Do lado da lógica de poder quanto maior for o Estado, quanto maiores forem seus poderes, maior será a capacidade manipulatória de seus detentores. Evidentemente a base lê isso como +empregos na máquina pública. Não é casual jogar para o último ano de governo 60 ou 70 mil novos empregos públicos federais.
Uma coisa é certa. A tributação chegou muito perto de seu limite e seu aumento poderá ter efeitos fortemente negativos sobre o crescimento econômico, se não forem eleitorais.
A lógica parece ser evitar tocar o bolso do contribuinte e evitar tributos que devam ser repartidos com outros entre federativos.
Talvez estimulado por opções como a utilizada quando reduziu, por decisão própria, o custo do petróleo nas refinarias, para poder encaixar um aumento de tributos. Talvez estimulado pela proposta do fundo do pré-sal que de forma igual não ataca diretamente o bolso do contribuinte, o governo agora investe sobre a mineração, nosso item mais importante na pauta de exportações e vai procurando brechas tributárias.
Realmente é uma licença para matar, quer dizer, gastar.
Será que os eleitores estarão dispostos a revalidá-la em 2010?
Demetrio Carneiro

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Fundos para o fundo

Matéria publicado no Valor econômico, leia na sequência, hoje, comenta o modelo de fundo de gestão da atividade petrolífera utilizado na Noruega. Tem uma possível ligação com a recente, dia 7, entrevista de Dilma Roussef ao Financial Times. Na entrevista Dilma primeiro assume que o modelo de fundo brasileiro tem relação com o desenho do fundo norueguês, que é o tema da matéria do Valor. Depois, estimulada pelo entrevistador, acaba assumindo que não, que os conceitos são diferentes e que o fundo brasileiro é original e desenhado para as nossas condições específicas. Justifica com argumentos como as reservas da Noruega estarem caindo e as brasileiras inexploradas ou a participação da Petrobras, 30%, ser menor que a participação da estatal norueguesa, 50% etc...Mas a diferença principal estaria na forma de financiamento e no tamanho do que terá que ser financiado. No modelo de Dilma o fundo começa “sem dinheiro” e sua capitalização é fácil porque tem como garantia o estoque existente, barris futuros, e o baixo risco, já que a Petrobras domina a tecnologia de extração em águas ultraprofundas e “conhece” o terreno. Sabe que lá há petróleo em grandes quantidades e de alta qualidade. Reconhecendo que o governo não tem cacife para bancar tudo, assume que terá que haver a participação de outras empresas do ramo, bancos, fundos de investimento etc...De qualquer forma o ponto de partida é baseado na “confiança” do investidor quanto à alta do preço futuro, no patamar atual de preços a exploração não é viável, e à capacidade da Petrobras em garantir o que afirma: que há muito petróleo, apenas em duas áreas fala-se em mínimos de 8 bilhões de barris, e de boa qualidade.

Genericamente existe uma base para questionar a finalidade do uso em "programas sociais". Dilma mesmo fala também em investimentos etc....Na proposta governamental há uma forte conotação ideológica que tem sido o mote desse governo: restituir a dívida social com os mais pobres. Não se faz muito para reverter o problema da concentração de renda na sua origem. Os programas sociais voltados para inclusão social e/ou realocação e/ou capacitação são genéricos e trazem a marca do estilo de gestão atual: produzir pirotecnia para a mídia. O melhor exemplo são os problemas no CODEFAT e o uso dos recursos do FAT em programas de capacitação e realocação. Dilma fala em melhoria da qualidade de ensino, mas, como sempre, fica tudo num âmbito muito abstrato. Faltam coisas como um plano consistente de aplicações dos recursos nas finalidades sociais anunciadas. Estamos falando do quê, mais bolsa-família, aumentar o salário mínimo, gerar oportunidades de emprego, investimentos no quê, educação como? Já que coube ao governo levantar a lebre, preciso que ele acabe de apresentar o resto, mas já deveria ser bem claro que, havendo os fartos recursos anunciados, o Estado deveria fazer o que não sabe fazer: Investir, e investir em sistemas inovatórios que viabilizem sustentabilidade para o país.

No aspecto da gestão do fundo, como está no fim da matéria do Valor, ainda há esclarecer mecanismos de transparência para que não se crie mais uma caixa-preta.

De uma forma ou de outra a galera petista já comemora a “volta” que Dilma teria dado no entrevistador, mostrando segurança e domínio absoluto da matéria. Realmente fé e a política andam de mãos dadas.

Demetrio Carneiro

Exemplo do fundo da Noruega


Fonte:Valor Econômico

por Maria Clara R. M. do Prado

Pouco se sabe sobre as características, a operacionalização e os objetivos do que o governo tem chamado de "Novo Fundo Social", um título de conotação claramente política, que seria constituído com as receitas geradas com a exploração econômica das áreas do pré-sal.

Não há nada de novo na ideia de apartar em uma conta específica o dinheiro da venda de abundantes recursos naturais. Os fundos - comumente conhecidos como soberanos - existem nos países árabes, no Alasca, no Estado de Alberta, no Canadá, e em alguns países africanos (aqui, geralmente vinculados à comercialização de outros minerais, como o ouro).

Mas vem da Noruega o exemplo melhor fundamentado de fundo criado com os recursos da venda de petróleo. Os objetivos são vários. Tem a finalidade de estabilizar a economia, evitando os impactos das altas e baixas dos preços do próprio petróleo. Tem a função de constituir uma reserva para benefício das gerações futuras. Tem o objetivo de aliviar a pressão cambial sobre a tendência de valorização da coroa norueguesa, na tentativa de dirimir os efeitos da "doença holandesa", como ficou conhecido na Holanda o efeito da apreciação cambial de desestímulo ao setor industrial causado pelo aumento da receita com as exportações de gás.

Criado em 1990, o Fundo Governamental de Petróleo teve o nome mudado para Fundo de Pensão - Global do Governo da Noruega em 2006, muito embora não se assemelhe a um fundo de pensão.

A primeira transferência de recursos ocorreu em 1996, com o aporte do equivalente a US$ 400 milhões. Hoje, o fundo da Noruega tem em reserva cerca de US$ 500 bilhões, com a expectativa de dobrar de valor nos próximos dez anos. A soma de recursos é muito expressiva para o tamanho da economia norueguesa e poderia facilmente desarranjar a alocação de recursos com graves estragos.

A estrutura do fundo foi, portanto, imaginada para que a renda do petróleo não se transformasse em uma maldição para o país, com todos os cuidados de transparência e governança com que deve ser tratada a coisa pública. Para evitar transtornos no mercado financeiro doméstico, os recursos do fundo da Noruega são aplicados exclusivamente em ativos no exterior e apenas o retorno dessas aplicações é absorvido pela economia doméstica, sob a forma de transferências para complementar o orçamento público.

O fundo está sob a responsabilidade do Ministério da Fazenda, que define os mandatos dos administradores, monitora o funcionamento e avalia o desempenho dos investimentos. Mas o gerenciamento é do Banco da Noruega desde 1996, com o entendimento de que o Banco Central do país tinha a expertise da aplicação dos recursos, acumulada nos anos de administração das reservas internacionais do país.

O ponto importante é que o fundo norueguês foi montado de modo a estar casado com o orçamento do governo, sendo guiado pelas mesmas prioridades de gastos impostas às contas públicas. Funciona assim: a totalidade dos recursos originária das receitas com o petróleo é transferida para o fundo e apenas um montante de recursos correspondente ao valor do déficit do orçamento ordinário, sem considerar o petróleo, é repassada do fundo para o orçamento fiscal. Ou seja, os recursos do fundo são usados apenas para cobrir o déficit público, guardadas as devidas prioridades de gastos definidas pelo governo, de modo a que a acumulação de capital no fundo seja igual à poupança líquida financeira do governo. O mecanismo evita a expansão de passivos públicos.

Mas as transferências do fundo para o orçamento não ocorrem sem limites. Seria muito fácil e absolutamente inapropriado, além de inconcebível, se os recursos do fundo fossem usados para a cobertura indiscriminada dos déficits orçamentários. Não haveria recursos suficientes para tapar os buracos das orgias dos gastadores, principalmente quando se imagina tal mecanismo funcionando em países onde as despesas públicas, muitas de interesse privado, se multiplicam sem controle, como é infelizmente o caso do Brasil.

Os noruegueses, preocupados em evitar catástrofes fiscais, estipularam que a transferência de recursos do fundo para o orçamento fiscal deve corresponder a um esperado retorno real do fundo, fixado em 4% ao ano, imaginado como uma média anual em cenário de longo prazo. A flexibilidade, para mais ou para menos, permite que o fundo tenha função fiscal anticíclica. Quando a economia opera a plena capacidade, o uso de recursos do fundo pode ser inferior a 4% ao ano e vice-versa, podendo as transferências superar os 4% em caso de retração econômica.

O saldo do fundo mantém-se aplicado no exterior, acumulando divisas para atender às necessidades das gerações futuras, uma vez que o petróleo, como se sabe, é uma fonte esgotável de recursos. Além disso, a legislação proíbe que os seus recursos sejam usados para propósitos não definidos no orçamento.

O fundo soberano da Noruega é gerenciado por uma estrutura conhecida por NBIM (Norges Bank Investment Management) - Administração de Investimentos do Banco da Noruega). Trata-se de entidade criada dentro do Banco Central que também administra as reservas internacionais do país e o fundo de seguros do petróleo do governo. Com escritórios em Oslo, Nova York, Londres e Xangai, tem como alvo maximizar o retorno das aplicações com o mínimo de risco possível.

O portfólio do fundo norueguês é formado: 60% de ativos em renda variável - dos quais 35% estão aplicados em ativos no continente americano (pouco mais de 1% no Brasil), 50% na Europa e 15% na Ásia e Oceania - e 40% em renda fixa - sendo 35% em ativos no continente americano e na África, 60% na Europa e 5% na Ásia e Oceania. O Ministério da Fazenda vai destinar 5% do fundo para aplicações no mercado imobiliário. Tudo no exterior.

O presidente Lula e seu governo têm seguidamente indicado que pretendem seguir o modelo do fundo da Noruega como padrão para o fundo brasileiro do pré-sal. Esperemos que sim, destacando a importância da transparência e da prestação de contas para a sociedade, em bases regulares. Quem sabe não se daria assim início a uma significativa mudança na forma de tratar a coisa pública no país?

*Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro "A Real História do Real". Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras. E-mail: mclaraprado@ig.com.br*